Por Manoel Costa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

A Copa de 2002 foi a única época da minha vida em que acordar às três da manhã era considerado um hábito saudável. Em qualquer outra situação, se uma criança de sete anos acordasse nesse horário, iria gerar algum tipo de preocupação familiar. Os adultos investigariam as causas, procurariam soluções, cogitariam uma consulta médica e, dependendo do grau de desespero, talvez até chamassem um padre. Mas durante aquele mês, ninguém parecia enxergar problema algum. Se o Brasil jogasse às três e meia da manhã, acordar às três era apenas uma demonstração de compromisso cívico.

Os jogos aconteciam na Coreia do Sul e no Japão, mas quem realmente sofreu com o fuso horário foi o brasileiro. Durante semanas, milhões de pessoas reorganizaram suas vidas em torno de partidas disputadas do outro lado do mundo. Trabalhadores, estudantes, aposentados e crianças aceitaram coletivamente trocar horas de sono por futebol. Nenhum cientista jamais estudou esse fenômeno. O único Fenômeno que recebeu atenção naquele período foi outro, e ele terminou a competição com oito gols e um corte de cabelo que até hoje desafia qualquer explicação racional.

Eu morava com minha mãe e meu irmão ao lado do bar do meu pai. Ou melhor, ao lado do Bar do Zé, como todo mundo conhecia o lugar. Isso criou uma situação curiosa durante a Copa. Enquanto nós assistíamos aos jogos pela televisão na sala de casa, meu pai acompanhava as partidas trabalhando atrás do balcão. A distância entre as duas transmissões era de poucos metros. A nossa tinha Galvão Bueno. A dele tinha os simpáticos bêbados do boteco.

Durante um mês inteiro convivemos com duas versões paralelas da mesma Copa do Mundo. Em alguns momentos os bebuns comemoravam antes da televisão. Em outros, a televisão chegava primeiro. Eu assistia ao jogo na sala, mas bastava prestar atenção para ouvir, através da parede, comentários, gritos, análises táticas irresponsáveis e previsões sem qualquer fundamento tático. O curioso é que boa parte dessas previsões tinha exatamente o mesmo nível de precisão das análises feitas pelos ditos comentaristas profissionais.

Mas a figura mais marcante daquela Copa não era meu pai. Era meu vô Raimundo.

Meu vô já era aposentado, morava sozinho e usava bengala. A Copa de 2002 produziu nele uma transformação que ninguém consideraria possível. Durante algumas semanas, ele desenvolveu poderosos hábitos noturnos. Nos dias de jogo do Brasil, saía de sua casa ainda de madrugada e caminhava até a nossa para assistir às partidas com a família. Hoje percebo que aquilo o colocava numa categoria bastante específica da população: padeiros, vigias, farristas ou até mesmo ladrões. Durante a Copa, meu avô passou a integrar essa elite da madrugada.

A cada jogo eu tinha menos certeza sobre o desempenho da Seleção e mais certeza sobre uma coisa: em algum momento ouviria a bengala batendo no portão. O Felipão podia mudar a escalação, o Ronaldo podia sentir o joelho, o Ronaldinho podia ser expulso, o Roberto Carlos podia se abaixar pra arrumar a meia — opa, errei de Copa —, mas o Seu Raimundo apareceria.

Lembro especialmente da partida contra a Costa Rica, disputada às três e meia da manhã. Em dias normais, a cidade inteira deveria estar dormindo. Eu estava acordado. Minha família estava acordada. E então veio aquele som inconfundível da bengala batendo no portão. Era praticamente o protocolo oficial de abertura da partida. Meu avô chegava, se acomodava na sala e o Brasil podia entrar em campo.

Daquele jogo guardo principalmente o gol de bicicleta do Edmílson. Eu tinha sete anos e, como toda criança de sete anos, avaliava a qualidade de um jogador por critérios estritamente científicos. Entre eles estava a capacidade de desafiar a gravidade. Durante muito tempo considerei aquele gol a maior realização técnica da história do futebol. Continuo achando difícil alguém me convencer do contrário.

Também lembro dos “Quatro R’s”. A Globo fazia reportagens mostrando torcedores japoneses falando sobre Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos. Mas não era uma simples lista de jogadores. Eles pronunciavam aqueles nomes como quem revela uma antiga profecia. Os “Quatro R’s” pareciam algo entre uma fórmula secreta e um sinal sobrenatural de que o Brasil estava destinado ao pentacampeonato. Eu tinha sete anos e achei aquilo completamente plausível. Para ser sincero, uma parte de mim ainda acha.

O jogo contra a Inglaterra foi provavelmente a primeira vez que senti que uma Copa do Mundo também podia dar errado. Até aquele momento eu tinha a impressão de que o Brasil venceria qualquer adversário por mera obrigação histórica. Michael Owen tratou de apresentar uma visão diferente do assunto. O gol inglês produziu um silêncio raro. Não um silêncio completo, porque brasileiro não consegue permanecer quieto nem em velório, mas um silêncio suficiente para perceber que a coisa tinha ficado complicada.

Depois veio o empate de Rivaldo e, mais tarde, Ronaldinho Gaúcho resolveu criar uma das discussões mais duradouras da história do futebol brasileiro. Até hoje existe gente debatendo se aquilo foi cruzamento ou chute. Eu não tenho elementos para encerrar a controvérsia. Minha única contribuição para o debate é a seguinte: se a bola entrou, foi chute. Se tivesse saído pela linha de fundo, teria sido cruzamento. Considero esse critério tão sólido quanto a terra ser redonda — embora reconheça que exista uma parcela da população que discorde.

A semifinal contra a Turquia foi um sofrimento. O placar de 1 a 0 não transmite adequadamente a experiência de assistir àquele jogo. Durante noventa minutos, o Brasil pareceu negociar diretamente com o destino. Minha família sofria na sala. Os bêbados sofriam no bar. E imagino que milhões de brasileiros sofriam em lugares parecidos. Quando o Ronaldo marcou, a sensação predominante não foi alegria, foi alívio. O país inteiro voltou a respirar ao mesmo tempo.

A final aconteceu em 30 de junho de 2002, meu aniversário. Passei praticamente toda a Copa com sete anos, quando o Brasil entrou em campo contra a Alemanha, eu tinha acabado de completar oito. Durante muito tempo considerei coincidência o fato de o pentacampeonato ter acontecido exatamente naquele dia. Hoje não tenho tanta certeza.

Os fatos são difíceis de ignorar.

O Brasil não ganhou a Copa enquanto eu tinha sete anos. Eu completei oito e poucas horas depois, Ronaldo marcou dois gols na Alemanha. Nunca vi ninguém apresentar uma explicação mais convincente para o pentacampeonato.

O curioso é que, passados tantos anos, lembro muito menos da campanha do que deveria. Não lembro da maioria dos jogos. Não lembro das escalações completas. Não lembro de vários gols. Mas lembro perfeitamente da bengala do Seu Raimundo batendo no portão de madrugada. Lembro dos gritos atravessando a parede do boteco do meu pai. Lembro dos “Quatro R’s” sendo tratados como uma espécie de segredo místico do futebol. Lembro do gol de bicicleta do Edmílson e da falta do Ronaldinho contra a Inglaterra.

E lembro que, no dia em que completei oito anos, Ronaldo Fenômeno resolveu me dar um presente bastante modesto. Apenas uma Copa do Mundo. Reconheço que foi um gesto elegante da parte dele.