Por Artur Vieira

A rua é o lugar da disputa de narrativas, e a fé, quando aliada à luta por direitos, transforma-se em um poderoso instrumento de resistência. Nesta manhã, o Largo do Arouche, no coração de São Paulo, foi palco de uma celebração política e espiritual profunda: o 5º Ato Inter-religioso LGBT+. Em tempos em que o avanço do fundamentalismo religioso tenta sequestrar o debate público e ameaça os direitos humanos, o encontro mostrou que a espiritualidade não é monopólio da exclusão. Pelo contrário, é força motriz para a construção de um Estado verdadeiramente laico e plural.

O ato, que reuniu representantes de diversas tradições de fé, teve como objetivo central promover o diálogo entre as religiões e a comunidade LGBTQIAPN+, buscando avanços no respeito mútuo e o fim absoluto da opressão religiosa. Sob o lema “Toda a diversidade é sagrada: votamos pela democracia, contra o fundamentalismo”, disse Lívia Carvalho, representante do Mulheres EIG; a mobilização ecoou pelas ruas como um chamado inadiável para a proteção da vida e da dignidade humana.

Foto: Artur Vieira
Foto: Thayô Amaral

A potência do encontro se materializou na multiplicidade de vozes presentes. Lideranças do budismo, do judaísmo, do espiritismo e das religiões de matriz africana dividiram o espaço com representantes do meio adventista, evangélico e católico. É urgente destacar a presença de coletivos que atuam na linha de frente dessa trincheira. As Mães pela Diversidade, a Diversidade Católica Ipiranga e as Mulheres EIG (Evangélicas pela Igualdade de Gênero) — que combatem incansavelmente a chamada “ideologia de gênero”, um fantasma criado para legitimar a violência — demonstraram que o acolhimento dentro e fora dos templos é um ato de amor e de coragem política.

O uso da religião como máquina de moer existências representa uma ameaça direta não apenas à comunidade LGBTQIAPN+, mas à própria essência da liberdade religiosa. Como bem ressaltou Ícaro Matias, integrante budista do Rainbow Sangha Brasil, durante a mobilização: “Fé que exclui não é fé, é poder”. E é contra esse poder opressor que as vozes no Largo do Arouche se ergueram. A presença conjunta de católicos pela diversidade, judeus, espíritas e evangélicos progressistas é a prova viva de que a democracia só floresce onde a pluralidade é garantida.

Em um ano decisivo para o país, o 5º Ato Inter-religioso LGBT+ não é apenas uma celebração da fé plural; é um manifesto político. É a reafirmação de que não recuaremos diante daqueles que utilizam o púlpito para disseminar ódio. A aliança entre espiritualidade e ativismo, construída por organizações históricas e novas frentes de luta, fortalece a certeza de que nossas causas são nossas pautas. A diversidade é sagrada, e a nossa existência, inegociável. Seguimos em marcha, porque a rua é nossa e o sagrado também.

Texto produzido em cobertura colaborativa da Maratona FODA 2026