Por Aline Brito

Pela primeira vez desde 1930, quatro seleções estreantes disputarão a mesma edição da Copa do Mundo. Jordânia, Uzbequistão, Cabo Verde e Curaçao garantiram vaga no Mundial de 2026, que será sediado por Estados Unidos, México e Canadá. A ampliação promovida pela Fifa, que aumentou o número de participantes para 48 equipes, abriu espaço para que países sem tradição no torneio realizassem o sonho da classificação.

A Copa do Mundo de 2026 será a maior da história, reunindo 48 seleções e um total de 104 partidas. O novo formato beneficiou especialmente confederações como a AFC (Ásia), a CAF (África) e a CONCACAF (América do Norte, Central e Caribe), que passaram a contar com mais vagas. Foi justamente por meio dessa expansão que Jordânia, Uzbequistão, Cabo Verde e Curaçao conquistaram, pela primeira vez, um lugar no principal torneio do futebol mundial.

Foto: Divulgação/Adidas

Jordânia: 40 anos de espera

Capital: Amã | Idioma: árabe

A Jordânia buscava uma vaga na Copa do Mundo desde as Eliminatórias para o Mundial de 1986. A maior frustração da seleção aconteceu em 2014, quando foi derrotada pelo Uruguai na repescagem e viu o sonho da classificação escapar.

Desta vez, porém, a história teve um desfecho diferente. A equipe iniciou sua campanha nas Eliminatórias Asiáticas de forma irregular, com um empate diante do Tadjiquistão e uma derrota para a Arábia Saudita. A reação veio em seguida: foram quatro vitórias consecutivas, incluindo uma goleada por 7 a 0 sobre o Paquistão e um triunfo fora de casa contra os sauditas. A classificação foi confirmada com uma vitória por 3 a 0 sobre Omã.

O grande destaque da campanha foi Ali Olwan. Com nove gols marcados, o atacante terminou as eliminatórias como artilheiro da seleção e foi peça fundamental na conquista da inédita vaga jordaniana para a Copa do Mundo.

Foto: Divulgação/Jordan Football Association

Uzbequistão: a jornada da redenção

Capital: Tashkent | Idioma: uzbeque

O futebol é o esporte mais popular do Uzbequistão. Há anos, o país coleciona bons resultados nas categorias de base, incluindo o título da Copa da Ásia Sub-23 e participações frequentes em Mundiais de base. Apesar desse histórico promissor, a seleção principal jamais havia conseguido se classificar para uma Copa do Mundo.

A inédita vaga para o Mundial de 2026 representa a concretização de um projeto construído ao longo de décadas e simboliza a chegada da geração uzbeque ao principal palco do futebol internacional.

A grande figura dessa conquista é o técnico Timur Kapadze. Como jogador, ele viveu a frustração de não conseguir levar o país à Copa do Mundo durante suas participações nas Eliminatórias. Anos depois, já à frente da seleção como treinador, escreveu um capítulo histórico ao comandar o Uzbequistão rumo à sua primeira classificação para um Mundial.

A trajetória de Kapadze transformou-se em um símbolo de perseverança para o futebol uzbeque: depois de experimentar o fracasso dentro de campo, ele retornou para conduzir seu país à maior conquista de sua história no esporte.

Foto:Divulgação/AFC

Cabo Verde: os Tubarões Azuis

Capital: Praia | Idioma: português

Com pouco mais de meio milhão de habitantes espalhados por dez ilhas no Oceano Atlântico, Cabo Verde alcançou um feito histórico ao garantir sua primeira participação em uma Copa do Mundo. Em 2026, a seleção cabo-verdiana estará pela primeira vez entre as equipes que disputarão o principal torneio do futebol mundial.

Conhecida como “Tubarões Azuis”, a equipe construiu sua trajetória de sucesso apoiada em três pilares fundamentais: atletas nascidos na Europa, mas com raízes cabo-verdianas; uma organização tática sólida; e um sistema defensivo consistente, capaz de competir em alto nível nas Eliminatórias Africanas.

A classificação representa um marco não apenas para o esporte nacional, mas também para a história do futebol lusófono. Cabo Verde será o primeiro país africano de língua portuguesa a disputar uma Copa do Mundo, ampliando a presença da comunidade lusófona no maior evento esportivo do planeta.

Para um país de dimensões modestas, a vaga simboliza a força de um projeto que soube unir identidade, planejamento e talento para transformar um sonho histórico em realidade.

Foto: Divulgação/Federação Cabo-Verdiana de Futebol

Curaçao: o projeto caribenho

Capital: Willemstad | Idiomas: papiamento, holandês e inglês

A classificação de Curaçao para a Copa do Mundo de 2026 é resultado de um projeto de longo prazo. Após a dissolução das Antilhas Holandesas, em 2010, o território iniciou um processo de reestruturação completa de seu futebol, investindo na organização da federação, no desenvolvimento das categorias de base e na integração de atletas nascidos na Holanda com ascendência caribenha.

Ao longo dos últimos anos, a seleção transformou-se em uma das forças emergentes da CONCACAF. A combinação entre planejamento institucional e aproveitamento da diáspora curacense permitiu que o país elevasse seu nível competitivo e passasse a disputar espaço entre as principais equipes da região.

A ampliação da Copa do Mundo para 48 seleções foi um fator importante nesse processo, ao aumentar o número de vagas destinadas à CONCACAF e ampliar as oportunidades para seleções em ascensão. Ainda assim, a classificação precisou ser conquistada dentro de campo.

O momento histórico aconteceu diante da torcida, em Willemstad. Com um gol marcado nos acréscimos, Curaçao garantiu sua primeira participação em uma Copa do Mundo e coroou um projeto que, em pouco mais de uma década, transformou uma seleção recém-reestruturada em representante do Caribe no maior palco do futebol mundial.

Foto: Reprodução/ @thebluewaveffk

Expansão divide opiniões, mas realiza sonhos

A decisão da Fifa de ampliar a Copa do Mundo de 32 para 48 seleções gera debates no universo do futebol. Críticos do novo formato argumentam que o aumento no número de participantes pode reduzir o nível técnico médio da competição. Por outro lado, a expansão abre espaço para que países que historicamente estiveram distantes do torneio possam viver, pela primeira vez, a experiência de disputar um Mundial.

A distribuição das vagas para a Copa de 2026 ficou definida da seguinte forma:

  • UEFA (Europa): 16 vagas
  • CAF (África): 9 vagas
  • AFC (Ásia): 8 vagas
  • CONMEBOL (América do Sul): 6 vagas
  • CONCACAF (América do Norte, Central e Caribe): 6 vagas
  • OFC (Oceania): 1 vaga
  • Repescagem Intercontinental: 2 vagas

Foi justamente essa ampliação que permitiu a classificação de seleções estreantes como Cabo Verde, Jordânia, Uzbequistão e Curaçao. Cabo Verde garantiu sua vaga pela África; Jordânia e Uzbequistão conquistaram seus lugares pelas Eliminatórias Asiáticas; e Curaçao aproveitou o aumento de vagas destinado à CONCACAF para alcançar um feito inédito.

O que esperar dos estreantes em 2026?

Embora os especialistas não apontem nenhuma das quatro seleções entre as favoritas ao título, todas chegam ao torneio carregando histórias de crescimento e características capazes de tornar seus jogos competitivos.

Cabo Verde chama atenção pela organização defensiva e pela capacidade de competir de igual para igual em partidas mais equilibradas. O Uzbequistão chega respaldado por anos de desenvolvimento nas categorias de base e por uma geração acostumada a disputar torneios internacionais. A Jordânia desembarca no Mundial impulsionada pela campanha de recuperação nas Eliminatórias e pelo destaque ofensivo de Ali Olwan. Já Curaçao aparece como uma incógnita interessante, sustentada por um projeto recente de fortalecimento do futebol local e pela integração de jogadores com experiência no futebol europeu.

Independentemente dos resultados dentro de campo, a simples presença dessas seleções já representa uma conquista histórica. A Copa do Mundo de 2026 marcará a estreia de quatro países que, até pouco tempo atrás, pareciam distantes do principal palco do futebol internacional.

Quando Estados Unidos, México e Canadá receberem o mundo em 2026, o torneio será maior não apenas em número de jogos ou participantes. Será maior também em diversidade, histórias e representatividade. Entre as bandeiras que estarão nos estádios, haverá quatro que nunca estiveram ali antes — e milhões de torcedores que, pela primeira vez, poderão dizer com orgulho: “Estamos na Copa.”