Por Kaio Phelipe

Em Babado forte: 35 anos de cultura jovem no Brasil (Ubu Editora), Erika Palomino, jornalista e curadora que manteve por quase duas décadas a coluna “Noite Ilustrada”, na Folha de S.Paulo, desenvolve uma vasta pesquisa sobre a vida noturna urbana e as transformações da cultura jovem no país. Lançado originalmente em 1999 e, por muito tempo, esgotado, o livro tinha, em sua primeira edição, como foco a cena do eixo RJ-SP. Já na edição revista e ampliada, publicada em 2024, a autora expandiu a cartografia do estudo e incluiu capitais como São Luís, Belém, Recife e Salvador.

Já em Bate-estaca: como DJs, drag queens e clubbers salvaram a noite de São Paulo (Veneta), também publicado em 2024, Camilo Rocha, DJ e jornalista especializado em música, reconstrói a trajetória dos beats eletrônicos e da cultura clubber na capital paulista. O livro acompanha a formação da cena noturna desde a década de 1980 — período marcado pela redemocratização do Brasil — até os primórdios deste século, com a explosão dos festivais.

As duas obras se encontram na maneira como enxergam a noite como espaço de encontro, experimentação estética, disputa política e revolução. Clubbers, DJs, drag queens, performers e jovens frequentadores aparecem como protagonistas de uma ruptura conceitual que ultrapassou as pistas de dança, alcançando o cotidiano e influenciando a moda, a música, a fotografia, o comportamento, o consumo da arte, as formas contemporâneas de autoexpressão e a maneira como queremos ser apresentados ao mundo.

A noite, frequentemente associada ao perigo e à ameaça, surge no trabalho de Erika e Camilo como território de invenção e liberdade. É durante a madrugada que corpos dissidentes, muitas vezes encarados como marginais, encontram espaço para existir, enquanto comunidades LGBTQIA+, feministas, negras e periféricas experimentam novos códigos de comportamento e reorganizam o imaginário urbano. Bailes funk, aparelhagens, raves clandestinas, cultura ballroom e festas underground aparecem como manifestações capazes de transformar não apenas o entretenimento, mas também a geografia cultural e as relações entre centro e periferia.

Assim, Erika Palomino e Camilo Rocha transformam Babado forte e Bate-estaca em registros de memória e conexão entre passado e presente. Ao politizarem a noite e destacarem personagens e espaços que revolucionaram as cidades enquanto a maioria dormia, os autores revelam como a diversão nunca esteve dissociada da realidade social nem das disputas culturais de seu tempo, o que também faz de seus livros manifestos contra a caretice.

Na noite lésbica: o levante do Ferro’s Bar (Autêntica, 2026), de autoria da historiadora e escritora Julia Kumpera, é mais uma obra que aborda mudanças de paradigmas a partir do viés noturno e da cidade de São Paulo. O livro inaugura a coleção Nossas Histórias, coordenada por Renan Quinalha e voltada ao resgate de marcos da resistência LGBTQIA+.

O Levante do Ferro’s Bar, ocorrido em 19 de agosto de 1983, durante a ditadura militar, no bairro da Bela Vista, é considerado o “Stonewall brasileiro” e deu origem ao Dia do Orgulho Lésbico no país. O episódio aconteceu entre a chamada Boca do Luxo, área nobre e de alto poder aquisitivo, e a Boca do Lixo, território historicamente ligado à prostituição e à precariedade.

A hostilidade contra as frequentadoras cresceu gradualmente até atingir seu ápice, quando elas foram impedidas de vender o zine Chanacomchana, boletim que retratava a cultura lésbica da época. A reação organizada ao episódio transformou o espaço em símbolo da resistência lésbica e da luta pelo direito de ocupar a cidade.

Julia Kumpera revisita um marco histórico fundamental da comunidade brasileira, e Na noite lésbica já nasce como uma das publicações mais importantes sobre a comunidade LGBTQIA+. Além de recuperar a memória de várias gerações de mulheres, o livro também resgata a importância de Rosely Roth, uma das figuras centrais do ativismo no país.