A literatura como registro e resistência: Roberto Muniz Dias fala sobre escrita e memória LGBTQIA+
Entre trauma, literatura queer e memória LGBTQIA+, a escrita resiste ao apagamento social
Por Kaio Phelipe
Roberto Muniz Dias construiu uma trajetória marcada pela defesa da memória e das existências LGBTQIA+ no Brasil. Um dos autores mais atuantes na reflexão sobre diversidade, escreveu obras como Adeus a Aleto, A teia de Germano, Letramento literário e diversidade: por que um letramento literário queer?, o livro infantil A baleia que engolia sonhos e o romance Amolando o fio da alma.
Em entrevista para a Mídia Ninja, Roberto revisita os primeiros contatos com a escrita ainda na adolescência e relembra a descoberta de autores como Caio Fernando Abreu, cuja obra foi fundamental para que reconhecesse, pela primeira vez, possibilidades de identificação dentro da literatura. Ao longo da conversa, o autor reflete sobre a importância das representações LGBTQIA+, o impacto da epidemia de aids em sua geração e a necessidade contínua de disputar espaços de visibilidade e circulação no campo literário.
Roberto aborda ainda sua atuação na Editora Escândalo, uma das iniciativas mais importantes da publicação independente de literatura LGBTQIA+ no país nos anos 2010, e fala sobre os desafios de manter uma editora independente e a dimensão afetiva e política envolvida na publicação de obras dissidentes.
Ao comentar seu romance mais recente, Amolando o fio da alma, ele aprofunda discussões sobre filosofia, infância, trauma, masculinidade, religiosidade e violência estrutural.

Quando começou a escrever?
A escrita veio muito cedo. Inclusive, estou agora na casa da minha mãe, em Teresina, onde boa parte dessas primeiras escritas aconteceu. Tenho guardados aqui os originais de quase tudo o que produzi no começo. Sempre que volto para cá, principalmente nas férias, acabo retomando esse lugar de criação. Muitas das ideias iniciais dos meus trabalhos nasceram aqui.
Tudo começou com a poesia. Tenho até hoje os cadernos antigos, cheios de textos escritos nos anos 1990, talvez desde 1992 ou 1996. São poemas e pequenos experimentos. E existe um detalhe curioso, que depois acabou aparecendo também em Adeus a Aleto. Muitos desses textos escrevi em inglês. Em Adeus a Aleto, há um momento em que a personagem escreve porque precisa de companhia, e a escrita funciona quase como um amigo imaginário. Era exatamente assim para mim.
Na época, eu estudava inglês e usava a língua também como artifício de proteção. Era uma maneira de falar comigo mesmo sem que os outros entendessem. Claro que eram textos muito incipientes. Eu aprendia inglês, no começo, de forma muito autodidata, ouvindo a BBC de Londres, tentando ampliar vocabulário, explorando a língua. E esses exercícios acabaram contribuindo tanto para minha escrita quanto para meu próprio aprendizado do idioma.
Escrever era uma válvula de escape. Eu devia ter uns 13 ou 14 anos quando começaram as insinuações e investidas de garotos mais velhos em relação a mim. Eu era um menino muito ativo na rua, brincava muito. Só que, em determinado momento, perceberam em mim alguma diferença, essa fissura na masculinidade esperada. E, de certa forma, foram eles que me tiraram do armário antes mesmo que eu entendesse completamente aquilo.
A partir daí, tudo mudou. Passei a sofrer assédio — e essa é realmente a palavra correta. Fiquei com medo, comecei a me recolher mais, e foi nesse movimento que a literatura entrou de maneira decisiva na minha vida. Desde o início, a escrita foi uma forma de sobreviver emocionalmente e de elaborar essas experiências.
Como foi seu primeiro contato com uma literatura queer?
Nossa, eu nunca tinha pensado nisso. É o tipo de pergunta sobre a qual eu precisaria elaborar mais, refletir com calma. Mas, tentando voltar a esse momento, percebo que minhas primeiras leituras relacionadas à questão LGBTQIA+ nem eram ficção.
De alguma forma, meu pai tinha descoberto — não sei como — sobre minha sexualidade. No começo, ele não sabia o que fazer. Mas meu pai também é um homem da leitura, então ele se cercou disso. Lembro de encontrar alguns desses livros escondidos e até encapados, para que ninguém visse. Um dos títulos era Agora que você já sabe, da Betty Fairchild. Então, as primeiras publicações que conheci foram científicas.
Agora, pensando em uma literatura autenticamente queer, acho que Caio Fernando Abreu foi um dos primeiros autores que conheci.
O contato com a obra do Caio também coincidiu com o momento em que ele tornou público seu quadro de aids. Isso teve um impacto enorme sobre mim, porque a aids era uma presença constante e perseguidora para toda uma geração LGBTQIA+.
Ler Caio Fernando Abreu era também tentar encontrar identificação dentro desse cenário atravessado pelo medo. Acho que essa é uma das grandes questões para pessoas LGBTQIA+ na literatura: a busca por representações positivas das nossas existências. Num primeiro momento, essa identificação vinha acompanhada de angústia, porque havia também a imagem de um homem morrendo.
Na mesma época, eu ouvia muito Renato Russo e Legião Urbana, então havia toda uma sensibilidade daquele período. Mas, na literatura, foi o Caio quem produziu essa identificação. Ele assumia publicamente ser gay, embora eu ache que não gostasse muito do rótulo “literatura gay”. Naquele momento, talvez essa perspectiva ainda nem estivesse colocada da forma como pensamos hoje.
Como foi o seu primeiro contato com o mercado editorial?
Tudo começou com o livro Adeus a Aleto, que acabou se cruzando também com a história da Editora Escândalo. Mas, naquele primeiro momento, o livro surgiu de forma totalmente independente. Foi a Gisele Jacques quem identificou o potencial do original e se interessou pela publicação.
Lembro agora que fui um dos primeiros autores a utilizar uma plataforma de autopublicação chamada Clube de Autores. A plataforma facilitava bastante o processo. Você enviava o original revisado, criava a capa, diagramava o miolo, e eles imprimiam o livro sob demanda. Tudo ainda era muito artesanal naquele começo, tanto para os autores quanto para a própria plataforma.
Hoje, o Clube de Autores já é reconhecido justamente por apoiar escritores independentes, mas, naquele período, tudo ainda parecia muito experimental. Mesmo assim, era uma ferramenta importante porque oferecia também algum alcance de divulgação e distribuição. Na época, os livros chegavam a algumas plataformas de venda. Hoje, acho que até a Amazon trabalha com eles.
Foi nesse contexto que Gisele Jacques entrou em contato comigo. Ela havia lido o original de Adeus a Aleto dentro da própria plataforma. Naquele momento, ela queria criar uma linha editorial voltada para literatura LGBTQIA+ e buscava autores para o projeto. Depois de cerca de um mês de conversa, ela teve um problema com o sócio. Foi aí que surgiu a ideia de eu me juntar a ela como parceiro.
Adeus a Aleto teve primeiro essa publicação independente, por volta de 2009, e depois ganhou uma nova edição pela Editora Escândalo, entre 2011 e 2012.

Chegou a trabalhar na Editora Escândalo, então?
Eu virei sócio da Editora Escândalo, e isso ocupa um lugar muito importante na minha trajetória. Acho que é um dos pedaços mais significativos da minha biografia. Promover literatura LGBTQIA+ era algo muito especial para nós. Nunca tivemos a pretensão de sermos pioneiros, embora algumas reportagens tenham atribuído isso à editora. Eu mesmo pesquisei editoras LGBTQIA+ no meu mestrado e descobri muitas iniciativas anteriores à Escândalo. Ainda assim, a editora teve um papel muito interessante dentro dessa história.
Na prática, eu acabava sendo uma espécie de “garoto-propaganda” da editora, porque viajava para eventos e participava mais diretamente da circulação pública dos livros. A Escândalo me deu esse espaço, me apresentava como editor, e eu e a Gisele Jacques fazíamos juntos a curadoria dos títulos. O trabalho mais pesado, porém, era dela. Eu também participava dessa garimpagem de textos e discutíamos as publicações em conjunto. Muitos nomes importantes passaram por ali. O Ítalo Damasceno, por exemplo, hoje escritor e roteirista, publicou com a gente.
O próprio Alexandre Willer Melo, que se tornou um amigo muito próximo, eu conheci através da Escândalo. Também organizávamos eventos. Fizemos, em São Paulo, duas edições da festa “Escandaliza”, que reunia debates e lançamentos. Costumávamos nos reunir em um hostel de um amigo do Alexandre e muita gente ia. Era um ambiente muito vivo.
Ao mesmo tempo, havia o lado difícil de manter uma editora independente. Por isso admiro tanto quem segue nessa luta. É um trabalho imenso, que quase nunca recebe o reconhecimento merecido. E não falo apenas de dinheiro, mas de visibilidade, circulação, publicação, premiações. Eu e a Gisele passamos por momentos muito difíceis. Muitas vezes investíamos dinheiro do próprio bolso e, quando havia algum retorno, era para financiar o próximo livro. Era uma realidade muito dura. Por isso, tenho tanta admiração por editoras independentes e por pessoas que seguem insistindo nesse trabalho, como Malu Vieira e Léa Carvalho, da Editora Metanoia, e Sabine Mendes Moura, da Editora Nua.
Apesar das dificuldades, existe algo muito bonito nisso tudo. Eu me sentia especial por poder fazer curadoria, ler originais e depois ver aqueles livros impressos, ganhando o mundo. Publicamos muitos autores e também organizamos coletâneas, como Homossilábicas. Chegamos a lançar duas ou três edições. Abríamos chamadas para selecionar contos, fazíamos a curadoria e depois anunciávamos os textos escolhidos. Foi um período muito importante da minha vida.
Fazer literatura LGBTQIA+ também é uma forma de ativismo?
Eu já tive discussões muito acaloradas com pessoas da própria comunidade LGBTQIA+ sobre isso. E, sinceramente, ainda acho que essa é uma questão necessária. Basta olhar para o momento que estamos vivendo, tanto no plano ideológico quanto no material. No embate concreto, físico mesmo. Eu estava pensando nisso agora há pouco. Se não mantivermos uma posição firme diante dessas questões, corremos o risco de sermos aniquilados. Literalmente.
Por isso, acredito que a militância ainda é necessária. Já ouvi colegas dizendo que não há mais necessidade de militar, mas eu discordo. Enquanto houver violência e tentativa de silenciamento, a militância continua sendo indispensável. E a literatura faz parte disso.
Toda literatura é política, toda literatura carrega uma ideologia. Quando pensamos especificamente na literatura LGBTQIA+, ela também assume um papel didático e pedagógico.
Meu doutorado, por exemplo, foi sobre letramento queer. E, quando penso nessa prática dentro da sala de aula, vejo algo muito simples e, ao mesmo tempo, muito poderoso: colocar em circulação livros com personagens diversos, com diferentes formas de existência, orientação sexual e identidade. Trata-se de criar possibilidades de diálogo com a diferença. É aí que a literatura atua na transformação de paradigmas, ao incluir obras que abordem essas experiências e ampliem o repertório dos leitores.
Mas esse processo ainda é muito delicado no Brasil. Diferentemente da Argentina, por exemplo, nós não temos uma política consolidada de educação sexual nas escolas. Então, o que acaba restando muitas vezes é a literatura como espaço de conscientização. É por meio dela que conseguimos apresentar ao público a existência dessas corporalidades dissidentes e dessas múltiplas formas de existir. E, se necessário, isso também se torna um ato político.
Muitas vezes se questiona se ainda faz sentido existir uma “prateleira LGBTQIA+” nas livrarias. Mas, diante do avanço de uma onda ultraconservadora, talvez essa separação continue sendo necessária. Não podemos permitir que nossa memória seja apagada, nem que nossas existências sejam exterminadas simbolicamente ou fisicamente. A literatura funciona, então, como registro e resistência.
Claro que, do ponto de vista mercadológico, o ideal seria que livros com personagens LGBTQIA+ circulassem sem precisar dessa categorização específica, que alcançassem um público amplo, sem serem imediatamente associados a um nicho. Como editor, eu adoraria que isso acontecesse. Mas, ao mesmo tempo, a literatura LGBTQIA+ acaba abrindo uma fissura dentro do sistema literário, pensando no que diz Itamar Even-Zohar sobre os sistemas literários. Ela surge para ocupar um espaço que outras instâncias sociais não conseguem preencher.
E isso se torna ainda mais urgente quando pensamos no contexto do Brasil, um país em que ainda há índices alarmantes de violência contra pessoas vulneráveis. Existe uma lógica de dominação masculina que atravessa tudo isso, uma violência direcionada ao feminino, ao afeminado. Então, não sei se o que sinto é frustração, cansaço ou ambas as coisas. Mas sinto que ainda é necessário panfletar essa literatura.

Qual é a maior barreira para fazer literatura no Brasil?
O campo literário depende, antes de tudo, da existência de leitores, e isso é triste quando observamos a realidade do país. Eu mesmo queria muito criar um novo círculo de leitura voltado à literatura LGBTQIA+. Estava começando a conversar sobre isso com o professor doutor Luciano Ferreira da Silva, da UESPI. Pensávamos em encampar uma iniciativa nesse sentido, até antes de tomar conhecimento do clube do livro de Amara Moira e Renan Quinalha. Acho maravilhoso quando surgem iniciativas assim, porque elas ajudam a dinamizar e fomentar a leitura.
Às vezes, certos fenômenos literários parecem difíceis de explicar. O caso do Itamar Vieira Junior, por exemplo, é impressionante. Ele conseguiu vender muitas cópias contando uma história que, teoricamente, estaria fadada a circular menos, por abordar pessoas escravizadas e questões históricas profundas. Ao mesmo tempo, o sucesso do livro mostra que existe uma abertura possível para narrativas que tratam dessas questões sociais e raciais.
Mas ainda me pergunto como fazer a leitura chegar às pessoas que não querem ler. Esse percentual da população que efetivamente lê acaba muito nichado. E aí precisamos observar os fenômenos do mercado. Há autores como Rafael Montes, que alcançam um público amplo com a literatura policial, e Carla Madeira, que trabalha uma escrita mais introspectiva e voltada à reflexão. São caminhos muito diferentes dentro do mesmo cenário literário.
Por isso, confesso que às vezes me sinto até inapto para responder de forma definitiva sobre esse assunto. O que me parece evidente é que temos muitos escritores bons, inclusive na literatura LGBTQIA+, mas que permanecem restritos a nichos específicos. E isso fica ainda mais difícil de compreender quando observamos as pesquisas recentes sobre os índices de leitura no Brasil.
Sobre o que é Amolando o fio da alma?
Amolando o fio da alma nasce muito de um desejo pessoal de me aproximar mais da filosofia. Tenho lido bastante teoria filosófica e tentando pensar, a partir dessas leituras, sobre o trauma. O ponto de partida do livro veio de uma inquietação muito simples, mas também profundamente perturbadora: os índices crescentes de violência no Brasil contra mulheres e pessoas vulneráveis.
Esses dados me fizeram pensar sobre algo específico: o que acontece com uma criança que é sistematicamente violentada ao longo da infância? Como esse trauma molda a personalidade dela, o devir dessa existência? Como isso interfere nas relações afetivas, sociais e sexuais que essa pessoa terá no futuro? Que tipo de adulto emerge dessa experiência?
Esse questionamento já aparecia em uma peça de teatro que escrevi chamada Dorothy. Nela, a personagem principal era uma menina submetida a abusos constantes. Em Amolando o fio da alma, decidi deslocar essa reflexão para a experiência de um menino. O livro nasce justamente desse exercício de imaginar como o trauma participa da construção da subjetividade masculina.
Ao pensar nisso, dialoguei muito com autores da filosofia e da teoria queer, especialmente Didier Eribon. Em um de seus livros, ele afirma que a subjetividade LGBTQIA+ é instaurada pela injúria. O “viadinho”, a “sapatão”, o sujeito que cresce sendo marcado pela humilhação e pelo medo. Essa injúria acaba participando da formação da identidade.
Se a injúria molda subjetividades, o que o trauma faz? Porque o trauma é ainda mais silencioso. Ele atravessa o corpo e a alma de uma maneira profunda. É uma violação física e subjetiva ao mesmo tempo, uma dor que permanece e se perpetua ao longo da vida. Então o livro é uma investigação sobre como o trauma desenha uma personalidade e como alguém tenta sobreviver depois dessa experiência.
A religiosidade também aparece de forma muito forte no livro. Quis trabalhar a ideia da hipocrisia presente em certas estruturas familiares e conservadoras. Afinal, os próprios dados sobre violência mostram que grande parte desses abusos acontece dentro do núcleo familiar, justamente no espaço que deveria proteger. Então, ao colocar a religião e a ideia de “família tradicional” dentro da narrativa, também procuro tensionar essas contradições.
O protagonista, Ramon, tenta construir a vida de maneira quase estoica. Ele busca seguir em frente sem olhar para trás, tentando recalcar completamente o passado. Mas o trauma retorna o tempo inteiro.



