Por Hyader Epaminondas

Desde sua estreia, “O Mandaloriano” encontrou espaço dentro do universo de Star Wars: Episódio VI – O Retorno de Jedi ao equilibrar a expansão da saga após o longa com uma narrativa mais intimista centrada na relação entre Din Djarin e Grogu.

Sob o comando de Jon Favreau, a história avançou pela rotina episódica do caçador de recompensas, indo de um trabalho após o outro enquanto as tramas iam se entrelaçando, em vez de focar em grandes eventos externos ou tramas complexas cheias de reviravoltas, conseguindo dialogar tanto com fãs profundamente conectados ao cânone da franquia quanto com um público mais novo atraído pela dinâmica paternal entre os protagonistas.

Inspirado pelos faroestes clássicos e pelos filmes de samurai, Favreau percebeu que, mesmo diante da grandiosidade galáctica de Star Wars, ainda havia espaço para histórias menores e momentos de intimidade. Essa abordagem se encaixou perfeitamente na linguagem episódica do streaming, transformando a jornada dos personagens em uma aventura acessível e emocionalmente envolvente, sem abrir mão do universo rico e interconectado que sempre definiu a saga criada por George Lucas.

O elenco continua funcionando perfeitamente dentro desse universo, com personagens que já apareceram em temporadas passadas retornando, como Zeb, da série animada “Star Wars Rebels”, sendo interpretado por Steve Blum, enquanto o carisma de Pedro Pascal parece já operar quase no automático dentro desse papel. Entre os novatos, Sigourney Weaver carrega uma presença nostálgica como Ward, evocando de maneira praticamente inevitável os trejeitos de Ellen Ripley, como se décadas de ficção científica estivessem se encontrando dentro do mesmo enquadramento.

Já Jeremy Allen White transforma Rotta the Hutt em um personagem interessante e surpreendentemente carismático. O ator dá nova vida a uma figura que surgiu no filme animado “Star Wars: A Guerra dos Clones” em 2008. O herdeiro de Jabba ganha personalidade própria e se torna muito mais do que uma nota de rodapé esquecida do cânone.

E talvez seja impossível falar disso sem deixar a memória atravessar a crítica por alguns segundos. Aquele filme animado de 2008 foi a segunda vez que eu tive o privilégio de assistir à saga no cinema e também o momento em que o mundo conheceu Ahsoka Tano, uma personagem que cresceu junto de toda uma geração de fãs até se tornar um dos símbolos mais importantes de toda a franquia.

Entre o épico e o morno

Depois de quase sete anos longe dos cinemas, Star Wars precisava voltar com a mesma coragem e ambição que transformaram a franquia em um fenômeno cultural, e não com a sensação de um episódio esticado por duas horas. É um excelente episódio, mas falha como filme. É divertido e tem um ritmo legal, mas a todo momento parece que falta algo mais elaborado.

Parece que, sempre que a produção ameaçava alcançar algo realmente grandioso, Favreau optava por reduzir a intensidade, resultando em sequências mornas. Quando o Mandaloriano interage com personagens verbais, como Zeb ou Rotta, a narrativa flui com muito mais naturalidade. E olha que não faltam coadjuvantes interessantes, como o personagem interpretado por Martin Scorsese. A escolha de isolar o protagonista é que deixa a desejar e afeta o ritmo.

O problema culmina justamente na reta final, quando o filme se transforma em um cinema mudo de ação. A repetição das sequências, mesmo que impecáveis, gera um desgaste pela falta de foco na iconografia que se espera de um blockbuster. São cenas bem cozidas, mas que faltam tempero.

O curioso é que o grande momento de Grogu, moldado no silêncio absoluto, desponta como o ápice de toda a série. É aqui que conseguimos enxergar o diretor de Homem de Ferro e Chef trabalhando de verdade. Longe de se apoiar na fofura ou no apelo comercial de um Stitch verde ou de um Gizmo sem pelo, a sequência funciona como um ponto de virada para o personagem. Há uma maturidade inesperada emergindo daquele pequeno corpo, criando um contraste poético entre sua aparente fragilidade e o peso da bagagem das experiências que o moldaram até aqui. Por si só, essa sequência já vale o ingresso do cinema.

Outro ponto que merece destaque é o design de produção aliado a uma cinematografia que prioriza a imersão total, totalmente superior ao apresentado na série, entregando uma identidade visual riquíssima ao nos guiar por ecossistemas completamente distintos. Passamos pelos horizontes brancos de planetas gelados, pela efervescência de metrópoles urbanas e pela atmosfera misteriosa de pântanos densos.

O blockbuster que sabotou a própria grandeza

O mais frustrante é perceber que a própria Lucasfilm vinha encontrando caminhos muito mais interessantes nas séries do streaming. Produções como “Andor” provaram que ainda existe espaço para narrativas maduras e politicamente afiadas dentro desse universo, enquanto “O Mandaloriano” conseguia equilibrar aventura clássica, emoção e espetáculo fantasioso, sempre acompanhado de uma parceria inusitada digna das animações, com uma naturalidade que esse novo filme parece esquecer.

Até mesmo histórias derivadas como “Maul: Lorde das Sombras” carregavam um senso de escala e consequência que faz falta aqui. O filme inteiro passa a impressão de ser a primeira metade de uma temporada, sempre preparando algo maior que nunca chega de fato, que hipoteticamente seria a segunda parte da temporada. Falta aquele clímax arrebatador que costumava transformar Star Wars em evento. Eu ainda lembro perfeitamente do impacto de ver o retorno de Luke Skywalker no final da segunda temporada de “O Mandaloriano”.

E não é uma questão de fan service, mas de construção dramática. A batalha final praticamente acontece duas vezes e em sequência, como se o filme tivesse medo de encerrar a própria história para evitar terminar sem um grande desfecho. O resultado é um terceiro ato arrastado por problemas que nascem das escolhas do próprio roteiro.

Eu amo Star Wars no nível de nunca ficar muito tempo longe desse universo. Sempre aparece um livro, uma série, um quadrinho ou um filme me puxando de volta para essa galáxia. Talvez seja justamente por isso que eu tenha saído tão dividido de “O Mandaloriano e Grogu”, que, apesar de flutuar nessa órbita de expectativa e parecer econômico em suas resoluções, entrega exatamente aquilo que se propõe a entregar: um porto seguro.

O problema é que isso também dá a sensação de uma oportunidade desperdiçada após tanto tempo longe das telonas, já que muito do que funciona na estrutura episódica de uma série para o streaming não necessariamente encontra a mesma força quando transportado para a experiência mais grandiosa da sala de cinema.

É um filme divertido, repleto de criaturas peculiares e visualmente criativas, daqueles seres estranhos que só o épico de uma galáxia muito, muito distante consegue criar e fazer parecer que sempre existiram naquele universo. Cada planeta reserva uma nova surpresa, um novo bicho impossível de descrever sem arrancar um sorriso, como os Anzellan e sua nave, que rivalizam, disputam as cenas e a fofura com o próprio Grogu.

Com começo, meio e fim bem definidos, o filme funciona como um excelente ponto de entrada para quem ainda não conhece esses personagens. E, mesmo quando decide jogar seguro, a jornada de Mando e seu bebê Yoda continua sendo uma aventura que vale a pena acompanhar com muita pipoca no cinema.