Entre os dias 28 de maio e 10 de junho, São Paulo recebe a 15ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema, considerado o principal evento audiovisual da América do Sul voltado às questões socioambientais. Com entrada gratuita, o festival reúne 104 filmes de 27 países, além de debates, oficinas, encontros com realizadores e atividades educativas espalhadas pelo Reserva Cultural, Centro Cultural São Paulo e outros 28 espaços do Circuito Spcine.

A programação deste ano destaca temas urgentes e contemporâneos, como mudanças climáticas, conflitos no Oriente Médio, colonialismo, ameaças aos territórios indígenas, ativismo feminista, educação, democracia e saúde mental. Entre os filmes exibidos, 59 obras são dirigidas ou codirigidas por mulheres, representando 56,7% da seleção.

A edição de 2026 presta homenagem à produtora Zita Carvalhosa, falecida em 2025 e reconhecida como um dos nomes centrais do audiovisual brasileiro. Responsável pela produção executiva de 59 obras e criadora do Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo, Zita será celebrada com uma seleção de filmes ligados a questões sociais e ambientais, incluindo “O Cineasta da Selva”, de Aurélio Michiles, “Carvão”, de Carolina Markowicz, e “Fé”, de Ricardo Dias, além dos curtas “Distraída para a Morte”, de Jeferson De, “A Alma do Negócio”, de José Roberto Torero, e “Onde São Paulo Acaba”, de Andrea Seligmann.

A abertura oficial, exclusiva para convidados, acontece em 27 de maio com a exibição inédita no Brasil de “O Urso Inconveniente”, dirigido por Gabriela Osio Vanden e Jack Weisman. O documentário venceu o Grande Prêmio do Júri de documentários no Festival de Sundance e acompanha a aproximação de um urso polar de áreas urbanas em meio às transformações climáticas do Ártico.

“O Urso Inconveniente”. Foto: Divulgação

Entre os destaques internacionais da programação estão produções associadas a grandes nomes do cinema mundial. Leonardo DiCaprio assina a produção executiva de “O Grande Lago Salgado”, de Abby Ellis, documentário premiado em Sundance sobre o colapso ambiental do Great Salt Lake, em Utah. Já Ang Lee participa da produção de “À Deriva: 76 Dias Perdido no Mar”, que retrata a impressionante sobrevivência do velejador Steven Callahan à deriva no Atlântico.

Outro dos grandes destaques é “Nossa Terra”, primeiro documentário dirigido pela cineasta argentina Lucrecia Martel. Inédito em São Paulo, o filme acompanha a luta da comunidade indígena Chuschagasta diante do roubo histórico de suas terras e foi premiado em festivais como Veneza, Locarno e BFI London Film Festival. A obra integra o debate “Colonialismo, Território e Povos Originários: Histórias de saques e violências”, programado para 29 de maio.

Os conflitos no Oriente Médio também ocupam espaço central na programação. Debates como “Oriente Médio: Conflitos, Guerra e Memória” e “Palestina: Apagamentos e Resistências” dialogam com filmes inéditos no Brasil, entre eles “Você Me Ama”, de Lana Daher, “Partition”, de Diana Allan, “Os Gêmeos de Gaza”, de Mohammed Sawwaf, e “Yalla Parkour”, exibido no Festival de Berlim.

As discussões sobre feminismos, gênero e representação aparecem em títulos como “Escrevendo a Vida – Annie Ernaux pelos Olhos dos Estudantes”, de Claire Simon, “Artista dos Rejeitos”, de Toby Perl Freilich, e “Rompendo Rochas”, vencedor do Grande Prêmio do Júri de documentário internacional em Sundance. O debate “Feminismos, Corpo e Lutas de Gênero” acontece em 4 de junho.

A educação também ganha destaque na programação. O documentário “Lendo o Mundo”, dirigido por Catherine Murphy e Iris de Oliveira, recupera o legado pedagógico de Paulo Freire, enquanto “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, acompanha meninas do sertão do Piauí durante a passagem da infância para a adolescência. O filme integrou a mostra Generation do Festival de Berlim 2026.

A saúde mental é tema do debate “Sociedade do Cansaço: Solidão, Trabalho e a Reconstrução do Comum”, em 5 de junho, ancorado no documentário “Querido Amanhã”, de Kaspar Astrup Schröder, sobre indivíduos isolados no Japão que encontram acolhimento em um serviço de bate-papo patrocinado pelo governo.

A mostra competitiva Territórios e Memória reúne 12 longas e 19 curtas brasileiros focados em temas sociais e ambientais. Um dos destaques é “Arquivo Vivo”, novo longa de Vincent Carelli, exibido em première mundial. O documentário revisita quatro décadas de atuação do projeto Vídeo nas Aldeias junto a comunidades indígenas brasileiras. Também participam da competição títulos como “Amazônia Oktoberfesta”, “Futuro Futuro”, “Minha Terra Estrangeira” e “Nimuendajú”.

O Panorama Histórico deste ano presta homenagem ao legado do Seminário Flaherty, referência mundial em cinema documental. A programação inclui o clássico “Nanook, o Esquimó” (1922), de Robert J. Flaherty, em versão restaurada, além do vencedor do Oscar “Harlan County: Tragédia Americana” (1976), de Barbara Kopple. O cineasta Sami van Ingen, bisneto de Robert e Frances Hubbard Flaherty, participa do festival com uma masterclass sobre o processo de pesquisa do documentário “Sombras Reveladas”.

Além das sessões presenciais, parte da programação ficará disponível gratuitamente nas plataformas Itaú Cultural Play e Spcine Play após o festival. A programação completa pode ser consultada no site oficial da Mostra Ecofalante.