Eu não esperava assistir a um filme haitiano queer no Festival de Cannes. Muito menos ver a sala inteira de pé, ovacionando a equipe por mais de dez minutos, em um dos momentos mais emocionantes desta edição. Marie Madeleine, dirigido e protagonizado por Gessica Généus, foi apresentado na mostra Cannes Première e chegou como uma dessas surpresas que deslocam o olhar do festival.

Sala de cinema do Festival de Cannes vista de cima, com poltronas vermelhas, paredes de madeira e a plateia em pé aplaudindo após a exibição. No centro, a equipe do filme Marie Madeleine recebe a ovação cercada pelo público.
Ovação de pé para Marie Madeleine após a estreia em Cannes. O filme haitiano, dirigido e protagonizado por Gessica Généus, emocionou a plateia e foi aplaudido por mais de dez minutos. Foto: Oliver Kornblihtt / Mídia NINJA

Marie Madeleine acompanha o encontro entre dois mundos: o da igreja evangélica e o do puteiro. Marie Madeleine é uma mulher que vive da prostituição. Joseph é um pregador evangélico. Entre os dois, nasce uma relação delicada e libertadora, que vai abalando as certezas morais, sexuais, religiosas e afetivas em volta deles.

Fazer um filme assim, vindo do Haití, e trazer ele para as telas de Cannes já é um gesto político. Généus sabe disso. Em entrevista ao Cine NINJA, ela foi direta:

“Tenho a impressão de que só o fato de fazer um filme vindo daquela parte do mundo já é uma provocação. Fazer cinema em um país que não tem salas de cinema e que produz muito pouco já é um ato de ousadia. E eu venho de uma lógica em que não preciso que criem espaço para mim. Se for preciso, eu abro esse espaço à força, porque foi isso que meus ancestrais fizeram. Nós nunca esperamos que nos dessem nada. Nada nos foi oferecido.”

O Haiti, país que fez a primeira e única revolução preta vitoriosa das Américas, e que pagou caro por essa ousadia, aparece aqui não como estereótipo, mas como território de desejo, contradição e invenção. Cheguei a Cannes sabendo que a presença latino-americana nas seções oficiais era quase nula, que nenhum filme brasileiro havia sido selecionado para concorrer nas principais categorias depois de um ano dedicado ao Brasil em 2026. Ver um filme haitiano ocupar esse espaço foi revelador.

Duas pessoas negras sentadas sobre uma cama em um quarto com luz baixa e tons avermelhados e azulados. À esquerda, uma mulher usando vestido rosa e touca clara segura uma câmera fotográfica enquanto sorri para o homem à sua frente. À direita, um homem de camisa listrada está sentado na cama com um caderno nas mãos, olhando para ela. Ao fundo, há uma parede pintada com desenhos e marcas, criando uma atmosfera íntima e noturna.

O filme não se limita a contrapor “igreja” e “puteiro” como se fossem apenas dois espaços opostos ou em conflito. O que Géssica Généus filma é a distância entre esses mundos, uma distância que, fisicamente, parece mínima, mas que socialmente é enorme. A diretora explica essa escolha a partir de uma imagem potente:

“Tenho um amigo que falou algo muito bonito, o Jean Marie Theodat. Ele dizia que parece tão simples dar um passo em direção ao outro. Justamente, a igreja está em frente ao puteiro. Seria tão simples atravessar a rua e criar uma comunidade, que eles façam a igreja do lado deles e que as prostitutas possam ir à igreja naturalmente, se tiverem vontade, que exista convivência. Mas você vai entendendo que esse passo em direção ao outro… nesse pequeno espaço existe todo um mundo que impede esse encontro. Eu quis mostrar o tempo todo essas distâncias que parecem insignificantes, mas onde existe um universo inteiro que torna o reencontro difícil. É por isso que existem esses planos de ‘cara a cara’.”

Esse “cara a cara” atravessa o filme inteiro com uma fotografia impressionante e bela. A câmera insiste nos confrontos, nos olhares, nos corpos que se aproximam e recuam. A força visual de Marie Madeleine está justamente nessa tensão: não há reconciliação fácil. Há gente tentando viver, sobreviver e, se possível, amar.

E talvez seja aí, nesse ponto, que o filme se torne profundamente queer. Não necessariamente porque seja uma história LGBTQIAP+ nos moldes mais evidentes, mas pela lógica profunda que constrói: diante da violência e do preconceito, Marie Madeleine propõe outras formas de amor, de família e de comunidade que vem das dissidências. No filme, o amor se dá entre as putas e os gays. Ele não aparece como posse, contrato ou amor romântico. Ele aparece como cuidado, acolhimento, deslocamento, risco e convivência. Um amor que não exige que o outro caiba em um modelo pronto. Um amor que abre espaço para existir de outro jeito.

Généus falou disso com uma clareza bonita:

“Eu me pergunto como o amor pode realmente existir se não paramos de impor condições o tempo todo, se estamos sempre querendo receber algo do outro para decidir se amamos ou não. Será que não somos capazes de amar de forma desinteressada, sem esperar retorno?”

Gessica Généus, diretora e protagonista de Marie Madeleine, sentada em um sofá e olhando diretamente para a câmera. Ela é uma mulher negra, usa cabelo preso com tranças, brincos pequenos, colar dourado e uma blusa de manga longa com estampa preta e branca. A luz entra pela lateral e ilumina seu rosto em um retrato feito em ambiente interno.
Gessica Généus, diretora e protagonista de Marie Madeleine, em entrevista ao Cine NINJA durante o Festival de Cannes. Foto: Oliver Kornblihtt / Mídia NINJA

E continua:

“Tenho vontade de explorar isso, e é algo muito pessoal para mim, em todas as formas de expressão do amor. Porque estou cansada dessa lógica em que tudo vem carregado de expectativa, em que temos um modelo pronto na cabeça e, se as coisas não acontecem daquela forma, nos frustramos e deixamos de aproveitar a experiência de estar com o outro.”

Essa visão atravessa também a ideia de comunidade no filme. Em um mundo marcado por fanatismos, preconceitos e violências, Marie Madeleine não aposta na salvação individual. A salvação vem do coletivo. Vem de construir refúgio, da convivência e das pessoas que se protegem quando a sociedade empurra seus corpos para a margem, reprime seus desejos e violenta suas existências.

“Eu penso que a comunidade é o que salva. Somos um país muito comunitário, a vizinhança no Haiti é uma verdadeira vida em comunidade. E justamente quanto mais você é colocado à margem da sociedade, mais precisa da comunidade para sobreviver. Isso precisava estar no filme porque é isso que salva: a comunidade. Uma comunidade acolhedora, evidentemente.”

E por isso,  Marie Madeleine coloca Cannes diante de um Haiti vivo, complexo, corporal, espiritual, sensual e profundamente político.

No fim, talvez a grande provocação de Gessica Généus seja essa: lembrar que, em um mundo que insiste em marcar e separar nossos corpos, atravessar a rua em direção ao outro pode ser um gesto revolucionário.