O dia 19 de abril é conhecido como o Dia dos Povos Indígenas. Mas será que datas dedicadas aos povos originários são suficientes para preservar sua memória? Para Fernanda Manzoli, idealizadora do Observatório Indígena de Artes e Saberes Ancestrais do Estado de São Paulo, a resposta é direta: não.

Em janeiro de 2026, começaram os trabalhos do Observatório — um projeto que nasce com a proposta de integrar, dar visibilidade e valorizar os povos indígenas de São Paulo. A iniciativa deve se desdobrar em um museu virtual e em um centro de inteligência cultural, estruturado em uma plataforma trilíngue (português, línguas indígenas e inglês). A ideia é combinar artes e saberes ancestrais, promovendo não só visibilidade, mas também valorização e salvaguarda das culturas originárias.

A plataforma aposta em tecnologia de ponta, incluindo o uso do metaverso, e vem sendo construída junto ao Conselho Indígena Vozes Originárias, que reúne diferentes etnias do Brasil. Esse conselho foi formado no contexto do programa Virada dos Povos – Cultura Indígena em Movimento, do qual o Observatório também faz parte.

No dia 5 de maio, às 18h, acontece um encontro aberto ao público na Câmara Municipal de São Paulo, no auditório Oscar Pedroso Horta. A data marca o encerramento do primeiro ciclo do projeto. Estão previstas falas de representantes dos territórios indígenas envolvidos, participação do Conselho Vozes Originárias, exibição de um vídeo com o diagnóstico participativo e apresentações culturais. A abertura fica por conta da vereadora Renata Falzoni, apoiadora da iniciativa.

Mas o que, de fato, foi construído até aqui? O Observatório se apresenta como uma iniciativa que cruza salvaguarda cultural, inovação e incidência em políticas públicas. Um projeto que tenta reunir dimensões que raramente aparecem juntas: cultura, tecnologia, governança e utilidade pública.

Na prática, isso se traduziu em um diagnóstico socioambiental participativo com povos indígenas em contexto urbano. Foram realizadas 43 entrevistas com pessoas de quatro comunidades: Pankararu (Real Parque), Dofurêm Guaianá (Itaquera), Fulni-ô (Jardim Tremembé) e Aymara (regiões do Brás, Bom Retiro, Belém e Pari), todas situadas na cidade de São Paulo.

Os dados — quantitativos e qualitativos — vêm sendo levantados por uma equipe especializada, com participação de antropólogos e, principalmente, das próprias comunidades. O banco de informações tem alcance nacional e reúne artistas, saberes indígenas, acervo audiovisual, entrevistas e exposições. A proposta é criar conexões entre aldeias, universidades e o público urbano.

Manter as culturas vivas e fortalecer os saberes ancestrais não aparece aqui como slogan, mas como eixo estruturante. “É urgente tornar visível o que, há séculos, vem sendo invisibilizado: as realidades indígenas em contexto urbano. O Observatório atua por meio de uma metodologia participativa, com levantamento de dados construído a partir do protagonismo e do diálogo com os territórios indígenas, que participam ativamente de todas as etapas do projeto. Mais do que preservar, queremos manter o passado vivo no presente, para construir um futuro com memória”, afirma Fernanda Manzoli.

E o que vem depois? Todo o material levantado deve alimentar a plataforma do Observatório, que será gratuita e de livre acesso. A proposta também inclui ações de divulgação e a realização de eventos abertos ao público, com apresentações culturais, culinária, artesanato, música e dança — tudo produzido por povos indígenas.

O projeto conta com parceria da Prefeitura de São Paulo e da Secretaria de Direitos Humanos. Os recursos vêm de emendas parlamentares, captação via Lei Rouanet e investimentos privados.

Povo Pankararu (crédito da imagem: Charles Pankararu)

SERVIÇO: OBSERVATÓRIO INDÍGENA EM MOVIMENTO – ENCERRAMENTO DO 1° CICLO

Data: 5 de maio de 2026 (terça-feira).

Horário: Das 18h às 22h.

Local: Câmara Municipal de São Paulo – Auditório Oscar Pedroso Horta.

Endereço: Viaduto Jacareí, n° 100, Bela Vista – São Paulo – SP.

ABERTO AO PÚBLICO.