Benedita da Silva fala sobre democracia, violência, fake news e os desafios do Senado no Brasil
Uma das figuras mais importantes da política brasileira, Benedita da Silva é pré-candidata ao Senado Federal pelo Partido dos Trabalhadores.
Por Kaio Phelipe
Em um cenário que considera delicado, ela afirma que o momento político exige atenção redobrada das forças democráticas e reforça a importância da mobilização popular. Atual deputada federal, Benedita segue como uma das vozes mais atuantes na defesa dos direitos sociais, mantendo uma trajetória marcada pela resistência e pelo compromisso com a população.
Nascida no Rio de Janeiro e criada na favela Chapéu Mangueira, Benedita iniciou sua militância em movimentos comunitários e associações de moradores, construindo uma carreira política repleta de pioneirismos. Foi a única mulher negra na Assembleia Constituinte de 1988 e, ao longo dos anos, ocupou cargos históricos: foi senadora entre 1995 e 1999, governadora do Rio de Janeiro em 2002, tornando-se a primeira mulher negra a governar um estado no país, e ministra da Assistência Social no início do primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Nesta entrevista exclusiva, Benedita da Silva aborda temas urgentes da realidade brasileira, como o aumento dos casos de feminicídio, os desafios no combate às fake news durante os processos eleitorais e os impactos da chacina que deixou mais de 120 mortos no Rio de Janeiro em outubro de 2025. Além disso, a pré-candidata detalha suas propostas e expectativas para o Senado Federal, reafirmando seu compromisso com a justiça social e a democracia na política brasileira.
O Senado tem tido uma boa atuação no campo dos direitos humanos e tem conseguido cumprir a função de casa revisora?
Ainda não.
Tanto para o Senado quanto para a Câmara, existe uma parcela do povo brasileiro que vota unicamente por ter gostado da pessoa; outros votam por conhecer o partido; outros votam por conhecer o programa, mas não entendem qual é a função do Senado e da Câmara e, por consequência, não sabem o valor do seu voto.
Esse eleitor ou essa eleitora vai votar, mas não sabe até onde o candidato pode ir com o seu voto. Muitas vezes, em determinados segmentos, o compromisso do candidato com o eleitor e a eleitora acaba quando é eleito.
Então, o Senado, como casa revisora, tem o papel de dar sustentação a tudo o que tem relação com o desenvolvimento do estado e das pessoas. O Senado não é um órgão fiscalizador, mas é da sua competência cuidar, sem oferecer exclusividade ou regalia a ninguém.
O Senado tem a competência de julgar uma causa X ou fazer o projeto Y, mas tem que fazer isso independentemente da cor da pele, da classe social e do gênero das pessoas. E não é isso o que tem acontecido.
Por que voltar ao Senado agora?
O Senado Federal vai passar por mais um grande momento. A direita brasileira, copiando moldes que não são nossos, tem agido como se nós estivéssemos em um sistema parlamentarista. A direita quer tirar as competências do Poder Executivo e quer passar por cima do Supremo Tribunal Federal.
E por qual motivo querem fazer isso? O Supremo só intervém quando a Câmara deixa de fazer algo. Por exemplo, se temos uma lei importante, constitucional, e que precisamos regulamentar, e a Câmara não cumpre o seu papel por conta de interesses particulares, acaba cometendo uma injustiça. Nesse caso, o Supremo precisa se manifestar e agir.
E o Supremo tem precisado se manifestar bastante em relação às medidas que deveriam ter sido tomadas pela Câmara, mas que, no processo de obstrução, a oposição não deixa as coisas andarem, a não ser que seja uma iniciativa própria dela. Se for uma iniciativa do Executivo para cumprimento constitucional, é aquela situação: fazem obstrução, vão empurrando e não vai acontecer.
A direita quer ter todo o poder de impeachment, e isso está no Senado.
A direita quer cassar o Supremo Tribunal Federal, e esse poder está no Senado.
Então, é importante a esquerda, e também o centro democrático, se deslocar para o Senado e criar uma força motora, não só para fazer oposição, mas para fazer o Brasil andar dentro da competência que o Senado tem.
Ir para o Senado não é uma questão de vontade, até porque já fui senadora. Quero estar no Senado novamente porque, neste momento, o Brasil vem sofrendo ameaças. É fundamental que os partidos políticos democráticos estabeleçam agora a sua força motriz dentro do Senado, sem que, com isso, diminuam sua representação dentro da Câmara, porque a Câmara também é muito importante.
Ir para o Senado faz parte de um processo para a soberania do Brasil e da democracia, para a garantia de direitos para a juventude, para as pessoas idosas – grupo do qual faço parte –, para as mulheres e para todas as pessoas.
No Senado, temos coisas muito importantes que são do interesse da maioria do povo brasileiro, e esse é o grande motivo por eu estar colocando a minha candidatura.

A senhora foi a única mulher negra na Constituinte em 1988 e foi a primeira mulher negra a ocupar diversos cargos políticos. A política tem sido mais diversa desde então? Parlamentares negros estão mais sujeitos à violência política?
A ausência de parlamentares negros por tanto tempo na história já evidencia o preconceito existente na política. O fato de, durante anos, eu ter sido a única mulher negra a ocupar esses lugares também revela o racismo estrutural.
As pessoas negras são excluídas de diversos espaços, seja por conta da cor da pele, da situação econômica à qual fomos impostas, mas também porque, quando conseguimos ocupar esses espaços, fazemos mudanças significativas, como foi no caso da Constituinte.
Apesar de sermos poucos naquele momento, conseguimos fazer valer os direitos do povo que trabalha no meio rural – que tem muito a ver com os quilombolas –, os direitos de tombamento dos remanescentes dos quilombos; conseguimos colocar o trabalho doméstico como qualquer outro tipo de emprego, garantindo os direitos das trabalhadoras domésticas, que, naquela época, significava realmente a simbologia do trabalho escravo. Também trabalhamos muito a questão da juventude, sempre colocando um recorte racial. Não deixávamos nenhum jovem de fora, mas sabíamos que havia um segmento que sofria – e sofre até hoje – com uma violência dupla.
Demorou muito mais tempo para a população negra se inserir na política. E fomos inseridos somente depois de toda uma luta do movimento negro. Diziam para a gente que não existe racismo no Brasil, que o Brasil é um país miscigenado e, portanto, não há preconceito racial.
Mas não falavam como esse Brasil miscigenado foi construído e quais são as consequências disso: da invasão dos colonizadores, do estupro das mulheres indígenas, dos navios negreiros que chegavam aqui. A história da miscigenação é muito longa.
Aos poucos, os partidos foram buscando ter uma representação mais forte e criar um espaço de diálogo. Hoje, não dá para pensar em política sem as pessoas negras.
Ter nascido e crescido em favela contribuiu com a construção do pensamento político da senhora?
Muito, mas isso não significa que é preciso morar em favela para ter consciência.
A favela me deu régua e compasso, como canta o Gilberto Gil. Foi na favela que começou a minha formação política, nas lutas cotidianas por direito à moradia, educação, direito à saúde e saneamento básico. Essas lutas me inseriram em comitês e, depois, em associações de moradores, onde estive na linha de frente por diversas vezes.
Nessa época, a favela não estava nem no mapa da cidade. Existia favela, existia uma população oriunda da favela, mas você olhava no mapa da cidade e não encontrava os territórios. Fizemos muitos movimentos para que incluíssem o Chapéu Mangueira, por exemplo, que é a favela de onde eu sou.
Diante disso, nós nos organizamos para fazer política com o poder público. Mas, antes do poder público, nós enfrentamos a ditadura e muitas outras coisas que nos proibiam de qualquer tipo de melhoria, até mesmo na arquitetura das nossas casas.
Fomos conquistando direitos dentro do processo democrático do Brasil e saímos da condição predatória em que nos colocavam e passamos a não ser perseguidos por conta de uma casa de tijolo e situações dessa natureza.
A gente aprendeu a se organizar, a reivindicar e a protestar o que nos era imposto como única condição. A favela vivia, mas não existia para as políticas públicas; era invisível para os políticos em relação a lutas e demandas.
Então, nós colocamos a boca no mundo, fomos para as ruas e fomos de forma organizada. Lutamos para que a política olhasse para as comunidades para além do processo eleitoral e da arrecadação de votos.

Qual é a visão da senhora sobre a chacina que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro em outubro de 2025?
Hoje, a segurança no Rio de Janeiro e no Brasil está péssima.
Antigamente, nós, que éramos de associações de moradores, dávamos instruções para que não tivéssemos o quadro que encontramos hoje. Mas, infelizmente, pensar em melhoria e segurança para os pobres parecia muito difícil para o Poder Público.
Conforme o Estado foi se ausentando das favelas, o crime foi dominando o espaço. Com isso, as facções foram se organizando – e o crime sabe se organizar muito bem – e se aperfeiçoando, tomando territórios, explorando os moradores e crescendo.
O Estado criou, para uma classe, uma mentalidade de que segurança é armar e sair matando. Mas há outra classe que compreende as questões dos direitos humanos e entende que crime é questão de cadeia. Se alguém cometer um crime, deve ser punido, preso e cumprir sentença. Mas o Estado trabalhou para confundir segurança com sair para exterminar uma parcela da sociedade.
Tanto é que, nas pesquisas feitas nos dias posteriores à chacina, Cláudio Castro, que estava em terceiro lugar nas intenções, disparou à frente de todo mundo.
O que nós precisamos ter, e o Governo Federal está trabalhando com os estados e municípios nesse sentido, é uma política de segurança que cumpra o seu papel de inteligência, estratégia e qualificação. Não adianta armar a polícia e não dar qualificação.
Falta segurança e proteção, inclusive aos policiais. É importante garantir também a segurança dos profissionais que adentram os territórios de crime organizado.
Qual medida é fundamental para o combate à pobreza no Rio de Janeiro?
O Rio de Janeiro ainda precisa de empregos. O Rio perdeu muito com as políticas de privatização, e os empregos foram acabando.
Agora, nós estamos tendo um pouco mais de empregabilidade, com a indústria naval trabalhando bem, a Petrobras tendo um papel importante e outros setores retomando as atividades.
Depois da pandemia de 2020, vimos o comércio todo fechado, sem nenhum incentivo. Hoje, o Presidente Lula procura incentivar as indústrias para que a gente possa voltar a ter um comércio robusto.
É muito importante também tratarmos da agricultura do estado. O estado tem um segmento de agricultura no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), de trabalhadores e trabalhadoras rurais. A partir disso, não precisaríamos ter um alimento tão caro.
Um dia, uma pessoa de direita disse que, neste país, tudo o que se planta nasce. E é verdade. No entanto, não é dividido, e precisa ser.
Nós precisamos acabar com a escala 6×1 e oferecer descanso e tempo de qualidade ao trabalhador que vive em condições horríveis, trabalhando distante de onde mora, vivendo para o trabalho e sem perspectiva de melhora.
Existe uma desordem no Rio de Janeiro causada por um gestor que não compreende a cidade. O Rio ainda tem jeito e condições para ser um lugar excelente, mas, para isso, precisa de um gestor que entenda a cidade e de uma política de desenvolvimento.
Estamos com as obras da usina nuclear de Angra paralisadas. Dizem que vão dar fim a ela, mas, para dar fim, gasta-se mais dinheiro do que concluir as obras, que gerariam mais empregos.
Para combater a pobreza no Rio de Janeiro, é preciso empregabilidade.

Como a senhora tem visto o aumento de feminicídio no Brasil?
Precisamos de leis mais rígidas para o agressor. E precisamos também de mais e melhores equipamentos à disposição das mulheres para que possam sinalizar que estão sendo violentadas.
É um tipo de violência que muitas vezes leva à morte. Depois que isso acontece, sempre tem alguém para dizer que sabia que a mulher era agredida ou que viu acontecer. E por que não chamaram a polícia? Em caso de agressão, é necessário chamar a polícia, e temos que ter equipamentos que facilitem isso.
Estamos testemunhando um grande retrocesso. Sou uma mulher quase centenária, então sei como era o tratamento à mulher antigamente. Os homens tratavam as mulheres como posse e matavam por qualquer motivo. Nós fomos combatendo essa violência, e agora estamos assistindo a esse ódio e esse machismo ressurgindo com muita força.
Parece que as relações humanas se tornaram mais brutalizadas e possessivas. Alguns homens acham que as mulheres estão a serviço deles e, quando algo foge ao seu agrado, cometem feminicídio. Esses homens tratam as mulheres como se existisse uma rivalidade, como se as mulheres fossem inimigas a serem combatidas. Eles não sabem agir diante da liberdade que nós conquistamos.
Foi plantado muito ódio e muita raiva entre as pessoas, e esses sentimentos foram naturalizados dentro das relações. Precisamos tirar essa mentalidade do nosso meio.
Em tempos de fake news, qual é o maior desafio para fazer política?
É um desafio muito grande.
Essa é uma das preocupações que temos discutido bastante, e vamos pedir uma audiência sobre isso ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), já que o Presidente Lula não recebeu apoio da Câmara para evitar o uso de notícias falsas.
Fake news colaboram muito para que determinados candidatos vençam as eleições. Eles contam a mesma mentira por diversas vezes e não se preocupam em comprovar absolutamente nada, porque não é possível comprovar coisas que não aconteceram. Esses candidatos repetem as mesmas mentiras e vão entrando na cabeça das pessoas com o intuito de fazer com que votem neles ou, então, que nem sequer saiam de casa para votar.
É muito duro assistir a determinados setores usando robôs para inventar mentiras, distorcer a realidade, arquitetar fraudes e ganhar votos com isso. Precisamos utilizar todos os instrumentos possíveis para acabar com esse jogo sujo.
Fake news não agregam em nada à sociedade e precisam ser combatidas, principalmente nas eleições, para que o povo possa ter liberdade para votar.
Neste ano, as eleições serão muito duras, mas o Presidente Lula tem se mostrado grandioso, acreditando na força das instituições investigadoras, e, com certeza, teremos rigidez na fiscalização.



