Por Nicole Adler

“Canções de Apartamento”, disco de estreia de Cícero, não apenas marcou uma geração — infiltrou-se no cotidiano, na subjetividade, transformando experiências privadas em matéria compartilhada. Assim, a pergunta que atravessa qualquer efeméride talvez seja: “Canções de Apartamento” completa 15 anos ou somos nós que completamos 15 anos desde o impacto que ele provocou?

Com datas confirmadas no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em São Paulo, e ingressos já esgotados ou próximos disso, Cícero leva aos palcos o repertório que marcou sua estreia. Na turnê comemorativa, o álbum deixa de ser memória para se reativar no público, recuperando a mesma atmosfera que, anos atrás, fez do quarto um mundo inteiro.

Capa do álbum ‘Canções de Apartamento’ de Cícero Lins. Foto: Divulgação

Do apartamento às canções

Lançado em 2011, “Canções de Apartamento” marcou a estreia de Cícero e rapidamente se tornou um dos trabalhos mais emblemáticos da música independente brasileira. Com 10 faixas — entre elas “Tempo de Pipa”, “Açúcar ou Adoçante”, “Ensaio sobre ela” e “Pelo Interfone” — o disco foi gravado de forma caseira e difundido, inicialmente, pela internet. A ficha técnica pode ser quase inteiramente atribuída a Cícero Rosa Lins, com exceção de “Eu não tenho um barco, disse a árvore”, que contou com a participação de Jorge Júnior em seu processo.

O disco nasce de uma experiência comum a muitos jovens: sair de casa, concluir a faculdade e enfrentar, pela primeira vez, a rotina de morar sozinho. Foi nesse contexto, por volta dos 21 ou 22 anos, que Cícero transformou em música um processo atravessado pela contradição entre o desejo e a desestabilização. A ideia do viver só, antes idealizada, revelou outras camadas, especialmente no confronto consigo mesmo e com os relacionamentos de forma geral — o que acabou se tornando o eixo sensível do álbum.

Foto de divulgação do lançamento de ‘Canções de Apartamento’ (2011). Foto: Divulgação.

Ao retratar essa transição, muito marcada pela solitude e pelas descobertas que ela impõe, constrói-se um trabalho profundamente conectado a uma experiência geracional quase universal — o que ajuda a explicar a identificação duradoura do público com essas canções. Em entrevista, Cícero ressalta que, durante a pandemia, as músicas passaram a dialogar com uma experiência coletiva mais ampla: “Depois da pandemia, esse negócio de ficar trancado no apartamento ganhou outros significados também”. Nesse contexto, o que antes soava como um retrato íntimo acabou ganhando novas camadas de leitura.

“O dia vai raiar pra gente se inventar de novo”: Entre o que foi e o que se escuta hoje

Essa metamorfose — e as camadas de significação que as músicas ganham com o tempo — foi destacada por Cícero como, para ele, uma das dimensões mais potentes da arte. “Eu acho que uma das coisas que eu mais gosto de arte no geral é que ela vai ganhando significados com o tempo, né? Significa uma coisa hoje, significa uma coisa diferente daqui a 10 anos, significa uma outra daqui a 100 anos”, afirma o artista.

Assim, na sua concepção, uma canção não permanece fixa na intenção de quem a criou; ao contrário, ela se desloca, se amplia e se transforma conforme atravessa diferentes momentos. O que hoje carrega um sentido pode, anos depois, assumir outro completamente distinto e, nesse processo, a obra deixa de pertencer apenas ao autor e passa a existir também na experiência de quem a escuta.

“O que eu quis dizer com o disco nem é tão importante, acho que o mais importante é que ele existe e que as pessoas vão ressignificando ele”
— Cícero Rosa Lins

Pode ser mais uma dessas camadas de ressignificação, mas essa concepção do fazer arte e do consumir arte encontra eco em “Tempo de Pipa” (2011), faixa de maior alcance nas plataformas de streaming de Cícero. Nos versos “Mas tudo bem / O dia vai raiar / Pra gente se inventar de novo”, a ideia de reinvenção contínua se aproxima diretamente dessa lógica de transformação do sentido, em que nada permanece fixo — nem a obra, nem quem a escuta. Assim, percebe-se que Cícero já delineia essa concepção desde o álbum de estreia, mesmo diante das contínuas metamorfoses da vida.

O artista por trás do som

Com início na cena independente dos anos 2000, Cícero desenvolveu uma trajetória marcada pela produção autoral e por lançamentos realizados de forma autônoma. Em carreira solo, lançou sete álbuns de estúdio — Canções de Apartamento (2011), Sábado (2013), A Praia (2015), Cícero & Albatroz (2017), Cosmo (2020), Concerto 1 (2025) e Uma onda em pedaços (2025) — além de dois singles. Ao longo desse percurso, consolidou um público fiel e se tornou um dos nomes associados à cena independente brasileira surgida na década de 2010.

A trajetória de Cícero se constrói a partir de uma relação direta com o cotidiano, que atravessa tanto sua escrita quanto suas escolhas de carreira. Suas canções partem de experiências comuns. “Eu acho muito importante ter uma vida que todo mundo tem, sabe? Eu acho que, se você sai disso, você perde o contato com o público”, afirma o artista, ao destacar a importância de manter uma vivência ordinária como fonte de criação e conexão.

Cícero na divulgação do seu álbum ‘Concerto 1’ (2025). Foto: Divulgação.

Essa mesma lógica se reflete na forma como lida com a própria visibilidade. Em um cenário marcado pela lógica dos números e pela exigência constante de presença nas redes, Cícero opta por um caminho mais reservado — mesmo que isso implique abrir mão de alcance. “Os meus números, se eu for falar de pura e simples média de números, não são muito expressivos, porque eu não tô ali alimentando isso”, explica, grifando que a escolha não é despretensiosa, mas, sim, consciente.

“Eu gosto de ter a vida que todo mundo tem, de fazer o que todo mundo faz, e acho que por isso eu consigo ter assuntos com que todo mundo se identifica”
— Cícero Rosa Lins

Essa relação com o cotidiano também aparece na forma como Cícero conduz sua carreira e chega ao palco. Ao se manter distante da lógica de alta exposição e priorizar uma trajetória mais discreta, o artista consolidou, ao longo dos anos, um público fiel — algo que se reflete diretamente na turnê comemorativa.

Turnê comemorativa: 15 anos de “Canções de Apartamento”

Ao revisitar “Canções de Apartamento” nos palcos, Cícero estabelece também um reencontro pessoal com o próprio percurso. A distância de mais de uma década transforma o olhar sobre o disco, que hoje aparece menos como objeto de crítica e mais como memória atravessada por afeto — “é tipo ver um filme antigo que você gosta muito”, como define o artista.

Nesse sentido, a turnê nasce não apenas como uma celebração pública, mas também como um movimento de revisitar essas canções com a maturidade musical que afirma não ter à época, oferecendo ao público um espetáculo à altura do próprio disco. “Esse show vai ser lindo, tanto de luz, quanto de figurino, quanto de arranjo; eu acho que é um show que o disco merece, então eu tô animadasso”, afirma Cícero, que opta, inclusive, por manter os arranjos próximos dos originais, preservando a memória sonora que acompanha essas músicas.

Entre as datas já confirmadas, o Rio de Janeiro abre a turnê no Teatro Casa Grande (08/04), com todos os ingressos já vendidos, seguido por Belo Horizonte, no Sesc Palladium (09/04). O encerramento acontece em São Paulo, no BTG Pactual Hall (14 e 15/04), com ambas as apresentações já esgotadas.

https://www.instagram.com/cicerorosalins

Na formação da banda para a turnê comemorativa, Cícero reúne não apenas músicos, mas também parceiros próximos, a quem se refere como amigos. A guitarra fica por conta de Gabriel Ventura, que também desenvolve seu trabalho solo e integra a banda Ventre; no baixo, Vovô Bebê, igualmente com carreira solo; na bateria, Pedro Fonte, que transita por projetos autorais; e, no acordeão e piano, Davi Rosenblit, completando a formação que acompanha o artista nos palcos.

Ao final, ao retornar aos palcos com o repertório de “Canções de Apartamento”, Cícero reforça a permanência de um disco que atravessou o tempo e segue encontrando novos sentidos junto ao público. A turnê comemorativa não apenas retoma as músicas que marcaram sua estreia, mas, mais uma vez, ressignifica o álbum e evidencia a atualidade de uma obra que continua a dialogar com diferentes gerações.