O diálogo político que une ‘O Agente Secreto’ e ‘Uma Batalha Após a Outra’
Filmes de Kleber Mendonça Filho e Paul Thomas Anderson exploram memória, autoritarismo e linguagem cinematográfica a partir de perspectivas distintas
Por Leandro Marinho e Victor Hugo Fiuza
Há muitas formas de olhar para a lista final de indicados ao Oscar, esse recorte anual da produção cinematográfica que alcança maior visibilidade global. Uma delas é observar como certos filmes, mesmo produzidos em contextos muito distintos, parecem responder a inquietações semelhantes do seu tempo.
Não surpreende, nesse sentido, que dois títulos tão diferentes quanto “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, e “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson, possam ser colocados em diálogo. Ambos recorrem a um imaginário estético que evoca o cinema dos anos 1970 para pensar um presente marcado pelo recrudescimento do autoritarismo e pelas tensões da vida política contemporânea. Ainda que o filme de Anderson não se situe explicitamente nessa década, sua atmosfera – visual, narrativa e musical – evoca aquele momento histórico em que paranoia política, desencanto e radicalização atravessavam a cultura popular. Nos dois casos, há uma tentativa de construir, por meio da forma cinematográfica, uma arquitetura sensível para interpretar tempos políticos incertos.
Essa afinidade, no entanto, acaba por revelar alguns contrastes. Nos dois filmes percebe-se certa nostalgia cinematográfica que também é reflexão sobre o próprio cinema. Ambos partem da crença de que a sétima arte ainda possui capacidade de interpretar o mundo. Mas enquanto “O Agente Secreto” investe no cinema como dispositivo de memória, quase como um arquivo sensível capaz de preservar fragmentos de história e experiências coletivas, “Uma Batalha Após a Outra” parece confiar mais nas potências espetaculares da linguagem cinematográfica do que nas implicações políticas de sua própria narrativa.
No filme brasileiro, o cinema é literalmente parte da história: salas de exibição, filmes projetados e experiências coletivas de fruição tornam-se elementos que articulam memória política e memória cultural. A própria presença de “Jaws” (1975), de Steven Spielberg, surge tanto como referência cinéfila quanto como uma alegoria para um perigo invisível e difuso, uma metáfora para a ditadura civil-militar brasileira. Em contraste, no filme de Anderson, a energia criativa parece se concentrar sobretudo na elaboração formal: no ritmo da montagem, nas sequências de ação coreografadas com precisão e no humor que emerge do controle absoluto da encenação.
Essa diferença aparece também na maneira como cada diretor se relaciona com seus personagens e na forma como introduzem o humor em seus filmes. Em “Uma Batalha Após a Outra”, o humor muitas vezes assume a forma de uma sátira calculada, marcada por certo distanciamento irônico em relação às figuras que habitam o filme. A comédia parece nascer menos das situações vividas pelos personagens e mais do olhar que o diretor projeta sobre eles, como se a narrativa fosse conduzida a partir de uma posição ligeiramente superior. Já em “O Agente Secreto”, o humor surge da própria matéria da vida filmada e das contradições dos personagens, das situações inesperadas e do prazer evidente do diretor em observar as figuras humanas que entram no quadro. Mesmo personagens moralmente questionáveis são tratados com uma espécie de curiosidade sensível o suficiente para lhes preservar densidade dramática.
As duas obras tratam de forma bastante distinta a relação entre política, memória e experiência histórica. “O Agente Secreto” constrói uma narrativa em que a memória se apresenta como vestígio, fragmento, resto. A história não aparece como relato linear ou reconciliação retrospectiva, mas como conjunto de lacunas, silêncios e imagens dispersas que insistem em sobreviver. A ditadura brasileira emerge como estrutura social e política cujas marcas continuam a atravessar o presente. Ao mobilizar personagens incompletos, histórias interrompidas e alegorias perturbadoras — como a famosa “perna cabeluda”, que mistura mito urbano e denúncia da violência racializada —, o filme compõe uma espécie de mosaico de lembranças em que a morte e o esquecimento aparecem como produtos sistemáticos da ordem social.
“Uma Batalha Após a Outra”, por sua vez, segue caminho diverso. Seu interesse por militâncias radicais e confrontos políticos levanta questões potencialmente fecundas, como a dimensão subjetiva do engajamento ou os riscos de uma identidade moldada pela própria lógica da luta. Contudo, a abordagem adotada tende a deslocar essas questões para o campo da caricatura psicológica. Ex-revolucionários de esquerda e fascistas surgem como figuras dominadas por obsessões pessoais, desejos individualistas ou fetiches pela própria ideia de radicalidade. Os personagens interpretados por Leonardo DiCaprio (Bob Ferguson) e Teyana Taylor (Perfidia Beverly Hills) encarnam bem esse deslocamento: o primeiro, um militante cuja trajetória política se dissolve em paranoia e ressentimento, incapaz de historicizar a própria experiência; a segunda reforça esse movimento ao sugerir que a radicalidade política não passaria, no fundo, de uma forma estilizada de afirmação individual.
É nesse ponto que o filme de Anderson suscita debates mais controversos. A leitura satírica de suas personagens acaba por alimentar falsa equivalência entre movimentos revolucionários de esquerda e projetos autoritários de extrema direita. Ainda que essa equivalência não seja necessariamente afirmada de modo explícito, a forma como o filme constrói seu universo narrativo frequentemente empurra o espectador nessa direção: todos parecem igualmente patéticos, igualmente prisioneiros de suas próprias ilusões. O resultado é um tipo de cinismo político em que conflitos históricos complexos acabam dissolvidos numa comédia de erros ideológicos.
Ambos os filmes afirmam o cinema não como mero meio de representação, mas como instrumento de elaboração histórica. Mas, se há uma diferença relevante entre as obras, ela está no modo como cada um concebe o papel da memória e da história no cinema. Em “O Agente Secreto”, lembrar é um gesto fundamentalmente político: recuperar fragmentos do passado significa resistir às formas de apagamento que estruturam a vida social. Em “Uma Batalha Após a Outra”, o passado parece servir mais como material para o exercício estilístico e para uma ironia narrativa que produz momentos de grande brilho formal, mas também carrega um ar de desencanto no qual disputas históricas complexas são reduzidas a dramas insensatos e supérfluos.
Ainda que partindo de sensibilidades e escolhas estéticas diferentes, as obras de Kleber Mendonça Filho e Paul Thomas Anderson iluminam — e, portanto, trazem ao debate — aspectos distintos de um mesmo problema: como narrar politicamente o presente quando a própria memória das lutas do passado permanece aberta, ambígua e disputada? “O Agente Secreto” e “Uma Batalha Após a Outra” oferecem suas respostas.
Leandro Marinho é sociólogo e pesquisador.
Victor Hugo Fiuza é roteirista e cineasta.



