Cinema brasileiro vive momento histórico, mas audiovisual de Minas pode perder mais de R$ 13 milhões
Decisão do governo Zema impacta plano ligado ao Fundo Setorial do Audiovisual
Por Maíra Aragão
O cinema brasileiro vive um momento de grande projeção internacional. Prova disso é que o país conquistou cinco indicações ao Oscar, reafirmando a força criativa e a relevância do audiovisual nacional no cenário global. Nesse cenário de crescimento, Minas Gerais se consolidou como um dos principais polos de produção fora do eixo Rio–São Paulo, com uma cena forte de produtoras independentes, animação, festivais e cinema autoral reconhecido dentro e fora do país.
Apesar desse cenário positivo, o audiovisual mineiro vive agora um momento de apreensão. O plano de Arranjos Regionais do Audiovisual, política pública vinculada ao Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e ao Ministério da Cultura, pode ter uma redução significativa de recursos em Minas Gerais devido à diminuição da contrapartida proposta pelo Governo de Minas.
Na proposta inicial enviada pelo estado, o plano previa R$ 27,5 milhões em investimentos para o audiovisual mineiro: R$ 22 milhões do FSA e R$ 5,5 milhões de contrapartida estadual. Com esse volume de recursos, seria possível apoiar 65 projetos, incluindo longas-metragens, séries de animação, desenvolvimento de games, circulação audiovisual e festivais em diversas regiões de Minas.
Após a readequação proposta pelo governo estadual, o valor caiu para R$ 12,88 milhões, sendo R$ 10,3 milhões do FSA e apenas R$ 2,57 milhões de contrapartida estadual. Na prática, isso representa uma redução de cerca de 53% no investimento previsto para o audiovisual mineiro.
Segundo resposta do próprio governo estadual, a diminuição acontece porque Minas Gerais não teria cerca de R$ 3 milhões para complementar a contrapartida originalmente proposta. O argumento, no entanto, tem sido questionado por profissionais do setor, já que as regras do programa permitem que essa contrapartida seja executada até o final de 2027, não sendo necessário o aporte imediato.
Como o modelo dos Arranjos Regionais funciona por cofinanciamento entre União e estados, a diminuição da contrapartida estadual reduz automaticamente também o volume de recursos federais destinados ao estado. Na prática, Minas deixa de acessar milhões de reais que poderiam fortalecer a produção audiovisual, gerar empregos e ampliar a circulação cultural em diversas regiões.
Além da redução do investimento, existe ainda um risco maior. Caso o plano readequado não seja enviado ao Ministério da Cultura até o dia 20 de março, Minas Gerais pode ficar sem nenhum recurso dos Arranjos Regionais, perdendo mais de R$ 10 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual.
Diante desse cenário, profissionais do audiovisual mineiro começaram a se mobilizar e cobrar respostas do governo de Romeu Zema. Produtores, realizadores, técnicos e organizadores de festivais vêm se articulando em redes e fóruns do setor para pressionar por transparência e garantir que Minas não perca um investimento estratégico para a cultura e para a economia criativa.
Para muitos agentes culturais, a situação também reacende um debate recorrente sobre o espaço que a cultura ocupa nas prioridades da atual gestão estadual. Enquanto o cinema brasileiro vive um momento de reconhecimento e expansão, artistas e trabalhadores do audiovisual mineiro observam com preocupação a possibilidade de o estado abrir mão de um investimento significativo justamente em um momento de crescimento do setor.
Diante desse cenário, a pergunta que fica é direta: Minas Gerais vai fortalecer um dos seus polos culturais mais potentes ou deixar escapar mais de R$ 13 milhões, ou até todo o investimento do audiovisual, por decisões do governo Zema?



