Brasil no Oscar: A disputa da nossa narrativa em uma indústria americanizada
Até que ponto o cinema brasileiro consegue manter sua identidade dentro de uma indústria dominada por Hollywood?
Por Isabelli Gelinski Plantico

Neste domingo (15), acontece o Academy Awards, a premiação cinematográfica mais aguardada do ano por todos os amantes da sétima arte. Desta vez, o Brasil segue fazendo história: pelo segundo ano consecutivo, o país se destaca ao aparecer entre os concorrentes ao Oscar, agora com o filme O Agente Secreto (2025). A presença, entretanto, reacende um debate: até que ponto o país consegue disputar espaço e reconhecimento em uma indústria historicamente dominada por Hollywood?
Hollywood e a exclusão de talentos latinos
A indústria cinematográfica norte-americana concentra grande parte da produção e da circulação do que se torna sucesso no cinema — e do que acaba destinado ao esquecimento. Nesse cenário, Hollywood continua a exercer um forte controle sobre os elencos, também por meio da chamada “Lista A”, que reúne atores e atrizes mais rentáveis, influentes e procurados pelos estúdios, garantindo bilheteria e prestígio às produções. Entre os nomes atuais estão Zendaya, Timothée Chalamet, Florence Pugh, Sydney Sweeney, Jenna Ortega, entre outros.
Em meio a esse círculo de favoritismo, talentos latinos qualificados muitas vezes sequer recebem a oportunidade de fazer um teste. Como consequência, personagens latinos acabam sem a devida representatividade nas telas, sobretudo quando são interpretados por atores que não compartilham dessa origem. No fim de janeiro de 2026, a escolha de elenco para o filme Deep Cuts tornou-se um caso emblemático que expôs essa preferência recorrente em Hollywood.
Mais de 100 personalidades latinas — entre elas brasileiros — assinaram uma carta aberta dirigida à indústria, pedindo mais oportunidades para artistas latinos, maior inclusão nos processos de seleção e a redução de papéis estereotipados.
Deep Cuts: relembre o caso
A discussão ganhou força no final de janeiro de 2026, quando a atriz Odessa A’zion foi escalada para interpretar Zoe Gutierrez no filme Deep Cuts, produzido pela A24. A personagem, descrita no romance original como metade mexicana e metade judia, acabou sendo atribuída a uma atriz sem ascendência latina.
Após a repercussão, A’zion decidiu abandonar o projeto. Em publicação no Instagram, afirmou: “Eu jamais tiraria um papel de outra pessoa que nasceu para fazê-lo”.

O caso citado levou diversas personalidades latinas a produzir uma carta aberta direcionada a Hollywood. Em um dos trechos do documento, os artistas afirmam: “Escrevemos a vocês com urgência, porque a narrativa é a bússola da humanidade, e Hollywood detém um enorme poder. As histórias que vocês escolhem contar — e a forma como as contam — moldam a percepção pública, a compreensão cultural e determinam quem pode se ver refletido na tela. Em momentos tão desafiadores como estes, esse poder vem acompanhado de uma responsabilidade real”.
Ao longo da carta, os profissionais também defendem mudanças estruturais na indústria. Entre as propostas estão a ampliação de testes e contratações de atores latinos, a inclusão de executivos latinos nos processos de decisão, o convite a roteiristas, produtores e consultores latinos desde as fases iniciais de desenvolvimento das produções e a criação de programas de formação e acesso para novos profissionais da comunidade. A ideia é que as telas do cinema passem a reproduzir, de fato, uma representatividade mais fiel, em vez de serem guiadas apenas pela lógica do lucro.
O Brasil dentro dessa disputa narrativa
Em 1960, Orfeu Negro (1959), coprodução entre França, Brasil e Itália dirigida por Marcel Camus, venceu o Academy Awards na categoria de Melhor Filme Internacional. Apesar de ter sido filmado no Brasil e contar com um elenco majoritariamente brasileiro, o prêmio foi oficialmente creditado apenas à França, país responsável por inscrever a obra na premiação.
Cerca de três décadas depois, o país voltou a ganhar destaque com Central do Brasil (1998), dirigido por Walter Salles. O filme conquistou duas indicações importantes: Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz, categoria na qual Fernanda Montenegro entrou para a história ao se tornar a primeira latino-americana indicada.
No entanto, a estatueta acabou ficando com Gwyneth Paltrow por sua atuação em Shakespeare in Love (1998), um resultado que até hoje é lembrado por críticos e cinéfilos como um dos episódios mais controversos da premiação. Durante participação no podcast The Awardist, no final de 2025, Paltrow comentou sobre a disputa de quase três décadas atrás: “Nunca sabemos por que uma coisa ganha em vez de outra”, refletiu sobre o funcionamento da premiação.

Entretanto, mesmo sem conquistar nenhuma vitória, Central do Brasil consolidou a presença do país no circuito internacional e marcou um momento decisivo para a visibilidade do cinema brasileiro. Desde então, outras produções nacionais continuaram buscando espaço na premiação, reforçando a disputa constante por reconhecimento dentro de uma indústria que historicamente privilegia produções anglófonas e os grandes estúdios.
O longa Cidade de Deus (2002) também marcou presença na história da premiação. No Academy Awards de 2004, o filme recebeu quatro indicações em categorias principais: Melhor Direção, para Fernando Meirelles; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Edição; e Melhor Fotografia. Após esse marco histórico, o país voltou à maior premiação do cinema em 2016, com a indicação de O Menino e o Mundo (2014) na categoria de Melhor Filme de Animação. Já em 2020, Democracia em Vertigem (2019), dirigido por Petra Costa, foi indicado a Melhor Documentário.
A primeira grande vitória brasileira na premiação veio apenas em 2025, com Ainda Estou Aqui (2024). O segundo longa de Walter Salles conquistou a estatueta de Melhor Filme Internacional, além de render uma indicação a Melhor Atriz para Fernanda Torres.

É nesse contexto que a presença de ‘O Agente Secreto’ (2025) entre os concorrentes volta a colocar o Brasil no centro dessa discussão. Mais do que competir por uma estatueta, o país disputa pelo direito de contar suas próprias histórias em um cenário cinematográfico ainda fortemente moldado pelos interesses hollywoodianos.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.