Por Ana Keila

Foto: Reprodução Warner Bros Picture

O cinema de horror moderno vem atravessando uma transição fascinante, em que o pavor deixa de estar no oculto e passa a residir na estrutura que nos observa à plena luz do dia. Em Sinners (Pecadores), o diretor Ryan Coogler utiliza o mito do morto-vivo não apenas como uma criatura sedenta, mas como uma peça de um mecanismo civilizatório inerentemente predatório. O pânico não habita no fantástico; ele reside na forma como o grupo constrói bodes expiatórios para preservar privilégios e manter um pacto de silêncio.

A narrativa acompanha os gêmeos Smoke e Stack, interpretados por Michael B. Jordan, personagens que vivem em um contexto marcado por tensões sociais e pela busca por pertencimento. É nesse cenário que surge o antagonista Remmick (Jack O’Connell), que se apresenta como um convite. Coogler resgata um elemento clássico do folclore: a necessidade de permissão para entrar. Aqui, essa regra ganha um peso político — o monstro não invade, ele é convidado por quem está desesperado por proteção. Ele acena com o que as instituições tradicionais negaram sistematicamente aos protagonistas: dignidade e acolhimento. Para quem sobrevive à margem, a oferta é sedutora: um lugar na alcateia, onde as divisões de classe se dissolvem sob uma única sede compartilhada.

Foto: Reprodução Warner Bros. Pictures

Contudo, essa inclusão absoluta exige renúncias totais. O perigo real não reside na transformação física, mas na promessa de um espaço que só valida o indivíduo mediante a anulação de sua excentricidade. O horror surge quando se percebe que, para ser protegido, é preciso abdicar da própria biografia. Tornar-se a “criatura” é, ironicamente, a única forma de ser tratado como igual, ainda que ao custo de apagar quem se era antes.

Até os pilares da identidade cultural, como o ritmo e o movimento, aparecem no filme como elementos que organizam a comunidade e reforçam a sensação de pertencimento. No entanto, essa mesma dinâmica também estabelece limites invisíveis: quem se afasta da cadência coletiva corre o risco de ser visto como ameaça. Assim, o abrigo oferecido pelo grupo revela-se condicionado à obediência silenciosa e às regras que sustentam sua ordem interna.

“Sinners” funciona como um espelho incômodo da nossa própria realidade. Ele nos força a questionar se o “monstro” é aquele que ataca ou se é o sistema que cria a necessidade de se tornar um monstro para finalmente pertencer a algo. No fim, o filme deixa um aviso sombrio: em uma sociedade que organiza hierarquias por meio da culpa, a verdadeira liberdade só existe para quem está disposto a ser o vilão da história de outra pessoa. Se o custo do seu abrigo é o seu silêncio diante da injustiça, você ainda está sendo protegido ou já se tornou apenas mais uma peça na engrenagem que devora a singularidade humana?

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Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.