‘De Retratos Fantasmas’ (2023) a ‘O Agente Secreto’ (2025): o indicado do Brasil ao Oscar
A pesquisa sobre a memória do Recife em ‘Retratos Fantasmas’ (2023) e a criação de ‘O Agente Secreto’ (2025)
Por Eduarda Silva
O caminho que leva até ‘O Agente Secreto’ (2025) não começa exatamente com um roteiro. Nem com uma ideia repentina. Na verdade, ele nasce de um longo processo, que passa pela memória, pela cidade do Recife e por um mergulho profundo no passado realizado durante a produção de ‘Retratos Fantasmas’ (2023).
Em entrevista à Revista O Grito!, o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho relata que o documentário lançado em 2023 surgiu como uma investigação pessoal. O projeto partiu de imagens que ele mesmo começou a registrar ainda no início dos anos 1990, quando era estudante de jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco. Na época, Kleber filmava e fotografava antigos cinemas do centro do Recife, muitos deles já abandonados ou prestes a fechar, como o Art-Palácio e o Trianon.
Esses registros ficaram guardados por décadas em fitas VHS, negativos e fotografias. O diretor manteve o hábito de preservar todo o material, revisitando-o de tempos em tempos. Com a chegada do digital, cerca de vinte anos atrás, decidiu restaurar parte desse acervo. Alguns anos depois, o diretor percebeu o potencial cinematográfico daquele conjunto de imagens.
“Eu tive a preocupação de montar um álbum, como se fosse um álbum de recortes, um álbum de família do próprio Recife”, explicou o diretor durante a entrevista. O filme acabou se estruturando justamente assim: como uma coleção de memórias que misturam registros pessoais, imagens de arquivo e fragmentos da história cultural da cidade.
Uma cidade como personagem
Em ‘Retratos Fantasmas’ (2023), Kleber parte de dois espaços centrais em sua vida: o apartamento onde viveu durante décadas no bairro de Setúbal e o centro do Recife. O primeiro aparece como espaço íntimo, palco de reuniões familiares, gravações caseiras e até locação de seu primeiro longa, ‘O Som ao Redor’ (2012). Já o segundo surge como território de descobertas e afetos, especialmente por meio das antigas salas de cinema.

Diferentemente de muitos projetos tradicionais, ‘Retratos Fantasmas’ (2023) não começou com um roteiro fechado. O próprio Kleber descreve o processo como uma descoberta contínua, o filme foi sendo moldado pelas imagens que surgiam ao longo da pesquisa.
Cada nova imagem encontrada alterava o próprio filme. Sequências, trilhas sonoras e estruturas narrativas eram repensadas conforme o material surgia. Ao lado da produtora Emilie Lesclaux, o diretor também decidiu restaurar os arquivos utilizados, escaneando negativos e filmes antigos em alta resolução, um processo que acabou recuperando parte importante da memória audiovisual da cidade.
A ponte para ‘O Agente Secreto’ (2025)
Foi justamente durante essa imersão em memórias e arquivos que nasceu o projeto seguinte do diretor. O processo de pesquisa em jornais antigos e documentos históricos despertou em Kleber o desejo de contar uma história ambientada nos anos 1970.

Assim começou a tomar forma ‘O Agente Secreto’ (2025), um thriller de época estrelado por Wagner Moura. O filme surgiu a partir da combinação entre pesquisa histórica e memórias pessoais da infância. Na época em que a trama se passa, em plena ditadura militar, Kleber ainda era criança, mas já mantinha contato intenso com o cinema e com os jornais, principalmente por causa dos anúncios de filmes.
O diretor revela, durante entrevista à Revista Bravo, que esse processo o levou a refletir sobre algo que ele chama de “memória herdada”: lembranças que parecem pessoais, mas que na verdade foram transmitidas por familiares, amigos ou pelo imaginário coletivo da cidade.
Essa ideia se tornou central na construção de ‘O Agente Secreto’ (2025). Embora o novo filme não trate diretamente de cinema ou de arquivos, ele continua investigando como as memórias, individuais ou coletivas, moldam nossa percepção do passado.
Depois de décadas filmando o Recife e explorando suas histórias, Kleber Mendonça Filho transformou essa relação em matéria cinematográfica. Se ‘Retratos Fantasmas’ (2023) funciona como um álbum de memórias da cidade, ‘O Agente Secreto’ (2025) surge como um novo capítulo dessa investigação, agora atravessado pela ficção, pelo suspense e pelas sombras da história brasileira.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.