Por Kaio Phelipe

Um dos principais pensadores e líderes indígenas do país, Ailton Krenak reflete sobre sua trajetória no campo literário, destacando o potencial emancipador da escrita como meio de alcançar diferentes contextos culturais e mobilizar consciências.

Ao longo da conversa, Krenak aborda o papel das intelectualidades indígenas em um país marcado pela colonização, questionando a noção ocidental de “intelectual” e defendendo a diversidade de cosmovisões. Comenta também sobre sua entrada na Academia Brasileira de Letras, relativizando a ideia de “imortalidade”, e relembra seu discurso histórico na Assembleia Nacional Constituinte do Brasil de 1987–1988, cuja repercussão ecoa no artigo 231 da Constituição.

Por fim, Ailton critica projetos de privatização de rios amazônicos e relembra Serra Pelada e a construção da Rodovia Transamazônica.

Foto: ABL Divulgação

Com o sucesso de Ideias para adiar o fim do mundo, o que mudou na forma como o senhor é lido no Brasil?

Já está completando oito anos que publiquei Ideias para adiar o fim do mundo. Foi em 2019. Por uma dessas coincidências, que o Nego Bispo chamaria de confluência, aconteceu um pouquinho antes da pandemia. E acho que o anúncio de um mundo em erosão coincidiu, no imaginário de muitos leitores, de muita gente, com um novo sentido para aquelas palavras que, na verdade, são uma crítica ao descolamento dos humanos do corpo da Terra.

Os humanos esqueceram que vivem no planeta Terra e, através dessas catástrofes monumentais que estão acontecendo — e ainda há muitas pela frente — começaram a ser cobrados por isso. Temos diante de nós uma imprevisibilidade que nunca foi tão imediata.

Em cada continente, em cada lugar do mundo, já aconteceram eventos que fizeram desaparecer ilhas, pedaços de mundo. Mas, pela primeira vez, os humanos sabem que estão à beira de um colapso global. E isso é uma novidade para a própria espécie, que está sendo confrontada com sua inviabilidade.

O modo de a espécie habitar o planeta está sendo censurado pelo ecossistema terrestre. O corpo da Terra, o ecossistema da Terra, não suporta tanto lixo, guerra e estupidez, e está apresentando sinais de cansaço da presença humana.

Foto: Alexandre de Moraes

As catástrofes vêm como uma censura direta às escolhas de uma humanidade ampla, de 8 bilhões de pessoas, que segue tocando em frente como se estivesse em um mundo sem fim, como se pudéssemos esgotar esse planeta várias vezes.

O reconhecimento do livro mudou muito a minha rotina. Quando você se torna um autor publicado em dezenas de países, a rotina se transforma. No mínimo, você é, a toda hora, interpelado sobre o que publicou, o que vai resultando em outros papos.

A nossa conversa, por exemplo, vai resultar em muitas outras, e isso é bem legal. O reconhecimento do livro mudou também a minha agenda. Se antes eu tinha uma agenda mais local, agora ela é imprevisível e pode estar em qualquer lugar do planeta.

Em que momento o senhor percebeu que a escrita poderia ser uma ferramenta tão potente quanto a militância política?

Eu sempre me interessei pela literatura exatamente por ela ser fora de controle. Mesmo em países que tentam censurar a arte, a literatura sempre escapa, porque existe em diferentes formatos.

Conceição Evaristo reivindica o que ela chama de “oralitura”, que é essa literatura da oralidade. Alguém sempre é capaz de contar uma história, não importa quanta censura esteja imposta a um lugar ou a um povo. A literatura é libertária.

A literatura tem a capacidade de se infiltrar em lugares que a gente não imagina. Então, se você tem um livro publicado na Coreia, no Japão, na China, na Turquia, significa que está falando na orelha de quem lê.

Todo leitor já deve ter passado pela experiência de ler autores que transformaram totalmente sua compreensão da realidade, do cotidiano, de tudo. A literatura tem essa capacidade.

Eu não sabia se podia acionar essa potência da palavra escrita, por ter vindo de uma tradição de oralidade. Costumo dizer que, ao me confundirem com um escritor, na verdade estão divulgando ideias de um contador de histórias. Estão dando espaço a alguém que gosta de contar histórias, aprendeu a contá-las e se utiliza da escrita como meio de continuar contando histórias.

Foto: Arquivo Pessoal

Qual é a importância das intelectualidades indígenas para o Brasil?

Isso é uma novidade que só tem sentido no ambiente de uma cultura colonizada.

Em uma cultura totalmente submetida a uma visão colonial, imitando outros padrões, a ideia de acessar um lugar de privilégio — de escritor, de autor — pode parecer uma realização para quem chega ali com o objetivo de imitar o modo colonial de vida.

Acredito que não temos que comemorar o fato de existirem pessoas de cultura não ocidental, não europeia, divulgando pensamento, publicando, trazendo outras visões ou cosmovisões de mundo. Isso não é uma ascensão, um sucesso. É um elemento da diversidade.

Que bom que existem outras culturas, outros povos, outras obras, outras literaturas. Não precisa haver uma única literatura — e ainda bem que não.

Se tivéssemos no mundo inteiro uma única percepção do que seria intelectualidade, estaríamos perdidos, porque é um valor totalmente inconsistente.

Não existe intelectualidade única. Quem inventou isso foram os europeus, que queriam se impor ao resto do mundo e que agora estão sendo confrontados por culturas do mundo inteiro.

Há grandes autoras chinesas que, há duas décadas, ocupam o topo de listas literárias importantes. Isso mostra que não existe mais uma ideia única sobre literatura e intelectualidade.

Uma pessoa na China não tem o mesmo conceito de intelectualidade que temos no Brasil. E o fato de alguém publicar, escrever poesia, fazer literatura, não significa que ela se separa do seu contexto local. Continua sendo a pessoa que vai à feira, anda na rua, cuida do quintal.

Somos tão colonizados que achamos que alguém que acessa novos saberes, conhecimentos ou tecnologias alcança um lugar diferente, um lugar de privilégio, em que não pode mais se misturar com os outros.

É esse lugar eleito que chamam de intelectual no Ocidente — e isso é uma bobagem.

Mahatma Gandhi era muito mais interessante do que todos esses caras enfileirados, esses palhaços que recebem Nobel. Aliás, o Nobel não vale mais nada desde que virou presente para ditadores. Já era.

Como é ser um imortal da ABL?

O que pude entender é que aquelas pessoas que, há quase um século, ou mais de um século, são convidadas ou eleitas para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, se têm alguma coisa de imortal, é a sobrevivência de suas obras.

Por exemplo, Machado de Assis. A obra dele continua sendo lida, traduzida e publicada no mundo inteiro. Isso torna a obra imortal, mas ele morreu faz tempo.

Todo mundo que está na Academia morre. Às vezes, morre em série. No ano passado devem ter morrido pelo menos cinco. Quer dizer, estamos todos na fila.

Não existe essa história de um sujeito ser imortal. A imortalidade, no caso, refere-se à obra do sujeito. E, se a obra sobreviver, vai acontecer nesse sentido de transmissão.

Mas pode ter certeza de que não são todos os que passam por lá que têm uma obra imortalizada.

Teve muita gente que entrou para a Academia como se tivesse ganhado um prêmio tradicional: ex-ministros, ex-presidentes, ex-não-sei-o-quê ocupando cadeiras.

Se existe uma inovação agora é que esse tipo de personalidade não tem mais convite para entrar. Mudou, digamos, o interesse da casa em ter outro tipo de presença.

Acho que já existe uma presença significativa de mulheres, mas ainda é vergonhoso que tenha sido, por mais de cem anos, uma casa só de homens.

Hoje há uma presença crescente de mulheres. Tomara que continue e que os homens não tenham privilégios em relação a elas, porque já temos privilégios demais em outros espaços.

Ainda há muita coisa para mudar, inclusive talvez a própria ideia de formato. Quem sabe descubram que esse formato de clube não tem muito lugar no futuro próximo.

Foto: Arquivo Pessoal

Quando o senhor discursou na Assembleia Nacional Constituinte, tinha dimensão do impacto histórico?

Não. Eu não tinha nenhuma ideia do contexto em que aquele ato aconteceria na Assembleia Nacional Constituinte do Brasil de 1987–1988.

Dez ou doze horas antes do evento fui nomeado para fazer aquela fala, mas meus colegas também não sabiam como seria a situação.

Era um contexto político muito imprevisível e poderíamos, inclusive, não ter autorização para fazer a fala pública dentro do plenário.

Isso foi há 40 anos. Desde então, o contexto da vida brasileira mudou muito e, em algum sentido, mudou para melhor.

Eu não tinha a menor ideia de que ia repercutir tanto e durar tanto no tempo a palavra dita naquele plenário.

Que bom que ela persiste e está presente no artigo 231 da Constituição. Acho que qualquer pessoa viva gostaria de ter uma frase sua escrita na Constituição.

Esse evento da Constituinte e a entrada na Academia Brasileira de Letras são dois dos acontecimentos mais marcantes da minha biografia. Que bom que ainda estou por aqui.

Como o senhor acompanha os debates sobre os rios Tapajós, Tocantins e Madeira?

O que está acontecendo era previsível.

Quando foi convocada a COP30, em Belém, eu disse que iam servir uma xícara de petróleo no café da manhã.

Tentar privatizar três rios como Rio Tapajós, Rio Tocantins e Rio Madeira é um pacotão.

É um pacote cujo dano socioambiental a maioria das pessoas ainda não tem dimensão. Vai deixar uma marca que não dá para apagar.

Assim como a Rodovia Transamazônica, nos anos 1970, fez aquele arregaço na floresta, agora anunciam esse pacote que pode ter o mesmo impacto ecológico e social.

É uma verdadeira Serra Pelada.

Se quisermos explicar ao senso comum a ameaça que essa privatização representa, basta lembrar que podemos ter uma outra Serra Pelada — só que na Amazônia — projetada por decreto e implementada por políticas de governo.

Isso é uma afronta.

O senhor tem algum projeto por vir?

Não programar, não planejar, mas estar atento ao fluxo, para trabalhar com criação literária, é uma boa maneira de se surpreender com a literatura, em vez de ficar correndo atrás dela como objetivo.

Assim como meu primeiro título, publicado há quase oito anos, e também os que vieram depois, nada foi planejado com tanta antecedência.

Talvez, até o final do ano, possamos ter algum novo título para publicar e chamar as pessoas à leitura.