‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ renova o universo de George R. R. Martin com excelência
Com Dunk e Egg, a série explora uma aventura pessoal e menos ambiciosa cem anos antes da guerra pelo Trono de Ferro
Por Hyader Epaminondas
Eu adoro “A Casa do Dragão” e a dimensão épica que acompanhou o fim da era dos cuspidores de fogo vivo, mas é quando a narrativa decide diminuir a escala e se aproximar das pessoas comuns que “O Cavaleiro dos Sete Reinos” encontra justamente a sua maior potência. É um dos poucos lugares onde o universo de “Game of Thrones” quase nunca parava, distante dos tronos, das grandes batalhas e das disputas pelo poder absoluto.
Diferente das séries irmãs, que contavam com um número enorme de personagens com suas próprias histórias entrelaçadas à trama principal, aqui acompanhamos apenas duas perspectivas que se conectam com todo o panorama desse universo ao longo de seis episódios. A série adapta os contos de George R. R. Martin com um olhar voltado para o cotidiano de Westeros, situada cem anos antes da guerra pelo Trono de Ferro e cerca de oito décadas após as consequências ainda vivas da Dança dos Dragões.
À primeira vista, esse recorte intermediário pode soar confuso, como se fosse um território esquecido entre dois grandes capítulos da história, mas, conforme os episódios avançam, essa sensação se transforma em propósito. É justamente nesse espaço de transição que a narrativa encontra sentido, costurando pontas soltas, observando as cicatrizes deixadas pelos grandes conflitos e mostrando como o mundo segue respirando mesmo depois que o fogo se apaga.
Longe do estrondo das grandes batalhas com seres poderosos planando pelos céus e do peso dos grandes nomes, a série se ancora na ideia de que a história também é construída nos intervalos, nos caminhos de terra entre as campinas, nas conversas introspectivas e nas decisões aparentemente pequenas que geram grandes inconveniências.
O reino ainda está sendo moldado por mãos anônimas, por gestos quase invisíveis, como se cada escolha fosse uma pedra colocada sem alarde na fundação de algo muito maior. Existe um simbolismo poderoso nessa aparente calmaria. A trama evidencia isso por meio dos personagens secundários, que expõem suas motivações com clareza e ajudam a desenhar as forças em movimento. Entre eles, destaca-se Lyonel Baratheon, que, mesmo com um arco ainda pouco explorado, já planta as bases do que deve se desdobrar nas próximas temporadas.
O período funciona como um eco prolongado, um momento em que Westeros tenta se reorganizar após ter sido rasgado por dentro e no qual o futuro começa a tomar forma não por meio de grandes conquistas, mas por trajetórias discretas que, somadas, carregam toda a fundação para as eventuais crônicas de gelo e fogo.
Os Cavaleiros dos Sete Reinos
A história acompanha Dunk, interpretado com uma inocência sólida e cativante por Peter Claffey, e o jovem Egg, que ganha vida na atuação vibrante e caoticamente enérgica de Dexter Sol Ansell, em uma jornada errante de autodescoberta, enquanto um aprende com o outro lições valiosas de amadurecimento, revelando um mundo menos fantasioso, porém mais humano.
Ao contrário das intrigas palacianas que definiram a série-mãe, aqui o conflito nasce do contato direto com o povo comum, de códigos de honra frágeis e de um senso de justiça que frequentemente colide com a brutalidade do sistema feudal. No fundo, a questão que atravessa toda a história é simples e se espelha nos arcos do elenco secundário: ele é um cavaleiro, tenha sido oficialmente nomeado ou não. Esse é o verdadeiro ponto da história. Os rótulos não fazem a pessoa, é a pessoa que dá sentido aos rótulos, e essa ideia sustenta a narrativa.
A série se inicia de forma inusitada com a morte de um velho cavaleiro andante, Ser Arlan de Pennytree, e é justamente desse adeus que nasce a grande aventura de Dunk. A perda simboliza o fim de uma era que já vinha se apagando, a despedida de um tipo de honra que sobrevive mais na memória do que na prática, algo que a série leva como temática até o final da temporada. Abalado, mas movido por um impulso que mistura luto e ambição, o então escudeiro Dunk decide assumir a espada do falecido mestre para disputar o torneio de Vaufreixo e conquistar seu reconhecimento como cavaleiro, em uma tentativa de provar que aquele código antigo ainda pode encontrar espaço em um mundo que já começa a esquecer.
Ao longo do caminho, a narrativa reforça que Westeros não se sustenta apenas sobre casas nobres e dragões, mas sobre figuras marginais à grande história e sobre a complexa dificuldade de manutenção do código de honra que rege essa sociedade. Egg, em especial, funciona como um olhar atento, absorvendo cada injustiça e cada contradição de um mundo que, um dia, estará sob sua influência. Já Dunk encarna uma moral quase anacrônica, um idealismo que parece deslocado naquele cenário cínico, como se fosse um resquício de luz insistindo em brilhar mesmo quando o tempo insiste em apagá-lo, refletindo a imagem de seu brasão escolhido.
A direção aposta em cenas mais contidas, em diálogos que dizem mais pela subjetividade do que pelo grito, em gestos que escapam ao centro do enquadramento e em conflitos de escala reduzida. Basicamente, todo o arco da Casa Targaryen é colocado de forma subliminar por meio das ações de Baelor Targaryen. Há uma sensação constante de contenção, como se a narrativa estivesse sempre à beira de um incêndio que ainda não se espalhou, mas já arde por baixo da superfície. Não é o fogo aberto que domina a cena, e sim a brasa silenciosa, o calor acumulado que ameaça transformar qualquer descuido em devastação.
Aqui, o que move a história são as pequenas fraturas morais e decisões tomadas por orgulho e ego fragilizado. São injustiças aparentemente banais que funcionam como faíscas lançadas sobre palha seca, ignoradas no momento em que surgem, até que o estrago se torne irreversível. A série constrói essa tensão como quem observa um campo ressequido sob o sol, consciente de que basta um gesto impensado para que tudo seja consumido.
Ao final de seus seis episódios, a série se estabelece menos como um prelúdio direto de “Game of Thrones” e mais como um complemento essencial ao seu universo. É continuação e prólogo ao mesmo tempo, uma narrativa que compreende que revisitar Westeros não significa repetir fórmulas, mas escavar suas camadas mais profundas e se manter fiel aos livros do autor original.
O mundo continua duro, desigual e fascinante, mas agora observado a partir de quem caminha pelas estradas de terra e não pelos salões do poder. Ao deslocar o foco para aqueles que sempre estiveram à margem da História oficial, a série reafirma que Westeros nunca foi apenas sobre quem ocupa o trono, mas sobre quem suporta o peso dele.



