Por Glauber Rezende

Conhecido como um dos maiores blocos de carnaval em Curitiba, o bloco arrasta multidões e afirma a presença negra e a ancestralidade afro em Curitiba, além de desenvolver ações sociais na região.

Foto: Glauber Rezende – Fotografia | @ge.fotografia

Dizem que em Curitiba não tem carnaval. Dizem. Mas isso não é verdade, ou pelo menos não é a realidade apresentada nos últimos tempos. O carnaval em Curitiba tem crescido nos últimos anos e desenvolvido a economia na região nos setores de comércio, hotelaria e turismo. Conforme dados apresentados pelo Sindicato Empresarial de Hospedagem e Alimentação (SEHA), a rede de hotelaria em Curitiba chegou à lotação de 70% em 2026. Além disso, o setor de alimentação, bares e restaurantes apresentaram crescimento acima do esperado em relação ao ano anterior.

Existem vários blocos em Curitiba, e, dentre eles, um que tem ficado famoso é o Afro Pretinhosidade. O bloco nasceu em 2018, mas, segundo conta Diorlei Santos – mestre de bateria e atual presidente do bloco —, seu fundamento começou a ser construído em 2017, a partir de encontros da comunidade preta em Curitiba e região metropolitana. Em entrevista exclusiva, Diorlei nos conta um pouco mais sobre a história da formação do grupo e sobre seu impacto social na comunidade. Confira abaixo na íntegra.


1) Como surgiu o grupo? Quem fundou? E qual a relação com a Vila Torres, em Curitiba?

O grupo foi fundado em 2018, mas os primeiros diálogos sobre a criação de um bloco afro surgem em Fazenda Rio Grande, na casa do Babalorixá Odéléci. Ali, dentro de um espaço de espiritualidade de matriz africana, começa a se formular o desejo de organizar um bloco que afirmasse a ancestralidade preta nas ruas de Curitiba.

A ideia se intensifica na casa da professora Cláudia, no bairro Tatuquara, onde os debates ganham densidade política e cultural. Em seguida, o projeto ganha mais corpo na casa do enfermeiro Allan Coimbra, no Pilarzinho, onde acontece a última reunião onde o mestre de Diorlei é escolhido para conduzir a bateria, consolidando-se como proposta concreta de organização.

O bloco inicia de fato suas atividades no início de 2018, com a condução do mestre Diorlei Santos, dentro da comunidade da Vila Torres, e utilizando o espaço da ONG Passos da Criança. Os primeiros ensaios e reuniões também aconteceram na casa do mestre, fortalecendo o caráter comunitário, coletivo e ancestral do movimento.

A Vila Torres não é apenas território de atuação é chão de origem. É território negro, popular e historicamente resistente. É também região onde nasceu a primeira escola de samba de Curitiba, a saudosa Grêmio Recreativo Escola de Samba Colorado, e onde ecoou a potência da bateria dos Bocas Negras.

O Pretinhosidade surge como resposta ao apagamento da presença negra na narrativa oficial da cidade. Surge como organização ancestral. Surge como movimento regido por Iansã, força dos ventos e da transformação.

Desde sua origem, o propósito é reconectar irmãos e irmãs pretas à sua ancestralidade, por meio do tambor, da dança e de composições autorais que contam a história da Vila Torres, dos afro-paranaenses e dos afro-curitibanos. O bloco nasce da espiritualidade, amadurece na coletividade e se firma no território.

2) A presença das religiões de matriz africana é muito marcante. Como a ancestralidade orienta vocês?

A ancestralidade preta é o eixo organizador do bloco. A espiritualidade de matriz africana não é adorno, é fundamento. Cada toque, cada canto e cada saída são atravessados pelo respeito aos orixás e aos ancestrais.

Sendo regido por Iansã, o bloco carrega a força do vento que movimenta estruturas e rompe silêncios. A organização interna se inspira em valores comunitários herdados das cosmologias africanas: coletividade, circularidade, respeito aos mais velhos e formação dos mais novos.

O tambor é tecnologia ancestral preta. É reza, é memória, é afirmação de identidade no espaço público.

3) A participação de crianças e jovens chama bastante atenção. O bloco desenvolve algum trabalho formativo ou social na Vila Torres? Qual o impacto social, principalmente através do carnaval, que o bloco tem em Curitiba? 

O impacto é direto e concreto. Hoje, cerca de 25% da bateria é formada por crianças e adolescentes da própria comunidade. Isso significa que o tambor está formando uma nova geração preta consciente de sua história e de sua potência.

A segunda regente da bateria é da Vila Torres. Começou a tocar com o mestre de bateria Orlei Santos aos oito anos de idade. Entrou no Bloco Afro Pretinhosidade aos 12 e hoje, aos 19 anos, ocupa posição de liderança musical. Isso é formação real. Isso é sucessão ancestral.

A partir de 2026, o bloco amplia seu projeto social com oficinas de percussão, dança afro, capoeira, samba de roda e defesa pessoal para mulheres. As oficinas fortalecem identidade, autoestima e pertencimento. A defesa pessoal responde a uma urgência social: proteger mulheres, especialmente mulheres negras, diante do aumento da violência no país.

Durante o carnaval, o impacto se amplia. O bloco ocupa as ruas de Curitiba com corpos negros organizados, conscientes e celebrando sua história. Isso é educação pública através da cultura.

4) Eu vi que existem outros blocos como o Maracatu Aroeira lá na Generoso Marques. Como é a relação com outros blocos de Curitiba? Existe uma rede de parceria e colaboração entre vocês? 

Existe uma rede de parceria e fortalecimento coletivo. Todos os anos, o Pretinhosidade convida entre 10 e 15 blocos para desfilar dentro da comunidade, promovendo a descentralização do carnaval de Curitiba. A proposta é simples e potente: levar o carnaval para seu lugar de origem: o território popular.

Essa articulação inclui blocos como o Maracatu Aroeira e diversos outros coletivos da cidade. O objetivo é ampliar acesso à cultura para os moradores da Vila Torres e entorno, rompendo a lógica de concentração dos eventos apenas no centro.

É importante lembrar que essa região também carrega uma história fundamental para o carnaval curitibano: ali, nasceu a primeira escola de samba da cidade, a saudosa Grêmio Recreativo Escola de Samba Colorado, e dali ecoou a potência da bateria dos Bocas Negras. O território sempre foi chão de samba. O Pretinhosidade dá continuidade a essa linhagem histórica.

5) Quais são os maiores desafios para manter o bloco funcionando ao longo do ano? Existe financiamento por iniciativa pública ou privada? Ou é totalmente independente? 

O maior desafio é estrutural: manter um projeto negro vivo o ano inteiro em uma cidade que pouco investe na cultura afro-brasileira.

O bloco mantém sede e depósito com recursos próprios e captação por meio de: emendas parlamentares, acessadas nos últimos dois anos; patrocínio para o Carnaval 2026 junto à Itaipu Binacional, via Itaitec; feijoadas e eventos próprios; venda de abadás; cachês de apresentações; e contribuição mensal dos associados, a partir de R$ 10, respeitando a realidade de cada integrante

A sustentabilidade é construída na base da coletividade.

6) O que significa manter um bloco afro vivo em Curitiba hoje, considerando ser uma cidade tão elitista e conservadora? 

É um ato político. Curitiba construiu uma narrativa de cidade europeia, apagando sua presença negra. Manter um bloco afro vivo é confrontar esse apagamento com tambor, dança, espiritualidade e memória. É afirmar que existem afro-curitibanos. É afirmar que a Vila Torres tem história. É afirmar que a cultura negra não é periférica é fundante. É vento de Iansã atravessando estruturas conservadoras.

7) E deixem um convite para quem quiser conhecer e fortalecer o bloco. Quais são as redes sociais?

O Bloco Afro Pretinhosidade dialoga com a tradição dos blocos afro da Bahia. Sua grande referência é o Ilê Aiyê, o primeiro bloco afro do Brasil, conhecido como “o mais belo dos belos”. Dessa matriz vem a inspiração de organização, estética, consciência racial e afirmação identitária.

O Pretinhosidade convida toda a comunidade a conhecer e fortalecer o movimento.

Ensaios de percussão acontecem todos os sábados na sede, na Rua Baltazar Carrasco dos Reis, 381. Ensaios de dança acontecem às quartas e sextas no centro de Curitiba.

É possível fortalecer participando, contratando apresentações, tornando-se associado ou contribuindo via Pix (informações nas redes oficiais do bloco: Instagram: @blocoafropretinhosidadeoficial).

Mais que carnaval, é continuidade ancestral.

Mais que festa, é afirmação de existência.

É tambor preto escrevendo história em Curitiba.