‘Alô, Camaradinha’ transforma arquivos em carta de amor a Caby da Costa Lima
Curta de Esdras Marchezan parte de registros pessoais para narrar a relação entre radialista e filha
Por Thiago Galdino
A história de um radialista pode ser contada de muitas formas. Em Alô, Camaradinha, o diretor Esdras Marchezan escolhe partir de registros íntimos para construir um retrato de Caby da Costa Lima que ultrapassa a biografia tradicional. Fotografias guardadas, vídeos caseiros e conversas de WhatsApp preservadas por Alice Lira Lima estruturam o curta como um gesto de memória e afeto.
Figura marcante do rádio mossoroense, Caby é revisitado não apenas como comunicador, mas como pai. Ao deslocar o eixo do filme para a relação entre Alice e o “Camaradinha”, Esdras transforma o documentário em uma carta construída a partir da escuta, do som e das lembranças.
Alô, Camaradinha parte da figura pública de Caby da Costa Lima, mas encontra no afeto um eixo narrativo central. Em que momento você entendeu que esse documentário precisava ser, antes de tudo, um filme sobre memória sensível?
Esdras Marchezan: Tenho pensando muito no desafio que temos, hoje em dia, com a preservação da memória. Neste mundo de tanta velocidade e pouca atenção à permanência das coisas, contar a história das pessoas, das nossas cidades, tem atraído minha atenção. Falar sobre Caby, um personagem único da imprensa mossoroense e potiguar, é voltar o olhar para a história da imprensa local, para a história do nosso povo. Estava decidido a contar a história de Caby a partir da conversa com muitos dos seus amigos e fãs. Mas, ao ler um post no Instagram, da sua filha Alice, jornalista, e perceber uma carga muito forte de afeto, amor e cumplicidade, entendi que ali estaria um olhar muito mais interessante para esta história. Daí surgiu o interesse de fazer o filme partindo desta relação entre filha e pai.
A presença de Alice Lira Lima na construção do roteiro desloca o filme de uma biografia tradicional. Como foi trabalhar uma narrativa em que a história da cidade passa pelo olhar íntimo de uma filha?
Esdras Marchezan: Foi desafiador. Primeiro, foi muito bom poder contar com o apoio total e colaboração permanente de Alice, filha de Caby. É a partir dos materiais de suas gavetas — fotografias, filmes caseiros, conversas de WhatsApp — e de todo o afeto e amor entre ela e o pai que este filme nasce. Mas, para chegar ao caminho final do roteiro, demorou um pouco. Passei muito tempo, bem mais que um ano, pensando em formas para contar esta história de uma maneira interessante e respeitosa. Em alguns momentos, pensei que não conseguiria fechar o projeto, considerando o prazo existente, já que o filme foi contemplado em edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), operacionalizado pela Secretaria de Cultura de Mossoró. Foi quando Alice me falou sobre alguns vídeos antigos e fotografias, e também de algumas conversas de WhatsApp com o pai, que ela havia guardado, que encontrei o caminho: “vamos fazer um filme de arquivo”. Deu certo. E, tendo duas filhas — Olívia e Luísa —, este processo tornou-se ainda mais importante para mim. Contar esta história a partir de Alice é muito especial. É utilizar o cinema para escrever uma carta de amor entre ela e Caby.
Caby foi uma voz marcante do rádio mossoroense. Que Mossoró emerge no filme a partir dessa oralidade, dessa escuta cotidiana que o rádio constrói?
Esdras Marchezan: Uma Mossoró que se reconhece pelo rádio, a partir de um locutor que, ao longo de sua trajetória, tornou-se uma espécie de amigo íntimo dos ouvintes. Com peculiaridades só dele, como o chiado carioca importado, os cabelos encaracolados, os jargões que conquistavam o ouvinte, e seus indefectíveis tamancos. Mas, também, uma Mossoró de gosto musical refinado, característica marcante dos programas de rádio de Caby.
O documentário dialoga diretamente com a comunicação popular — rádio, crônica, fala pública. Como você pensou a linguagem audiovisual para traduzir essa tradição comunicacional para o cinema?
Esdras Marchezan: A partir dos elementos sonoros disponíveis, quis trazer ao público um pouco dessa imersão. Fazer a pessoa que está assistindo sentir-se um pouco ouvindo um programa de rádio. Mas, o resultado final tem um toque muito importante na criatividade e sensibilidade do Romero Oliveira, responsável pela edição e montagem do filme. Unimos o forte sentimento do relato pessoal de Alice, o saudosismo das fotografias e vídeos de Caby, e o trabalho de Romero. Daí, conseguimos ter um filme que, particularmente, acho bonito e tocante. Espero que o público também.
Diferente de “Ancestrais”, que trata de memória coletiva e ancestralidade, este filme opera numa escala mais íntima. O que essa mudança de foco provocou no seu modo de dirigir?
Esdras Marchezan: Sou um jornalista tentando aprender um pouco a contar histórias pelo caminho do audiovisual. Sou iniciante e estou em constante processo de aprendizado. Neste sentido, tenho me permitido experimentar formas, caminhos, temas, a partir de leituras e filmes que considero importantes. Gosto muito de filmes sobre pessoas, perfis. Filmes documentais. “Alô, Camaradinha” é minha primeira produção com este perfil, depois de “Longe de Casa” e “Ancestrais”, filmados em parceria com minha amiga Izaíra Thalita.
Acho que, a partir deste filme, quero filmar mais histórias assim, partindo de arquivos, memórias, deixando uma contribuição pessoal ao mosaico histórico de Mossoró, do nosso lugar.
Entre “Longe de Casa” e “Alô, Camaradinha”, o que você reconhece hoje como um deslocamento mais evidente no seu olhar como diretor — seja na forma de escutar os personagens, seja na construção do filme?
Esdras Marchezan: Gosto demais do Eduardo Coutinho. E seus filmes me apresentam caminhos muito bonitos para contar histórias. Além da carga jornalística que o Coutinho traz em suas produções, a presença dele na cena, o diálogo honesto com os personagens, tudo isso constrói um cenário que considero muito especial e digno para o cinema documentário. É por aí que busco aprender e caminhar.
Você atua há anos com educação midiática, extensão universitária e projetos audiovisuais no semiárido. Onde “Alô, Camaradinha” se insere nesse percurso entre cinema, território e formação?
Esdras Marchezan: Desde o surgimento do Cine Árido, um festival de cinema que nasce com o objetivo de colocar Mossoró, capital do semiárido, como espaço importante de debate, encontros, e janela do audiovisual da região, passei a me interessar mais pelo cinema como forma, também, de transformação social. Tudo isso diretamente ligado à extensão universitária e ao papel fundamental da universidade pública no processo formativo do cidadão. “Alô, Camaradinha” surge, também, como mais uma semente deste trabalho.
Pensando no público local, que tipo de identificação você acredita que “Alô, Camaradinha” pode provocar em Mossoró, especialmente entre quem viveu ou ouviu Caby no rádio?
Esdras Marchezan: Eu e Alice estamos planejando um momento bem bacana para o pré-lançamento do filme, em Mossoró e Natal, com o objetivo de tornar este momento um reencontro do público, ouvintes, amigos, com o saudoso Caby. É um curta, de pouco menos de 15 minutos, mas que acreditamos ter uma mensagem bonita e marcante para quem conheceu o “Camaradinha”.
Você já pode adiantar quando e onde “Alô, Camaradinha” terá seu lançamento oficial? Há previsão de exibições em Mossoró ou em outros circuitos?
Esdras Marchezan: Em Mossoró, o pré-lançamento acontecerá no dia 19 de março, às 19h, no Memorial da Resistência de Mossoró, com apoio do Banco do Nordeste Cultural de Mossoró e da Prefeitura. Em Natal, estamos definindo a data e o local. Além disso, pretendemos levar o filme a escolas, universidades, e festivais de cinema.
O que você espera que permaneça com o espectador após o filme — não como informação, mas como sensação ou memória?
Esdras Marchezan: Torço que as pessoas possam retornar para casa com o peito cheio de saudade e de certeza que a vida que importa é aquela que escolhemos viver a partir do afeto e do amor com quem queremos bem.
Com pouco menos de 15 minutos, Alô, Camaradinha propõe um reencontro entre memória pública e memória íntima. Ao transformar materiais pessoais em narrativa cinematográfica, o filme reafirma o papel do audiovisual como instrumento de preservação e partilha de histórias locais. O pré-lançamento acontece no dia 19 de março, às 19h, no Memorial da Resistência de Mossoró, com exibições previstas também em Natal, além de circulação por escolas, universidades e festivais.








