Feliz ano velho
Trump espalha conflitos e pressões imperiais; ao Brasil cabe defender soberania, alianças estratégicas e projetos de futuro.
Na madrugada de 3 de janeiro, os Estados Unidos bombardearam pontos específicos de Caracas e do estado de Arágua e sequestraram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores. Ambos estão presos em território norte-americano, sob a acusação de tráfico internacional de drogas.

Assim, Donald Trump reedita George Bush, que, há 36 anos, invadiu o Panamá e sequestrou o presidente Manuel Noriega sob a mesma acusação.
Mas Trump não quer apenas derrubar o governo: fala como se fosse dono da Venezuela. “Nós vamos administrar até que uma transição adequada possa acontecer. Portanto, vamos governar o país”, afirmou em coletiva de imprensa.
Disse ainda que governar a Venezuela terá custo zero: “Vamos levar nossas grandes empresas petrolíferas dos EUA, as maiores do mundo, para investir bilhões de dólares, consertar a infraestrutura de petróleo e começar a gerar dinheiro para o país”.
A Suprema Corte da Venezuela empossou na Presidência a vice-presidente Delcy Rodríguez, também ministra do Petróleo, que convocou ministros e a população a resistirem à ingerência dos Estados Unidos. O governo estima que mais de cem pessoas morreram no ataque — número irrelevante para os EUA.

Trump pretendia nomear um(a) presidente para a Venezuela, mas foi convencido pela CIA a negociar com Delcy. Embora chavista, ela oferece melhores condições de governabilidade do que os dissidentes venezuelanos.
CRISE NO QUINTAL
De forma coerente — ainda que à primeira vista pareça contraditória —, Trump decidiu que cabe à Europa, e não aos Estados Unidos, bancar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Em outras palavras, a Rússia é um problema europeu. Ele se dispõe a continuar fornecendo armas à Ucrânia, desde que sejam compradas pelos europeus.

Foto: EPA/Alexey Nikolsky/Sputinik/Kremlin
Os europeus também estão alarmados com a disposição de Trump em aceitar que a Rússia anexe territórios tomados à força da Ucrânia. Veem nisso um precedente grave, que põe em dúvida o compromisso dos Estados Unidos com a defesa de países membros da OTAN em caso de uma invasão russa.
Em dezembro, o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, instou os países membros a aumentarem rapidamente seus gastos militares diante da possibilidade de uma guerra com a Rússia, alertando que eles seriam “os próximos alvos do Kremlin”. Na Europa, dissemina-se uma paranoia de guerra.
Há quem diga que a postura de Trump esteja ligada a uma nova ordem mundial, baseada no princípio de que cada potência cuida do seu quintal e faz nele o que quiser. Mas a invasão da Venezuela se assemelha mais a uma tentativa de resgatar a velha ordem imperialista.
Trump entende que pode fazer quase tudo o que quiser, em qualquer lugar. Dá-se o direito de bombardear o Iêmen, a Síria, o Irã e a Nigéria. Fala em anexar a Groenlândia e o Canadá. Acaba de ameaçar Gustavo Petro, presidente da Colômbia, com o mesmo tratamento dado a Maduro.
Trump não trata a China com a mesma complacência com que assiste ao avanço da Rússia sobre o território ucraniano. Em dezembro, anunciou o maior pacote da história — 11 bilhões de dólares — em ajuda militar a Taiwan. Em seguida, a China submeteu a ilha ao maior cerco militar de sua história.
Talvez Trump considere a Rússia uma potência decadente, cabendo à Europa — também decadente — contê-la, enquanto os Estados Unidos se concentram na disputa comercial e tecnológica com a China.

Foto: Reprodução
Trump quer, sim, alargar o quintal, intervir na política interna dos países vizinhos e se apropriar dos recursos naturais que interessem aos Estados Unidos, como o petróleo da Venezuela. Mas o que mais importa é o controle das rotas do comércio global. O quintal, por si só, não sustenta a hegemonia mundial nem reverte o declínio dos EUA.
FRENTES EM EXCESSO
Só nesta semana, Trump gerou dois incidentes dentro do quintal, com fortes repercussões fora dele. Em um ato aberto de pirataria, ordenou a tomada de um navio cargueiro de bandeira russa em pleno Atlântico Norte. O motivo alegado teria sido o transporte de petróleo da Venezuela para a China, como se isso fosse ilegal. Constatou-se, porém, que não havia nem petróleo nem qualquer outra carga a bordo — um autêntico tiro n’água.

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O segundo incidente decorreu da reafirmação, por Trump, de sua intenção de anexar a Groenlândia. Ele chegou a dizer que faria isso de uma forma ou de outra, na esteira da invasão da Venezuela. Trump afirma preferir comprá-la, mas admite também a possibilidade de invadi-la.
No primeiro caso, numa patetada, provoca gravemente a Rússia e a China e cria um precedente de legitimação da pirataria, o que agrava exponencialmente o risco do comércio marítimo em geral — inclusive para os próprios Estados Unidos.
No segundo, Trump aprofundou a fissura na OTAN. A Groenlândia pertence à Dinamarca, embora tenha status de autonomia. Ainda assim, Trump fala abertamente em invadir outro país membro da aliança, cujo princípio básico estabelece que um ataque contra qualquer integrante é um ataque contra todos.

Os chefes de Estado dos países europeus membros da OTAN divulgaram uma declaração conjunta repudiando a posição de Trump sobre a Groenlândia, embora tenham se omitido diante da invasão da Venezuela. Já estavam cientes de que o apoio de Trump não seria efetivo no caso de uma invasão russa. Em escalada sem precedentes, Trump é agora o próprio agressor.
Para pressionar os dirigentes europeus, Trump anunciou um tarifaço, de 10% a 25%, sobre produtos da Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia, até que aceitem um acordo para a “compra completa e total da Groenlândia” pelos EUA.
Os europeus reagiram indignados. Até o mais cordato, Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido, afirmou que as ameaças de Trump estão “completamente erradas”. Trump já havia abalado as relações umbilicais com o Canadá, com o ímpeto de anexá-lo aos EUA.

Foto: Reprodução / X
Trump estremece as relações entre países capitalistas do Ocidente e espalha desconfiança entre aliados da Ásia e da Oceania. Saqueia a soberania política e os recursos naturais de supostos aliados, mas não concebe projetos comuns de desenvolvimento.
Assim, Trump multiplica frentes de conflito e isola os Estados Unidos. Sua retirada de dezenas de organizações internacionais é prova disso. Do outro lado do mundo, China, Rússia, Índia e outros países constroem alianças e projetos conjuntos. No Oriente, onde vive a maior parte da humanidade, opera hoje o motor da economia mundial.
RISCOS PARA O BRASIL
Num mundo cada vez mais conturbado, estar situado no Atlântico Sul, distante dos principais eixos das relações internacionais, pode dar ao Brasil um relativo conforto. Mas não estamos fora do mundo. Dependemos dessas relações para nos organizarmos como país, e o rescaldo das crises políticas e econômicas nos afeta diretamente.

Foto: Divulgação Embratur
Parece absurdo imaginar uma invasão estrangeira ao Brasil, mas não se pode subestimar os delírios imperiais de Trump. Quem invade a Venezuela, ameaça México, Canadá, Colômbia e Groenlândia, bombardeia países indiscriminadamente e se considera dono dos recursos naturais de qualquer lugar pode, sim, nos causar grandes danos.
Trump já nos sancionou diversas vezes com tarifas extorsivas e prejudiciais ao comércio global. Tentou interferir até em decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Chegou a declarar que os Estados Unidos teriam direitos históricos sobre a Base Naval de Natal e que pretendem se apossar de Fernando de Noronha para controlar as rotas comerciais do Atlântico Sul.
Nada incomoda mais Trump do que a articulação dos BRICS, que em 2025 esteve sob a presidência de Lula. A substituição do dólar como moeda de referência comercial e a venda maciça de títulos da dívida norte-americana são exemplos de ameaças à supremacia dos EUA. O Brasil é a presença dos BRICS no seu quintal.
Além disso, teremos eleições gerais neste ano, e é provável que Trump utilize sua máquina de fake news e outros meios para favorecer o candidato da extrema direita. A subserviência aos interesses norte-americanos de parte importante da direita brasileira é a nossa maior vulnerabilidade.
O governo federal vem administrando com equilíbrio a crise nas relações com os Estados Unidos e demonstra, sem arroubos, que pode ampliar outras parcerias comerciais sem ficar refém da chantagem de Trump. Interessa ao Brasil preservar as relações com os EUA e com outros parceiros. A entrada em vigor do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia é um exemplo disso.

A sagacidade política do presidente Lula será decisiva neste ano. Saber lidar com as provocações de Trump e da direita vassala, de modo que o povo compreenda que o que está em jogo é a soberania do Brasil e seus projetos de futuro, será fundamental. A dispersão agressiva de Trump e a multiplicidade de conflitos internacionais podem ajudar Lula a driblar as dificuldades da conjuntura e a conquistar a reeleição.