Adolpho Veloso, vencedor do Critics Choice, analisa a fotografia de ‘Sonhos de Trem’
Diretor de fotografia brasileiro fala sobre o processo criativo e o reconhecimento que pode culminar em uma indicação ao Oscar 2026
Por Tamara Louise
Vencedor do Critics Choice Awards de Melhor Direção de Fotografia, Adolpho Veloso vive um momento de grande visibilidade na atual temporada de prêmios. O trabalho do diretor de fotografia brasileiro em “Sonhos de Trem” tem sido apontado como uma das experiências visuais mais marcantes do ano, consolidando seu nome entre os profissionais mais comentados do circuito internacional e ampliando a repercussão de uma carreira que se construiu de forma consistente no cinema contemporâneo.
A trajetória de Adolpho Veloso se construiu no cinema independente brasileiro, onde assinou a direção de fotografia de obras como “Rodantes”, “El Perfecto David” e da minissérie “Mosquito”. Foi justamente a fluidez com que transitou entre documentário e ficção que abriu caminho para projetos em diferentes formatos, incluindo séries internacionais, curtas-metragens e videoclipes, e chamou a atenção de novos realizadores. Esse percurso diverso e consistente o levou ao encontro com o diretor Clint Bentley, com quem iniciou uma colaboração criativa a partir do longa “Jockey”.
Dirigido por Clint Bentley e inspirado na obra do escritor Denis Johnson, “Sonhos de Trem” acompanha a vida de Robert Grainier (Joel Edgerton), um lenhador do início do século XX, atravessado por perdas e transformações ao longo da vida. Embora ambientado em outra época, o filme constrói uma experiência sensorial e emocional que se conecta diretamente com o espectador, conexão que foi determinante no processo criativo de Veloso.
“É a história de um personagem que trabalha fora de casa, passa meses em outros lugares, com pessoas que ele nunca conheceu e talvez nunca veja de novo. E quando volta, é sempre difícil se reconectar com a casa e com a família. Existe uma falta de pertencimento tanto no trabalho quanto no ambiente familiar”, afirma.
Segundo o diretor de fotografia, esse sentimento de deslocamento atravessa não apenas o personagem, mas também a própria experiência de quem trabalha no cinema.
“Isso é muito parecido com a vida de um diretor de fotografia, e de cineastas em geral. A gente fica meses fora, tenta criar uma família naquele set, mas a maioria daquelas pessoas você nunca vai ver de novo. E voltar pra casa é sempre um processo difícil”, diz.
A partir dessa identificação, a construção visual do filme buscou eliminar qualquer barreira entre a narrativa e o público, mesmo se tratando de um filme de época.
“Esse foi o ponto de partida para pensar em como traduzir aquele roteiro e aquele sentimento para as imagens, e tirar qualquer obstáculo entre a história e quem está assistindo”, completa Veloso.
Filmado em apenas 29 dias, “Sonhos de Trem” teve um cronograma incomum para um filme dessa magnitude. Em projetos desse porte, normalmente o período de filmagem é mais extenso, o que levou a equipe a discutir, ainda na preparação, que cenas poderiam ou não caber dentro daquele tempo.
“Quando você coloca no papel, esse número assusta. Para um filme desses, normalmente você teria muito mais dias. A gente chegou a tentar entender que cenas cortar para caber no tempo”, afirma Adolpho Veloso.
Com o início das filmagens, o processo revelou que o alinhamento criativo entre direção, elenco e equipe técnica permitia que as cenas se expandissem de forma orgânica, mesmo dentro de um ritmo funcional. Momentos pensados inicialmente como breves ganharam novas camadas à medida que os atores começaram a interagir, abrindo espaço para o silêncio, a escuta e a experimentação.
“A primeira cena era pensada como algo muito pequeno, quase um momento breve, e ela foi crescendo enquanto a gente filmava. As ideias iam surgindo, os atores começaram a conversar e a cena se tornou muito maior do que estava previsto. Cinema também é isso: tentar coisas, buscar poesia”, completa.
A escolha por filmar majoritariamente com luz natural foi parte central da abordagem visual de “Sonhos de Trem” e também um desafio adicional dentro de um cronograma tão reduzido. Para Veloso, no entanto, essa opção está diretamente ligada à forma como aprendeu a fazer cinema, em produções de baixo orçamento, onde a escassez de recursos exigia atenção absoluta às condições reais de cada locação.
“Quando eu comecei a filmar, principalmente como diretor de fotografia, as oportunidades que eu tinha eram de baixíssimo orçamento. Às vezes a única coisa que a gente tinha era uma câmera. Então, em vez de trazer luz, era fechar uma janela, direcionar a luz que já existia, acender um abajur da própria casa e fazer aquilo funcionar. Foi assim que eu aprendi a trabalhar”, explica.
Mesmo em produções maiores, segundo ele, essa lógica permaneceu como escolha estética e ética. Em “Sonhos de Trem”, ela ajudou a criar um ambiente menos invasivo para o elenco e mais fiel à atmosfera do filme.
“Voltar para esse processo é libertador. Você cria um ambiente mais protegido, com menos equipamentos, menos gente em volta. É assustador pensar no que os atores fazem, se expor, se transformar completamente, e eu não consigo imaginar isso sendo mais fácil com um monte de luz e pessoas olhando. No fim das contas, é com eles que a gente se conecta. Estar numa cena dos anos 20, no meio da floresta, iluminada por velas, parece muito mais real do que fingir isso com um monte de luz artificial.”
Para Veloso, a dimensão internacional de sua carreira não se dissocia de suas origens. Levar o Brasil consigo e, ao mesmo tempo, se deixar atravessar por outras culturas faz parte do próprio processo criativo.
“Tudo o que eu aprendi a vida inteira e a minha cultura são 100% parte do que eu sou. Poder trazer o Brasil comigo e, ao mesmo tempo, absorver a cultura dos lugares onde eu trabalho é algo muito rico. Eu tive o privilégio de trabalhar em muitos lugares pelo mundo, e sempre tem alguma coisa para aprender e assimilar. Acho que é justamente essa junção que deixa tudo mais interessante.”
Ao falar sobre a vitória no Critics Choice Awards, Adolpho Veloso conta que não imaginava que sairia premiado. Sem expectativas, ele encarou a noite como uma celebração da experiência e dos encontros, o que tornou o anúncio ainda mais inesperado.
“Eu fui muito tranquilo, sem nervosismo nenhum, só para viver aquela noite. Quando meu nome apareceu, foi completamente surreal. Todo mundo na mesa ficou em choque, feliz, tentando entender o que estava acontecendo.”
Pouco antes, “O Agente Secreto” também havia sido anunciado, ampliando a presença do cinema brasileiro na cerimônia e transformando o momento em uma celebração coletiva.
“Quando anunciaram O Agente Secreto, eu comecei a berrar ‘vai Brasil’. Depois a gente se encontrou, se abraçou, comemorou junto. Foi muito bonito viver aquilo tudo na mesma noite.”
Sobre a possibilidade de uma indicação ao Oscar, Adolpho prefere manter os pés no chão. Estar na shortlist já representa, segundo ele, um reconhecimento valioso. “Significa que o filme está sendo visto, que o trabalho está sendo reconhecido. Isso, por si só, já é enorme”, afirma. Em um campo marcado por instabilidade e incertezas, esse retorno funciona como um sinal de continuidade. “É como receber uma mensagem dizendo que você está no caminho certo.”
“Sonhos de Trem” está disponível na Netflix. Os indicados ao Oscar serão anunciados nesta quinta-feira, dia 22 de janeiro.







