O Fantástico do último domingo (16/04/2017) foi dedicado ao “Brasil da Corrupção” e começou com um manifesto de caras indignadas de pessoas comuns, dizendo “chega, não aguento mais, chega de corrupção, chega, chega e chega”.

O que se viu, entretanto, foi uma peça de posicionamento midiático que não toca nas questões que importam e safa Michel Temer do atual momento de condenação do sistema. Obviamente o debate público é fundamental e tudo o que estiver provado e for ilegal tem que ser punido, não importa o partido nem a biografia.

O que une neste momento o pior discurso da direita e o pior discurso da esquerda é a generalização, a “fulanização”, e o discurso de salvação. Nem uma operação como a Lava Jato e nem uma só liderança podem “salvar” o Brasil, e fica cada vez mais claro as estratégias que amesquinham o debate:

1. A generalização que joga “todos” no mesmo valão, onde esses “todos” é apenas a classe política

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O valão da política é “o câncer” a ser extirpado. Empresas, mídia e judiciário são ou coadjuvantes ou sequer aparecem.

2. A Odebrecht virou o sinômimo de empresa corrupta, quando é modelo do sistema e de outras corporações

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Seu modus operandi é colocado como “exceção” e não como “modelo de negócio” do capitalismo brasileiro: financiamento ilegal dos partidos, financiamento legal para benefícios comerciais, influência direta no Congresso, lobby, superfaturamento, e bilhões em lucros. O capitalismo da depredação do comum não é questionado como sistema base da corrupção.

3. A demolição narrativa se concentra na direção das esquerdas

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Por mais que todos os envolvidos na Lava Jato sejam citados, a narrativa demonizadora se volta contra as esquerdas. Os únicos casos tornados narrativas (políticos como Aécio do PSBD e outros foram apenas citados) no “Fantástico da Corrupção” foram, o PT dos Aloprados e do desvio de cerveja, literalmente, para Caixa 2, as citações da justiça a Lula e ao PCdoB, esta de forma debochada, o partido não teria importância nem para ser comprado no esquema de corrupção, diz um delator rindo!

4. O lulismo é, por motivos distintos, o alvo da direita moralizante e da autocritica das esquerdas

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Lula se tornou a figura a ser destruída exemplarmente, como castigo para a classe política em geral e como castigo para a esquerda que errou.

5. O creme e o crime compensam no castelo “dos caras”

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A matéria sobre “como vivem, o que comem, onde moram” os delatores da Lava Jato mostra uma casta financeira que já se safou, ao colaborar com a justiça. Uma casta socialmente e pragmaticamente perdoada. Todos os delatores da Lava Jato cumpriram pena mínima, são mostrados vivendo em condomínios de luxo, casas com piscina e conformtos, com meias e tênis de marca escondendo a tornozeleira eletrônica; um “castelo de caras” da delação. Marcelo e Emílio Odebrecht tem essa tranquilidade da elite financeira que vai se safar. Os delatores corporativos não terão suas vidas e/ou seus negócios destruídos. Os capitalistas tem a benevolência social.

6. Não fale em corrupção, trabalhe como Temer!

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No meio do Fantástico sobre “O Brasil da Corrupção” foi mostrado Michel Temer trabalhando no domingo para aprovar a Reforma da Previdência que vai expropriar direitos de todos os brasileiros de uma forma escandalosa e definitiva. O tom da matéria? O governo não está parado, a Reforma vai ser votada. Temer tem pressa. As delações contra Michel Temer, seus ministros, lideranças, senadores, deputados e a República de corruptos que tirou Dilma Roussef do poder em nome da moralidade não é questionada, não faz parte da narrativa! O que está sendo negociado na República de Temer, o que vai ser perpetrado e negociado com a mídia, judiciário, corporações não é pauta do Fantástico!

7. “O Dragão da maldade contra o santo Guerreiro”

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O silêncio narrativo e a perplexidade das esquerdas deixa em cena um vazio que vem sendo ocupado por essa peça de uma moralização difusa e genérica. A Lava Jato como a solução dos problemas do Brasil! Outra narrativa nessa peleja de “O Dragão da maldade contra o santo Guerreiro”, para homenagear Glauber Rocha, traz “Lula contra a Lava Jato”, mas também parece insuficiente diante da milionária contribuição de todos os erros, acertos e contradições desses últimos anos. A questão é: Quem está “acima” das condições de possibilidade de um país ou de uma sociedade?

E, pra finalizar..

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