Grafites do Beco do Batman

Grafites do Beco do Batman

Para os amantes da arte e da história é um prazer passar os olhos pelas páginas do livro “A História do Mundo em 100 Objetos”. Organizado pelo diretor do Museu Britânico, Neil MacGregor, o livro nos presenteia com uma nova experiência a cada objeto retratado. Pego emprestado para esta reflexão a Rena Nadadora.

O objeto, entalhado na presa de um mamute, foi produzido há mais de 10 mil anos e é um exemplo irrefutável do impulso do ser humano para reproduzir sua realidade por meio da arte. Não é uma peça que tenha sido feita para uma função específica, como um machado ou uma lança, mas confeccionado como forma de expressão. É uma prova do desejo humano por uma atividade que ultrapassa o prático ou necessário.

Esse impulso passou por diversas fases e, em cada uma delas, podemos observar os hábitos, as ideias e valores, e o pensamento predominante de uma sociedade. O certo é que a arte tem sido mais do que uma inspiração, mas também um termômetro a medir os ares da democracia.

Neste sentido, é bastante representativa a força que o grafite ganhou nos últimos anos. Uma expressão popular pura. Uma arte disponível a todos que passam pelas ruas. Uma manifestação que contagia o ambiente urbano e o transforma. Um convite à reflexão sem a obrigatoriedade de pagar ingresso.

Uma explosão de criatividade e talento aberta a todos. Expressão máxima de uma cidade democrática.

A recente polêmica envolvendo a pintura de um muro no Beco do Batman, por parte do proprietário da casa, nos convida a pensar. O local é bastante procurado por pessoas que visitam São Paulo e se encantam com o trabalho dos artistas que deixaram suas marcas nos muros das casas localizadas entre as ruas Gonçalo Afonso e Medeiros de Albuquerque. O grafite apagado estava lá há anos sem incomodar o morador.

A visão de uma gestão antidemocrática, que não considera o grafite como arte e faz questão de deixar claro que uma cidade linda é uma cidade cinza, parece ter contaminado o morador que, a exemplo do prefeito de São Paulo, resolveu pintar seu muro de cinza. Um direito seu, mas revelador dos ares elitistas e antidemocráticos que tomaram conta da capital paulista a partir da posse de João Dória.

O recado é claro. A cidade não mais apoiará o trabalho desses artistas e tentará a todo custo vender esta ideia aos moradores, nublando o ambiente urbano ao estabelecer a arte como aquela voltada unicamente para o deleite e o bolso de poucos.

Afinal, considera um acinte que esses grafiteiros ousem disputar espaço em galerias com os “verdadeiros” artistas.

Meu apoio ao Sr. João quando clama por melhor infraestrutura para a rua. Maior acessibilidade, iluminação e garantia de um espaço que respeite o descanso dos moradores. Minha indignação ao ver cidadãos de bem contaminados pela visão estreita do prefeito. Pelo entendimento de que a cidade linda é a cidade de poucos. Uma cidade que é pensada de cima para baixo e não uma manifestação do cotidiano das pessoas que nela vivem.

A inocência da Rena Nadadora nos relembra um tempo em que arte não era sinônimo de lucro, mas de encantamento e necessidade de expressão. Em tempos democráticos, há que haver espaço para todas as artes. A repressão a qualquer tipo delas é sintoma de uma sociedade que, na ausência do ambiente democrático, amplia os espaços de intolerância, desrespeito e preconceito.

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