Mãe Valnizia, do Terreiro do Cobre. Foto: João Alvarez

Por Cleidiana Ramos

Conhecimento é poder. As elites econômicas do Brasil levam esta lição à risca na medida que sabotam, sob as mais variadas estratégias, o acesso à educação das populações negras e indígenas em suas várias nuances e representações. Não é à toa que ações afirmativas como as cotas de caráter étnico nas universidades brasileiras são bombardeadas em uma guerra sem fim desde que começaram a ser adotadas.

Projetos de poder autoritários e elitistas brasileiros tentam desarticular as redes de educação porque ela tem sido a âncora para as exceções que subvertem a lógica de exclusão. Os movimentos negros, por meio das suas várias faces, sempre buscaram atrelar suas demandas aos mecanismos educativos: grupos de formação, oficinas, rodas de conversa, apoio ou articulação de uma mídia independente e, nos últimos anos, incentivo para o acesso às tecnologias digitais. A professora-doutora Nilma Lino Gomes tem um livro que analisa essas estratégias: O movimento negro educador.

Ainda assim, as nossas intervenções no campo da indústria cultural, incluindo-se a mídia e a literatura, são ainda mínimas diante da nossa condição de maioria no Brasil. Daí que é sempre recompensador quando altas sacerdotisas do candomblé protagonizam ações de produção literária.

Guardiãs de um saber e fazer religioso centrados na oralidade, estas grandes senhoras das religiões de matrizes africanas também dominam as bases dos nossos códigos escritos. E com maestria transportam uma forma de fazer ciência, sobretudo a filosófica e antropológica, para os cânones literários ainda profundamente imbuídos, infelizmente, do eurocentrismo. Assim vão contribuindo para descolonizar a literatura de uma forma sutil e elegante, mas não menos poderosa.

Em 1937, por exemplo, Eugênia Anna dos Santos, conhecida como Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá enviou para o II Congresso Afro-brasileiro organizado por Edison Carneiro em Salvador, um texto sobre alimentação ritual. Mãe Aninha é autora da frase-inspiração: “Todo negro com anel no dedo deve colocá-lo aos pés de Xangô”. Em uma batalha tão árdua, foi o orixá da Justiça, que se levanta como um raio para acabar com a infâmia dos injustos, que Mãe Aninha apontou como patrono de algo que nos tempos do seu governo no Afonjá, nas primeiras décadas do século XX, parecia ainda mais distante das suas filhas e filhos de santo.

Anos mais tarde, Mãe Stella de Azevedo Santos, a quinta ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, conseguiu instalar uma escola formal na área do terreiro. A escola Eugênia Anna dos Santos é hoje referência na rede pública de ensino soteropolitano com pedagogia inovadora adotada a partir do trabalho da doutora em educação, Vanda Machado, que também é uma sacerdotisa da casa: uma ebomi, o título que se dá àquelas que conquistaram um estágio avançado na formação religiosa e por isso são também chamadas de “mais velhas”, nas comunidades de terreiro, em entendimento que transcende a idade biológica.

Abertura de caminhos

Mãe Stella de Oxóssi foi até aqui a ialorixá brasileira com o maior número de títulos literários lançados: ela produziu textos sobre o candomblé como Oxóssi, o caçador de alegrias, mas também atuou na imprensa diária. De 2011 a 2013, foi articulista do jornal A Tarde, sediado em Salvador e um dos mais antigos do Brasil, fundado em 1912. Tanto que ocupou a cadeira nº 33 da Academia de Letras da Bahia (ALB).

A posse de Mãe Stella foi uma cerimônia emocionante. O auditório estava lotado, uma sala tinha telão e ainda assim a multidão espalhou-se pelo jardim da sede da ALB. Mãe Stella também recebeu o título de doutora honoris causa das duas mais antigas universidades sediadas na Bahia – a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Estadual da Bahia (UNEB). Esta última lhe fez uma concessão para a entrega do título. Mãe Stella usou na cerimônia não a beca preta, mas na cor azul turquesa, que é associada ao seu orixá regente, protetor das matas, da biodiversidade e magia que elas comportam.

Quando Mãe Stella de Oxóssi deixou, em 2014, o posto de articulista em A Tarde foi sucedida por Mãe Valnizia Bianch. Filha do orixá Ayrá, senhor da Justiça e da Sabedoria, Mãe Valnizia é a líder do Terreiro do Cobre, onde eu tive a sorte de ser aceita para me reconectar com a minha ancestralidade. Aos 60 anos recém completados, Mãe Val, como também é chamada, assumiu a responsabilidade de continuar a tradição de uma casa que, por 50 anos, ficou fechada.

A ialorixá assumiu o Cobre aos 28 anos com a missão de reconstruir inclusive a estrutura física de um templo que perdeu 99% da área original e, que teve como uma das regentes, sua bisavó, Flaviana Bianch, conhecida como “A grande”. Iyá Flaviana foi também uma personagem importante da Bahia do início do século como indicam as referências a ela feitas por Edison Carneiro, Jorge Amado e um capítulo do livro A Cidade das Mulheres, de autoria da antropóloga Ruth Landes.

Há dez anos, quando completou 50 anos, Mãe Valnizia decidiu lançar um livro. Estava, como sempre nos lembra, disposta a escrever sua própria história e não contá-la para que alguém com título acadêmico o fizesse. E assim nasceu Resistência e Fé, sua autobiografia. Dois anos depois publicou Aprendo Ensinando, uma narrativa sobre como se dá uma relação de mútuo aprendizado no espaço de terreiro entre uma liderança e sua comunidade.

“Mãe Val e outras escritoras lideranças do candomblé, ao tomar a literatura, criam processos insubmissos em relação à natureza e a função desta enquanto arte, ciência e área de conhecimento, ao desempenharem a tarefa de explicitar trajetórias de conhecimento invisibilizados, discriminados pelo preconceito racial no Brasil. Demonstram, com a relação com a oralidade como fonte histórica, respeito pela palavra proferida, portadora de força”, destaca Isabelle Sanchez, doutora em estudos étnicos e africanos, autora da tese Onde eu me acho no direito de escrever: Reflexões sobre obras literárias de autoria de mulheres lideranças religiosas do candomblé e sua inserção na escola, defendida sob a orientação da professora América César.

Os dois livros de Mãe Valnizia foram viabilizados com recursos levantados em sistema de mutirão com a participação de pessoas do terreiro e uma rede de apoio externa. Chegamos, portanto, a uma questão-chave sobre a ocupação de espaço na indústria cultural por mulheres negras: a estrada mais viável é recorrer a redes de solidariedade. Editais públicos aparecem, agora cada vez menos, mas várias barreiras alimentam a exclusão neste campo – regras complexas, exigências burocráticas, geralmente inacessíveis de resolução pelas comunidades religiosas, dentre outras.

Daí que se a trajetória das nossas e nossos é feita para desbravar caminhos que nos parecem fechados, neste 2019, que é tão especial para Mãe Valnizia e sua comunidade religiosa, decidimos invadir o campo das novas possibilidades digitais. Com a ajuda de dois amigos da publicidade, Vítor Paranhos, da agência Ative, e Mirtes Santa Rosa nos lançamos no campo do crowdfunding. Criamos uma campanha para arrecadação dos fundos necessários para publicar o livro Reflexões – Escritas de Mãe Valnizia Bianch, uma coletânea com seus artigos. Neles, Mãe Valnizia apresenta, por meio de uma narrativa fluida e muito próxima da etnografia, as reminiscências do que viveu e vive no Engenho Velho da Federação, um dos quilombos urbanos de Salvador e que é a sua casa desde que nasceu.

As narrativas nos levam a natais embalados pelo cheiro de folhas de pitanga que enfeitavam as casas até a descrição de uma receita de molho nagô para acompanhar o xaréu que o pessoal do bairro ganhava dos pescadores do Rio Vermelho em dia de puxada de rede. Nas narrativas de Mãe Valnizia o passado se mistura ao presente e também ao futuro nas lições que ela continua passando às gerações que se renovam sob a sua liderança no Terreiro do Cobre.

Este projeto é a defesa de um legado que tem Mãe Valnizia como protagonista mas que é a continuidade também daquelas que não usaram a escrita, mas abasteceram tantas outras: Olga de Alaketo que ganhou a assinatura póstuma no livro A comida de Santo numa casa de Queto da Bahia, obra organizada pelo antropólogo-referência Vivaldo da Costa Lima e Doné Ruinhó, do Bogum, que morreu um dia após, já centenária, conceder uma entrevista para Nelson Pereira dos Santos. Desbravar caminhos e mostrar um trânsito seguro e rico entre dois códigos – o da oralidade e o da escrita – é mais uma das lições de resistência nesta tradição das grandes senhoras dos terreiros do candomblé baiano.

Quem quiser conhecer o projeto e colaborar com ele é só clicar no link: https://www.catarse.me/reflexoesmaeval

Cleidiana Ramos é doutora em antropologia, professora visitante no Campus XIV da Uneb (Conceição do Coité), professora na Faculdade 2 de Julho em Salvador e publisher do projeto Flor de Dendê.

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