Toninho Geraes: “Sou a favor do grito de liberdade contra essa tirania que assola o país”

Toninho Geraes: “Sou a favor do grito de liberdade contra essa tirania que assola o país”

Foto: Marcelo Costa Braga

Por Eduardo Sá

Mineiro de alma carioca, Toninho Geraes tem mais de 250 sambas gravados. Aos 57 anos, tem parcerias com muitos dos bambas e suas composições foram eternizadas nas vozes de artistas do quilate de Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e Martinho da Vila, dentre outros. Está entre os grandes compositores deste gênero musical. Canta em todas as casas de shows da cidade e vive com a agenda lotada percorrendo o país.

Hoje, sexta-feira (13/09), ele lança nas plataformas digitais o primeiro dos três discos do seu último DVD: Tudo que sou. Fragmentos (clique aqui) antecederá os outros dois volumes, Africanidade e Caciqueando. O evento amanhã, sábado (14/09), contará com a participação do Moacyr Luz e o Samba do Trabalhador, na quadra da Portela. Toninho tem estudado também a possibilidade de gravar um Afro Samba, buscando elementos do jazz para dentro do samba, algo próximo da Bossa Nova, mas ainda está ensaiando este novo estilo com seu parceiro Chico Alves.

Na entrevista à NINJA, ele revela suas inquietações frente ao cenário político e cultural no país. Segundo ele, é preciso enfrentar o atual obscurantismo e a classe artística tem um papel importante a exercer neste sentido. Fala também sobre a nova geração do samba e a polêmica em torno da sua música Mulheres, consagrada na voz de Martinho da Vila, que foi reinterpretada pelas novas compositoras do samba e se tornou um hino feminista.

Ao invés de resgatar as raízes, gostaria que você falasse sobre o cenário atual do samba.

Não está muito diferente do que via há 30 anos: é o samba sem espaço na mídia e fazendo acontecer nas rodas. Tivemos um momento talvez no final da década de 80 e início de 90, que aqui no Rio pelo menos tinha a Rádio Tropical e outras AM que faziam umas coisas pelo samba. Isso foi se perdendo e hoje o samba se refaz e se constrói dentro da periferia ou até mesmo na zona sul, mas com o mesmo instrumento: o boca a boca.

Já vi você comentando sobre a diferenciação do samba de raiz pro pagode, e dentro do próprio samba que é considerado mais tradicional tem algumas variações. Como você vê isso?

Tem uma diferença gritante, porque o pagode usa os instrumentos do samba mas não a mesma poesia, melodia e harmonia. Posso chegar num bar e ver os caras cantando Élton Medeiros, mas pelo jeito dá pra ver que não são do samba tradicional. Aprenderam a cantá-lo, mas não a interpretá-lo: o sentimento é diferente. No sertanejo há uns 20 anos você identificava quem era Chitãozinho e Xororó, hoje não consegue mais. Forçam demais e fica tudo igual, as temáticas são as mesmas.

Quando o Bolsonaro foi eleito, acordei no dia seguinte como se tivesse acabado de enterrar minha mãe, e a minha mulher tinha visto uma foto do grupo Molejo com o presidente. Nos comentários muita gente estava falando: como vocês do samba estão apoiando o Bolsonaro? Não acho que Molejo seja samba, mas cada um tem sua opinião, se acha que é, beleza. Os bolsominions vieram para cima, nunca fui tão ofendido na minha vida. Imagina, se eu acho que Legião Urbana é pop vem uma turma do rock me detonando. Cara, é só uma opinião. Já estive com o Anderson em rodas e ele conhece samba até melhor que eu, mas optou por caminhar nesse segmento. Zeca Pagodinho, por exemplo, canta samba, mas Exaltasamba canta pagode.

Foto: Marcelo Costa Braga

Tem surgido muitos novos e novas compositoras, você tem acompanhado?

Tem um pessoal chegando, mas como viajo muito não consigo ficar tão atento às músicas novas. Tem esse samba da Mangueira, por exemplo, com a Manu da Cuíca e o Tomaz Miranda, que é um cara que já está há mais tempo. Tem também o DiCaprio, que tem um samba interessante, o João Martins, Inácio Rios, Mosquito, etc. Uma rapaziada que está chegando com uma proposta boa e tem muito a evoluir, embora ache que também tenho muito a evoluir. De dez em dez anos olho para trás e acho que posso ser melhor. Então estão chegando bem, só falta mais mulheres tocando no palco. Mas isso não é só no samba não, no rock e outros estilos também.

Pelo contrário, tem muita mulher chegando, inclusive grupos só delas, até refizeram sua clássica música Mulheres que virou um hino por aí…

Todo movimento é bem vindo, principalmente das mulheres, que são assassinadas porque o feminicídio no país tem crescido devido a várias questões sociais e ao discurso de ódio dos governantes. Mas penso que as meninas não foram felizes, faltou um pouco de sensibilidade para antes de classificar a música como machista analisar a letra.

Quando me ligaram pedindo autorização para a Gabi Amarantos gravar, disse: por que vocês escolheram a minha música para fazer esse desabafo? Ela não é machista, era uma leitura da minha relação com as minhas ex-mulheres. No final coloquei: você é a mulher da minha vida a minha vontade! Percebi que tinha um machismo, daí mudei para você é o sol da minha vida. Não tem gênero nenhum: pode ser uma mulher cantando para outra, uma mulher para um homem, um homem para um homem, etc. Ou seja, como que uma música que prestigia todos os gêneros pode ser machista? Então, as meninas foram infelizes e não perceberam isso.

Tem muitas mulheres chegando, inclusive você citou a Manu da Cuíca, não só intérpretes, grupos delas tocando e muito mais.

Às vezes o pessoal fala que no nosso meio só tem pontinho potinho pontinho, mas você já viveu no meio dos advogados, contabilistas, bancários? Em todos os setores tem, o machismo está em todo lugar. Nos outros segmentos de música também tem pouca mulher, então acho maior barato as mulheres estarem cantando mas têm que estar tocando também. Você pode questionar que não tem nenhuma mulher na minha banda, mas tem a Juhssara e a Alê Maria no coro. Foi algo natural devido às minhas parcerias com amigos.

Esse movimento grande tá vindo com qualidade e somando?

Acho que as mulheres estão cantando mais dentro do samba. Para tocar é preciso ter uma linhagem mais consolidada, que está chegando com uma pegada mais forte. Mas como já é tradição, as mulheres cantam muito mais que os homens. Tem muito músico que estudou muito, a questão é que muitas delas estão chegando agora e precisa de tempo para se aprofundar no instrumento. As meninas estão tocando e evoluindo bem na questão da teoria musical. Adoro ver, por exemplo, a Roberta Nistra tocando cavaquinho. No violão de seis cordas tem a Ana Costa, que amo cantando e tocando, já no pandeiro tem um monte tocando bem pra caramba, como a Jéssica Araújo. Então elas estão chegando com força, mas o forte da mulher no samba ainda é cantar, inclusive melhor que os homens.

Você já falou por aí que tem feito composições no silêncio direto no papel. Queria que você falasse mais sobre método de criação.

Compor é como garimpar, você vai ao rio, começa a entender um pouco o que ele é. Quando fiz a minha primeira achei que era a melhor de todas, hoje não consigo nem mostrar. Então para garimpar você precisa entender o curso da água, o que significa você bateiar. E começar a dividir experiências com os parceiros do seu nível, e na medida em que vai evoluindo você vai atraindo parceiros que até então seria inimaginável fazer parceria.

Por exemplo o Nelson Rufino, a primeira música que cantei no microfone foi um Samba Vazio, que o Roberto Ribeiro gravou dele. Jamais imaginaria que ele seria meu parceiro, nós compusemos vários sambas sendo que quatro deles viraram sucesso. É não parar de compor, hoje com o advento da internet você pode alcançar o seu público de uma forma muito espontânea.

Tinha uma tradição histórica de gravadora, mas os novos artistas estão explorando muito as novas ferramentas. Qual a sua opinião sobre esse novo mercado?

Eu saí um pouco das cavernas né, então não entendo muito mas tento dentro da minha inquietação. Se você não entender o mínimo não consegue nada, a comunicação mudou e a internet chegou para mudar tudo. Até nas profissões, você vê hoje um taxista com os aplicativos, então o músico precisa entender o mínimo para trabalhar. Dialogo com pessoas que entendem, pergunto bastante, trabalho com pessoas que dominam, mas é complicado. Mas no geral acho melhor hoje.

Fiz uma parceria com meu amigo Chico Alves e o Paulinho Resende e hoje de casa bebo meu vinho ou minha cachaça, e a gente vai tocando e compondo como se tivéssemos um olhando o outro. Vamos trocando, mexendo nas palavras. A internet ajuda em muita coisa, tive muita dificuldade e resisti muito, mas uso owhatsapp falado porque é muito mais dinâmico.

Numa entrevista você fala que compôs no zap com o Moacyr Luz, que é um cara mais velho também.

Fiz várias com ele, e é o maior barato compor pelo whatsapp. Posso cansar do parceiro, ir tomar um banho, voltar e continuar o papo. No botequim não tem essas coisas, dar uma ração pro cachorro, você está em casa e um espera o outro no seu tempo. Vira a madrugada, dormi e acordei, o parceiro mandou outro pedaço, é outra dinâmica: uma coisa muito mais rápida.

Foto: Marcelo Costa Braga

Quais são as temáticas que mais te encantam?

Eu e o Moacyr compusemos um samba chamado A cara do Brasil, que representa aquele brasileiro que está meio perdido e não sabe pra onde ir. Ele foi de tudo, de esquerda, direita, não sabe mais de qual lado é, a cara do Brasil, influenciado pela mídia, pelo amigo. Já foi vidraça e agora é pedra, e vice-versa. Mas tenho Devastação, que é um tema muito atual. Já esperava isso do atual governo, porque antes da eleição ele já tirava foto com os caçadores, tudo que ele prometeu está sendo feito. É muito triste, sabia que seria trágico mas não tão descarado.

O artista deve se envolver na política ou falar sobre isso nas músicas?

É direito de cada um, o Paulinho da Viola do ponto de vista artístico não ficou nem menos nem mais importante porque não fala de política. Tem o Chico e o Caetano que estão sempre botando a cara para bater, até acho que podem ser considerados mais brasileiros ou patrióticos que o Paulinho, mas ele tem o direito de ficar na dele. Prefiro errar por ter uma opinião, não dar uma de Roberto Carlos, por exemplo, que nunca se meteu desde o tempo da ditadura. É um artista com um puta alcance e podia estar se manifestando. Mas o artista tem que fazer o que está na alma, a minha é de inquietação, revolta, uma pessoa constrangida e atacada.

Tem essa coisa de estereótipos também né, que acaba influindo no seu público e mercado.

Já aconteceu comigo de dar uma declaração no Facebook e aparecer comentário de deixar de me seguir, que antes me admirava. Será que tá legal ter admiração dessa pessoa por ela pensar desta forma? Aí você liga o “foda-se”. Se ver a sua agenda de show caindo, será que não tenho o poder de fogo ainda ou uma situação financeira privilegiada para falar o que penso? O artista chegando tem essa insegurança, já apanhei muito por dar minha opinião porque sou de esquerda declarado. Tenho amigos de direita e nem por isso deixaram de ser meus amigos, mas com esse tempo de intolerância e de ataques fulminantes da internet me afastei um pouquinho.

Em relação ao mercado, quem olha de fora acha que você tem uma carreira consolidada. Você se sente numa situação financeira confortável enquanto músico profissional?

Viver de música é muito difícil, assim como um professor, que estuda muito também. Nossa profissão é como jogar futebol, tem uns que conseguem ser um Neymar e outros não. Passei por muita coisa nessa vida para construir um pouco para chamar de meu, então não é tão fácil cantar vitória porque se não continuar trabalhando minhas contas não fecham. Talvez me sinta um privilegiado, mas quando olho toda a minha luta, ter passado pelo que passei para chegar onde cheguei, é muito. Hoje sou compositor, que rala pra caramba, está nos palcos toda semana, viaja, pega avião e ônibus, dirige, pega carona.

A gente faz de tudo para os shows, mas felizes são aqueles que trabalham. Sem trabalho não tem honra. Se olhar do ponto de vista de quem está chegando, o negócio é acreditar no seu barato, não ir em modismo nem efeito dominó. Seja você, acredito que eu esteja dando certo mas o meu padrão de vida é comer e beber o que quero na hora que quero, no lugar que quero, esse é meu grande barato.

Como você vê o tratamento da mídia em relação ao samba tradicional e à cultura popular?

O samba está sempre esquecido, é o gênero que às vezes os caras precisam fazer um filme e não sei o quê vai ter um samba e botam. Hoje na favela tem funk, que é o grito legítimo do favelado. Embora não seja brasileiro genuíno, tem toda a sua estrutura norte-americana, mas é através deste tipo de música que eles podem gritar e falar da verdade e cotidiano deles. O samba cumpria este papel lá atrás, o Candeia tinha uma música que dizia: os blacks de hoje serão os sambistas de amanhã, se referindo aos black power. A linguagem da negritude através de outro tipo de música, ele já percebia algum tipo de movimento que estava vindo e antecedeu o funk.

Foto: Marcelo Costa Braga

Em relação à negritude, você evoca em algumas letras a questão da religiosidade. Existe até hoje a ligação dela com o samba?

É o afro né, que se manifesta desde Tia Ciata ali pela Praça Onze. Os baianos chegavam e traziam essa influência para dentro do samba, que ficou por muito tempo sendo o gênero que falava deste tema, das etnias, da africanidade, o povo banto. Tudo isso o samba trouxe desde a época do Estácio, nasceu ali na época de Ismael Silva e tinha essa africanidade forte demais, isso se perdeu um pouco mas depende de onde também.

Se você pega o pagode, por exemplo, hoje ele canta o amor, relacionamento e um pouco do cotidiano, mas o samba ainda traz inclusive nos novos compositores. Sempre tem algo que remete ao sincretismo africano, essa questão mística dentro do samba. O Roque Ferreira foi um grande gênio e incentivador disso, porque quando a coisa estava morrendo ele trouxe músicas maravilhosas. Tenho o privilégio de ser seu parceiro até hoje, e isso é uma coisa que faço também com o Moacyr Luz e o Chico Alves.

O Brasil é um país racista?

Muito! Nessa semana passei por uma banca e tinha uma propaganda institucional da prefeitura dizendo caçamba livre, referente à retirada de entulho, e você via uma mão branca segurando um celular e dentro um negro gari. O Lázaro Ramos e a Thaís têm uma bandeira muito linda, de que o sistema não tem que ser só eles. Se recusam a pegar papeis de empregado, mas tem aqueles que ainda estão chegando não têm muito como não aceitar o trabalho.

Como você tem avaliado o cenário político nacional na questão da cultura?

A cultura tem sofrido de forma devastadora em todos os aspectos, a perseguição a pessoas que têm opinião nunca esteve tão presente. Nem mesmo na época da ditadura, porque lá você sabia quem era o inimigo. Hoje eles estão aí escondidos e se você tem uma opinião e quer expressá-la começa a perder espaço, mas você não sabe de onde vem essa máquina que quer te travar. Hoje o cinema e o teatro, que precisavam tanto dos incentivos, estão sendo podados. Acho que a cultura de um modo geral, porque o governo atual já faz um discurso muito escancarado que é anticultura. Realmente o momento é muito difícil.

Você já se envolveu com política nalgum momento da sua vida?

Lá em Minas na época da fundação do PT era próximo a uma família muito ligada à política, mas era muito novo e não me interessava muito. Quando vim de Minas não tinha interesse, estava com o meu parceiro no ônibus e tinha um vereador do PCdoB dentro, o Edson Santos, daí fui lá conversar com ele. A minha luta é contra os empresários dos ônibus e a favor das pessoas usuárias, se eu andar de carro não verei o que está errado, então para defender uma questão tenho que estar participando de perto, me disse ele. Gostei muito e passei a ser militante do PT, não diretamente do partido.

Comecei a me interessar em política, meu amigo me emprestou uns livros, e quando me vi estava apaixonado por política dentro do movimento de esquerda. Fui filiado ao PDT no tempo de Leonel Brizola, mas com um coração dentro do PT. Mas quando o PT fez sua primeira coligação com o PMDB vi que estavam vendendo a alma. Daí comecei a conhecer o pessoal do movimento negro, dando apoio de longe. Conheci o pessoal da Juventude Rebelião, me chamavam pra cantar em todas as suas festas para arrecadar fundo para as viagens. Ali comecei a conhecer o MST e dar apoio, comecei a ter esta postura de alguém de esquerda. Pensei em me candidatar, mas acho que faço mais dentro do samba que no parlamento. Porque ser sambista já é ser político, e lá vou ficar engessado.

A Marina Iris, da nova geração, é filiada ao PSOL, mas é uma exceção porque é raro sambista se envolver nesse meio, não?

Sou filiado ao PSOL, quem escreveu o prefácio do meu livro O compositor brasileiro foi o Chico Alencar, sou amigo do Eliomar Coelho, todos eles são muito bons. Mas essa coisa de se filiar talvez seja porque os partidos não vão atrás dos artistas, né? Perguntar o que acham sobre essas coisas, se quer fazer parte disso. Acho que o partido também poderia estreitar isso.

Como você vê nosso país e a sociedade hoje?

Acho que ser militante de internet é mole, tem que ir pra fila do gás, pra frente das bombas de borracha, como já tomei duas na Lapa. Tem que estar ligado e bater de frente, já até passou da hora. Sou a favor do grito de liberdade contra essa tirania que hoje assola o país, os neopentecostais em nome de Deus matando, roubando e fazendo as coisas como fez Hitler, Mussolini e Pinochet em nome de Deus. Com todo respeito às pessoas religiosas de igrejas evangélicas sérias, as pessoas estão sendo sufocadas pelos neopentecostais que têm milicianos no meio aprendendo a bíblia para dominar esse povo sofrido. As pessoas não estão percebendo que no Congresso Nacional hoje quase a metade é de neopentecostais.

Tem também as queimadas, todo um pacto com a bancada ruralista, o agronegócio que já não está gostando tanto das merdas que o governo está fazendo. Sabem que vão perder espaço, o desastre está sendo maior do que aqueles que apoiam esse governo imaginaram.

Foto: Marcelo Costa Braga

Você pegou alguns resquícios da ditadura na abertura, tem alguma preocupação disso voltar?

Estamos vivendo uma ditadura, mas sem pau de arara. É uma ditadura que mata nas favelas e nas ruas, uma das PMs que mais mata no mundo. Os anos de chumbo voltaram de uma forma diferente, mais oficializada e institucionalizada. Agora o preto correr é tiro, bala, tem muita gente morrendo. A PM do Rio de Janeiro matou só neste ano mais de 900 pessoas. Morre também, mas quantos deles quando apreendem um fuzil não vendem para ganhar dinheiro? Não tem como a bala não voltar contra eles. Mas não é só este aspecto, temos uma polícia despreparada, que ganha pouco, não é protegida, instruída ou educada. Ela é utilizada como ferramenta de opressão, pobre matando pobre.

Não há nada acontecendo de bom, não há nenhum sinal de transformação deste cenário?

A Juventude Rebelião é um movimento de esquerda que se organiza de forma clandestina, faz política de conscientização dentro da classe estudantil. O Movimento Sem Terra, que é marginalizado por todos os donos de rádio e televisão, que também são os donos de muitas destas terras que eles ocupam. O MST não tem televisão e jornal para dizer que aquilo tudo ali é um circo, porque uma terra improdutiva tem que ser ocupada.

A mídia tem todos os instrumentos para fazer uma mentira virar verdade, e uma verdade virar mentira. Esses donos dos telejornais estão interessados em destruir um movimento que para mim é legítimo e nacionalista demais. É o maior movimento que existe, é atacado sistematicamente como os direitos humanos. Esses jornalistas sensacionalistas ficam dizendo “cadê agora os direitos humanos?”, como se fossem defesa de bandido. Não falam sobre esse tratado feito diante do mundo, eles destroem a imagem. Então o Brasil que a gente vê é isso aí.

Glenn Greenwald: “A diferença entre nós e a grande mídia é a mentalidade deles”

Glenn Greenwald: “A diferença entre nós e a grande mídia é a mentalidade deles”

Glenn Greenwald em sessão no Congresso Nacional. Foto: Mídia NINJA

Entrevista de Glenn Greenwald a Juan Manuel Domínguez
Transcrição: Gustavo Conde

O Brasil tem o privilégio de contar entre seu repertório de jornalistas atuantes com Glenn Greenwald, ganhador de um Pulitzer e um dos jornalistas mais influentes, em sentido global, desse momento. Nessa primeira semana de setembro foi convidado para realizar uma entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura. Grande parte dos que assistimos ao programa ficamos abalados ante tamanha falta de responsabilidade e profissionalismo. Como dito por Mauricio Stycer, do UOL, “a entrevista de Glenn Greenwald no Roda Viva nesta segunda-feira (02) foi muito frustrante para quem tinha interesse em entender melhor o impacto e os desdobramentos do furo de reportagem do site The Intercept Brasil. O programa rumou em outra direção, mais técnica, sobre os bastidores da série que ficou conhecida como Vaza Jato”.

Esses questionamentos técnicos, éticos e quase morais que Glenn teve que rebater deixaram a sensação da entrevista ser bastante hipócrita. Muitos desses jornalistas que pertencem ao jornalismo corporativo e hegemônico nunca questionam sobre o papel mesquinho e o modus operandi que favorece os interesses de elites e coloca a população contra setores vulneráveis e marginalizados.

Outro grande questionamento a essa entrevista é a precariedade das temáticas tratadas. O que também acredito que é uma discussão necessária para se fazer dentro do jornalismo: essa necessidade de moldar a linha editorial ao mainstream do momento e não tentar abrir-se para outros temas e ampliar, assim, a informação que colocamos à disposição do público consumidor.

Decidi então aproveitar essa oportunidade para me aprofundar nessa figura tão importante, divisora de águas aqui no Brasil, e conhecer sobre suas influencias, sua visão sobre jornalismo, sua amizade com a Marielle Franco e para ler um pouco de geopolítica. Confira a entrevista na íntegra:

Grande parte do jornalismo considerado independente se sentiu um pouco insatisfeito com a entrevista que a Roda Viva fez com você. Qual é sua avaliação disto?

Foi interessante porque jornalisticamente eu sou uma pessoa que faz uma crítica muito feroz, muito dura da mídia, não só aqui, mas também nos EUA, no Reino Unido. Muitas vezes, durante a reportagem do Snowden, eu denunciei fortemente as entrevistas que jornalistas fizeram comigo.

Mas para ser totalmente honesto, depois dessa entrevista no Roda Viva, minha reação não era tão crítica. Obviamente, eu preferiria que nós conseguíssemos discutir mais as revelações que nós estamos reportando e o conteúdo das denúncias que estamos fazendo. Mas, por outro lado, acho que tem muitas pessoas que já conhecem as denúncias. Eu também tive muita oportunidade de discutir as revelações.

É a mesma coisa no caso do Snowden: eu sempre achei que uma grande parte do trabalho que estávamos fazendo não era só sobre as revelações jornalísticas de espionagem e privacidade – e também no caso de Sergio Moro e a Força Tarefa da Lava Jato – mas questões um pouco maiores do que isso.

Por exemplo, o que é uma imprensa livre e como os jornalistas funcionam numa democracia e qual o papel desses jornalistas, quais são as obrigações e os direitos dos jornalistas e qual é a diferença entre a grande mídia no Brasil e os jornalistas independentes.

E esse debate que nós conseguimos discutir muito tempo no Roda Viva, para ser honesto, acho que é bem importante. Eu estava muito feliz com a oportunidade em discutir isso e responder para as críticas que pessoas estavam fazendo nos últimos 3 meses. Então, eu não estava tão zangado como a internet com as pessoas que estavam me entrevistando, mas eu entendo perfeitamente as críticas também.

No ano de 2008, o presidente Lula anuncia a exploração do Pré-Sal. Segundo ele, essa descoberta permitia ao Brasil estabelecer um diálogo de igual a igual com as nações mais importantes do mundo. Curiosamente nesse mesmo ano, os Estados Unidos reativam a Quarta Frota, ou Fourth Fleet, encarregada de vigiar os mares do Caribe e da América do Sul. Essa frota tinha sido dissolvida em 1950, após a finalização da Segunda Guerra Mundial. Lula reage fazendo um acordo com a França (com Sarkozy) para a construção em parceria de um submarino nuclear que vai ser o encarregado de proteger as riquezas recentemente descobertas. Uma das empresas encarregadas da construção desse submarino é a Odebrecht. Em 2013, você vai denunciar, junto a John Snowden, a espionagem que o governo dos Estados Unidos fazia do governo da Dilma e do particular interesse que eles tinham na Petrobrás. Nesse mesmo ano se iniciam os protestos massivos no Brasil, organizados na sua maioria por grupos com discurso neoliberal, e logo sairia à luz a operação “Lava Jato” que conseguiu, entre outras coisas: desprestigiar a Petrobrás e a Odebrecht e criminalizar o Partido dos Trabalhadores e as políticas protecionistas. Hoje, o Bolsonaro parece ter o capital político suficiente para finalmente entregar o Pré-Sal para a exploração privada. Com a reportagem “Vaza Jato”, você tem informação suficiente para fazer essa ligação entre a operação Lava-Jato e a descoberta do Pré-Sal em 2006?

Primeiramente, só como uma regra mais ou menos absoluta, eu não posso discutir ou falar mais sobre o conteúdo no arquivo que ainda não reportamos ou divulgamos porque, muitas vezes, isso não é responsável. A gente pode errar muito facilmente se falamos sobre um conteúdo que ainda não passou pelo processo jornalístico e editorial.

Mas eu vou falar o seguinte: eu entrevistei a ex-presidente Dilma em 2016, a primeira entrevista depois que a Câmara votou a favor do impeachment dela. Eu perguntei a ela exatamente isso, se ela achou que foi os EUA que estavam planejando o impeachment. Ela me disse que não achava isso, ela achava que a causa principal era a doméstica, que são “desenhadas” pelos inimigos domésticos do Partido dos Trabalhadores.

Mas também não existe alguma coisa que aconteça dentro de um país como o Brasil nesta região sem, pelo menos, o conhecimento e a aprovação dos EUA. Por exemplo, o golpe em 1964 foi construído sim, foi desenhado sim, foi implementado sim pelos EUA.

Eu acho que, sinceramente, o PT, o presidente Lula e a presidente Dilma não incomodaram tanto o governo dos EUA durante o governo Obama como o governo em 1964 estava incomodando o governo dos EUA. Mas, obviamente, o governo dos EUA sempre prefere partidos à direita que vão ser mais “capitalistas”, que vão fazer menos pelos pobres do país, que vão fazer mais pelos mercados internacionais, financeiros internacionais.

Então, eu acho que, se os EUA não lideraram o impeachment de Dilma, com certeza eles tinham conhecimento, aprovaram e deram o sinal verde para sua execução.

Nós conseguimos revelar naquela época, por exemplo, que lideres do PSDB no Senado estavam viajando para os EUA durante a votação, obviamente para discutir isso.

Então, é a mesma coisa com a Lava Jato. Eu não acho que os EUA eram líder do processo da Lava Jato, mas com certeza estavam envolvidos. Obviamente, nós sabemos, como você disse, que eles tinham muito interesse na Petrobras. Eles negociaram muito com Deltan Dallagnol e os procuradores da Lava Jato sobre como eles poderiam receber bilhões de reais da Odebrecht, da Petrobras, que é o dinheiro do povo brasileiro. Portanto, acho que tem muito envolvimento dos EUA em quase tudo de importância que acontece aqui no Brasil.

A reportagem Vaza Jato abriu a porta para uma grande polêmica sobre ética jornalística, embora pareça que o problema real é que a reportagem incomoda os interesses de um establishment do jornalismo e de um setor particular da sociedade brasileira. Como você avalia essa agitação?

Na realidade, esse debate sobre ética jornalística não me interessa muito porque acho que não é um debate. Para qualquer jornalista de verdade, essa questão de que ‘quando você é um jornalista e você recebe informação que é obviamente relevante para assuntos públicos sobre políticos poderosos e você sabe que essa informação é autêntica e genuína’, essa questão não existe, a saber, se nós devemos divulgar, revelar e denunciar essa informação ou não.

Não existe um debate assim para jornalistas. O papel dos jornalistas é muito simples: é revelar, divulgar e publicar informação do interesse público independentemente de como o repórter conseguiu receber essa informação.

Obviamente, o jornalista não tem o direito de cometer um crime. Para obter informação, eu não tenho o direito, por exemplo, de invadir escritório do Sergio Moro ou grampear as conversas do Deltan Dallagnol sem permissão. Isso é um crime para mim como para qualquer outro cidadão. Obviamente, eu não fiz nada assim, ninguém acha que eu tenha feito alguma coisa assim.

Mas quando eu recebo informação de interesse público, independentemente de como a fonte obteve essa informação, na forma lícita ou cometendo um crime, não tem importância nenhuma, é uma obrigação de publicar todas as informações até o final exatamente como eu estou fazendo.

Para ser honesto, eu não consigo acreditar que um debate exista entre jornalistas sobre essa questão. Eu não entendo como a gente pode chamar a si mesmo de jornalista e depois questionar se um jornalista deveria publicar informação de interesse público. Para mim, é como ser médico e questionar um outro médico: ‘por que você está tratando essa pessoa doente?’.

A resposta é óbvia: é porque médicos tratam pessoas doentes. Para mim é a mesma coisa. Quando um jornalista me pergunta ‘como você pôde publicar?’, minha resposta é ‘como você não pôde publicar?’. Estou publicando porque isso é jornalismo e jornalistas publicam, simplesmente isso.

Sim, parece que na real o que incomoda é a visibilidade de outras mídias que não pertencem ao establishment do jornalismo.

É exatamente isso. Você pode olhar, por exemplo, para o programa Roda Viva ou para outros jornalistas criticando o programa por isso. Ora, eu acho que isso é muito benéfico, acho que é a diferença entre nós e a grande mídia, a velha mídia é a mentalidade deles. Essa diferença é muito grande e deve ser mostrada. É exatamente isso que eu quero fazer e por causa disso eu gostei muito daquele programa.

Em 2013, durante uma onda de protestos, aparece no cenário jornalístico a Mídia Ninja, que deu voz aos manifestantes, fez uma cobertura ao vivo inédita e quebrou o paradigma de estigmatização dos reclames populares. Você acha que isto contribuiu de alguma forma na democratização da formação de opinião publica?

É importante lembrar que quando a internet foi criada ou, pelo menos, quando ela se tornou popular na sociedade, e talvez eu tenha idade para lembrar disso e alguns de vocês não… Hoje não tem mais pessoas tão empolgadas, tão animadas com a internet porque a principal promessa era que a internet iria eliminar a necessidade de se ter a grande mídia controlada por grandes empresas para comunicar com outros cidadão e vai ser muito mais fácil para disseminar ideias para comunicar com nossos cidadãos e vizinhos para organizar sem necessidade de ter uma equipe muito grande, muita cara, e eu acho que finalmente isso está acontecendo.

Na realidade, está acontecendo mais devagar, mais lentamente aqui no Brasil do que em outros países como, por exemplo, os EUA e também na Europa, porque a desigualdade aqui no Brasil está impedindo o crescimento da mídia independente.

Nos EUA e na Europa, é muito mais fácil para ser financiado mesmo como mídia independente. Então, tem muito mais veículos independentes lá do que aqui no Brasil, onde infelizmente o Globo, a Veja e o Estadão ainda têm muito poder.

Mas eu acho que tudo está mudando. A Mídia Ninja conseguiu construir uma audiência muito forte, tem um impacto grande. Então, agora, quando temos um protesto político, não estamos só vendo “uma pessoa” que a Globo quer mostrar iniciando um tumulto, usando violência, para desacreditar o protesto.

Nós podemos ver o protesto na realidade, pessoas com reclamações válidas, trabalhadores que foram maltratados. Então, essa informação que anos atrás foi quase censurada, a gente nunca ouviu e agora todo mundo está ouvindo por causa de sites como Mídia Ninja.

A minha perspectiva mudou muito durante o debate do impeachment de Dilma quando fiquei chocado com o fato de ver a grande mídia quase sem pluralidade de opinião, quase sem dissidência. A dissidência foi quase totalmente proibida, havia uma unanimidade a favor do impeachment de Dilma. E, na verdade, tratava-se de um debate importante para a democracia, se um presidente eleito deve ser removido ou não.

Lá fora havia o processo democrático mas aqui a mídia brasileira não permitiu o debate. Isso foi uma grande razão para criar o The Intercept Brasil.

Então eu acho que o The Intercept Brasil, a Mídia Ninja e os blogs independentes na esquerda estão ajudando muito a qualidade do debate e o acesso à informação aqui no Brasil.

Noam Chomsky e Michael Moore permanentemente denunciam como o jornalismo americano é responsável pelo sentimento de belicismo, a xenofobia e, em alguns casos, pela aparição de atiradores contra civis. Pensa de forma parecida?

A pessoa que me influenciou sobre minhas opiniões políticas, sobre mídia, era Noam Chomsky. Eu jantei com ele 5 ou 6 dias atrás em São Paulo porque a mulher dele é brasileira, ele está ficando aqui no Brasil muito tempo e estamos sempre discutindo exatamente isso.

Antes de me tornar jornalista eu era advogado e eu decidi ser jornalista ou, pelo menos, escrever sobre política, em 2001, durante a guerra ao terror do governo Bush, que ainda está continuando inacreditavelmente 18 anos depois. Eu comecei a atuar nesse campo exatamente porque a mídia americana não estava permitindo outras opiniões.

Para a televisão americana, foi uma obrigação apoiar a Guerra, e aplaudir todas as coisas que o governo norte-americano estava fazendo. Foi uma “obrigação” ter a opinião de que os EUA eram o maior país no mundo livre, no mundo democrático, e que tentava levar democracia e liberdade [para o mundo]. Toda essa propaganda, a gente tinha que afirmar se a gente quisesse ter acesso, colocar nossa voz, à televisão.

Então foi [um jornalismo] totalmente fechado. Ainda hoje é ruim assim, mas eu acho que a internet mudou isso de uma forma muito significativa e, por exemplo, agora é possível ter um candidato presidencial como Bernie Sanders que é abertamente um socialista e que agora está denunciando todas essas políticas dos EUA sobre Guerra, e ele tem uma chance real de ganhar as eleições. Dez anos atrás isso seria impensável.

E você também está vendo novos políticos como Alexandria Ocaso-Cortez e outras mulheres que são chamadas de socialistas sem problema nenhum e que estão com muita influência. Acho que isso é quase que totalmente por causa da internet e jornalismo independente.

Então, para mim, alguém que tecnicamente é um cidadão dos EUA – mas que no meu coração e na minha vida o Brasil é o meu lar – isso é uma prioridade grande: mudar o jornalismo aqui para mostrar a corrupção, como esses temas do jornalismo aqui no Brasil estão totalmente truncados e criar outra mentalidade de como o jornalismo deve funcionar. Talvez, por causa disso estava feliz com essa oportunidade que o Roda Viva me deu “sem querer”.

Você é morador de Rio de Janeiro e foi um grande amigo da Marielle Franco. Gostaria ter algumas palavras de você sobre ela e sobre o atual governador Wilson Witzel.

O assassinato de Marielle é uma coisa me influencia de uma maneira muito forte. Eu me lembro como se fosse ontem, naquela noite, 22h15 mais ou menos, quando meu marido estava em casa e recebeu essa ligação. Ele começou a gritar e chorar sem parar durante 10 minutos, não conseguiu me falar o que tinha acontecido porque ele não conseguia parar de chorar. Finalmente, ele conseguiu me falar o que tinha acontecido.

Ela era uma das nossas melhores amigas mas, além disso, era uma pessoa muito inspiradora pessoalmente. Quando eu penso sobre o futuro deste país, dessa cidade, para os meus filhos, eu pensei muito sobre Marielle.

E o fato é que até agora não sabemos quem mandou matar ela, e a mulher dela continua a ser nossa melhor amiga. Discutimos muito esse fato. E eu lembro muito bem naquela eleição, na noite da eleição de 2018, estava com Mônica, mulher de Marielle, quando foi anunciado que Bolsonaro ganhou, mas também que Witzel ganhou, que também esse cretino, esse monstro que quebrou a placa da Marielle do PSL foi o candidato mais votado para a Alerj. Nós percebemos naquele minuto que tudo mudou neste país.

Mas por outro lado, olha o que está acontecendo. Tem três mulheres negras que vêm da favela que trabalhavam no gabinete de Marielle que estão ocupando a Alerj com muita coragem. Tem muitas pessoas resistindo ao governo do Bolsonaro com esse espírito que Marielle ensinou e que passou para muitas pessoas que antes disso não tinham voz.

E assim podemos ver as duas diferenças, os dois extremos de Marielle, que era uma defesa antes de tudo de direitos humanos. Não era só um caso de feminismo, um caso de negros, um caso de LGBT. Ela era uma defensora de direitos humanos, ponto. Tudo vem depois disso. Esse era o princípio fundamental dela.

E agora tem um governador, Wilson Witzel, que é muito mais inteligente que Jair Bolsonaro, muito mais capaz politicamente, que é exatamente o oposto: ele e o inimigo absoluto dos direitos humanos. Ele não acredita nessa ideia, ele não finge para que se dê crédito a ele. Lembra quando tinha pessoas inocentes que foram mortas na favela há duas semanas atrás? Ele culpou os defensores dos direitos humanos.

Então, para mim, esses dois extremos, Marielle Franco e Wilson Witzel representam as duas escolas, os dois caminhos que o Brasil tem pela frente. Ainda não sabemos qual caminho esse país vai escolher. Essa questão ainda não está resolvida.

E, para mim, todo o trabalho que estou fazendo como jornalista, como cidadão, como comentarista, como alguém envolvido na carreira do meu marido, deputado federal pelo Psol, trata apenas disso: qual caminho o Brasil vai escolher? O caminho de Marielle Franco, com igualdade e direitos protegidos e garantidos ou caminho de Wilson Witzel, do fascismo, do autoritarismo, do desrespeito pelos direitos humanos, pelas minorias, pelos pobres? É exatamente isso que esse país está enfrentando agora.

O Steve Bannon, que deu assessoria ao Bolsonaro durante a campanha de 2018, já foi denunciado como alguém que usa a manipulação de dados privados obtidos de forma ilegal para a criação de fake news e para criar estratégias de campanha para candidatos de direita e extrema direita. Considerando o perigo que o mundo vê, a volta da Cristina Kirchner ao governo, você acha que ele vai atuar nessas próximas eleições no pais vizinho?

Acho que esse Bannon é muito explícito sobre essa intenção. Na realidade, ele tem um protocolo muito perigoso. Trump usou essa estratégia durante a campanha e provavelmente ganhou por causa disso, mas depois que ele ganhou, não quis mais trabalhar com Steve Bannon, porque a filha de Trump… o marido dela, que tem muita influência no governo, não gostava de Bannon e forçou para que ele saísse.

Eu acho que isso é uma coisa muito boa porque se Trump seguisse a estratégia de Steve Bannon, provavelmente este teria uma posição muito mais forte, porque a estratégia de Steve Bannon é a seguinte: ser muito nacionalista – sempre fala como Trump: “ah, vamos deixar os EUA grande de novo e vamos botar os EUA no primeiro lugar contra todos os outros países”.

E também o Jair Bolsonaro, obviamente, copiou isso falando “Brasil acima de todos”. É a mesma coisa. E, ao mesmo tempo, falando que nosso país é o primeiro, que todos os outros países são inferiores ou vêm depois, prometendo melhorar a vida dos trabalhadores contra o establishment, contra a elite.

É essa ideologia que está contaminando, machucando e prejudicando milhões de pessoas em vários países. O neoliberalismo que infelizmente prevaleceu aqui no Brasil, também nos EUA, Reino Unido, Argentina, está criando esse espaço para essa narrativa: de que todo o sofrimento na sua vida é causado pela elite política, o establishment, o sistema político. Então, a única solução ‘é fechar nosso país, botar nosso país no primeiro lugar e declarar uma guerra contra os ricos, a oligarquia, a elite, globalistas, em favor dos trabalhadores, em favor dos pobres’.

É claro que isso não é genuíno, mas como uma estratégia política é muito forte. Eu acho que até agora a esquerda atual tem grandes dificuldades para se comunicar com os pobres trabalhadores, a esquerda está bem limitada para pessoas com muita educação formal, para os bairros ricos… Tudo isso, exatamente como Lula conseguiu, agora a esquerda não consegue.

Por causa disso, ela ainda não tem uma estratégia para ganhar esse embate e Steve Bannon sabe disso. Ele está levando essa estratégia para o mundo todo para criar uma aliança na extrema direita.

Obviamente, há conexões muito fortes entre a família Trump e a família Bolsonaro… É exatamente isso… E vai acontecer na Argentina também.

Na Argentina, a direita perdeu, porque é muito mais fácil fazer isso quando você está fora do poder do que quando você está no poder. Estamos vendo isso muito bem agora com o momento do Bolsonaro. Quando ele estava fora do poder, foi muito fácil unir o ódio contra o PT, ‘todo mundo odeia o Lula’, ‘odeia o PT’, ‘fora, Dilma’, isso era muito fácil.

Mas, agora que eles têm o poder, o que está acontecendo? Tem uma guerra civil entre todas as facções que se odeiam, mais do que eles odeiam a esquerda.

Isso [a estratégia de Bannon] é uma estratégia não para governar, mas para ganhar eleições e, com certeza, eles vão tentar fazer isso na Argentina para ganhar essa eleição, mas acho que o problema é que a direta já está governando a Argentina nos últimos quatro anos e é muito mais difícil fazer adotar essa tática quando as pessoas podem ver os resultados e a diferença grande entre esses resultados e o que eles prometeram fazer.

O governo de direita de Mauricio Macri fez várias intervenções nas mídias e se encarregou de que vários jornalistas dissidentes ao discurso oficial fossem demitidos. Jornalistas que têm uma linha editorial parecida ao do The Intercept. Qual é tua reflexão sobre isto?

Acho que estamos vendo isso um pouco aqui no Brasil, com vários jornalistas sendo demitidos, sendo pressionados para ser demitidos em função de criticarem o governo Bolsonaro e com certeza isso vai continuar. Essa é uma mentalidade de caráter autoritário, punir pessoas que estão criticando. Em função disso, a primeira reação de Sergio Moro e Bolsonaro diante da nossa reportagem [a Vaza Jato] foi nos ameaçar com prisão, com investigações. Primeiro, eles tentaram fazer isso contra mim. Agora, eles estão tentando fazer isso contra o meu marido, e ainda me ameaçando com prisão. Isso é exatamente como autoritários no mundo todo pensam.

E, na Argentina, foi muito severo. Depois de 4 anos, tem muitos jornalistas que sofreram por causa disso e com certeza eu acho que isso vai acontecer no Brasil.

Eu lembro, no último discurso que Bolsonaro fez antes do segundo turno da eleição, quando ele ainda estava machucado. Ele estava no Rio de Janeiro, falando com uma multidão e ele prometeu um Brasil sem Folha de S. Paulo e disse que todos os adversários dele teriam de sair do país ou seriam presos.

São palavras para a eleição, claro, mas também mostra a mentalidade dele. Não é permito a eles fazer tudo, mas eles vão tentar.

Ele está censurando filmes. O prefeito do Rio de Janeiro está censurando livros e, como eu disse, tem jornalistas que já foram demitidos em função de sua opinião política – ou estão sendo ameaçados da mesma forma que aconteceu na Argentina nos últimos quatro anos.

De novo: por causa disso é que o jornalismo independente é mais importante do que nunca.

“Precisamos ter voz para acabar com essa onda da extrema direita”, alerta Teresa Cristina

“Precisamos ter voz para acabar com essa onda da extrema direita”, alerta Teresa Cristina

Foto: Marcelo Costa Braga

 

Por Eduardo Sá

Embora não seja da velha guarda, Teresa Cristina já é uma voz consagrada no samba nacional. Aos 51 anos faz parte de um grupo de músicos entre o das antigas e o da nova geração do samba carioca. Começou a ganhar projeção com o Grupo Semente, na Lapa, no final da década de 90, e desde então não parou mais. Tem parcerias com os maiores artistas nacionais e já passou por todas as famosas casas de shows da cidade, além de ter feito turnês mundo afora.

Atualmente ela está com dois projetos: Um sorriso negro, que com seu grupo de mulheres resgata músicas de autores negros, e a trilogia Cartola, Noel e Zé Keti, cujo último compositor ainda não começou a ser gravado. Mas seu destaque não é só através da música. Ela tem militado sistematicamente nas mídias sociais e participado de todos os protestos políticos desde a saída de ex-presidenta Dilma Rousseff do poder.

Na entrevista à NINJA, ela fala sobre a importância dos artistas se envolverem com política e como a sociedade em geral tem hoje mais ferramentas para controlar os movimentos da classe política e decidir seu próprio voto com mais consciência. Sem poupar críticas ao governo Bolsonaro, ela se diz muito preocupada com os rumos do país. Neste cenário, ela apresenta alguns nomes da nova geração do samba e destaca a contribuição que a cultura pode dar em tempos sombrios como os atuais.

Como você tem visto a nova geração que está renovando o samba?

Temos uma geração pós velha guarda e Fundo de Quintal, os sambas dos anos 80, pós pagode romântico. Depois veio a geração da Lapa com contemporâneos meus, como o Moyseis Marques, Ana Costa, Nilze Carvalho, Luiza Dionizio, Áurea Martins, que não é da Lapa mas cantou com a gente, quando o Carioca da Gema começou. Do Semente as casas começaram a abrir na Mem de Sá, e depois vem outra geração. Deu uma misturada, porque nunca entendi a Lapa como um movimento, sabe? Não tinha nada combinado, foi acontecendo não como uma ação da cidade, do Estado, foi algo bem independente desses donos de casas: Semente, Carioca da Gema e depois o Centro Cultural Carioca, na Praça Tiradentes. Uma atitude muito isolada que acabou trazendo as pessoas, e cresceu de uma forma que ninguém esperava.

Hoje vejo cantoras e compositores novos que têm uma visão muito ampla sobre o samba. Temos uma cantora como a Marina Iris, também compositora, que grava Paulinho Tapajós, Aldir Blanc, mas também grava João Martins, músicas dela, Manu da Cuíca, etc. Ela tem uma maneira de cantar muito verdadeira, um timbre de voz bem gostoso. Outra cantora interessante é a Renata Jambeiro, que está morando em São Paulo agora, e outras pessoas que continuam fazendo um bom trabalho como Nilze Carvalho, Ana Costa, Mariana Baltar, etc.

Mas ao mesmo tempo essas “cantoras novas”, que estão por aí há algum tempo, como a Thaís Macedo, cada uma tem a sua identidade e uma cara muito carioca, as músicas mais antigas e inéditas nessa mescla de repertório muito interessante e rica. Tem uma música que Marina gravou do João Martins que é linda, parece antiga sabe? Mosquito, Inácio Rios, Renato Milagres, André da Matta, Leandro Fregonesi está uma coisa bem colorida.

Foto: Marcelo Costa Braga

Você acha que já é um movimento grande?

Nunca consigo enxergar como movimento, como estou dentro fica difícil, é mais fácil ver de fora. Alfredo Del Penho, além de um grande conhecedor de samba, pesquisador, bom cantor, compositor e grande ator, está fazendo musicais importantes. Vai lançar agora da Bia Lessa o Macunaíma, com repertório autoral muito bacana. Estamos com uma base boa para continuar.

Você pode falar mais um pouco sobre esse movimento de mulheres no samba?

A história da mulher no samba foi muito apagada e precisamos ocupar esse lugar. O samba veio ao Rio pelas mãos de uma senhora baiana, a Tia Ciata, de Santo Amaro. Ela era tão influente que na sua casa reuniu toda a nata do samba (Pixinguinha, João da Baiana, Cartola, João da Gente, etc). Tem imagem de todos eles, mas nenhuma dela, nem gravação de voz. Não sabemos como era ela falando, não tem vídeo nem muita informação. É um apagamento que vai ficando natural e acabam falando mais de outras pessoas. Temos grandes mulheres no Brasil e foi preciso o samba da mangueira trazer esses nomes à tona, a gente saber quem foi Luiza Mahin.

O samba precisa ter também a voz da mulher, o nosso olhar sobre as coisas, temos o direito de sentar na roda e tocar violão ou cavaquinho, pandeiro, surdo, fazer arranjo.

Quando era criança meu pai falava da Maria Quitéria, que para mim depois virou uma rua em Ipanema. Não falamos muito dessas coisas, e esse lugar exótico da mulher na roda de samba fazendo coro pro homem cantando, enfeitando a roda com sua beleza e corpo exuberante, ou como tema daquele samba que na maioria das vezes nos citam com um olhar masculino. O samba precisa ter também a voz da mulher, o nosso olhar sobre as coisas, temos o direito de sentar na roda e tocar violão ou cavaquinho, pandeiro, surdo, fazer arranjo. Não ser mais uma coisa exótica, uma mulher instrumentista tocando muito bem e dizerem tão bem que parece um homem tocando. Isso não é elogio e acho que é um caminho sem volta.

Você chegou a comentar que não está acontecendo somente no Rio este movimento.

É um caminho sem volta no Brasil inteiro, em qualquer cidade tem grupos de mulheres se reunindo e tocando. Em Buenos Aires, Suíça, Portugal, Uruguai, etc. As mulheres estão se fortalecendo e é urgente. Qualquer ação que possa retroagir sobre o apagamento da história da mulher, seja no samba ou na cultura brasileira, é importante e válido. Tem o Moça Prosa, Samba que elas querem, muito grupo feminino e meninas instrumentistas novas com qualidade. Elas não só cantando, mas compondo, fazendo arranjos, arregimentando músicas, tendo um olhar de musicalidade muito bom.

Isso é um alento frente a essa perda constante, a ida da Beth Carvalho acho que ainda está cedo para ter dimensão da sua perda. O samba dela teve alcance desde Noel até essa juventude com garotos de nem vinte anos. Influenciou muita gente, graças a essa força e olhar sobre o samba. Plantou árvores que ainda vão crescer bastante, seu trabalho aponta vários lugares inclusive para esses compositores novos. Gravou, por exemplo, Wanderley Monteiro, Toninho Gerais, que a gente conhece agora, mas ela via antes e aonde gostava se envolvia.

No meu show Um sorriso negro montei uma banda só de mulheres que admiro muito: Samara Líbano, Jéssica Zarpei, uma ótima nova percursionista, de 21 anos, Ana Paula Cruz que toca flauta, a Elisa Dor, Roberta Nistra, cavaquinista. Procuramos saber o trabalho de outras mulheres, porque acabamos ficando num ritmo só pensando no nosso, como sustentar e ganhar dinheiro, e esquecemos de olhar ao lado e que existem mulheres com a mesma demanda. Tenho procurado conhecer outras mulheres, trabalhos, ir a outras rodas, lugares onde o samba está sendo feito.

Criamos um movimento de Mulheres na roda de samba, Movimento de mulheres sambistas, o dia nacional da mulher sambista, no aniversário da Dona Ivone Lara, que é 13 de abril. Tudo isso é muito importante e não tem volta. A gente se olhando se respeita, valoriza a história da outra para também dar valor à nossa. Uma coisa fácil para você pode ser difícil para outra, e vice versa. Isso faz bem ao crescimento de todo mundo.

E após esse período da Lapa hoje existem várias casas de samba em toda cidade, como você vê o cenário?

Quase não frequento mais a Lapa, quando vou é mais ao Beco do Rato, que não é tão novo mas na época que era mais cheio não frequentava. Vou mais ver meus amigos tocarem. É um lugar que mexe muito comigo, porque me deu uma experiência, um jeito de trabalhar, de me relacionar com músicos, que marcou a minha carreira. A cena musical do Rio é bem diversificada, são teias bem abertas: centro da cidade, que já tinha sido revigorado, tem lugares importantes do samba, a Lapa, Pedra do Sal, além do Samba do Trabalhador, que reúne muita gente diferente e cantores e compositores com o Moacyr Luz. Eu quando vou acabo cantando, tem quem ache que faço parte do grupo.

Reparando nas suas mídias sociais, você divulga sistematicamente várias artistas, principalmente as mais novas. Qual a importância disso?

Tem que acontecer não só através de mim, é um trabalho de formiguinha. Toda segunda-feira posto, comecei pelas mulheres negras porque tudo para a gente é depois. Estamos acostumadas a esperar muita coisa acontecer para depois fazer algo, então procuro elogiar uma mulher negra: cantora, compositora, artista, pessoas que estejam no meu meio ou que eu observe. É muito importante e espero que esta ação desencadeie outras, e que as mulheres tomem esse costume de se elogiar. O único caminho é unir forças, vozes, ações.

Está tudo muito estranho, não vou nem falar do mundo, tem muita mudança no Brasil e o país está indo para um lugar que não consigo definir. Vejo muita gente preta nova morrendo, muita mulher sendo agredida e assassinada, tendo a voz silenciada, numa velocidade absurda. Neste governo de morte que estamos vivendo, as pessoas estão se sentindo encorajadas a cometer esses absurdos. Tem que ter uma contra resposta, temos que nos fortalecer, principalmente entre cantoras. Essa coisa de uma cantora ser rival da outra, melhor ou brilhar, é muito cafona e antiga. Não podemos nos dar esse luxo, é uma coisa muito Marlene, Emilinha, Dalva de Oliveira, de uma geração que não é nossa. Até a geração Bethânia, Gal, Elis, as pessoas escolhiam de quem eram fãs, isso não existe mais.

Estamos com o bloco na rua e precisamos ter voz junto para acabar com essa onda de extrema direita, de conservadorismo, hipocrisia, mal uso da religião e da fé. Os valores estão todos invertidos, vemos um montão de gente hipócrita, demagoga, sem moral, completamente suja falando de família e valores que não cultivam. Jogam isso na nossa cara como se fosse uma cartilha, que eles não seguem, mas o discurso deles está muito afiado.

O movimento do samba pode contribuir nessa questão política? Alguns afirmam que a política se revela muito nas músicas, mas não enquanto movimento seja partidário ou não.

Isso tem que ser feito de todas as formas, se você consegue num momento desse sombrio e de treva fazer uma boa canção que retrate o que estamos vivendo é muito bom. O que importa é não ficar calado e se movimentar de alguma maneira. Não dá é para ficar encastelado e achar que essa lama não vai chegar no seu pezinho porque você não fala, não se posiciona ou não fica indignado. Não é possível que não incomode as pessoas que estão quietinhas se fingindo de mortas também.

Mas em relação ao artista específico, não tem também uma questão de mercado no sentido de não se expor para preservar a imagem e não ter portas fechadas?

Isso sempre existiu, e agora não dá mais. Até porque se continuar deste jeito esse mercado não vai nem existir para quem está caladinho. Quando ficar ruim, vai ficar para todo mundo. Já temos censura, mortes, agressão, um discurso pesado, um lunático no poder propagando notícia falsa, colocando as pessoas num lugar esquisito. Pessoas sujas, desonestas, com um discurso de moralidade completamente falso. Não existe nenhuma verdade nesse discurso de família, fé e meritocracia, é tudo balela. Estão tentando criar um rolo compressor para cima da gente.

Foto: Marcelo Costa Braga

Qual análise de conjuntura está sendo feita pelos artistas e políticos com quem você convive, levando em consideração que ele foi eleito com todo esse discurso?

Foi eleito por 30% da população, teve muito voto nulo e branco, isentos que continuam traumatizados com o PT achando que ele acabou com o país. Aí a gente pega todos os números e feitos e esfrega na cara dessas pessoas, mas não adianta. Está com merda até o pescoço, mas falando: pelo menos a gente tirou o PT do poder. As pessoas não querem se informar, estão cegas.

A mídia contribuiu nesse processo?

A mídia construiu esse ódio ao PT. Quando teve a história do avião de cocaína do cara pego na Espanha, a primeira coisa que o telejornal fez foi botar a cara da Dilma. O que ela estava fazendo ali, se não tinha nada a ver? Ele não foi piloto dela, é mentira. Então tem muita desinformação e o mais criminoso é tentar colocar como se fosse tudo do mesmo saco.

O PT não é do saco do Bolsonaro, não dá para comparar. O governo do Bolsonaro, aliás, não se compara a nenhum: a FHC, Lula e Dilma, nem ao Figueiredo na época que eu peguei. O atual governo tem muito mais militares e o do Figueiredo foi de abertura. Com tudo que aconteceu na ditadura eu nem sei dizer o que está acontecendo hoje no Brasil.

Não sei se você está filiada a algum partido, mas transita alguns meios. Quais as ações estão sendo traçadas de resistência?

Não sou de nenhum partido, mas me envolvo com as pessoas que acredito e trabalho. As mobilizações precisam acontecer, ao mesmo tempo que tem essa galera que diz ser tudo culpa do PT e tapa o olho e grita. Não é tão difícil ver as ações dos políticos hoje em dia. Sei que é horrível, mas dá para acompanhar qualquer votação na TV. Saber em que o PSL ou o PSOL votaram, saber quem está ao lado do povo e quem contra. Quem votou contra tirar do bolso do pobre para pagar o rombo da previdência? Quem está querendo valorizar a educação e o trabalhador? Não é difícil fazer isso. Fui filiada a partido na época do movimento estudantil, hoje me envolvo com pessoas e ações e é uma trincheira pesada. A minha esperança é com o carnaval de rua, o samba da mangueira trouxe um alento para a gente este ano.

A cultura tem um papel importante nesse debate todo, inclusive de comportamento?

Tem porque discute num lugar onde tem liberdade para falar, e quando fica tudo nesse discurso de política e rede social é um maniqueísmo que não interessa à discussão porque não leva a lugar nenhum. Precisamos resistir de outras formas, tentando pensar de outras formas e em novos agrupamentos também, porque hoje em dia você acaba concordando com gente que há um tempo atrás discordava. A discrepância é tão absurda e gritante que para discordar do Bolsonaro você concorda com a Raquel Scheherazade, Lobão e Reinaldo Azevedo.

Voltando pra questão musical, como você vê as mudanças tecnológicas no trabalho?

Para mim é meio misturado, porque uso rede social para falar coisas da minha vida e tenho um escritório que fala também do meu trabalho. Tento falar também de outras pessoas, de outras mulheres, dar voz a pessoas que não têm tanto espaço assim. Acho que isso é o futuro da rede social, não estou inventando a pólvora mas que naturalmente será feita por outras pessoas também.  Essa coisa dos artistas se divulgarem acaba virando uma rede que fortalece o todo.

E o que você está fazendo atualmente, seus projetos?

Acabei de gravar um DVD do Noel Rosa, não sei ainda quando vai sair. Estou fazendo o show Um sorriso negro, que canta só compositores negros com essa banda de mulheres. Estou no meio de uma trilogia que comecei a fazer com o Cartola, Noel e o próximo será Zé Keti, mas ainda não pensamos direito. Tenho datas para fazer Um sorriso negro, o Carlinhos Sete Cordas está tocando com a Maria Bethânia, mas também está tudo tão suspenso no ar. Devo fazer shows no segundo semestre e ano que vem entender se faço Zé Keti ou meu trabalho autoral.

Quando você diz tudo suspenso no ar tem a ver com os cortes nas verbas para cultura, dificuldade em acesso aos editais e incentivos?

As pessoas me acusam de mamar nas tetas da Lei Rouanet, mas o meu trabalho nunca foi incentivado. A dificuldade de se trabalhar acho que é geral para todo mundo, este ano está sendo bem atípico.

Foto: Marcelo Costa Braga

Eduardo Suplicy apresenta Anderson Herzer: “Ele queria que as pessoas fossem mais humanas”

Eduardo Suplicy apresenta Anderson Herzer: “Ele queria que as pessoas fossem mais humanas”

Entrevista com Eduardo Suplicy, primeira parte: A história de Anderson Herzer

Arte: Sabrina Porto

“Vi a lenta corrupção,
Vi o olhar do corruptor,
Vi uma vida na destruição
Eu vi o assassinato do amor”
(Trecho do poema “A Gota de Sangue”, Anderson Herzer, A Queda Para o Alto, 1982)

Para Jaques Ranciére, um dos mais importantes pensadores contemporâneos, a política da literatura não diz respeito à política dos escritores, nem aos seus engajamentos nas lutas políticas ou sociais do seu tempo. A literatura faz política enquanto literatura, enquanto estética da palavra, estabelecendo novos laços de comunicação, germinando pontes estéticas, fazendo florescer novas sensibilidades. A literatura, como toda arte, faz política acendendo (e não esclarecendo) novos olhares, excitando as inquietudes.

A política, ao seu passo, funciona como uma forma de colocar nossas sensibilidades em prática. De torná-las linguagem. É dentro da política que concretizamos esse desejo sensível, e assim, diz Ranciére, esse desejo se torna uma estética, uma superfície, uma bandeira. De forma similar à religião, essas bandeiras estruturam a consciência e o comportamento humano, produzem instituições, que logo serão destruídas, para erigir e legitimar novas.

O livro “A Queda Para o Alto” será o resultado desse encontro entre literatura e política: Uma literatura que faz política e uma política que se parece, como poucas, com a literatura, com a arte mesma. O encontro entre Anderson Herzer e Eduardo Suplicy será fundamental para concretizar a primeira publicação de um livro escrito por um homem transexual aqui no Brasil.

Essencial a presença de Suplicy, acudindo ao chamado de Lia Junqueira, que naquele momento atuava como presidente do Movimento de Defesa do Menor. Ela denunciava que Herzer estava sendo vítima de uma jogada política do diretor da Febem, que pretendia utilizar os escritos de Anderson para publicar um livro que enaltecesse a instituição, sem mencionar o nome do autor. Suplicy pediu formalmente a tutoria de Herzer, reconhecendo nele um grande talento como escritor. Era necessária essa ternura, que parece caracterizar o perfil político de Suplicy, para ouvir esse chamado, mesmo quando sua ajuda não foi suficiente. Após um breve tempo vivendo fora da Febem, Anderson acabou se suicidando, com apenas 20 anos, jogando-se de um viaduto da Avenida 23 de Maio, em São Paulo.

A vida de Anderson é iconográfica e representa, ainda hoje, a vida de muitos jovens e crianças marginalizadas no Brasil: um enorme talento silenciado pela falta de oportunidades, um ser sensível e afetivo envolto num contexto de violência e abuso institucional, estrutural, cultural. Como homem trans, seu desespero tinha um viés a mais: a ordem repressiva para com as identidades autopercebidas, o que agilizou seu trágico fim.

A imprensa tradicional, na sua compulsão estigmatizante, tem por costume lembrar desses jovens na hora em que as revoltas tomam conta das instituições, apresentando-os como “sujeitos violentos e irrecuperáveis”. Porém, o livro de Anderson, a sua biografia e seus poemas, são o testemunho do desejo de encontrar no amor um refúgio onde consolidar a nossa verdadeira natureza, uma necessidade de refletir sobre a violência, de sermos interpelados por ela através do relato poético.

A literatura é uma estética, é uma forma da lírica, mas também é um testemunho, uma voz. E o livro de Anderson é uma voz consolidada, voz de um tempo em que as discussões sobre gênero apenas germinavam no Brasil. É um relato que mostra como se sobrevivia em épocas de ditadura, sendo um marginal transexual. Um texto fundamental para a construção de uma historicidade das instituições modernas e das lutas de gênero.

Em entrevista, Eduardo Suplicy detalha ainda mais a história de Anderson e a sequência que o teve como grande protagonista na vida do escritor. Confira:

“No ano 1979, tempo em que eu fui deputado estadual na Assembleia Legislativa, a presidenta da fundação em defesa do menor, a Lia Junqueira, me alertou sobre diversos episódios que estavam acontecendo de maus tratos na Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor). Então eu decidi ir visitar a instituição para evitar que acontecessem esse tipo de situações.

Certo dia, a Lia me relatou que havia uma menina, uma moça de dezessete anos que estava na Febem há três anos e meio, que estava preocupada. Ela sabia escrever bem, escrevia poemas. E na verdade ela nunca tinha cometido delito algum. O juiz me informou que se alguém se fizer responsável por ela, ela poderia ficar em liberdade. E eu então fui à sede da Febem e conversei longamente tanto com a Lia Junqueira quanto com Herzer.

Ela, embora menina moça, se sentia e se vestia como se fosse um rapaz. Ela cortava o cabelo, semelhante ao como o faria um rapaz. Ela me relatou que na Rolândia, no norte do Paraná, seu pai era dono de um bar, e que certo dia ela percebeu uma correria em casa e infelizmente souberam que seu pai havia sido assassinado dentro do bar. E então, a sua mãe, não tendo propriamente condições de trabalho que pudessem lidar com o sustento, resolveu vender seu corpo, se prostituir. Mas, pegou uma doença venérea e veio a falecer. Então a Sandra Mara foi morar com sua vó, muito querida. Um tempo depois, a sua vó faleceu e ela foi viver com uma tia, que era casada com um senhor bem mais idoso. Eles se mudaram para Foz do Iguaçu, onde viveram por um tempo. Mais tarde se mudaram para São Paulo, para o bairro São João Clímaco. Ela era uma moça com muita energia, muito esperta. Aos treze anos, ela namorava um rapaz de uns trinta anos, o apelido dele era “bigode”. Esse rapaz morreu em um acidente de moto. Então ela adotou esse apelido para ela também.

Ela, por vezes, saia de noite nos bares locais e costumava tomar Coca-Cola com Optalidon, o que dificultava ela para acordar cedo e ir à escola. Então, sua mãe a internou em um centro infantil que havia na Rodovia dos Imigrantes. Ela fugiu de lá e voltou para casa, o que deixou bem preocupada sua mãe, por causa da falta de disciplina e do fato dela sair de noite e não conseguir acordar cedo.

Um dia, seu padrasto tentou ter relações sexuais com ela, abusar dela. Herzer lutou, bravamente, levou um tombo e quebrou o braço. Porém, a partir desse episódio, a sua tia resolveu colocar ela na Febem. Lá ela viveu desde os catorzes até os dezessete anos e meio sem ter cometido crime nenhum. Na Febem, ela se converteu em uma espécie de líder. Organizava saraus, escrevia poemas, se apaixonou por outras internas para quem dedicou trechos da sua biografia.

O livro de Herzer estampa a única imagem que temos de Anderson

“…Durante aquelas carícias profundas trocadas entre nós, eu sentia a vida bem mais próxima a mim, beijava e abraçava Vera, como se eu estivesse abraçando minha existência, eu acariciava seu corpo, lentamente, com um desejo interior tão imenso que não sabia mais distinguir o significado da amargura, não me doía mais a saudade do mundo, e eu tinha ali junto a mim, resistindo ao frio, ao vento, enfim, eu tinha finalmente alguém para mim, para me ouvir quando eu quisesse falar, para me olhar quando eu ficasse em silêncio” (Anderson Herzer, A Queda Para o Alto, 1982)

Percebeu, com muita lucidez, um sistema de maus tratos que acontecia tanto na Febem masculina quanto na feminina. Também registrado na sua biografia. Na Febem as crianças eram espancadas, torturadas de maneira brutal durante a noite. Herzer passou também por isso.

“…durante a surra que eu estava levando, com tapas no rosto, torcidas no braço, chutes nas costas, em determinada hora, quando eu caía novamente no chão, ele me apertou e torceu meu braço, justamente onde estavam os alfinetes. Com o aperto, um alfinete deslocou-se, podendo ser visto, com a ponta espetada para cima, embora continuasse dentro da carne, não saindo totalmente para fora. Meu braço começou a sangrar…” (Anderson Herzer, A Queda Para o Alto, 1982)

E eu então, quando soube da sua história, e tendo lido seus poemas, que eu achei de muito boa qualidade, eu disse a ela “Olha, eu me disponho sim a contratá-la, convidá-la para ser uma espécie de estagiária no meu gabinete, onde você vai aprender a fazer um pouco de tudo: ajudar na recepção, atender o telefone, tirar xerox (não existia internet ainda né). Vou te pagar o necessário para você pagar uma pensão, alimentação e outras necessidades”. E falei para ela ainda que “Como você escreve muito bem, eu vou lhe assinar, como parte do seu trabalho, redigir sua história”. Ela aceitou.

Fomos em várias pensões, até que ela achasse uma que a aceitasse. Já que ela, embora tinha Sandra Mara na sua identidade, assinava seus poemas como Anderson e também era chamada assim.

Certo dia, ela me mostrou um poema “Minha Vida, Meu Aplauso”. Eu lhe perguntei: “Isto quer dizer que realmente você poderia morrer?”. Ela me contou que tinha feito o concurso para se tornar uma funcionária efetiva da Assembleia Legislativa. Mas, no dia do exame, o homem que percorria as cadeiras para avaliar a identificação de cada um, chegou para ela censurando o fato dela se apresentar como homem quando na sua carteira figurava nome de mulher. Ela disse que isso a deixou muito constrangida e que finalmente acabou reprovando o exame. Então, eu disse para ela “Seu livro é muito bom, é muito interessante”, e encaminhei-a para a editora Vozes. Os editores Rose Marie Muraro e o Frei Leonardo Boff (Ele ainda era frei, então), gostaram muito, e falaram que em dois meses ficaria pronto. Eu alentei a Sandra, falando que ela ia ter muito sucesso.

Minha Vida, Meu Aplauso

Fiz de minha vida um enorme palco
Sem atores, para a peça em cartaz
Sem ninguém para aplaudir este meu pranto
Que vai pingando e uma poça no palco se faz.
Palco triste é meu mundo desabitado
Solitário me apresenta como astro
Astro que chora, ri e se curva à derrota
E derrotado muito mais astro me faço.
Todo mundo reparou no meu olhar triste
Mas todo mundo estava cansado de ver isso
E todo mundo se esqueceu de minha estreia
Pois todo mundo tinha um outro compromisso.
Mas um dia meu palco, escuro, continuou
E muita gente curiosa veio me ver
Viram no palco um corpo já estendido
Eram meus fãs que vieram para me ver morrer.
Esta noite foi a noite em que virei astro
A multidão estava lá, atenta como eu queria.
Suspirei eterna e vitoriosamente
Pois ali o personagem nascia
E eu, ator do mundo, como minha solidão…
Morria!
(Anderson Herzer, A queda para o Alto, 1982)

Herzer tinha uma grande sensibilidade, tinha uma grande percepção do mundo que conhecera. Tentava ajudar a cada criança ou adulto que pudesse passar por algo seme­lhante, acreditando que a sociedade e o que existe é que poderia ser diferente. Era uma pessoa doce que tratava muito bem a quem lhe respeitava, capaz de realizar um enorme esforço para atender a quem pedisse pela sua ajuda. Tinha uma personalidade muito enérgica, ativa, o que fazia dela sempre se destacar por dentre as demais pessoas que estivessem no mesmo grupo com ela. A sua única dificuldade era ser aceita do jeito em que ela era, do jeito em que ela se sentia consigo mesma.

“…Eu queria ser da noite o sereno e
umedecer o vale seco e pequeno.
Eu, queria, no dia claro, luzir
para o amor todo o povo conduzir.
Eu queria que branco fosse a cor da terra e
não vermelha para inspirar a guerra.
Eu queria que o fogo me cremasse
para ser as cinzas de quem hoje nasce.
Eu queria que os mais belos poemas fossem de Deus
para neles encontrar as virtudes dos irmãos meus.
Eu queria e muito queria saber ganhar
para que a simples alegria pudesse comigo guardar…”
(trecho do poema “Encontrei o que eu queria”, Anderson Herzer, Para a Queda do Alto, 1982)

A essa altura ela morava com uma amiga dela da Assembleia Legislativa, onde por vez ela organizava saraus e estava sendo reconhecida. Mas, aproximadamente dois meses depois, a amiga dela me ligou para me dizer “Anderson saiu dizendo que ia para a 23 de maio”, eu falei “Procure ir atrás dela e diga para ela me ligar, que eu quero conversar com ela”.  Mas, às seis da manhã, me ligaram da gastroclínica para me dizer que encontraram uma pessoa na 23 de maio, gravemente ferida e que a levariam para o Hospital das Clínicas. Ela tinha no seu bolso um papel com meu telefone e meu nome, e por isso que estavam me telefonando.  Eu fui até o Hospital das Clínicas. Disseram que era preciso fazer uma doação de sangue, então eu fui até aonde se fazia a doação, para eu também fazer, mas quando estava lá me informaram que ela infelizmente tinha falecido.

As pessoas me perguntam sobre ela, sobre o livro dela. Se não me engano, o livro dela tem mais de 25 edições e foi o publicitário Carlito Maia quem sugeriu: “A Queda para o Alto” para o título do livro. É muito lido, sobretudo pelos jovens na periferia. Então, muitas pessoas que leram o livro comentam comigo que gostaram muito. Um filme baseado na história foi lançado em 1986, “Vera”, dirigido por Sérgio Toledo, e o papel principal rendeu a Ana Beatriz Nogueira o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim em 1987. O meu papel foi representado pelo ator Raul Cortez.

Ana Beatriz Nogueira levou prêmio em Berlim no papel protagonista. Imagem: Divulgação.

No ano 2000, um grupo de teatro de Heliópolis montou uma peça, e perguntaram se eu poderia fazer uma gravação de vídeo contando a história que eu acabo de falar para eles passarem antes da apresentação. Eles queriam mostrar a história de vida dela, e eu fiz com o maior prazer. A primeira apresentação aconteceu no Teatro Ipiranga, perto de Heliópolis, e teve um grande sucesso. Para a segunda apresentação, como a primeira tinha sido tão boa, eu convidei o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, e ele gostou tanto que decidiu apresentar a peça no Teatro Oficina. E aí, eu, em todas essas apresentações, ao invés de fazer por vídeo, fiz a abertura ao vivo. O SESC gostou tanto, que fez que o grupo de teatro apresentasse a peça em pelo menos em dez SESCs de outros bairros de São Paulo, Rio de Janeiro e Ribeirão Preto.

A história de Anderson é muito inspiradora. O livro foi dedicado, com seus poemas e sua história, a todas as crianças no Brasil que precisam de ter melhores oportunidades.

***

Entre os textos que sobreviveram ao seu suicídio, Herzer escreveu vários que foram dedicados a Suplicy. A gratidão é também uma forma do sentimento amoroso:

“…Poucas vezes vi seus filhos, mas muitas vezes pensei sozinho, o quanto eles devem andar de cabeça erguida, com o peito cheio de orgulho, por notarem o pai formidável que tem.

E certo que você me conhece há pouco tempo, talvez pense até que eu sou somente uma pessoa a quem você estendeu a mão, e que eu não contribuo em nada, apenas lhe dei problemas e despesas.

Mas eu não penso assim de você, e isso e que me importa. Você para mim é a vida que eu vivo a cada dia que se passa, e quem quando me ajudou não me rejeitou nem por um momento por eu ser apenas um pedaço de sangue já coalhado e pisado, que me tirou o lodo que cobria a minha face. Enfim, palavras não seriam suficientes e sim um esforço de minha parte para que um dia você possa sentir que compensou alguma coisa todo este trabalho que está tendo agora…” (Carta ao Eduardo Suplicy, Anderson Herzer, São Paulo, 5 de setembro de 1980)

“E a este Homem, eu agradeço, e sei que muito mais tenho a agradecer, pois ele não teve preconceito algum sobre minha pessoa. Ele não quis saber qual era meu nome exato, ou por que um nome feminino denominava uma pessoa como eu, uma pessoa que lhe falava franca e abertamente a respeito de meus casos amorosos, da beleza desta ou daquela, ao passo que antes eu só conhecia as opiniões dos “homens”, pobres homens, que me criticaram e ainda criticam hoje dizendo que eles sim eram homens, pelo órgão que tinham no meio de suas coxas, e o fato de eu ter muitas namoradas não me fazia um homem, e agora depois de tanto tempo pensando na miserável mente destes homens. Nada tenho a dizer sabre estas mentes cobertas, sobre esta ignorância tão forte que os transforma de homem para MACHO, minúsculos machos que pensam trazer seu caráter em forma de duas bolas no meio de suas pernas”. (Anderson Herzer, A Queda para o Alto, 1982)

“A cultura popular é um dos maiores tesouros que temos”, defende Moyseis Marques

“A cultura popular é um dos maiores tesouros que temos”, defende Moyseis Marques

Foto: Marcelo Costa Braga

Por Eduardo Sá

Neste ano completou quarenta anos de idade e hoje, sexta-feira (16/08), lança seu primeiro DVD, Passatempo, no Clube Santa Luzia, no centro do Rio de Janeiro (veja aqui o evento). As datas comemorativas não param por aí, pois o músico Moyseis Marques comemora vinte anos de carreira nesse trabalho. Traz no currículo seis CDs, músicas em novelas, shows em diversos estados do Brasil e países mundo afora. Tem parcerias com renomados artistas nacionais, como é o caso de Chico Buarque, que faz parte também desta sua mais recente realização em parceria com a gravadora Biscoito Fino.

Moyseis Tiago Leite é mineiro de Juiz de Fora (MG), mas passou seus primeiros vinte anos no Largo do Bicão, na Penha, subúrbio do Rio. Versátil, dedica-se há anos aos ritmos brasileiros, em especial o samba de raiz, o forró pé de serra e a MPB. Começou com sua viola nos bares e hoje já carrega duas indicações ao Prêmio da Música Brasileira, como melhor disco e melhor cantor. Sua arte pode ser vista em várias plataformas digitais: Itunes, Deezer, Spotify, etc.

Na entrevista à NINJA, ele reflete sobre sua trajetória musical e como o músico profissional não é levado a sério em nosso país. Mesmo com uma carreira consolidada, os desafios para produzir e divulgar seus trabalhos são enormes, além das dificuldades financeiras. Por sermos do terceiro mundo, segundo ele, tudo chega depois e há um desinteresse tanto do público quanto do mercado pela música de qualidade. Inquieto, também faz uma análise crítica do atual governo e dos tratamentos à cultura nacional.

Você fez quarenta anos num show com vários artistas e completa 20 de carreira com a produção de um DVD, o que representa esse momento na sua vida?

Essa aventura de viver de música começou espontânea, as pessoas foram gostando e aglomerando até me tornar um músico profissional. Demora para se dar conta que ser músico é uma coisa e artista outra. Meu compromisso lá atrás se resumia a cantar, tocar e compor, que já é bastante coisa, e ser artista tem entrevistas, ir à televisão, elaborar projetos, etc. É tipo um casamento, vai renovando votos e buscando fôlego.

Sou eclético, muito inquieto, então tenho meu trio de forró, minha roda de samba, meu show com Chico Buarque, outro dia cantei com o Monobloco, já toquei com o Rio Maracatu. Sou muito interessado, adoro jazz, um capítulo que ainda não mergulhei mas tenho muita vontade. Inclusive de estudar nos EUA, que é um país que tenho certa relação.

É legal ver o que me tornei, aonde posso chegar e me posicionar no tempo e espaço. As expectativas que no início são apenas suas passam a ser de quem torce por você, te apoia, é teu fã, compra seu disco, te ouve e vai aos teus shows. São também as minhas expectativas e frustrações dos outros. Às vezes querem me ver ao lado de artistas muito famosos, num programa de horário nobre com uma audiência incrível.

Mas ao lado do Chico Buarque, um dos artistas mais famosos do país, não atende?

Pois é, mas mais famoso para quem? Para nós da classe média, infelizmente o que se vê de mídia de massa não é isso. Não estamos na era dos festivais, sabe? As pessoas não estão interessadas no novo disco do Edu Lobo ou do Dori Caymmi, inclusive se passarem na rua ninguém conhece. E é o que eu quero ser quando crescer, são dos músicos mais geniais desse Brasil. Então, em 20 anos tem desejos que tinha e não tenho mais, em compensação tenho outros. O Aldir Blanc fala que poucos compositores conseguem desfrutar a glória do anonimato, que é estar num lugar e todo mundo cantando sua música sem ninguém saber quem é você.

Paulo César Pinheiro é o maior ícone nesse sentido, muita gente não o conhece.

Inclusive músicos. Eles fazem parte do meu quarteto de super-heróis: Paulo César Pinheiro, Nei Lopes, Aldir Blanc e Chico Buarque. O último é famoso porque foi artista na década de 60, mas não faz shows. Lança um disco, faz turnê, vai à Europa e desaparece. Não é igual ao Gil e o Caetano, que estão em todas e sempre pegando fôlego. É um bicho de palco, eu também tenho uma coisa do teatro, gosto de manipular o sentimento e conduzir. Meus ídolos são esses mais ali naquela coisa de camarim, mas existem várias formas de participar sem estar no centro do espetáculo.

Música tem o cara que compõe, o que escreve o roteiro, o dos arranjos, todo mundo está contribuindo, e tem o bobo da corte principal que conduz. Sem essa estrutura não faz nada. Então é o tempo de analisar essa trajetória e traçar um novo começo com mais consciência de onde se quer chegar. Para o leigo ou você é muito famoso tipo Ivete Sangalo e Anitta ou um João ninguém. Entre eles tem uma gama enorme, o Cartola foi gravar o primeiro disco com 60 anos. Jackson do Pandeiro, que está fazendo cem anos, é uma das minhas maiores referências morreu e não tinha nenhum ícone da MPB no seu enterro. Não dá para todo mundo ser Chico ou Caetano. Na própria tropicália, quantos estiveram ali sem projeção? Torquato Neto, o próprio Tom Zé…

O Tom Zé você acha que não é conhecido?

Hoje em dia né irmão, que se impõe mais pela subversão que pelo tocar e cantar. É outro tipo de genialidade. Falam em Bossa Nova e João Gilberto, mas não em Johnny Alf, que esteve antes disso tudo. Tem essa ausência de expectativa por um lado, certo ceticismo que vamos adquirindo, você cria uma proteção diante do vivemos.

Agora vai ter o lançamento do meu DVD, cheguei a ver alguns teatros, eles até têm data, mas a condição é uma conta que nunca vai fechar. Tem até uma piada: lançou o disco, eaê vendeu muito? Vendi um Peugeot 206, uma televisão 42’’ e uma bicicleta. Não existe mais aquele empresário, antigamente o mercado e a mídia queriam saber das mentes criativas, o artista era medido pela sua capacidade intelectual e técnica. Agora se interessam pelo artista que lota as casas.

O que mudou nessa estrutura fonográfica? Isso dava dinheiro, né?

Na crise as pessoas não querem mais pagar por música, ainda somos terceiro mundo e tudo chega depois. O brasileiro está aprendendo agora a comprar com cartão de crédito, então antes de baixar seu disco no Itunes tenta de toda maneira baixar de graça. Se não consegue, talvez pague de 15 a 20 reais. A minha geração ficou no meio desse limbo, ainda peguei esse resquício.

Se assinasse um contrato com a gravadora estourava um champagne, se ela quisesse gravar um disco comprava um carro. Se gravasse um disco com Zeca Pagodinho já levava R$ 50 mil pra casa. Hoje você pega o disco, e o que vou fazer agora? Tem uma minoria que compra, mas não é uma coisa de massa. Você vai ao meu show no Circo cheio e acha que tô bombando, mas só em certo contexto e nicho.

Foto: Marcelo Costa Braga

Mas você é um artista que já tem certa visibilidade, tanto é que deu entrevistas a várias mídias nesta semana.

Sim, mas quem lê O Globo ou o Correio Braziliense? Eu compro o jornal, tiro a foto da matéria e posto nas minhas mídias sociais, impulsiono no meu cartão de crédito, que faz com que isso chegue às pessoas. Acham foda ter saído no jornal, a gravadora foda, só que é o meu cartão. No meu primeiro disco em 2007 eu era capa do Segundo Caderno, fui à Hebe, ao Jô, tive duas músicas em novela, todo mundo falava que depois que eu botasse uma música em novela ia estourar.

Não estou criticando as plataformas digitais, só dizendo que estamos atrasados. A geração depois da minha já tem outro esquema de trabalhar com singles. Mas claro que essas ferramentas dão possibilidade, mesmo sem o respaldo de uma gravadora. Se viajo o Brasil todo, cantei na maior casa de jazz da Europa, vou todo ano aos EUA, não é porque minha música entrou na novela. Foi por causa da mídia social, mas capitalizar isso a ponto de ficar tranquilo e não preocupar com dinheiro? Não. Tenho 20 anos de carreira e continuo indo ao Mundial fazer compras, parcelo coisas, devo, entende?

Você acha que essa dificuldade de sustentabilidade do músico é por falta de incentivo dos poderes públicos e do mercado?

Quem está interessado nisso? Essa é a questão. A música tem uma coisa muito cruel, qualquer outra profissão se você é foda cresce, é promovido, remunerado. Na música você pode cantar e tocar pra caralho e as pessoas não estarem nem aí pra você.

Tenho percebido que há uma diferenciação não só do pagode pro samba, mas dentro do próprio samba em definir qual é a linha de raiz ou não.

É uma discussão velha, porque pagode significa festa. O rei do samba é Pagodinho, ele mesmo não explica a diferença porque não tem. Conheço bons pagodes e outros ruins. No samba tem uma galera nova que gosta do mais antigo, busca os primórdios: Ismael, Cartola, Noel, etc. Tudo é samba no final das contas. O de 1917 era mais maxixado, como o Pelo Telefone. Em 30 e 40 tem uma coisa de cronista, como Noel, já em 50 tem os sambas carnavalescos. Depois tem samba de partido alto, breque, gafieira, canção, choro, terreiro, quadra e enredo. Em 80 vem Fundo de Quintal e por aí vai, tudo samba.

Tem a galera da zona sul estudada, a Leila Pinheiro dizia que o Tom ficava puto com essa história de Bossa Nova: Samba de uma nota só, de Orly, do Avião, é tudo samba. Então há subdivisão, assim como no forró: xote, baião, rojão, arrasta pé, etc. Tudo faz parte de um oceano muito profundo e vasto. Minha geração bebeu tudo isso, tem o João Martins que faz assim, o Mosquito que faz assado, eu mais com violão, o João Cavalcanti mais crânio, o Alfredo Del-Penho um baita instrumentista. Todos fazem parte da mesma coisa, cada um à sua maneira.

Amo Paulo César Pinheiro, Almir Guineto, Chico Buarque, mas cresci ouvindo Raça Negra e Só pra Contrariar, junto com Leci, Jovelina, tudo junto e misturado. O problema é quando entra la plata. Neguei atalhos, recebi muito convite para cantar pagode na década de 90. Você faz o que quer do seu talento.

São escolhas e renúncias e muitas vezes você deve ter se sacrificado por isso, mas acredito que ao mesmo tempo é muito gratificante também.

Me sacrifico até hoje, meu caminho é de formiguinha. Sigo uma linha que acredito e sei fazer, gosto e sou mais eu. Você vai educando o público também, acabei de fazer um show com Del-Penho e o Pedro Miranda só de músicas nossas. Duas horas com as pessoas lá chorando, embevecidas, aplaudindo. E o mercado quer me convencer que as pessoas não estão interessadas.

A cultura é tratada como sobremesa, quando devia ser tratada como arroz e feijão.

Tenho um produtor, mas não é nenhum grande empresário. Ele quer alguém para investir, atualizar o site, me dar tranquilidade de ficar um pouco mais em casa. Tenho 40 anos, e quando tiver 70? Hoje estou adorando tocar 19h da noite e 23h estar em casa de cueca tomando minha cerveja vendo televisão. Gosto da boemia porque minha inspiração maior é as pessoas, mas tem um paradoxo muito grande na minha profissão: me orgulho muito de viver de música, mas a pior coisa é depender da bilheteria para pagar o colégio da sua filha. Cai uma chuva e tu chora, ou tem um Paulinho da Viola no Circo Voador. As pessoas estão duras também, vão onde quiserem e o dia que eu precisar ficar implorando para me ver a arte perde sentido.

Dá a impressão pelo seu trabalho que a cultura popular nacional te encanta profundamente, o que você pensa sobre ela?

É raiz, ancestralidade, o que brota do chão, do barro, que dá essa sensação de pertencimento. Quando estou numa roda de capoeira em Padre Miguel me arrepio. Acredito nas forças da natureza, estou afastado do Candomblé mas acredito no mar, no vento, no céu, no movimento da terra e dos astros. Tudo isso brota de um lamento, um refúgio e isso permanece. O blues é um canto de lamento, uma ladainha de capoeira também, o forró é feito dentro de uma seca, tudo isso fica. Quando você reproduz aquilo se conecta, é o que faz você ser brasileiro e dá sustância à sua carreira.

A música vem a partir disso, se hoje acerto no repertório mais do que erro é por ver o que as pessoas querem. Acompanho essa produção de perto, e a cultura popular é um dos maiores tesouros que a gente tem. O Brasil é uma potência lá fora não pela sua arquitetura, nem engenharia ou medicina, é por causa da sua cultura e arte. São 519 anos de exploração convertidos numa arte indígena, negra, africana, europeia, americana. Tudo isso gerou essa música forte, rica, diversificada, inclusiva e com tantas texturas, ramificações. Tantas possibilidades harmônicas, melódicas, líricas, etc.

Foto: Marcelo Costa Braga

Mas para além do sentimento, como você vê o tratamento à cultura?

A cultura é tratada como sobremesa, quando devia ser tratada como arroz e feijão. A Beth Carvalho morreu dizendo que o samba devia ser ensinado nas escolas. Quando cantamos falamos de forças da natureza, escravidão, amores não respondidos, política, ditadura, tudo. É a história do país traduzida através de arte, só que uma das funções da música é entreter. Além disso emociona, transforma, acessa lugares nas pessoas que nenhuma outra arte acessa.

Num momento como hoje, onde os artistas são inimigos do país, as autoridades não estão nem aí, o entretenimento tomou a poesia. As poucas políticas públicas estão sendo dizimadas, até a possiblidade de fazer festa na rua está encontrando dificuldade. Estamos no terceiro mundo.

Segunda vez que você cita isso, didaticamente o que quer dizer?

Nos EUA, por exemplo, as pessoas se interessam. Aqui falo sou músico, aí perguntam: e o seu trabalho? Não é levado a sério, se você não tiver num Domingão do Faustão ou ter a cara no outdoor. Vejo isso quando tenho que alugar um apartamento, comprar um carro, estou numa imobiliária, um crediário ou coisa que o valha. Hoje sou inquilino do Luiz Antônio Simas, um baita gênio, pela primeira vez uma pessoa me respeita pelo que construí. Estudo pra caralho harmonia, teoria musical, rítmica, técnica vocal, violão, tanto quanto um médico, engenheiro, advogado, dentista. Estudei na federal de química, meus amigos são nutricionistas, farmacêuticos e parece que a música é menos. Apesar dos 60 mil seguidores ainda sou minoria. A maioria quer saber de outras coisas.

Isso é sintoma de uma alienação geral, que inclusive teve ressonância política gerando o cenário atual?

O Brasil é uma republiqueta com uma jovem democracia, uma corrupção sistemática, endêmica e estrutural. Criado nesta base desde que os portugueses chegaram, e parecia que estávamos caminhando para um lugar com mais diversidade, por mais que ainda se tenha muito a caminhar. Aí vem um e fala: tem que botar ator negro. Hoje botam 3 negros e 15 brancos, mas e o diretor e o escritor? Só com ator ele vai continuar fazendo papel de subalterno. Aquela música do Moacyr Luz: estranhou o quê, o preto pode ter o mesmo que você. Dignidade, alimentação, moradia, é o básico, ele está falando: o carro, morar no seu prédio, ser presidente, senador, chefe de empresa. Esquecemos que Machado de Assis era negro. Tudo isso vem através de golpes, seja militar ou parlamentar, como foi o último. O cara que autorizou o impeachment está preso. Mas também acho que o petista doente é tanto quanto o bolsonarista, a esquerda festiva é tão maléfica quanto o pobre de direita.

Minha discussão política com os amigos mais íntimos termina quando pergunto o preço da passagem de ônibus. Nunca foram ao hospital público, vivo sem plano de saúde há mais de cinco anos. Minha filha nasceu em hospital público, quando teve pneumonia foi tratada, está no colégio Minas Gerais, que é referência em escola pública. Com sete anos está estudando espanhol. Então existe, mas tem que democratizar.

Como tirar aqueles sexagenários brancos do congresso nacional de uma vez? Essa pessoa que foi eleita, a maneira como chegou ao poder, é o que mais me irrita. Não só porque é homofóbico, idolatra torturador, xenófobo: isso é um retrato do Brasil. Por ser um cara completamente despreparado e desqualificado para exercer aquela função. E o brasileiro bota ele lá dessa maneira: facada, whatsapp, fugindo do debate, prendendo o Lula e o tirando da eleição, etc.

Me preocupa porque essas pessoas são desequilibradas. Imagina do que é capaz quando a casa começar a cair, como já está acontecendo? Zavascki ninguém fala mais, não estou nem falando de Marielle, que quanto mais abafam mais ela se reverbera. Carisma ninguém compra. Espero que esta merda que está acontecendo sirva para prestarmos atenção como as coisas acontecem, pensar mais nos deputados, senadores e vereadores que votamos, não só no executivo.

É “Samba Que Elas Querem”: grupo feminino completa dois anos de sucesso no RJ

É “Samba Que Elas Querem”: grupo feminino completa dois anos de sucesso no RJ

Fotos: Marcelo Costa Braga

Por Eduardo Sá

Tudo começou sem nenhuma pretensão num barzinho da zona sul carioca. O grupo composto atualmente por oito mulheres não é o pioneiro nessa perspectiva feminina, mas ganhou projeção rapidamente. No dia 16 de agosto completa apenas dois anos, mas por onde passa arrasta um grande público. Já tocaram em diversos bairros da cidade, casas de shows famosas, fizeram parcerias com artistas consagradas, e até realizaram uma turnê internacional por Portugal, na Europa.

Mas a essência continua. Apesar de enfrentarem muitas dificuldades, ainda têm preferência por tocar na rua. Nela será a comemoração dos dois anos do grupo na próxima sexta-feira (16/08), veja aqui no link do evento. Nesta entrevista à Ninja, elas contam como nasceu o projeto, a dificuldade e importância de um coletivo feminino ocupar espaços no samba, e falam sobre o machismo na sociedade e a conjuntura política atual. Conversamos com seis integrantes antes de um ensaio realizado no hotel Selina, na Lapa: Cecília Cruz, Silvia Duffrayer, Mariana Solis, Júlia Ribeiro, Bárbara Fernandes e Angélica Marino.

Como se deu o surgimento do grupo, vocês tocavam separadas antes?

Mariana: Tínhamos um núcleo de quatro pessoas que fazia parte de outras rodas de samba, onde somos mulheres minoria. A Gisele já tocava com outras mulheres, mas entrou depois na roda. Poucas já tinham tocado juntas, outras já tinha algum contato por amigos, então começamos a nos falar para montar uma roda de samba só de mulheres. A ideia era se reunir num bar e tocar sem muita pretensão com um grupo só feminino. A gente começou a se reunir ali por Botafogo, Humaitá e na minha casa.

Cecília: A gente estava praticando, tirando músicas juntas, e o objetivo era um dia tocar juntas. Ainda não rolava nem de passar chapéu, era para estudarmos juntas e nos fortalecermos. Mas a ideia do grupo vem depois.

Mariana: Aí rolou da Cecília e a Silvia se conhecerem num trabalho que fizeram juntas. A Silvia queria comemorar seu aniversário e a primeira roda do Samba que elas querem foi no bar Dois Irmãos, na Pedro Américo, no Catete, nessa festa. Era uma roda despretensiosa e ela já batizou o grupo no evento do Facebook. Foi tão maneiro que nos convidaram para tocar no festival O Passeio é público, a Silvia montou um grupo de Whatsapp e fechamos o trabalho. A Julia estava viajando, mas chegou e fechamos o grupo para a nossa roda de rua mensal. Já fomos nove integrantes e agora somos oito.

Embora tenha alguns grupos femininos há mais tempo na estrada, vocês ganharam uma projeção grande muito rapidamente. Por quê?

Silvia: O momento foi muito propício, em que as mulheres estão se refazendo e retomando seus lugares socialmente. Isto é um ponto positivo para o grupo crescer da forma que cresceu, mas não é só isso também. Temos uma característica que deu certo, a união em meio às diferenças, a gente enriqueceu muito no processo.

Vocês são todas da zona sul?

Silvia: Eu e a Gisele somos de Bangu, zona oeste, tem gente de Niterói e da zona sul. A diferença enriquece muita coisa e potencializa uma junção. Somos diferentes em tudo, não só fisicamente, como na educação, etc. Mas acho que é muito por esse momento e ser um grupo de mulheres. Tem o Moça Prosa, o da Ana Costa…

Silvia: Foi bom também, porque acho que inspiramos muitas mulheres. Em Vitória (ES) umas meninas se sentiram encorajadas e formaram um grupo, em Buenos Aires e muitos outros lugares se sentiram representadas por ver um coletivo de mulheres. Vamos pesquisando e tentando entender como era o movimento, e realmente era mínimo em termos de projeção: um grupo feminino no meio de um milhão de outros.

Foto: Marcelo Costa Braga

Essa questão da composição própria e com releitura de música famosa com o olhar feminino também ajudou neste crescimento?

Silvia: A versão de mulheres que eu fiz com a Doralyce o samba abraçou. Virou um hino da mulherada cantando. Por enquanto só temos essa versão, mas pretendemos gravar mais autorais. Tem que tomar cuidado, porque o samba é muito machista. Nasceu num ambiente machista e as histórias, os sambas, quando você vê está falando coisas que não queremos mais falar.

Júlia: Também tocamos outras canções autorais, estamos em processo de testar essas músicas de amigas e queremos levar para frente. E temos algumas nossas mesmo, mas ainda não entraram no repertório.

Silvia: Estão cobrando muito no Spotify, isso é uma parada que estimula. Chegamos num boom em pouquíssimo tempo e agora estamos mais maduras para começar a gravar, se entender nesse movimento todo com um milhão de shows e tendo ido a Portugal.

Júlia: Em cinco meses a gente já ouvia essa cobrança, esse movimento se deu também de fora para dentro. A gente só queria fazer uma roda por mês lá no Catete e tocar juntas, estudar, evoluir enquanto artistas, musicistas mulheres, depois a gente começou a ir para todos os lugares do Rio e outras cidades.

Vocês já têm uma produtora que assuma toda essa burocracia, logística, divulgação?

Julia: Temos uma mini equipe que é composta por algumas de nós, e por duas mulheres, a Bárbara Louise e a Fernanda David, que nos agencia e fecha os eventos e negociações. Mas nem todas do grupo ainda vivem de música, fazemos outras atividades, algumas estudam e dão aula de música. Tem engenheira, psicóloga, inclusive a Mari é a designer e fez a logo e todas as artes, além de a própria Silvia já ter sido produtora.

Silvia: É bizarro ainda não termos ido a São Paulo, por exemplo. Agora vai ser mais um investimento, como foi Lisboa, para a gente fechar shows e ir. Não falta convite, só que a galera não tem como bancar oito passagens, hospedagens, etc. É difícil também para o contratante, então temos que começar a pensar projetos e porque não dá pra ficar só aqui.

Voltando ao empoderamento, na história do samba as mulheres ficavam muito na cozinha, na dança, depois tivemos mestras na interpretação, mas algumas funções como a composição estão sendo ocupadas só agora. Como vocês veem isso?

Silvia: É um novo cenário se formando, difícil até falar enquanto está acontecendo e vivendo o processo. É muito maravilhoso ver as mulheres se colocando e a gente também se entendendo como mulher. Tenho aprendido muito desde que o grupo nasceu e a responsabilidade de falar para outras pessoas e mulheres. É muito bom ver esse movimento tão fortalecido e nós muito mais unidas. Fomos criadas para competir, quem é mais bonita ou tá isso ou aquilo, e agora estamos juntas.

Isso se reflete nas mídias sociais, no sentido de divulgar outros coletivos e músicas enquanto movimento?

Júlia: Temos muitas participações nas rodas de outras artistas mulheres. Todo evento que tem uma visibilidade maneira convidamos alguém para fazer participação e que a gente acha que será bom ter essa troca.

Mari: Já divulgamos projetos dos outros, fazemos eventos juntos, damos destaques a datas que queremos frisar, etc. A primeira foi com a Glória Bonfim, ela estava querendo financiar seu disco e foi na nossa roda e nem cobrou nada, foi maravilhosa. Tia Surica, Nilze, dentre outras.

Foto: Marcelo Costa Braga

E o mercado, como se dá o diálogo com os bares, casas de samba, shows?

Silvia: A nossa roda de rua geralmente eles bancam o som e a gente roda o chapéu. É diferente de um bar como o Bar do Zeca, que é mais estruturado e temos um cachê e fecham com a nossa produtora. Na rua já é mais resistência.

Júlia: Fazemos porque queremos muito, é muito difícil. Falamos muito sobre tentar sempre usar a rua, mas recebemos muitas propostas e precisamos trabalhar. A roda de rua é sempre uma diferença muito grande.

Silvia: O samba querendo ou não é muito democrático, é outra energia fazer roda na rua. Não temos feito por falta de oportunidades e impedimentos, pois não estamos conseguindo. A Banca do André, por exemplo, que é nosso parceiro, no Centro do Rio, não está conseguindo. Porque a gente leva muita gente e isso acaba sendo um impedimento para quem está contratando: tem que ter segurança, banheiro, limpeza, etc. No Bar Dois Irmãos tivemos que sair porque a vizinhança não conseguia mais subir a rua. Passa a ser uma falta de respeito também.

Silvia: Quando a gente faz na rua fica muito cheio, é muito incrível e muito lindo, mas é o evento que ficamos mais tensas. A gente assume um monte de responsas, é tudo botando a cara, e isso é também uma questão né porque se der alguma merda é o Samba que elas querem.

Vocês trazem junto ao projeto uma narrativa política também?

Silvia: Falamos sobre racismo, violência, preconceito, etc, e os incomodados têm que ouvir. Tem assunto que a galera fala: ai que saco elas vão falar de novo, mas infelizmente temos que falar em todo show. Temos um retorno grande sobre o que falamos também.

Mari: Sim, nas eleições foi muito. Um dia antes no Arco do Telles todo mundo gritou Fora Bolsonaro, e no ato quando a Marielle foi assassinada a gente tocou.

Cecília: As nossas músicas e falas são pelo que a gente acredita, o papel da mulher, dentre muitos outros temas.

Bárbara: Ser um grupo só de mulheres já é representativo, e os termos são igualdade salarial, abertura no mercado de trabalho às mulheres que tocam, que são instrumentistas. Nos posicionamos com todo cuidado para não parecer uma coisa comercial. É muito tênue. Temos cuidado quando o convite é de algum comitê de partido, porque mesmo que sejamos afinadas com esse ou aquele discurso não fazemos propaganda para nenhum. O Samba que elas querem, apesar do voto de cada uma, preza pela democracia.

Silvia: Temos mais é que fazer essa galera nos ouvir, precisamos inclusive aprender a nos comunicar principalmente neste momento que está todo mundo muito estressado. A política fez um monte de gente deixar de se falar, tenho esperança que a gente vá conseguir retomar isso.

Qual a avaliação de vocês sobre a atual conjuntura?

Bárbara: Depois que o Bolsonaro ganhou, como diria Chico, “a nossa gente anda falando de lado e olhando pro chão”. E esse estado muitas vezes faz com que as pessoas percam um pouco a fé na democracia. Até que ponto o espetáculo (que a política se tornou, com jornais, revistas, e televisão alardeando dia após dia uma notícia desesperadora atrás da outra) é bom para saúde? Mas até que ponto deveríamos largar de mão a realidade?

Enquanto isso parte da sociedade consome as chamadas de facebook e as fake news, e a outra parece estar atada, bloqueada, tão melancólica e desgastada, que só o ato de apurar o que está realmente acontecendo é doloroso. Fico me perguntando se essa força que a arte tem, e que o samba principalmente causa em forma de poesia, pode mudar a consciência das pessoas que nos acompanham. Não podemos estar em festa o tempo todo sabendo que grande parte do nosso país adoece, passa fome, sofre violência, etc. Portanto, o que somos também se reflete em forma de discurso, e o samba tem seu papel social de aliviar, denunciar, acalentar e inspirar paixão e humanidade nas pessoas. Ou seja, esperança e alegria precisam andar juntas, e resistir.

Márcia Tiburi: “Fora do Brasil todos já perceberam que Bolsonaro é um maníaco”

Márcia Tiburi: “Fora do Brasil todos já perceberam que Bolsonaro é um maníaco”

Entrevista com a Marcia Tiburi, uma exilada pelo Bolsonarismo.

Foto: Mídia NINJA

Em maio de 1933, frente à Opera de Berlim, na Alemanha, aproximadamente 40 mil pessoas aplaudiram a queima de livros de intelectuais contemporâneos como Einstein, Stephen Zweig, Jacob Wassermann e Freud ao grito de “Contra os marxistas, os judeus e os materialistas!”. Freud, particularmente, seria perseguido e acusado de pornógrafo, pedófilo e pervertido, entre outras coisas, a causa das suas teorias sobre psicanálise que, com o tempo, acabariam por ser um pilar fundamental na estrutura do pensamento ocidental moderno.

Meses após a tomada de poder, os nazistas invadiram e destruíram o Instituto de Sexologia, onde se realizavam pesquisas para dilucidar o comportamento sexual humano. Durante todo esse período, Freud tentou se afastar das proclames esquerdistas para manter em funcionamento o Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI), porém, os nazistas deram um novo rumo e colocaram o instituto a serviço de uma psicoterapia hitleriana que teria, curiosamente, como um dos seus apoiadores mais destacados Carl Jung.

Jean Joseph Goux insinua em “Freud e a estrutura religiosa do nazismo”, que o discurso de apelo religioso messiânico de Hitler, transcendia sua psique desequilibrada e tinha propósitos estratégicos para a dominação das massas. Hitler era um maníaco que entendia o poder de uma retórica política estruturada na força da religiosidade e de um ideal do ser alemão. Isto serviu para, de forma rápida e sem espaço para o debate, iniciar uma infernal perseguição de artistas, intelectuais, homossexuais, ciganos, judeus, negros e todo aquele que não se encaixasse no ideal do que se pretendia para a nação alemã.

A atividade intelectual e artística independente foi totalmente anulada e ou controlada pelo regime. O exílio chegou para grandes nomes como Fritz Lang, Sigmund Freud, Teodor Adorno, Walter Benjamin, Annie Fischer, entre outros. Também vale relembrar que durante o período de governo de Hitler, eram proibidas as exposições de artistas como Picasso, Henri Matisse, Marx Ernst, entre outros, por ser considerados impuros ou perversos, contrários aos interesses e ao espírito puro do povo alemão.

É quase impossível, com este cenário, não realizar analogias com o que aconteceu e ainda acontece no Brasil. Os casos de Márcia Tiburi, Jean Wyllys, Débora Diniz, entre outros, são paradigmáticos e parecem obedecer à mesma sequência de perseguição e difamação que levou ao exílio aquelas grandes figuras na Alemanha nazista, há quase cem anos.

A perseguição baseada em calúnias e naquilo que hoje se conhece como “fake news” (Freud era o maior alvo de noticias falsas que alimentavam a ideia de ele ser um pervertido sexual), se praticava desde os jornais oficiais e não oficiais do partido. “Der Angriff” foi um jornal fundado por Joseph Goebbels em 1927 e tinha uma linha editorial que propagava o ódio ao “sistema”, usando linguagem agressiva e direta. Seus temas mais recorrentes foram o antissemitismo, o antiparlamentarismo, a demonização dos intelectuais, da política tradicional, da democracia e da “arte perversa e marxista”. Similar ao trabalho feito nas mídias do MBL, Direita São Paulo, ou pelo youtuber Nando Moura, a força da agressividade e a passividade do governo ante o violento discurso das suas edições acabou gerando uma sensação de legitimidade na sociedade alemã. Ajudou assim a fazer crescer a narrativa nazista como “uma visão”, uma dialética que discutia a decadência do governo dentro do agito democrático.

Márcia Tiburi começou a ser alvo de boicotes e escrachos a partir de um episódio acontecido no dia 24 de janeiro de 2018, quando abandonou um programa na rádio Guaíba ao se deparar com o militante do MBL, Kim Kataguiri. Ele foi e continua a ser participante ativo de várias ações para censurar exposições como o “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, ou a participação da Judith Butler no debate sobre democracia no SESC Pompeia. Marcia Tiburi escreveu sobre o episódio:

…não me é admissível participar de um programa que tenderia a se transformar em um grotesco espetáculo no qual duas linguagens que não se conectam seriam expostas em uma espécie de ringue, no qual argumentos perdem sentido diante de um já conhecido discurso pronto (fiz uma reflexão teórica sobre isso em “A Arte de escrever para idiotas”), que conta com vários divulgadores, de pós-adolescentes a conhecidos psicóticos…

Logo depois disso, Márcia sofreu de forma progressiva cada vez mais ataques e difamações por parte de diferentes setores da direita: Flávio Bolsonaro, vários youtubers do MBL, Nando Moura, entre outros, divulgaram um vídeo dela fazendo uma análise antropológica dos mecanismos (como contexto social e situação financeira) que podem levar uma pessoa a acionar um assalto. No vídeo Márcia não justifica nem faz uma apologia ao assalto, mas analisa que existem contextos que podem lançar alguém a cometer essa ação. O vídeo, viralizado no Whatsapp, no Youtube e no resto das mídias, acompanhado de uma legenda que apela a pontos sensíveis do cidadão comum – como é o problema da segurança e da violência social – contribuiu para engendrar uma sensação de insensibilidade ao respeito das figuras intelectuais do país, e particularmente um ressentimento da classe média à figura dela. A mesma estratégia empregada pelos nazistas, há quase um século.

A escritora começou a receber ameaças pelas redes, por e-mail, pelo telefone. Em abril de 2018 teve que cancelar a apresentação do seu livro “O Feminismo em Comum”, por falta de segurança em virtude das ameaças e reclamações recebidas pelos organizadores e pela própria escritora.

“Fui perseguida durante todo o ano. Todos os meus eventos e lançamentos de livros foram invadidos, ou havia promessa de invasão. Muitas ameaças… ameaças do tipo ‘Quando você estiver assinando o livro eu vou te matar’”.

Ainda conforme Márcia, “vários desses sujeitos ficavam uma hora na fila de um lançamento de um livro meu, muitas vezes até compravam o livro para poder entrar. Uma vez que entravam, de repente, pulavam entre o público e faziam uma cena. Isso começou a virar uma coisa muito perigosa, porque não era um perigo só para mim. É perigo para a cultura brasileira, é perigo para a cultura literária”.

“As pessoas querem ir num evento para escutar, ouvir um escritor… O último evento que eu participei, que foi em novembro de 2018, foi bastante significativo porque havia ameaças de morte e de invasão” … Eu fui falar de literatura, a campanha já tinha acabado, a extrema direita já tinha ganhado. Mas eles não te deixam em paz. Você não pode ser uma escritora, não pode escrever romances… foi triste ver aquela segurança armada. As pessoas, quinhentas pessoas sendo revistadas, pessoas que queriam participar de um evento literário. As ameaças aconteciam na rua, por e-mail, nos eventos, no telefone. Decidi que para minha própria segurança, mas também para a segurança das pessoas que andam comigo, que convivem comigo, ainda nesses eventos, o melhor era eu sair do Brasil”. (trechos de “No Brasil, o estímulo à matança vem de cima para baixo”, entrevista disponível no Youtube)

O Brasil padece um êxodo de intelectuais, professores e artistas, conhecidos e anônimos, empurrados pelas narrativas de ódio e pelas práticas de invasão de eventos, difamação e ameaça pelas redes ou outras vias de comunicação. Nesse êxodo, uma das mais importantes intelectuais mulheres do país teve que abandonar suas atividades aqui e reiniciar uma vida estrangeira, como acontece e aconteceu sempre sob os diferentes tipos de regimes intolerantes.

Leia na íntegra a entrevista Ninja com Marcia Tiburi:

Pensas que existe uma forma de fazer filosofia sem fazer política?

Certamente a filosofia é uma determinada política da verdade, aquela que luta por sua exposição. Ideologia é, por sua vez, a política da ocultação da verdade. É uma pena que as pessoas tenham se deixado levar mais uma vez em nosso país pela ideologia capitalista e neoliberal que oculta a sua verdade. Deveriam ter se ocupado com a crítica, ou seja, a análise e a reflexão, que seria o caminho para se chegar à verdade.

Um exemplo atualmente muito interessante para entendermos o que é a verdade na prática: verdade é o que vem à tona hoje com as matérias feitas pelos jornalistas do The Intercept. E por que falamos de verdade nesse caso? Porque se trata de olhar de frente para o que aconteceu, para as provas. Quando falamos de verdade falamos de fatos e suas provas. Não de intenções ou outras abstrações.

A mídia tradicional no Brasil faz o papel de criar ideologias, ou seja, criar acobertamentos. A mídia alternativa tem chance de trazer a verdade à tona por meio de desocultamentos. Aliás, historicamente é isso também o que a filosofia sempre fez. Mas as pessoas não parecem gostar muito da verdade. E essa é uma característica da verdade, quando ela surge em jogos de poder, ela é sempre a parte que desagrada.

Derrida desenvolveu o conceito de Falogocentrismo, em outras palavras, a ideia de que a filosofia era um circuito fechado para homens brancos de origem e pensamento eurocentrista. Hoje ainda a filosofia precisa de ser ocupada por outros corpos, outras sensibilidades que não sejam a masculina eurocentrista?

As filósofas feministas já sabiam disso há muito tempo. O termo criado por Derrida é muito feliz porque vem condensar toda uma crítica ao sujeito histórico da filosofia que ainda existe, mas está sendo ultrapassado por novos sujeitos. Essa crítica ao sujeito filosófico encarnado nesse tipo de corpo “branco, europeu” já estava no livro da Dialética do Esclarecimento de 1947. Ali os filósofos Adorno e Horkheimer já denunciavam o eurocentrismo, o machismo e o capitalismo, além da mistificação fascista que vemos retornar hoje sob moldes “tropicais”.

A questão hoje é também “geopolítica”, sobretudo depois dos críticos da colonização, e nos obriga a discutir cada vez mais a ordem do discurso, ou seja, a produção do pensamento em tempos em que o sistema econômico tenta eliminar a reflexão a qualquer curso e usa a velha indústria cultural para isso.

Quatro dos exílios mais significativos do período bolsonarista envolvem duas intelectuais e ativistas mulheres (você Marcia Tiburi e Debora Diniz), o primeiro deputado assumido defensor dos direitos da comunidade LGBTQI (Jean Wyllys), e o escritor Anderson França, ativista pelo fim da violência policial e da extrema pobreza nas periferias. A tudo isto se somam as perseguições e ameaças cada vez mais crescentes contra o jornalista Glenn Greenwald, do The Guardian e The Intercept. O que você poderia refletir sobre isto?

Existem vários intelectuais e ativistas que já deixaram o país, alguns não viraram notícia. E inclusive não sou eu que vou comentar quem são essas pessoas porque nessas situações de perseguição, ameaça de morte, retaliação, tudo o que aconteceu com a gente, e acontece também com essas pessoas, cada um sabe o que é melhor pra si. Mas existem várias pessoas que deixaram o Brasil. Essas pessoas deixaram o Brasil não porque não gostam do Brasil, ou consideram que o Brasil é um lugar pior para se viver, ou que existem outros lugares melhores pra se viver no mundo. Não são escolhas. No nosso caso não foi uma escolha.

Eu me considero ejetada do Brasil. Praticamente expulsa. Sofri uma sorte incomum de intimidações e ameaças.

No meu caso, eu me considero ejetada do Brasil. Praticamente expulsa. Sofri uma sorte incomum de intimidações e ameaças. A campanha de difamação e fake news contra mim foi algo imenso, e ao mesmo tempo eu sempre tive esperança de que poderíamos ultrapassar isso. De que tudo isso seria passageiro. De que as figuras que eram responsáveis pela criação das mentiras e das calúnias contra mim seriam vencidas em tempo.

Hoje as pessoas não sabem onde eu estou morando. Tem muita gente que pensa que eu estou morando em Paris, tem gente que pensa que eu estou morando nos Estados Unidos. As pessoas não sabem onde eu estou morando, simplesmente porque eu ainda não decidi onde vou ficar. Então, transito entre vários países. Ora morando na casa de amigos, ora recebendo convites de universidades. Só vou estabelecer um paradeiro em setembro.

No que mudou sua vida hoje, quais são as consequências psíquicas, físicas e espirituais da sua situação?

Hoje eu posso avaliar da seguinte maneira: o custo psicológico é imenso, o custo econômico é imenso, o custo afetivo em relação às famílias, é imenso. O custo profissional é imenso. Ao mesmo tempo, quem se encontra nessa situação, conta com a solidariedade de muita gente, sobretudo a solidariedade internacional. No meu caso tenho muito apoio de todos os brasileiros que estão fora do Brasil, e tenho o apoio de várias pessoas de outros países e de instituições de outros países. E é também em função disso que eu vou poder escolher onde ficar a partir de setembro.

Eu percebo o enfraquecimento do poder desse presidente abjeto no nosso país e fora do nosso país. Fora do Brasil todos já perceberam que ele é um maníaco.

Então, eu continuo escrevendo, por sorte. Eu tenho esse recurso, continuo trabalhando na minha área que envolve escrever. Mas certamente há uma destruição de uma forma de vida e de uma organização familiar. Mas não é a maior tragédia do Brasil. A maior tragédia do Brasil é o que se faz com os nossos índios, com os nossos jovens negros, com o nosso povo pobre, e com a nossa natureza. E a Europa agora se dá conta do que é Bolsonaro também em relação a ecologia.

Eu percebo também o enfraquecimento do poder desse presidente abjeto no nosso país e fora do nosso país. Fora do Brasil todos já perceberam que ele é um maníaco. Dentro do Brasil muita gente já percebeu, muita gente já sabia. Mas existem pessoas que continuam seguindo o líder autoritário. São as pessoas que compõem o cenário do fascismo brasileiro atual. E infelizmente essas pessoas também têm muita força, porque fazem muito barulho, e muitas delas tem muito poder, inclusive e principalmente poder econômico.

É claro que a classe média baixa, que acompanha, não tem poder econômico, mas atua como imitando o líder autoritário, para tentar angariar com isso um lugar ao lado dessas figuras, vendo-se junto a essas figuras e às suas performances autoritárias.

Se a história da nossa raça continua a repetir as leis que parecem tê-la regido desde seus inícios, esse período de ira conservadora vai acabar (possivelmente após uma considerável devastação econômica e humana). Como você acha que vai se sentir quando tudo isto acabar de vez? Consegues fazer esse controverso exercício de futurologia?

Essa sua pergunta é muito curiosa. Como pensar o futuro? Como pensar onde estaremos, o que faríamos depois que tudo isso passar? O que pode acontecer? Se nós pensarmos nos exemplos dos ciclos dos governos totalitários, dos estados totalitários que já causaram catástrofes humanas no mundo, talvez seja um excesso de otimismo dizer que a gente vai sobreviver a tudo isso. Então, o que pode acontecer? O que aconteceu com os alemães, depois da passagem de Hitler pela Alemanha? O que aconteceu com o povo do Camboja? Do Vietnã? O que acontece hoje com os povos diversos, que sofreram das mais diversas maneiras, seus regimes totalitários?

Eu quero manter o otimismo, considerando que nós seremos capazes de resistir coletivamente. Eu confesso a você que não estou preocupada comigo mesmo, nem um pouco. Embora seja ameaçada, pude sair do Brasil porque escrevi muitos livros e fui resgatada por uma instituição que protege escritores pelo mundo. Então eu, como escritora, e como professora de filosofia, estou protegida e realmente não estou preocupada comigo. Estou preocupada com as pessoas que não tiveram como se proteger. Seja como ativistas, seja como cidadãos comuns, que hoje estão levando em frente suas vidas, suas práticas cotidianas, estão desamparadas.

“Nós seremos capazes de resistir coletivamente”

Eu não estou desamparada, sou amparada por instituições internacionais. Me preocupo com o povo brasileiro que sofreu uma lavagem cerebral pesada, me preocupo com esse povo que não escolheu esse governo delirante, e mesmo assim, sofre os efeitos desse governo. Me preocupo com a segurança das pessoas que estão na mira de assassinos governamentais, de pessoas que por engano, por erro, por ingenuidade ou por estupidez, votaram em figuras que hoje prometem a morte das populações marginalizadas. Me preocupa que há pessoas no Brasil que ultrapassaram o limite do bom senso e da dignidade humana, desrespeitando a regra básica da nossa civilidade que é “Não Matarás”.

Espero que a gente possa superar isso. Continuamos lutando para isso. Pensando em projetos, pensando em como resgatar o Brasil. Mas precisamos fazer isto hoje com muita, mas muita inteligência, com mais habilidade e aptidão. Nós precisamos ser hoje ainda mais lúcidos para entender quais são as necessidades para concretizar a nossa reconstrução.

Agenda Marcia Tiburi:

Eu acabo de lançar “Delírio do Poder – psicopoder e loucura coletiva na era da desinformação no Brasil” pela editora Record. Em agosto lanço pela editora Nós um pequeno livro com quatro contos chamados “Quatro passos sobre o vazio”, um conjunto de quatro narrativas tendo como narrador um funcionário perverso de um sistema igualmente perverso.

Obras publicadas:

Feminismo em comum: para todas, todes e todos. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.
Ridículo Político: uma investigação sobre o risível, a manipulação da imagem e o esteticamente correto. Rio de Janeiro: Record, 2017.[23]
Uma fuga perfeita é sem volta. Santa Catarina: Record, 2016.[24]
Como Conversar com Um Fascista – Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. São Paulo: Record, 2015.[25]
Filosofia: machismos e feminismos. Santa Catarina: Editora UFSC, 2015. (Com Maria de Lourdes Borges)[26]
Filosofia prática: Ética, vida cotidiana, vida virtual. São Paulo: Record, 2014.
Diálogo/Dança. São Paulo: Senac, 2012. (Com T. Rocha)
Era meu esse rosto. Rio de Janeiro: Record, 2012.
Olho de vidro – A televisão e o estado de exceção da imagem. Rio de Janeiro: Record, 2011.
Filosofia pop. São Paulo: Bregantini, 2011.

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“Não colem em mim esse discurso da meritocracia”, diz Conceição Evaristo

“Não colem em mim esse discurso da meritocracia”, diz Conceição Evaristo

Foto: Marcelo Costa Braga

O racismo estrutural e a falta de oportunidades para a grande maioria da população negra em nosso país são questões que incomodam profundamente a escritora Maria da Conceição Evaristo. Nascida e criada numa periferia de Belo Horizonte (MG), mulher negra e pobre, trabalhou como empregada doméstica e já vivenciou na pele o preconceito da nossa sociedade.

Hoje aos 72 anos, doutora em Literatura Comparada pela UFF, tem diversos livros publicados e é chamada para eventos em vários países. No entanto, assim como ela lutou muito para chegar onde chegou, milhares de mulheres negras se esforçam a vida inteira e permanecem vivendo em meio a dificuldades. É o falso discurso da meritocracia brasileira, segundo ela.

Vencedora do prêmio Jabuti em 2015 com o livro Olhos D’Água, seu nome foi muito falado no ano passado quando oficializou sua candidatura à Academia Brasileira de Letras. Poucas mulheres, nenhuma delas negras, ocuparam até hoje a cadeira dos imortais. E frente a muitas críticas, foi eleito o cineasta Cacá Diegues.

Nesta entrevista, ela fala sobre o machismo impregnado não só na academia e instituições, mas também na sociedade brasileira como um todo. Assim como Carolina Maria de Jesus, escritora negra que morreu pobre e era considerada muito talentosa, ainda não foi a vez de Conceição no pantheon da casa da literatura nacional.

Conceição Evaristo, como é conhecida, estreou na literatura em 1980 e desde então milita em defesa da negritude. Seus textos tratam de discriminação racial, gênero e classe, além de diversas outras mazelas em nossos territórios. Trata-se, na sua opinião, de escrevivências, pois seus personagens de alguma forma são inspirados na realidade. Estes temas estão na conversa abaixo, assim como uma análise sobre a mídia e a conjuntura política atual. Para ela, a intelectual letrada tem um compromisso ético e político, na medida em que vivemos num país extremamente desigual.

Em termos de literatura brasileira, tivemos algumas épocas rotuladas: barroco, romantismo, parnasianismo, modernismo, etc. É possível caracterizar o momento atual?

Se considerar a literatura como um todo e incorporar as traduções literárias das classes populares, do que se chama periferia, a autoria negra, de mulheres e homoafetiva, por exemplo, temos um período muito rico. Na história da literatura brasileira não vemos esses setores, se ela foi uma literatura diversificada em termos de criação não foi em divulgação. Vemos um discurso literário em que a autoria preponderante é de homens brancos. Hoje temos uma autoria mais diversa, embora ainda não tão conhecida. Vivemos um momento que, por força desses grupos, tende a uma democratização maior. Pelo protagonismo deles temos um discurso literário mais amplo, que dê mais conta de realmente desenhar o rosto do que seria esta nação brasileira.

Isso se reflete na linguagem dos textos?

Reflete tanto no ponto de vista de linguagem quanto do enredo, da construção do personagem e do próprio conteúdo. Se antes tinha uma literatura que narrava os grandes centros ou os acontecimentos vistos por autores que olhavam de baixo pra cima, hoje temos um discurso literário criado a partir de dentro. É muito diferente, por exemplo, um texto de Adolfo Caminha, o Bom Crioulo, em que ele coloca um personagem negro gay do que um texto hoje de um gay que vai criar um discurso a partir de sua própria experiência.

Essa diversidade contempla a qualidade do texto?

Depende do que você considera como parâmetro ou bom. A qualidade está relacionada à própria questão do cânone, o que ele vai considerar como literatura? E quem tem essa voz e define o que é a boa literatura? Posso considerar um texto de excelente qualidade pois, a partir desse momento, o que eu vivo o texto me convoca, e para você não significar nada. Hoje temos um texto que pode agradar um número maior de leitores, e quando você pensa em qualidade está fazendo comparações, é algo muito subjetivo.

Hoje temos um discurso literário criado a partir de dentro. É muito diferente um texto de Adolfo Caminha, o Bom Crioulo, em que ele coloca um personagem negro gay do que um texto hoje de um gay que vai criar um discurso a partir de sua própria experiência.

E como o mercado está reagindo a isto, num cenário em que livrarias estão fechando?

O grande mercado livreiro, que ainda está propenso a pegar as “grandes autorias”, os clássicos, está sofrendo um choque porque está percebendo que editoras pequenas estão se impondo. Eu mesma, por exemplo, só tenho publicado em editoras pequenas: Mazza e Nandyala, de Belo Horizonte, que nascem com objetivo de publicar autoria negra devido a nossa dificuldade de penetrar no mercado.

Aqui no Rio de Janeiro publico com a Malê, uma editora que nasceu também com esse objetivo, e a Editora Pallas que tem também divulgado e vendido muito minha obra, inclusive via PNLD (Política Nacional de Livros e Distribuição), é de médio porte. Tenho transitado entre editoras que poderiam até ser chamadas de alternativas, e outras um pouco maiores. Vemos hoje, inclusive nos prêmios literários, que editoras pequenas estão surgindo e conseguem colocar seus autores na mesma concorrência que as já definidas no mercado.

Existem muitas plataformas hoje que possibilitam novos autores publicarem seus livros, inclusive sites interativos. Como é essa questão da tecnologia e o livro de papel?

Gosto do livro de papel, porque tenho o vício antigo de ler, marcar, brigar com o texto. Mas essas possibilidades via e-book, dentre outras ferramentas, também são importantes na democratização. Muitos jovens estão lendo em função disso, não acho que um mercado exclui o outro, são complementares e têm público. Mas a minha preferência ainda é o livro de papel, até porque tenho dificuldade de ficar muito tempo com olho na tela.

A tendência é a publicação de papel ser extinta? No jornalismo existe esse debate tem tempo.

Espero que não dê tempo pra ver isso acontecer, porque vou ficar muito triste. Não saberia te dizer, mas podemos pensar que há todo um processo também de conquista desses objetos culturais. Ainda existem comunidades que não têm nem condição de acessar um livro, então imagina a internet se pensarmos só no Brasil. Está longe do livro acabar, acho que tem espaços, pessoas, grupos, coletividades, que o livro ainda é a grande novidade.

Foto: Marcelo Costa Braga

E o desafio ao escritor frente a um grau elevado de analfabetismo e pouco costume de leitura?

Ontem na Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada) falamos sobre isso. Mas não é só o livro, o grande desafio é que muitos grupos não chegaram nem a este processo de alfabetização ainda. Grande parte das pessoas que acabam servindo de inspiração da minha escrita não tem condição de adquirir este bem. Muitos ainda não atingiram o processo de alfabetização, e por outro lado temos livros de artes ou mesmos simples caríssimos. A gente quer um livro bem feito, a ilustração também sai cara, então tem várias questões envolvidas. Primeiro teríamos que ter uma política de alfabetização, outra de distribuição de livros, desde acessar na sua casa até os equipamentos públicos como bibliotecas.

Você diz ter subsídios para produção e distribuição deste material?

Uma política pública que garanta o livro chegar às pessoas. Outra questão, que é mais difícil, é parar de pensar no livro como objeto de luxo. Uma das experiências mais bonitas que vivi em termos de leitura foi em Cuba, num festival de literatura em que o Brasil era o país homenageado e fui pelo Ministério da Cultura, na época do Gilberto Gil. Vários livros eram feitos de papel jornal, o objetivo era baratear o custo facilitando o acesso. Mas nós já temos essa visão que o livro tem que ter uma capa colorida, então se você faz um livro muito simples não chama muito atenção porque ele é um objeto de luxo. Para criança isso é válido porque desperta curiosidade, mas porque nossas crianças já são criadas com essa visão. Precisamos desse incentivo de modo que a fabricação de um livro pudesse baratear esse custo e fazer uma distribuição melhor.

Na Academia Brasileira de Letras (ABL) demorou um século para uma mulher chegar à presidência, a Nélida Piñon (1997), e até hoje só teve mais uma, a Ana Maria Machado. Qual sua avaliação sobre isso enquanto mulher negra?

A ABL, como qualquer instituição brasileira, repete o modo de ser das demais instituições. Nas grandes empresas, por exemplo, você vai encontrar poucos negros em papeis de gerência. Na alta hierarquia do exército também, pouquíssimos reitores de universidade negros, assim como nos bancos, etc. A ABL repete e confirma os modos de relações raciais e sociais na sociedade brasileira. Nos causa certo estranhamento pensar que é uma instituição que congrega escritores, pensantes, intelectuais, onde você espera caminhos diferentes. Mas não, essa pouca presença de mulheres e de negros, apesar de ser fundada por um escritor negro (Machado de Assis), reflete direitinho a estrutura social dominante.

É uma pena, a própria ABL perde com isso, porque se ela é uma casa que guarda a literatura brasileira, a língua nacional, tem que estar atenta às diversidades. Falta, por exemplo, uma representatividade dos sujeitos indígenas. Vamos ver quando ela realmente vai dar conta do papel que representa.

A Carolina de Jesus, por exemplo, teve muita repercussão na época dela e não entrou na ABL.

Gostaria de falar sobre o que represento hoje, no momento sou um das escritoras mais acessadas para entrevista e para tudo. Em relação à Carolina Maria de Jesus, certo tempo ela representava o que parte da classe média brasileira precisava para expurgar suas próprias culpas. A própria Igreja Católica procurava estar junto aos pobres, a classe média num momento de contracultura, surgia a bossa nova e outro discurso que procurava captar a realidade brasileira. E a vida de Carolina de Jesus representava o mais alto grau de pobreza. O país representava um processo de modernidade com a construção de Brasília e surge aquela mulher que simboliza um Brasil que caminhava para modernidade, mas com pessoas ainda passando fome. Ela foi muito necessária naquele momento para contradizer todo aquele discurso.

Minha preocupação é que eu como mulher negra, escritora, que vem da periferia das classes populares, sou o exemplo de um discurso muito perigoso: a meritocracia. Tentam desconstruir a necessidade e justeza das ações afirmativas, que estariam favorecendo certas pessoas. Mas na verdade é uma dívida que a nação tem tanto com os africanos escravizados, quanto às nações indígenas. Esse discurso da meritocracia diz que se você estudar ou se esforçar consegue. Tenho muito medo disso, porque conheci pessoas que fizeram isso e não conseguiram. Por que determinados sujeitos têm que estudar e se matar tanto, se outros já nascem com tudo garantido?

Para uns a escola é luta e conquista, já alguns nascem com esses direitos garantidos. Toda vez que você ver uma exceção, pergunte quais são as regras porque ela muitas vezes só confirma as regras. Então não me tomem como exemplo, não colem em mim esse discurso da meritocracia. Claro que estou feliz pelas minhas conquistas, mas por que uma mulher de 72 anos está conquistando isso a duras penas, e a grande maioria das mulheres não?

Tiveram muitas mulheres que foram muito midiáticas, como Clarice Lispector e Cecília Meireles, dentre outras, que mesmo assim não entraram na academia. Por quê?

Tem uma questão também do machismo, a maioria da academia é formada por homens. Já começo a pensar a ABL não por quem está nela, mas por quem está fora. Não sei se estas que você citou não demonstraram o desejo de entrar, ou já sabiam dessa estrutura.

Se nos voltarmos aos negros homens, por exemplo, Lima Barreto dizem que tentou mas falaram que não era lugar de moleque. Pensando que lá não são só escritores, como Ivo Pitanguy ou Sarney, por exemplo, por que Abdias Nascimento nunca foi convidado? Lélia Gonzales, Beatriz Nascimento, o próprio professor Muniz Sodré, que foi diretor da Biblioteca Nacional? Por que Milton Santos não está na ABL, se teve livros traduzidos no mundo inteiro e ganhou um prêmio na área de geografia que corresponderia ao Nobel de Literatura? Não dá bem para entender, e não sei quando a academia vai conseguir dar esse passo à frente.

Não colem em mim esse discurso da meritocracia. Claro que estou feliz pelas minhas conquistas, mas por que uma mulher de 72 anos está conquistando isso a duras penas, e a grande maioria das mulheres não?

Você acha que o Brasil é um país racista? O que de concreto lhe leva a crer que sim ou não?

Tenho certeza que o Brasil é racista. Desde os anos 1980 o movimento social negro teve um papel muito importante na desconstrução do mito da democracia racial. Hoje qualquer brasileiro dizer que não somos um país racista ele tem que ser muito alienado ou muito cínico. O grande salto do Brasil foi ter tido a coragem de por o dedo na ferida. O primeiro discurso oficial de um chefe da nação nesse sentido foi do FHC, mas também não por ele ser consciente e sim por pressão dos movimentos sociais. As denúncias nas conferências e tratados internacionais até a gente chegar às ações afirmativas.

Todas as nações construídas através das diásporas Africanas enfrentam esse racismo. A América Latina, as Américas Centrais, os EUA, fora os próprios países africanos com a chegada dos colonizadores, como o grande exemplo do apartheid na África do Sul. Nos engana justamente a falácia da democracia racial e que seríamos o grande exemplo dessa possibilidade. Nós negros sabemos muito bem que há uma diferença imensa, por exemplo, entre você e um homem negro. A sua cor te permite uma passagem que ao homem negro não é permitida, e eu ao lado de uma mulher branca. Não podemos pensar a questão racial só nas relações sociais, e sim no sistema.

Você tem, por exemplo, o sistema carcerário como um sintoma claro neste sentido.

Justamente, e aí é interessante como os próprios artefatos culturais ou a própria mídia são também responsáveis por esta situação. Quando se prende, por exemplo, um rapaz branco com droga e um negro você repara a diferença de linguagem. O branco atenua, já o negro criminaliza. É como se fosse um círculo vicioso, a mídia cria determinados imaginários.

A gente pode pensar, inclusive, na própria mídia de diversão nas novelas. Em Mulheres Apaixonadas o personagem batia na mulher com a raquete, e termina dizendo que esse sujeito tinha uma questão psicológica e de educação redimindo seu comportamento. Ele vai fazer análise não porque era ruim, mas tinha uma questão que a análise resolvia. Na Senhora do Destino o personagem negro cigano agredia a mulher e ainda era traficante. Para ele não tem salvação, não tem psicanálise que dê conta porque era ruim de natureza e extremamente nocivo. A própria mídia vai trabalhando certos estereótipos, assim como a literatura também.

O escritor tem o dever de produzir arte relacionada à política? Perguntei isso ao escritor Milton Hatoum e ele citou o escritor Antônio Callado, que abordava muito o tema.

Depende da própria concepção de política porque todo ato é político, como esta minha entrevista. A literatura pode funcionar como um discurso que celebra o status quo e ser um belo texto literário, assim como o contrário. Quando você considera que determinadas obras fazem sentido e outras não, ou quando você não percebe esse valor político da literatura, acha que tudo que você escreve ou fala é imune. Todo escritor (a) na obra literária tem que ter certa ética, tem um compromisso com a realidade não é só ficção.

Me assusta muito alguns escritores (as) pensarem que estão acima do bem e do mal, já ouvi alguns falando que quem começa a ler gibi ou o que é considerado má literatura nunca vai chegar aos clássicos ou ser um bom leitor. Isso me incomoda profundamente, porque meu primeiro contato com a literatura foi com a oral e lendo revistinhas infantis. Então quando pensamos que a literatura é política, é porque o escritor (a) tem também uma função social sem precisar muitas vezes fazer um discurso explícito.

Num país como o nosso em que a intelectualidade ainda tem uma função, ela não pode ser omissa de pensar que o que escreve não tem consequência. Os intelectuais que conseguiram ter o domínio da escrita e são produtores desses bens culturais têm uma responsabilidade política.

E sobre a política nacional, o que você pensa a respeito do momento atual levando em consideração nossa história?

Vou partir de uma experiência histórica, que sintetiza este momento. Quando os africanos escravizados fugiam para o quilombo, homens, mulheres ou crianças, não tinham certeza nenhuma de ter a liberdade garantida. Sabiam que estavam correndo risco, porque se fossem capturados seriam castigados. Teria um sentido duplo, primeiro por ser escravizados, que não têm o direito de traçar o próprio destino, e segundo por se rebelarem diante daquele destino e cometerem a audácia de fugir. Mesmo assim iam, o único desejo e certeza era o direito à liberdade. Hoje não temos certeza de nada, mas sabemos que temos esse direito à vida. Temos uma dignidade a ser conservada, e nos mínimos detalhes com nossos direitos garantidos: alimentação, educação, moradia, aposentadoria, etc.

Mais do que nunca temos que pensar nessa práxis quilombola, e também como vamos reunir forças. Pensar também que somos responsáveis por esse momento que está aí, se eu não votei nele alguma coisa também aconteceu. Achamos que tudo já estava resolvido? Ou até que ponto aquelas pessoas em quem confiamos estavam realmente do nosso lado? Então, acho que somos vítimas e algozes ao mesmo tempo.

Deus e Jesus são transgênero

Deus e Jesus são transgênero

por Juan Manuel P. Domínguez e Nahor Lopez de Souza 

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Tu tinhas para mim tanto encanto
o teu amor me era mais caro
do que o amor das mulheres,
Como caíram os heróis
e pereceram as armas de guerra?
(2 Samuel 1,26-27)

 

Eu nunca disse “cuidado com os homossexuais transexuais gays por levarmos vidas antinaturais ou por sermos depravadas em nossos desejos.” Eu nunca disse isso…

Eu disse “cuidado com os autoindulgentes e os hipócritas, cuidado com aqueles que se imaginam virtuosos e proferem julgamento, aqueles que condenam os outros e se consideram bons. Seus lábios são cheios de bondade mas seus corações estão plenos de ódio”. (O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu)

Baseada no texto da dramaturga trans Jo Clifford, com direção de Natalia Mallo e interpretação da atriz Renata Carvalho, a peça “O Evangelho segundo Jesus, rainha do céu” foi uma das mais relevantes aparições em questão de artes cênicas dos últimos anos. Desde sua estreia, em 2016, foi alvo de críticas, ameaças, tentativas de censura e, finalmente, censura. Foi suspensa por decisão judicial em 2017, em Jundiaí, alegando a ridicularização dos símbolos como a cruz e da própria religiosidade. Mais conhecido foi o acontecido no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), em Pernambuco. Com o tema Viva a Liberdade, o FIG 2018 incluía duas sessões da peça, nos dias 27 e 28 de julho. Mas foi o prefeito Izaías Régis (PTB) e o secretário de Cultura do Estado, Marcelino Granja, que vetaram a apresentação. “O Festival de Inverno de Garanhuns foi criado para unir e divulgar expressões culturais e não para dividir e estimular a cultura do ódio e do preconceito”, dizia a nota apresentada pela secretaria de Cultura do FIG. A própria Daniela Mercury, que participava do festival, se solidarizou com a equipe envolvida na peça e pediu pela defesa da liberdade de expressão e da atividade artística.

“O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” é uma peça que transcende o espetáculo teatral para nos lembrar do verdadeiro significado da encarnação de Cristo: a empatia, a aceitação da diversidade, o perdão e o amor como médios de conexão com o outro. Ao longo da peça, a Renata faz citações a passagens bíblicas, encarnando a figura de Jesus, na sua estrada até o martírio.

A Bíblia é um dos livros mais misteriosos quanto aos padrões de gênero. Apesar de muitos declararem que ela trata da criação do homem e da mulher em um padrão dicotômico, o livro do Gênesis traz o homem e a mulher como imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1,27). Seria Deus então um ser homem e mulher? Ou que transcenderia essas categorias, somente aplicáveis aos humanos? O texto bíblico continua em uma menção puramente masculina, plausível para a época escrita. Inclusive Deus é sempre referido como Senhor (no masculino). O nome de Deus, em hebraico, Yahweh, se traduz como “Eu Sou Aquele que Sou”, aumentando ainda mais o mistério sobre quem seria Deus (Êxodo 3,14).

Apesar da condenação da pederastia (Levítico 20,13), há na Escritura uma curiosa história relacionada ao rei Davi e seu amigo Jônatas, filho do rei Saul. Quando Davi recebe a notícia da morte de Saul e Jônatas, ele faz esse elogio, deveras intrigante: “Tu tinhas para mim tanto encanto, o teu amor me era mais caro que o amor das mulheres” (II Samuel 1, 26). A falta de clareza nesse texto abre um leque de interpretações.

A pessoa de Jesus Cristo, encarnação de Deus dentro da teologia cristã católica, abre uma outra forma de interpretação. Por que encarnar em um ser masculino? Isso é fácil compreensão. No seu contexto, Deus só seria ouvido na forma de um homem, que detinha os “direitos” de profecia e pregação. As próprias tradições judaicas da época davam ao homem um perfil de destaque: só ele podia ler nas sinagogas. Se Deus encarnasse na forma feminina, provavelmente não teria êxito, mas sua pessoa masculina fez enfrentamento ao machismo e misoginia da época, vide o caso da defesa da mulher adúltera em João 8,1-11. Parece paradoxal, mas ser homem era a melhor forma de Deus legitimar o confronto contra a hipocrisia machista da época.

Jesus também toca em um ponto relacionado a uma possível confluência da diversidade do espírito. Ao ser perguntado pelos saduceus (grupo religioso que negava a ressurreição) de um caso de uma mulher que casou com sete irmãos sucessivamente (lei do levirato: ao morrer um homem, o irmão assumia a esposa do falecido), na ressurreição, a mulher seria esposa de qual dos 7 que ela casou? Jesus responde que todos serão como anjos no céu. Ora, as criaturas espirituais, como imagem e semelhança de Deus, são indiferentes ou transcendentes na divisão de gênero imposta no cotidiano humano.

Santo Tomás de Aquino, o maior teólogo católico, escreveu, nas Questões Disputadas sobre as criaturas espirituais ser os corpos movidos pela substância espiritual (Artigo 6, r. 12). Na própria Suma Teológica, ele refuta uma tese de Aristóteles sobre a fraqueza da mulher, do seguinte modo, trazendo, de modo inédito, uma visão sobre a igualdade de gênero na teologia: “(…) na natureza humana em geral, a mulher não é ilegítima, mas está incluída na intenção da natureza como ao trabalho de geração. Intenção geral da natureza depende de Deus, que é o autor universal da natureza. Portanto, na produção de natureza, e não só os machos, mas também as fêmeas” (Suma Teológica I-II, q. 92, a.1, arg 1 [a tese] e ad 1 [a resposta à tese]).

Não há nenhum problema teológico em pensar na encarnação de Deus em qualquer forma humana. Jesus, nascido em Belém (Beth Lehem, a cidade do pão), uma pequena e insignificante vila, entre os animais, e criado em Nazaré, na Galileia, periferia mal falada entre os judeus, poderia ter vindo temporalmente na atualidade através do corpo do homem favelado, da mulher transexual, da criança marginalizada.

O Espírito Santo não têm gênero, ou até mesmo transcende a questão de gênero. Deus é o povo que o ama e habita em seu coração.

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Entrevista NINJA com a atriz Renata Carvalho:

Como descreve a sua experiência na peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”?

Renata Carvalho: A rainha Jesus foi um divisor de águas na minha carreira, ela me proporcionou a minha profissionalização enquanto atriz, me levou e me leva a lugares que nunca imaginei pisar, transformou minha percepção como artista, me tornou mais humana e foi uma grande base empírica para meu aprofundamento enquanto pesquisadora e transpóloga. Este trabalho abriu discussões na arte, no judiciário, na religião e na política.

Sofremos cinco casos de censura no Brasil (Jundiaí, Salvador, Rio de Janeiro, Garanhuns e Recife), fora as constantes ameaçadas de morte e espancamentos, violações, ataques, difamações e fake news que venho sofrendo desde a estreia do espetáculo em agosto de 2016. Hoje tenho certeza que a melhor coisa que aconteceu com a peça e para minha carreira foram as censuras, foi através delas que minha voz foi ampliada e alcançou diversos lugares

Qual é o lugar que a sociedade em que vivemos deu para as travestis?

Renata Carvalho: O único lugar onde somos aceitas completamente é na prostituição. É isto que esperam de nós: a rua, a esquina e a marginalidade. A transfobia é estrutural, a construção social e imagética em cima dos nossos corpos é muito forte. Somos um corpo fetiche e hiper sexualizado, criminalizado, patológico e endemoniado. Quando nos percebemos travesti automaticamente todas essas mistificações e folclores são incrustados em você, independente de quem você seja ou do que você faça, você é uma travesti e isso já basta para te deixar marcada.

Consegue ver na arte uma ferramenta para construções emancipatórias?

Renata Carvalho: A arte tem o poder de transformação, ela fez isso com a minha vida. Eu sou artista porque eu quero mudar o mundo, pelo menos o mundo que eu alcanço, e a arte têm o poder de abrir mentes, corações e jogar luz em questões da sociedade que são de difícil abertura. Meu conterrâneo o dramaturgo santista Plinio Marcos diz: “O artista é um repórter de um tempo mau”, e nós estamos em um tempo mau, precisamos ser reportes desse tempo. Essa é a nossa função.

Agenda Renata Carvalho

Estou filmando um longa-metragem em Catalão – Goiás, meu primeiro longa é a realização de um sonho, com direção de Daniel Nolasco “Vento Seco”, em setembro gravo outro longa “Os primeiros Soldados” de Rodrigo de Oliveira que será rodado no Espirito Santo. Em outubro filmo um curta com direção da travesti Galba Gogóia “Janaina”. Esse ano volto para Edimburgo apresentar “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” comemorando os 10 anos da estreia da Jo. No segundo semestre volto em cartaz com meu novo solo “Manifesto Transpofágico” que estreou na MIT – SP deste ano. Estreia em agosto duas series que fiz parte “Toda forma de amor” no Canal Brasil com direção de Bruno Barreto e “Pico da Neblina” na HBO com direção de Fernando e Quico Meirelles.

* Este artigo foi escrito por Juan Manuel P. Domínguez e Nahor Lopez de Souza

*Nahor Lopes de Souza Junior é graduado em Filosofia e pós-graduado em Direitos Humanos, Filosofia e Sociologia. Atualmente é educador, palestrante e escritor, membro da Academia Brasileira de Hagiologia.

“O samba é a coisa mais importante na cultura brasileira”, ressalta Zé Luiz do Império

“O samba é a coisa mais importante na cultura brasileira”, ressalta Zé Luiz do Império

Foto: arquivo pessoal

Por Eduardo Sá

Um dos representantes do samba de raiz tradicional, José Luiz Costa Ferreira, conhecido por Zé Luiz do império, é muito respeitado no meio dos bambas. Aos 72 anos, é autor de diversas músicas tocadas até hoje em qualquer roda de samba, muitas delas com personalidades que marcam a história deste gênero musical: Nei Lopes, Candeia, Wilson Moreira e Nelson Rufino, dentre tantos outros.

Participou de grandes momentos e títulos da escola de samba Império Serrano, grêmio recreativo localizado em Madureira, no subúrbio carioca, na qual já foi presidente da ala de compositores. Foi também um dos responsáveis pelo Pagode da Resistência, que cumpriu importante papel na revalorização do samba na década de 1970. Participou ainda da fundação do Grêmio Recreativo e Artes Negras Quilombo, cuja história envolve questões políticas e em defesa da cultura afro descendente.

Um dos maiores sucessos do cantor é sua composição “Todo menino é um rei”, eternizada na voz de Roberto Ribeiro em 1978, e desde então não parou mais. Nesse processo, gravou centenas de músicas. Seu último disco, “Malandros Maneiros”, foi lançado em 2008. Mas até hoje transita pelas rodas e também acompanha o trabalho da nova geração. Em 2008 o grupo Galocantô, por exemplo, do qual ele é padrinho, gravou uma música sua.

Nesta entrevista, ele fala sobre a continuidade do samba de raiz e analisa o mercado moderno do samba. Fala ainda sobre o atual governo e sua preferência por políticas mais generosas com a parte mais pobre da sociedade. Para ele, é preciso ter cuidado com a internet porque, assim como na música, não estabelece nenhum critério e pode caminhar tanto para o lado bom quanto o ruim, como foi na eleição do atual presidente Jair Bolsonaro.

Qual a importância do samba enquanto cultura nacional?

O samba é a coisa mais importante na cultura brasileira, e na minha geração estou entre os últimos do samba ainda tradicional. Tenho muita vivência e participação, estou no samba desde os anos 1960. Sou da geração do Nei Lopes, Wilson Moreira, Décio de Carvalho. O samba faz parte da cultura popular carioca.

E como o mercado lida com isso?

Não me importo com a música de mercado, me importo com a música autêntica brasileira de raiz, que eu fui criado e me dediquei. Espero que tenha um segmento com essa nova geração que está aí que, embora com uma certa influência midiática, não tem mais tantos cantores e cantoras como antes. Mas estão fazendo um trabalho muito bacana.

Hoje os canais são outros, não tem mais rádio e gravadora. As gravadoras não estão mais tão ligadas ao samba de qualidade, estão muito mais comerciais. O movimento e o acesso da internet são muito mais rápidos. Ela não é ruim nem boa, só que banaliza bastante coisa sem distinguir. Porque tudo entra na internet, não tem nenhum critério.

Mas os novos artistas estão usando muito bem ela.

Isso não quer dizer qualidade, né? Mas tem muita gente boa, como o João Martins, que é um cara diferenciado, Renato Milagres, Juninho Thybau, etc. Mas também não gosto de citar nomes, porque posso estar sendo injusto com outros. Minha geração era muito boa, tinha Clara Nunes, João Nogueira, Beth Carvalho, então dar minha opinião fica difícil porque já não tem mais isso.

Mas pelo conjunto dos novos você acha que não ficará nenhum dando continuidade?

Gostaria que essa nova geração tivesse a mesma possibilidade e oportunidade que eu tive. Eles não têm tantos grandes artistas como antigamente para gravar suas obras e facilitar a entrada nas gravadoras, pode ser que estes com o tempo melhorem e tenham também essa força. Mas primeiro eles têm que gravar para mostrar que são capazes. Sei que eles estão fazendo por conta própria, mas ainda têm uma longa estrada pela frente. Mas tem que ser isso mesmo, porque o antigo não volta mais. Os tempos são outros, não podem fazer a mesma trajetória.

Você diz que não volta mais em termos de mercado, ou melodia, ritmo, poesia, etc?

A melodia é outra, eles não têm a mesma vivência. Os rapazes andam de bermuda, não vão andar de linho nem fazer o samba que eu e outros fazíamos. Mas essa garotada cria também, eles inclusive bebem lá na fonte de antigamente. As gírias mudam, mas muitas vezes eles revisitam esses caras mais pelo respeito que pela atitude. Há uma postura de que agora é a gente, e o que foi já foi. Mas tem muita gente boa, como o (Luciano) Bom Cabelo. Tem outros que são fodas como o Baiaco, que não quer ficar velho, como o Ratinho que era da minha geração e sempre quis ficar igual aos velhos. Não seguem mais tanto as tradições.

Você fez o pagode da resistência e participou de alguns movimentos, como vê a questão da arte relacionada à política?

A minha geração não tinha tanto essa identificação, o povo de origem com quem convivi na infância era completamente alienado. Todo mundo pobre, preto, iletrado, nem sabia o que era isso. Só tive essa consciência muito mais tarde, mas sempre fui um cara de ir pra frente e não me travei em nada. Fomos notando as diferenças e a partir dali criando a consciência de que tem coisas pra mudar, e eu ia mudando na minha ignorância através da arte e coisas que queria fazer. Na minha infância eram todos operários, metalúrgicos, pessoas altamente politizadas, embora sem cultura letrada, mas sabiam dos seus direitos. Hoje eu vejo essa juventude muito desperta, mas não sei se pelo melhor caminho.

Qual o melhor direcionamento político a se caminhar?

Só sofrendo na carne que se cria a consciência política, aí cada um tem seu pedaço de necessidade. Às vezes posso fazer um julgamento precipitado de uma pessoa, mas ela com o tempo pode ter uma cabeça melhor pensante em termos de socialismo e tudo mais. Mas o cara precisava de dinheiro, enquanto essa garotada de hoje não sabe nem o que é essa consciência. A rapaziada nova está mais preocupada com o imediatismo, não tem consciência política de classe. No samba atual tem muita gente da classe média da zona sul que vai para o samba como modinha, mas nunca passou um aperto e pode ficar bebendo até de manhã que vai ter alguém por trás para bancar.

Quando era criança trabalhava numa oficina de mecânico, e já lia o Granma (jornal cubano) então em 1964 já sabia o que era sindicato. Mas nunca participei de nenhum partido político, ficava curioso com aqueles velhos gente finíssima lendo aquelas coisas escondidas. Eram operários e me davam ensinamentos, então comecei a gostar daquilo e ter identificação. Com 16 anos fui ao exército e no golpe estava servindo, aí que eu assumi mesmo o socialismo e observei que tipo de país e vida queria.

Em relação ao golpe, minha visão sobre os militares mudou um pouco anos depois porque fui trabalhar na Embratel criada por eles. Não tem só militar ruim, poderia ser mais bem feito isso tudo. Tinha um militarismo nacionalista que construía, fiquei na empresa por 32 anos, mas não deixei de ter meu pensamento político por causa disso.

Como você vê hoje a conjuntura política do país?

Tá foda, o PT fez muita merda. Já fui sindicalista e briguei muito, mas o PT perdeu a grande chance para esse país ser finalmente o que é e o que a gente deseja aos nossos filhos e netos. Não estou culpando ninguém, não… A gente estava falando da tecnologia ajudando a juventude e as pessoas em geral, politicamente o acesso a ela teve essa merda toda aí também. Usada erradamente deu nisso aí, quem elegeu esse homem? Essa eleição foi ganha por causa da raiva disseminada contra o PT, não por mérito de quem assumiu o governo. Estamos muito mal representados, basta ver nesses 200 dias de governo quantas merdas ele já conseguiu fazer. Tomara que não dê tempo dele ficar o mandato todo.

“O governo tem a obrigação de respeitar a individualidade de cada um”, defende Indianara Siqueira, liderança LGBT

“O governo tem a obrigação de respeitar a individualidade de cada um”, defende Indianara Siqueira, liderança LGBT

Foto: Mídia NINJA

Por Eduardo Sá

A pauta LGBTIs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros e Intersexuais) teve forte influência nas últimas eleições e é uma das mais polêmicas nesta atmosfera de ódio e intolerância que tomou o país. Embora este comportamento seja algo que existe desde os primórdios da humanidade, até hoje é um ponto sensível na sociedade e gera todo um debate em torno da família, da moral e dos bons costumes.

Enquanto fica essa coisa mal resolvida, algumas estatísticas apontam para um cenário extremamente preocupante. A ONU anunciou nestes dias, por exemplo, que o HIV/AIDS cresceu 7% nos últimos nove anos na América Latina. Os dados apontam que cerca de 100 mil pessoas contraem o vírus a cada ano no continente, sendo que o Brasil responde por mais da metade dos casos. O público LGBTIs é um dos mais atingidos, mas estas estatísticas deixam vulneráveis todos que necessitam do tratamento para esta doença. Além disso, há ainda e principalmente a questão da homofobia cujos dados brasileiros de violência são um dos piores em todo o mundo.

Para falar sobre estes assuntos, conversamos com a ativista transexual Indianara Siqueira, atual presidente do Grupo TransRevolução, que foi vereadora suplente pelo PSOL-RJ, e coordenadora da Casa Nem e do Prepara Nem. Ambos projetos dão abrigo e apoio a travestis e transexuais em situação vulnerável, seja com moradias a pessoas trans que são expulsas de casa ou preparando-as às universidades, dentre outros serviços. O longa-metragem Indianara sobre sua vida foi lançado neste ano no festival de Cannes destacando sua militância e história em defesa dos direitos humanos.

Na entrevista, ela fala sobre as mudanças no tratamento do governo com estes setores e a importância de se mudar nossa estrutura social através da educação. As pessoas reproduzem até inconscientemente esses valores enraizados em nosso sistema, segundo ela, e a mídia tem fundamental importância na reprodução massiva destes valores conservadores introjetados nas pessoas. Nossa cultura, na sua opinião, alimenta a LGBTIfobia.

Qual a sua avaliação sobre a conjuntura atual em relação à pauta LGBT?

Muito ruim, porque o governo atual do Bolsonaro, ligado a milicianos e fascistas, está retirando direitos LGBTs e das mulheres. Num país que mais mata LGBTs, que detém o ranking vergonhoso de assassinatos, também é o quinto país mais violento onde mais se mata mulheres. E o Brasil também mata mais de 68 mil pessoas por ano, o que chega a ser 50%, que muitas guerras matam. Mais de 6 mil mulheres são assassinadas por violência contra a mulher no Brasil, mais de 61 mil são estupradas e mais de 200 mil sofrem violência física, que as tornam deficientes muitas vezes.

E nessas não estão incluídas as mais de 140 pessoas transVestiGeneres assassinadas por violência de gênero/violência contra identidade de gênero. É complicado viver num país violento como este, não adianta a gente discutir a violência social e estrutural desta sociedade se hoje os governantes incentivam esta violência.

Quais são as dificuldades enfrentadas pelo movimento para realizar suas atividades, como a ONG onde você é diretora?

Tem toda uma dificuldade, porque se você pede financiamento no banco tentam te barrar em um monte de coisa. As ONGs deixaram de receber financiamentos, que já não vinham e agora piorou mais ainda, etc. Nossas atividades enquanto ONGs e movimentos sociais, ou pessoas que promovem o bem estar de alguns grupos, estão totalmente cerceadas. A gente não consegue mais fazer os trabalhos que fazíamos antes como, por exemplo, tratamentos com pessoas com HIV/Aids. Eles estão cortando recursos que vão fazer com que não tenhamos medicamentos para estas pessoas, que ficarão em risco grave de vida.

Havia políticas públicas com a distribuição gratuita desses medicamentos, inclusive de materiais de prevenção como preservativos e gel, e agora está sendo tudo cancelado. Então o Brasil que era o país que mais aumentava a taxa de HIV/Aids e já foi referência em tratamento e prevenção, volta agora ao vergonhoso ranking de país onde a Aids se torna novamente uma epidemia entre jovens, LGBTs e populações vulneráveis em geral. Faz parte dessa onda de retirada de direitos contra pessoas LGBTI. Uma ação fundamentalista e religiosa contra nós.

Foto: Mídia NINJA

Como você vê o tratamento da mídia com os movimentos?

A mídia hegemônica é conservadora e quer agradar a população conservadora, que é quem detém o poder, principalmente econômico das grandes fortunas que são os herdeiros. A Globo, SBT e as demais estão preocupadas em agradar essa galera, não em passar a verdade para a população se conscientizar com essas verdades. Eles são comprados e querem passar a reforma da previdência, porque são os maiores sonegadores. Fazem essa propaganda toda nessa pauta porque sonegam, pois a reforma da previdência que tira direitos dos trabalhadores beneficia os empresários e esta grande mídia. A Globo, SBT, o Ratinho, são sonegadores, então para eles é ótimo que passe esta reforma, porque não terão que pagar a dívida de impostos que eles já acumulam ao público outra vez.

Falam que temos tantos trabalhadores contribuindo agora e não sei quantos aposentados, e ficam nessa conta que só eles inventaram: trabalhadores contribuem e trabalhadores se aposentam, só que a reforma da previdência arrecada de tudo até de um palito de dente que você compre. A previdência é a que mais arrecada no Brasil, então na realidade ela tem um superávit, só que esse dinheiro não é usado para o que deveria. O dinheiro é desviado tanto em corrupção, mas ainda que ela não existisse, ele é desviado para outros fins que não a saúde, educação, habitação, etc. A previdência não está em déficit, é uma falácia deste governo e da mídia hegemônica.

Qual a motivação, a raiz do problema, que gera todas estas estatísticas que você citou e preconceito com os LGBTIs?

A sociedade tem uma estrutura heteronormativa, tudo que é construído através dela reproduz as opressões que essa estrutura traz. As agressões que sofremos, seja na família ou em nossa sociedade, estão na estrutura social que constrói todos os seres humanos nesta sociedade. Assim nascem os LGBTIfóbicos, racistas, machistas, etc. Está na estrutura. Precisamos discutir violência contra mulheres e LGBTIs nas escolas e destruir essas estruturas, se não a gente não vai chegar a lugar nenhum. Tem que ser pauta da educação para mudarmos a sociedade.

Tudo o que eu aprendo socialmente traz esses preconceitos, a nossa cultura é LGBTfóbica. Uma criança vai se tornar mais um, enquanto as pessoas que contestam essa cultura vão ser colocadas como população vulnerável, minoria, etc. Às vezes a pessoa não tem culpa porque não contesta essa violência que pratica contra a outra, embora tenha também um pouco, mas a estrutura da sociedade tem mais culpa ainda.

O governo atual está só há pouco mais de seis meses, mas todo esse cenário está aí há décadas. O que de concreto muda nessa transição de governo?

O governo anterior, por mais que tivesse feito alianças com as quais não concordamos, discutia nossas pautas. Então ecoavam as nossas situações, fosse nas universidades, com os secundaristas, etc. No atual governo, não. Isso foi retirado da pauta de discussão.

Você tinha cartilhas informativas, assim como existem cartilhas para catequese e tantos outros temas, que nada mais são que manuais de instrução. Você pode seguir aquilo ou não, estar de acordo ou não. Então é complicado esse governo vir falar que homem é homem e mulher é mulher e não existe outra possibilidade. Eles podem até não ver outras possibilidades, mas todos sabemos que existem muitas outras opções sexuais, identidades de gênero, pessoas não binárias (como eu TransVestiGenere não binária), intersexuais, assexuados, gênero fluído entre outros. O governo tem a obrigação de respeitar a individualidade de cada um, é só isso.

Foto: Mídia NINJA

O discurso mais conservador e reacionário afirma que se a sociedade virar homossexual não nos reproduziremos mais e será o fim da nossa espécie. Como vocês avaliam este tipo de pensamento?

Os LGBTIs são todos estéreis? As pessoas são idiotas. Por que vai acabar a reprodução humana? A espécie dos héteros poderia até acabar, mas a humana não. Os LGBTIs podem fazer inseminação artificial ou transar com homens trans, mulheres bissexuais, lésbicas e pessoas intersexo com útero em perfeito estado de reproduzir e gestar crianças. O que pode acontecer é se tornar uma sociedade mais inclusiva, porque nada vai fazer as pessoas pararem de trepar e se reproduzir.

Que eu saiba, enquanto trans, não sou estéril, então se eu transar com um homem trans com aparelho reprodutor totalmente saudável e engravidar ele, a espécie humana não vai acabar. Isso é falácia e LGBTfobia já que os LGBTIs podem se reproduzir entre eles mas têm várias outras formas. Essas coisas são inventadas através de regras heteronormativas, determinando o gosto das pessoas, mas essas pessoas têm que se amar. Tem pessoas que nem gostam de sexo, então por que pautar tudo com base no sexo?

E nas instâncias de poder, como é a representatividade de vocês e quais são as dificuldades?  

Na política estamos representadas por duas deputadas, a deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL-SP) e a Erika Hilton deputada eleita pelo mandato coletivo também por São Paulo, e Robeyonce (PSOL-PE) em Pernambuco. Temos a vereadora Pâmela Volp (PP), de Uberaba (MG), e o David Miranda (PSOL-RJ), que não é trans mas é gay. Nas secretarias e conselhos não temos mais, porque foram extintas, principalmente as de direitos humanos. São vários retrocessos, então estamos perdendo os espaços que estávamos ocupando.

Moça Prosa: “Utilizamos o samba como um ato legítimo de denúncia das mazelas da sociedade”

Moça Prosa: “Utilizamos o samba como um ato legítimo de denúncia das mazelas da sociedade”

Juntas, o grupo Moça Prosa mostra resistência no samba de mulheres. Foto: Marcelo Costa Braga

Por Eduardo Sá.

Feminista e politizado, o grupo de samba Moça Prosa, composto por seis mulheres e convidadas, promove não só rodas de samba mas também debates sobre temas contemporâneos. Tudo começou em 2012, na Pedra do Sal, reduto tradicional de samba no centro do Rio, durante uma oficina de percussão com o músico Vagner Silveira. Desde então não parou mais, apesar das dificuldades que encara para tocar na rua e ter acesso às casas tradicionais de cultura na cidade.

Quatro integrantes do grupo estão desde sua fundação, mas poucas das nove que tocam e cantam vivem exclusivamente da música. A entrevista foi realizada antes de um samba delas no Dida Bar, na Tijuca, zona norte da cidade, com quatro integrantes: Ana Priscila, Jack Rocha, Tainá Brito e Luana Rodrigues. Neste mês, a convidada para o debate nas pausas da roda é a escritora Conceição Evaristo, veja o evento aqui. Negritude, cultura e gênero, dentre outros temas, sempre são abordados por elas.

Na entrevista, elas relatam as dificuldades por conta do machismo institucionalizado na sociedade e também no samba. Falam também sobre as burocracias para realizar atividades nas ruas, embora seus eventos tenham forte apelo na cultura e na economia da cidade gerando renda e empregos para muitas famílias. Assim como outros grupos de mulheres, o Moça Prosa vem ocupando espaço com qualidade musical e posição política, mas sem partidarizar ou institucionalizar o movimento. Não poupam críticas aos governos federal, estadual e municipal que, segundo elas, não dão nenhum incentivo à cultura, muito pelo contrário.

Quais foram os desafios para ganhar projeção e ser chamadas a outros espaços?

Ana Priscila: A gente ia formar um grupo, mas a ideia era muito frágil e conforme nos organizamos e tocamos as coisas foram dando uma potencialidade que nem a gente mensurava. Até hoje enfrentamos muita resistência de aceitação com algumas pessoas e espaços. A Roda que acontecia na Pedra do Sal é hoje no Largo de São Francisco da Prainha, teve uma época que se não tocássemos na Pedra não conseguíamos mais em lugar nenhum.

Jack Rocha: O Moça Prosa ainda não tinha essa visibilidade no início, foi ganhando corpo aos poucos, quando a gente passa ao Largo da Prainha começa a ter entendimento do tamanho da nossa roda. Ganhamos mais visibilidade e corporeidade lá. Hoje temos uma roda todo primeiro domingo do mês em Paquetá e em outros espaços do Rio de Janeiro.

Ana Priscila: Já tocamos no Trapiche da Gamboa, Baródromo, tanto na Praça Mauá como no atual da Lapa, alguns teatros do Sesc, na Portelinha e na Portela com o Projeto de Asas Abertas, Teatro Rival, Bar do Bigode, Bar do Zeca Pagodinho e por aí vai. Tem o evento Viva Zumbi em Niterói, que acontece todo ano no dia da Consciência Negra. Crescemos com os anos, mas isso foi sendo calejado a cada evento.

Elas em samba. Foto: Marcelo Costa Braga

Em relação à profissionalização, o grupo tem assessoria, produção, essas coisas?

Ana Priscila: Essa é uma conversa mais intensa ultimamente, porque as coisas do Moça Prosa foram acontecendo de forma muito orgânica. Nem sempre investimos nisso, então a gente vai vendo a necessidade de se estruturar para atender uma determinada demanda. Muita coisa do grupo é a gente que administra, como nossas mídias sociais, o evento no Largo da Prainha, as contratações para os eventos, ainda está tudo muito sob o nosso controle.

Essa questão do Dia da Consciência Negra, isso se reflete na música e militância de vocês?

Ana Priscila: Já eram coisas nossas, mas foram se tornando bandeira e pauta de fala com o tempo. Não sei se organicamente ou conscientemente vimos que precisamos fincar uma posição enquanto mulheres negras, que estão realizando um evento e reproduzindo uma cultura que era maciçamente produzida por homens. Lutamos para isso porque as coisas não são fáceis de chegar à gente.

Temos dificuldade de ter uma assessoria não porque a gente não queira, mas o retorno do trabalho ainda não possibilita. Seria ótimo. Galgar essas posições é ainda mais complicado. Isso ocorre em virtude de que viemos de outra origem, porque somos negras e as coisas vêm com dificuldade maior, como o acesso a algumas casas. Esse é um debate que sempre fazemos para trazer à luz aos outros e para a gente mesmo.

Muita gente do samba e pesquisadores têm comentado sobre uma crescente participação de novas compositoras na cena. Como vocês enxergam isso?

Luana Rodrigues: Temos uma preocupação muito grande com o repertório, e com esse garimpo de músicas que não trate a imagem da mulher de forma pejorativa e que a apresente com uma posição de destaque ou fale da cultura negra. Nessa busca visitamos compositoras tradicionais que nos trazem inspiração, mas também várias novas, tanto da nova geração mais conhecida como dos grupos que surgiram quase ao mesmo tempo que nós.

Cantamos muitas músicas das meninas que estão no rolé e outras compostas por nós. Então nosso repertório é uma grande mistura.

Ver essas meninas compondo e falando o que a gente se propõe a transmitir desde as mulheres de antigamente é incrível.

Poder falar na nossa linguagem e compor nossas mensagens é maravilhoso. É uma maneira de fortalecer ainda mais o movimento, mostrar que, além de tocar e cantar, podemos também compor músicas que os grupos podem utilizar.

Vocês acham que o meio do samba é machista?

Luana Rodrigues: Totalmente, desde sua origem à sua continuidade. Historicamente é machista, apesar de ter todo um matriarcado por trás: na formação, na origem, de ter nascido na casa dessas mulheres, delas terem sido pilar de sustentação e de colocarem muitos sambas pra cima na origem e na decorrência dele. A mulher sempre ficou no entorno: cozinhando, batendo palma, sambando, fazendo parte da beleza e estética da roda, mas na maioria das vezes fora do lugar de produção ou tocando o samba.

Quando você vira o jogo e vai ao outro lado recebe os olhares de cobrança, críticos, não acreditam que você vai conseguir.

Muita gente achava que não teríamos repertório, perguntavam: como vocês vão cantar samba sem ter nenhum conteúdo machista? Porque são muitos, mas estamos aí com um repertório imenso.

E ainda assim numa roda masculina, por mais que os caras já estejam ganhando consciência, você vai ouvir pelo menos um samba machista. Porque é muito inerente, nós mesmas cantávamos nas beiras das rodas e não nos dávamos conta.

Jack Rocha: O que o Moça Prosa tem feito é utilizar o samba como um ato legítimo de denúncia das mazelas da sociedade, utilizamos nossa narrativa para construir as composições que ressignificam dando outro ponto de vista. Nossa primeira composição, Por ser mulher, damos claramente um recado às mulheres: lugar de mulher é aonde ela quiser, quebrando esse paradigma de “olha só como o samba é só feito pra homens.”

Luana Rodrigues. Foto: Marcelo Costa Braga

Ana Priscila: Uma coisa interessante de termos um samba tão machista, é que apesar dele ter nascido dentro da casa dessas mulheres, as matriarcas do samba, como a Tia Ciata e a Tia Eulália, foi na sua casa onde o Império Serrano foi registrado, etc.

Segundo pesquisa recente realizada pelo Doutor João Grand, através da Rede Carioca de Rodas de Samba, mais de 55% dos frequentadores de samba no Rio são mulheres e ainda assim vivemos um processo de reprodução de um machismo dentro das rodas de samba. Ainda tem este estigma de que mulher que frequenta roda é isso ou aquilo, então estamos num momento muito legal de desconstrução dessas discussões mas ainda é muito latente e há muita resistência.

Há algum movimento institucionalizado ou é algo mais orgânico entre esses grupos?

Luana Rodrigues: Rola uma interação geral entre os grupos, eles confraternizam nas ruas e todos de certa forma se conhecem e se visitam. Galera vem na nossa roda e damos abertura para sentar, tocar e cantar, ou vice-versa. Isso se reflete também nas redes sociais no fortalecimento coletivo dos trabalhos.

Tainá Brito: Somos seis pessoas, mas para compor a roda precisamos de nove, então agregamos outras pessoas. Sempre escolhemos mulheres de outros grupos, como a Ciça (Cecília Cruz) que sempre toca com a gente e é do Samba que elas querem. A Claudia Coutinho também, que é do Império Serrano, assim como a Gisele Sorriso e a Michele Souza. É uma política de fortalecimento e troca porque são musicistas de muita potência!

Não tem nenhuma relação de concorrência ou coisa parecida?

Ana Priscila: Não, já é tão difícil para a gente, não faria sentido. Se não abrirmos as portas para nós mesmas, outros grupos historicamente masculinos não vão abrir. É um papel nosso enquanto roda de samba formada por mulheres, que tem essa predileção de fortalecer a imagem da mulher no samba. Temos que abrir e fazer o possível para abrir portas a outras mulheres, seja tocando com a gente, visitando, compartilhando nas mídias sociais ou só falando bem em outras entrevistas. Sem isso o fortalecimento não virá de fora.

Luana Rodrigues: Aquele clichê que se uma sobe todo mundo sobe nesse caso é real. Se a gente consegue tocar em mais espaços que só homem tocava, pode ajudar a abrir portas para outros grupos de mulheres e vice-versa. Os grupos estão muito juntos nesse sentido.

Tainá Brito: O samba é uma expressão cultural centenária, é difícil falar que o movimento está começando agora. Mas infelizmente essa nova proposta de ter a mulher como protagonista só ganhou destaque há pouco tempo. Sempre teve, mas antes era muito velado. O Moça Prosa só tem sete anos e antes tinham poucos grupos formados majoritariamente por mulheres, e mesmo assim não temos uma abrangência tão grande. Alguns grupos resistem até hoje, como o Negras Raízes. Nos últimos anos vários outros grupos vieram e assim o movimento começa a se fortalecer. Fizemos esse trabalho massivo nos últimos anos e tudo se pauta na representatividade.

Ana Priscila. Foto: Marcelo Costa Braga.

Vocês atribuem a esse movimento um processo político, como se fosse parte do conjunto dos fenômenos que estamos vivendo nos últimos anos?

Luana Rodrigues: Acho que sim. Os grupos já existiam e tinham sua força e representatividade no seu campo, mas o que diferencia é que eram pequenos e só nos seus espaços. A gente vem pra fazer samba, mas não só isso. Trazemos todo um discurso por trás, na nossa roda mensal a gente discute temas políticos: homofobia, feminicídio, doença mental, etc. Levamos algum especialista para falar sobre os assuntos no meio do samba ou nós mesmas abordamos nas nossas falas, já lançamos livros de mulheres, muitas vezes sobre a questão de como é ser negra no Brasil.

Não é uma militância, mas é uma postura que traz uma política atrelada ao samba. Trazemos essas coisas de forma bem leve construída do nosso jeito. Cada uma tem sua vida pessoal, mas ali no grupo ninguém faz militância falando nomes ou palavras incisivas. Trazemos as questões para dentro do samba, o que é uma construção também. É difícil, porque às vezes as pessoas só querem ouvir samba. Não querem discutir ou falar.

Tem muita gente que vai ao samba por conta da pegação, às vezes nem tem tanta afinidade com a proposta ou a música.

Luana Rodrigues: Nosso público é muito autêntico, temos muitas senhoras, senhores, ao mesmo tempo que muitas crianças, além dos jovens que vão curtir na noite. Todo mundo está muito junto, tem a ver com samba, mas também com essa coisa do momento da mulher que está se empoderando e falando que é empoderada.

Tainá Brito: Fazemos parte do mundo contemporâneo, onde qualquer atitude é um ato político. Fazemos de fato samba, mas à nossa maneira. Tem gente que faz samba político nas letras, outros com versos, a gente para a roda e faz um debate com a galera. Nosso movimento é na rua e nos dias de hoje não tem como separar política da vida. Ela faz parte de tudo, do cotidiano, principalmente sendo mulher, não tem muito como fugir. Infelizmente temos que ficar batendo nas mesmas questões, pois assim como o samba já existia antigamente ainda precisamos reafirmar muita coisa.

Jack Rocha: Nosso samba é completamente agregador, a gente utiliza essa narrativa legítima empoderadora, articulando isso sem ser só uma roda de sentar e cantar, trazendo questões quebrando estigmas, preconceitos e paradigmas, levando pessoas para falar na roda, sobretudo mulheres! É o movimento da roda construindo-se, algo muito maior que apenas uma roda de samba, isso é algo particular do nosso grupo.

Tainá Brito. Foto: Marcelo Costa Braga.

Vocês falam que o samba de vocês é na rua, vocês enfrentam alguma dificuldade nesse sentido com burocracias ou falta de incentivo para realização dos eventos?

Luana Rodrigues: Ficamos de outubro de 2018 a abril deste ano sem fazer a roda por falta de autorização, sendo que outros eventos aconteciam no mesmo lugar que o nosso.

O Festa da Raça e o Pede Teresa já foram embargados, né?

Ana Priscila: Em 2017 conseguimos um decreto vindo de um movimento anterior criando o Circuito de Rodas de Samba com um calendário e as rodas isentas de pedir alvará. Só que quem controla o espaço é a Prefeitura, mas quem determina a segurança é o Estado. A Prefeitura deu autorização mas o Estado não, e tem uma resolução conjunta de 2014 (PM, bombeiros, defesa civil, juizado da infância e juventude) fazendo com que qualquer evento de rua precise pedir autorização. E a PM em particular tem o direito de embargar o evento, independente de qualquer autorização.

Foi nessa malha fina que caímos, aí vem um problema porque o samba ao mesmo tempo que é um patrimônio cultural reconhecido na cidade, um dos maiores produtos culturais de exportação, é impedido de ser realizado por causa de trâmites burocráticos. Isso é um grande equívoco, porque, aliás, gera renda com barracas de artesanato, comida, etc.

Existe uma enorme dificuldade de se entender as rodas de samba como um processo de investimento de mercado, uma coisa que gira a economia criativa, como um mecanismo dentro de uma realidade onde as pessoas estão perdendo os empregos todos os dias.

Ser uma forma de sustento direto e indireto para várias famílias. Ainda se encara como uma ocupação irregular, tem pessoas que sequer entendem o trabalho que uma roda de rua dá para ser realizada. No Largo da Prainha começamos a nos organizar com quase um mês de antecedência, é muito trabalho, um monte de gente, muito dinheiro que circula ali. Então, essa falta de expertise seja do poder público e do setor privado, que tem dificuldade em investir nesse movimento cultural e econômico, dificulta muito as coisas. Cada roda que vai à rua é uma batalha e uma vitória.

Qual avaliação vocês fazem da conjuntura política nacional?

Ana Priscila: Vivemos um momento muito complicado, principalmente no que diz respeito à cultura e mais ainda em relação à cultura negra. Estamos sendo extirpadas de todas as possibilidades de se promover cultura. Quando promovemos uma roda de samba, que é um bem imaterial, ancestral, que temos de mais cultural e nacional, só acontece porque seus membros querem muito colocá-la na rua. Não existe nenhum apoio, investimento ou fomento.

Os integrantes são os que correm mais riscos, porque são os que mais investem e podem sair sem um centavo no bolso, além de ser taxados de marginais ou vagabundos. O momento político atual reduz a cultura a vagabundagem e não facilita em nada nesse processo, só deteriora uma coisa que poderia ser crescente. Fomentar mais investimentos, gerar mais renda, mas que na verdade acaba caindo numa ignorância cultural e política.

Luana Rodrigues: É um momento de retrocesso, que traz o samba e a cultura de rua para esse lugar atribuído antigamente à vagabundagem. Um momento político em que temos que ficar caladas, de censura. Se esse movimento político, que infelizmente está numa crescente, chegar na gente não poderemos fazer nossa roda. Com certeza não agradamos o parâmetro que a política acha que tem de ser, porque não atende a boa família brasileira, o cidadão de bem, levanta a bandeira LGBT, feminista, com professores, muita balbúrdia, etc.

Estamos totalmente fora dessa nova política que, obviamente, condenamos. Apesar de não levantarmos bandeira de partidos e afins, levantamos muitas não bandeiras, do que a gente não quer. Não concordamos com nada que está acontecendo no município do Rio, no Estado e no país.

Jack Rocha. Foto: Marcelo Costa Braga.

E como a mídia trata o samba e esse processo todo?

Luana Rodrigues: Em relação ao samba a mídia tem sido mais propícia a mostrar tanto no ambiente da TV em programas específicos, como o que participamos, quanto em jornais escritos, etc. Mas quando falamos de política aí já são dois pesos duas medidas. Vai andando conforme a maré, aquele morde e assopra, que sabemos como funciona e é complicado.

Se você vai tocar em determinados lugares tem que ter uma preocupação com isso, o que posso ou não falar ali. Mas o mais importante é ninguém querer reprimir a nossa expressão. Temos uma moderação, não vamos falar “Ele não” na televisão, mas também não queremos que ninguém chegue e nos fale o que podemos ou não falar. Isso para a gente não interessa.

Ana Priscila: No nosso discurso às vezes nem precisa soltar a frase. Sempre vamos às mídias, porque lugar vazio é espaço conquistado. Se a pessoa chamou, por mais que tenha pensamento contrário, está dando liberdade e vamos para falar mesmo porque queremos ser ouvidas

Conheça Luh Maza, artista que consagrou a representatividade trans na cultura

Conheça Luh Maza, artista que consagrou a representatividade trans na cultura

Autora de mais de dez peças teatrais, com textos publicados em países da Europa e da África e uma das roteiristas da série “Sessão de Terapia” na GloboPlay, Luh Maza é o exemplo da ocupação de corpos trans nos espaços de consagração cisnormativa.

 

Foto: Divulgação

Em 2011, na Argentina, Ana Maria Careaga junto a militantes LGBTQ+ apresentou o “Documento pela memória da diversidade sexual” que relata as perseguições, estupros e até assassinatos dos quais eram vítimas sobretudo as mulheres trans da ditadura argentina. Em 2001, no Chile, o autor Pedro Lemebel lança seu livro “Tengo miedo torero” em que narra a violência sofrida pelas travestis de Santiago de Chile durante a ditadura de Pinochet.

Vários relatos testemunham que tanto lésbicas como gays e travestis durante o período nazista eram enviades para os campos de concentração na Alemanha. Russia, ainda hoje penaliza as manifestações afetivas entre pessoas LGBTQ+ e recentemente na Cuba tivemos um triste episódio quando a polícia da Habana interrompeu violentamente uma marcha do orgulho gay que acontecia de forma pacífica pela avenida Paseo del Prado. Ano passado, no Uruguai, foi aprovada a “Lei integral para pessoas trans”, que prevê, entre outras medidas, uma reparação financeira para as transexuais e travestis que sofreram violência institucional durante o período da ditadura no pais irmão.

Essa violência institucionalizada, se soma às violências cotidianas: as piadas injuriosas ou bullings, que foram até pouco tempo uma normativa de conduta para o cidadão comum no mundo inteiro. Nesses últimos anos, graças às lutas infatigáveis das militantes e a alguns avanços em matéria de direitos individuais levados em frente pelos governos progressistas, o panorama teve uma mudança, ainda que insuficiente.

Luh Maza foi a primeira diretora trans convidada pelo Theatro Municipal de São Paulo a criar uma obra: “Transtopia” que foi apresentada no dia 9 desse mês de junho. A peça trata sobre mulheres trans e travestis num campo de concentração onde a violência está institucionalizada, o que poderia funcionar como uma alegoria do relato oficial do nosso passado e também desse triste presente.

Luh é uma das roteiristas da quarta temporada da série “Sessão de Terapia” (2019) com estreia no segundo semestre na Globoplay. É autora de mais de dez peças encenadas no Rio, São Paulo e Portugal, como “Três T3mpos”, “Restos”, “A Memória dos Meninos” e “Carne Viva”, todas sob sua direção. Cinco de seus textos foram publicados na coleção Primeiras Obras (Imprensa Oficial, 2009) – indicada ao Prêmio Jabuti de Literatura – e também foram lançados sob o título Teatro (Chiado Editora – Lisboa, 2015) em diversos países da Europa e da África.

Luh e seu elenco. Foto: Divulgação.

Ela iniciou o processo de transição de gênero em 2017 e tem se dedicado a pesquisar temas ligados a gênero e raça. Desde então contribuiu com a dramaturgia de espetáculos como “Cabaret TransPeripatético” (São Paulo, 2018), da companhia Os Satyros, e “F.A.L.A.” (São Paulo, 2018), do Coletivo Negro. Dirigiu o show “Sonhar é a Solução” da banda Anhangabahy (São Paulo, 2018). Dirigiu o espetáculo de circo “Queerbaret” (São Paulo, 2019) e escreveu o roteiro do filme publicitário “Trinta e Cinco” (2019) com trilha-sonora de Liniker e ganhador do selo Staff Pick do Vimeo. Integra a antologia Dramaturgia Negra (Editora FUNARTE, 2019).

Ante a pergunta sobre “qual é a potencialidade que ela enxerga na arte para a autoafirmação das identidades transgênero”, Luh responde:

Estamos vivendo um momento histórico muito particular. A passos lentos avançamos em alguns direitos civis para as minorias sociais e fortalecemos uma consciência coletiva que traz autoconhecimento e autoestima, o chamado empoderamento. São pessoas que historicamente foram oprimidas como mulheres, negros e transgêneros que finalmente têm conquistado alguns espaços cujo acesso lhes era negado. O lugar de quem fala é um desses lugares.

Estamos produzindo finalmente conteúdos com as nossas perspectivas sobre questões que nos atravessam e antes eram retratadas exclusivamente por artistas sem essas vivências o que acaba gerando reproduções equivocadas na representação que propõem.

Quando temos artistas transgêneros escrevendo, dirigindo, interpretado uma obra sobre isso, temos uma profundidade, uma tridimensionalidade que resulta numa obra mais honesta e poderosa, ao mesmo tempo que traz uma identificação com um público que antes se via tão mal representado por esquematizações carregadas de preconceito e desconhecimento.

Transtopia, um dos espetáculos teatrais dirigidos por Luh Maza. Foto: Divulgação.

A nível pessoal, como percebeu a sua experiência como diretora de Transtopia?

Acho que muitas pessoas que, como eu, são diretoras de teatro sonham em dirigir uma obra para o palco do Theatro Municipal de São Paulo, por isso recebi o convite do Hugo Possolo (diretor artístico do teatro e idealizador do projeto Novos Modernistas) com grande alegria e também responsabilidade. Era um momento para fazer história, marcar a presença simbólica dos corpos trans no palco mais nobre da maior capital do país e conciliar meu desejo autoral artístico com as demandas urgentes da nossa comunidade.

Não dava para desperdiçar a oportunidade e com o apoio aliado do Possolo tive condições de ampliar o que me foi inicialmente encomendado e dentro das nossas limitações propor uma obra grandiosa. Foi uma experiência rápida, mas intensa. Para dez minutos de arte foram dez dias sem dormir, acompanhando toda produção com suporte da Cristiani Zonzini, a criação da trilha-sonora da Malka, os vídeos de Nu Abe e os ensaios que tinham que ser precisos e velozes com a equipe super disponível do Theatro Municipal. Fora a seleção e comunicação com algumas das atrizes mais relevantes da cena teatral paulistana que tive o prazer de dirigir: Alice Marcone, Alina Dörzbacher, Aretha Sadick, Ave Terrena, Daniela Funez, Fernanda Custodio, Leona Jhovs, Leonarda Glück, Márcia Dailyn, Onika Soares e a participação da Assucena Assucena (cantora da banda As Bahias e a Cozinha Mineira) que encerrou a obra cantando o hino nacional.

Colocar 11 mulheres trans representando “Transtopia” criado também por uma diretora e uma compositora trans no palco do Theatro Municipal de São Paulo e ter sua plateia ocupada como nunca por um público trans e queer é sem dúvida um dos maiores orgulhos da minha carreira.

Como foi a experiência na participação do livro “Dramaturgia Negra”, que consta de 16 textos teatrais de dramaturgos e dramaturgas negras?

O Eugênio Lima (organizador da antologia com Julio Ludemir) chegou ao meu nome pela indicação de outra dramaturga trans, a Ave Terrena, e me convidou para o livro. Fiquei muito honrada e escolhi “Carne Viva” que é um dos primeiros textos que escrevi – tinha 16 anos, e já trazia no centro da discussão o feminino. É a terceira vez que tenho essa peça publicada, mas a primeira após a transição e assinando com meu nome retificado, então é muito especial e festejo estar ao lado de 15 autores negros do Brasil todo que têm produzido efetivamente, o que mostra nossa força coletiva.

Foto: Divulgação

Para quem tiver interesse em seguir as atividades dessa diretora e escritora segue uma lista com suas próximas intervenções:

Vídeos:

Trinta e Cinco – filme da campanha de conscientização sobre a baixa expectativa de vida de pessoas trans no Brasil. Com roteiro de Luh Maza, pesquisa de Uni Corrêa, estrelado por Onika Soares e Guto Borges e trilha-sonora de Liniker – todas pessoas trans.

Manifesta Futurista – poesia sobre o Brasil contemporâneo escrita para a programação “Novos Modernistas – Uma Futuro Sem País” do Theatro Municipal de São Paulo. Com texto e voz de Luh Maza.

Livro:

Dramaturgia Negra
Organização: Eugenio Lima e Julio Ludemir
Autores: Dione Carlos, Grace Passô, Luh Maza, Maria Shu e outros
Editora FUNARTE
480 páginas
Formato: 16cm x 23cm
ISBN: 978-85-7507-199-1
R$ 30,00
Encomendas para todo o Brasil pelo e-mail: [email protected]

Juan Manuel Palomino Domínguez é jornalista escritor e cineasta baseado no Brasil

‘Nós não fomos educadas para acharmos pessoas trans bonitas’: a vida de uma  universitária trans.

‘Nós não fomos educadas para acharmos pessoas trans bonitas’: a vida de uma universitária trans.

Pelo Estudante NINJA, Artur Nicoceli 

O Brasil é o país que mais mata pessoas transexuais, segundo dados da ONG Transgender Europe (TGEU). Mesmo assim existem jovens como, A. Saboya, que tem a perspectiva de romper as barreiras de uma sociedade cisgênero e ocupar lugares ainda não alcançados por pessoas trans. Aos 26 anos, ela é a única mulher trans estudante da Universidade de São Paulo (USP), do curso de Formação de Atores (Técnico em Teatro – Eixo Tecnológico: Produção Artística e Cultural e Design) da EAD/ECA/USP. “Na minha turma tinha Manfrin que é não-binarie também e eu. Manfrin trancou o curso esse semestre e provavelmente voltará no ano que vem. Fora a gente, eu só ouvi falar da Marina”.

Marina Matheus é a primeira atriz trans da Netflix Brasil. Ela faz a personagem, Ariel, na série 3%, aparecendo na segunda temporada como uma das principais ativistas responsáveis pela manifestação da sociedade mais pobre da série contra a alta classe – Maralto.

Saboya é estudante do terceiro termo do curso, ela acredita que arte vem se desconstruindo, mas ao mesmo tempo, ainda continua reforçando estereótipos e deixando as pessoas trans de fora de espaços culturais, desde a produção artística até os meios da interpretação. “Nesses últimos anos sinto que isso vem sido questionado fortemente por umas manas incríveis, o que vem abrindo uma brecha – ainda muito pequena, quase uma esmola – para que essas pessoas trans se apropriem da arte também”.

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há quanto tempo ela está assim? nbaby num bando de amapozines doyda doÿda num transtorno de personalidade neurótica na brincandeira d recriar d revolucionar as próprias verdades eu era hamlet não eu era ofélyca aquela q o rio não conservou mas q a overdose d asfalto cinza conservou sim senhora q qr dizer isto bela ofélica? ela pensa no pai, não, não é isso, ela pensa no patriarcado grávida dy uma levante transxfeminizxta segyido das náuseas da normatividade binarie minha irmã deve ser avisada boa noity boa noitchy fiquem coa deusatravescthy y nem mais uma palavra (palavras palavras palavras) sobre isso o resto é silêncio mesmo, mas antes uso das palavras pra compor o meu silêncio bjo tchau y agora minha carruagem #freelasdeShakespeare #asalegresmeninesdeShakespeare @turma70ead #atroz #atriz #nbaby #NB #performatividade #shakespeare #hamlet #hamletmachine #heinermuller #USP #interseccionalidade fotos @caionogali

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Ao mesmo tempo que a artista compreende que existam controvérsias entre o movimento feminista radical e o movimento trans, no seu curso, ela encontra uma ligação interseccional das pessoas trans com o pensamento do feminismo negro. Ainda assim, dentro da USP algumas pessoas ainda não compreenderam o processo de transição de Saboya e continuam chamando no masculino, e já ouviu pessoas trans serem taxadas como “aquela da fala violenta” e “brigona”. Ainda assim, ela fala naturalmente sobre a represália dos estudantes “Como tudo ainda é muito recente, vou aos poucos tentando lidar com isso da maneira mais saudável possível”.

Ela ainda ressalta que existe dentro das universidades uma exotificação das pessoas trans. Esse processo consiste quando os estudantes tratam uma travesti, por exemplo, como um animal de zoológico, de acordo com Saboya, ou seja, como se a presença de aluem não fosse, de qualquer forma, comum. Na conversa com o Mídia Ninja, ela ainda cita a Renata Carvalho, como uma fonte de informação sobre a presença dessas pessoas tem que ser naturalizada na sociedade.

A jovem nos conta um pouco sobre seu processo de transição. Ela sempre teve uma identificação mais próxima com figuras femininas ao seu redor, desde a infância, fosse assistindo televisão ou olhando familiares e colegas. Quando ela se tornou mais velha, por meio do seu trabalho artístico, foi perdendo o sentido ocupar o lugar de “homem” ou do masculino, que até então ela estava. “Enfim, acontece que o teatro foi também me ajudando a entender e a me questionar o que eu era, e o que me segurava neste ser “masculino” que era identificade, uma vez que eu me imaginava e intuía muito mais prazer e alegria de vida assumindo uma não-binariedade ou uma desconstrução desse meu gênero que me foi dado quando nasci”, diz.

“Então olhando as manas ao meu redo e acompanhando o processo de minha amiga, dramaturga, Ave Terrena, fui percebendo que este meu lado “feminino” que eu sempre tendia a esconder dentro de mim, era parte da minha essência, e que eu queria agora deixar isso ser visível para todos e todas”, finaliza. Mesmo o processo de transição de Saboya sendo recente, ela reafirma muitas vezes durante a conversa que existe um problema de preconceito ocasionado pela indústria da beleza. “Nós não fomos educadas para acharmos pessoas trans bonitas. E isso precisa mudar urgente”. Esse processo faz com que muitos e muitas jovens trans façam procedimentos cirúrgicos para se parecerem como o padrão aceito pela sociedade. Saboya comenta que mesmo as pessoas fazendo processos cirúrgicos, uma pessoa trans nunca será a Anitta.

A jovem idealiza um governo que atue na inclusão de pessoas trans na sociedade, criando medidas que reparem socialmente as violências que elas vêm sofrendo. “Um governo que pense para além da transfobia, pense também no machismo e na misoginia, precisamos de um governo que encare as dívidas históricas que temos”. Mesmo com a violência social que as pessoas trans sofrem diariamente, ela se imagina como a Marina, conseguindo encontrar possibilidades de trabalho, ocupando os espaços que não pertencem somente a pessoas cisgênero. Ela comenta sobre ser frustrante assistir alguma peça e perceber que todos os atores são brancos, magros e cisgêneros. “Isso precisa mudar, chega de trabalhar na sombra e na margem da sociedade”, ela ressalta.

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Saboya estará em cartaz com a peça “Matéria e poesia”, dirigido por Isabel Setti, em que é abordada a obra de Manoel de Barros. Nela trabalha a figura da Antoninha-me-leva é uma prostituta de Corumbá que pra não morrer de fome recebia 3 ou 4 comitivas de homens por dia em sua casa. A peça estréia em julho, do dia 2 ao dia 7 (ter a domingo) na sala 25 da EAD/CAC, sempre às 21h. Na sexta e no sábado haverá também uma sessão extra às 19h. Ingressos gratuitos com retirada 1hr na bilheteria da EAD.

O outro trabalho que está participando é o “Frutas&TRANS-gressão – Histórias para Tangerinas e cavalas-marinhos”, junto com a colega Manfrin. A peça consiste em uma performance sobre uma figura que não é homem, nem mulher e que debate a realidade de um corpo transitório, assim como as questões de identidade de gênero. A peça entrará em cartaz no Teatro de Container no 27 de agosto e 3 de setembro, e também na EAD/USP dias 14, 15, 21 e 22 de setembro.

Cultura da resistência: Vinganças Etéreas

Cultura da resistência: Vinganças Etéreas

“A mulher arrastada” uma peça de teatro que fala sobre violência policial nas periferias, feminicídio e racismo.

Foto: Regina Peduzzi Protstkof

Por Juan Manuel P. Domínguez, escritor, jornalista e cineasta baseado no Brasil.

Na manhã de 16 de março de 2014, Cláudia Silva Ferreira, mulher negra, pobre, trabalhadora, mãe de 4 filhos biológicos e quatro adotivos, morreu, vítima de uma operação da Polícia Militar do Rio de Janeiro no Morro da Congonha, na zona norte do Rio. Os PMs envolvidos no caso respondem pelo crime de fraude processual, por terem modificado a cena do crime, removendo Cláudia, já morta, do Morro. Cláudia havia sido baleada no pescoço e nas costas. Um cinegrafista amador gravou com o celular o momento em que o corpo dela ficou preso ao carro da PM pela roupa e foi arrastado por 350 metros, mesmo enquanto pedestres e motoristas tentavam, em vão, avisar os policiais. Naquele momento, o vídeo comoveu profundamente a sociedade brasileira, ainda que outros casos aberrantes foram sepultando o episódio na memória coletiva da nação.

Entretanto, a efemeridade inerente à produção jornalística não impede que a arte traga de volta a voz daqueles corpos que ocupam o último degrau nas hierarquias sociais.

A arte, no pensamento de Jaques Rancière, tem como consequência inevitável o enriquecimento do olhar político do espectador. “A Mulher Arrastada” uma peça de teatro do dramaturgo Diones Camargo, se enquadra perfeitamente nessa definição. Após a sessão, o sentimento de perturbação, de comoção, é inevitável, e inefável.

Sob o trabalho de direção da Adriane Mottola, e com interpretações da Celina Alcântara e Pedro Nambuco, a peça materializa a violência social, econômica, sexual, racista e humana que atravessa todo morador de favela. Essa materialização etérea, divina, é a vingança que só a arte proporciona.

É a subversão do destino de um corpo condenado à sua desaparição, ao se silencio, e que, através da dramatização cénica, agora se perpetua tortuosamente na alma de quem assiste.

“No palco, todos os meus processos são no sentido de buscar que as pessoas se emocionem com o que aconteceu com a Cláudia, que se identifiquem e que se sintam mal também. A peça trata de questões pulsantes como racismo, misogenia, opressão, alijamento de direitos, e que não podem mais ser colocadas para baixo do tapete. Elas precisam ser trazidas para a ordem do dia” — explica Celina Alcântara, atriz do espetáculo.

O teatro brasileiro atravessa um interessante momento de compromisso com as problemáticas humanas que o permeiam como fenômeno social. Para Diones Camargo “O bom Teatro, no sentido de um teatro cujo compromisso seja não apenas com a qualidade técnica e o divertimento, mas principalmente com a profundidade da experiência compartilhada, cumpre duas funções necessárias: a de ser propositor de debates e motor para a expansão da sensibilidade.” E continua “Como propositor de debates, provoca nos indivíduos – e por consequência, na sociedade – questionamentos sobre temas que dizem respeito diretamente ao seu cotidiano; como propulsor, provoca de modo consciente as emoções da plateia, o Teatro se concretiza como acesso imediato a uma experiência sensível, poderosa e transformadora, que não pode ser comparada a nenhuma outra linguagem artística, já que é a orquestração de várias linguagens convergindo para um ponto em comum que é o humano em sua complexidade, com suas idiossincrasias, belezas e fragilidades.”

Regina Peduzzi Protstkof

Trechos da entrevista com Diones Camargo:

Por que decidiu escrever “A Mulher Arrastada”?

DC – Foi somente em junho de 2016 que me lancei de fato na escrita do texto ao ser convidado para um projeto em SP (um processo conjunto do coletivo 6 Dramaturgos, do qual eu participava na época ao lado de autores de outros cinco estados brasileiros). Do que me recordo bem é que quando tomei a decisão de finalmente levar à cena o ocorrido com a Cláudia, a primeira imagem que me veio era dessa mulher indicando partes do seu corpo ferido e fazendo referência ao tempo e ao espaço da sua própria narrativa, o percurso da sua existência cruel e precocemente dilacerada. Esse foi o disparador conceitual para a escritura.

Regina Peduzzi Protstkof

A partir daí mergulhei numa pesquisa que me deixou profundamente sensibilizado e comovido, principalmente quando passei a me dar conta que, na cobertura jornalística sobre o caso, a imprensa tradicional – com raríssimas exceções – fez exatamente aquilo que a sociedade espera que ela faça: silenciou os ecos da existência daquela mulher e a desumanizou. No decorrer das matérias publicadas na época, ficava evidente que à medida que o nome da Cláudia ia sendo aos poucos apagado, seguia-se o ocultamento de seu apelido, das suas referências pessoais, da memórias da sua família etc., numa tentativa de torná-la o mais rápido possível num objeto, numa “coisa” – um número que se encaixaria tranquilamente nas estatísticas.

Como poderia definir a experiência do teatro de resistência, tanto para os produtores quanto para espectadores?

DC – Como qualquer manifestação artística, o fenômeno do Teatro é consequência da realidade que o envolve. Sendo assim, o Teatro Político inevitavelmente acaba refletindo – com maior ou menor precisão – a consciência moral da sociedade e da época em que ele está inserido.

No caso do teatro brasileiro, por exemplo, é possível perceber que nas últimas décadas este esteve vagando entre dois extremos: ou hipnotizado pela evasão do teatro comercial ou soterrado por propostas de experimentação inócuas e igualmente afastadas da realidade social.

Ao meu ver, isso ocorreu porque refletia uma certa estabilidade econômica promovida principalmente nos governos de esquerda da primeira década do século XXI, nos quais a formação de plateias, estimulando o acesso a todo tipo de espetáculo, e as rupturas de linguagem eram mais importantes do que o conteúdo discursivo que estava sendo compartilhado com o público.

Numa sociedade democrática e estável essa variedade de manifestações artísticas é não somente natural como até mesmo saudável. Porém, no caso do Brasil, me parece que também era demasiadamente o arremedo de um sistema de produção teatral “europeizado”. Encantados por este modelo, acabamos nos esquecendo que, além de entreter ou romper paradigmas estéticos, a função do Teatro é provocar, questionar, mobilizar os espectadores. Um espectador que sai de uma sala de espetáculos da mesma forma que entrou sinaliza a erosão de um terreno fértil que em breve poderá vir a se tornar um desabamento desastroso. Creio que isso – aliado a transformações globais e tecnológicas de todo o tipo – colaborou para que ocorresse a convulsão que vivenciamos em nossa sociedade: os indivíduos, em sua falta de entendimento da realidade imediata que o cerca e das forças globais que a manipula, se deixaram amortecer e desinformar, e em sua ânsia para retomar o convívio das multidões e das experiencias sensoriais extremas, foram empurrados às ruas para derrubar qualquer coisa que vissem à frente, sem questionar com profundidade se isto era adequado ou não para sua comunidade.

No caso específico de “A Mulher Arrastada”, que desde sempre chamei de peça-manifesto e cuja escrita é uma consequência dessa convulsão social e da ruptura democrática que vivíamos no momento da sua escritura (e que vivemos desde então), o ocorrido com Cláudia Silva Ferreira servia de reflexo às feridas sociais que há muito estão escancaradas no Brasil.

Regina Peduzzi Protstkof

Há ali o racismo, evidentemente, mas também o feminicídio, a violência policial contra pessoas pobres e da periferia, a legitimação da sociedade que faz questão de virar os olhos para o extermínio de pessoas negras; era evidente a subordinação da imprensa e da mídia que fazem questão de deturpar as narrativas sobre os crimes cometidos pelo Estado colocando sempre a vítima em posição de suspeição. Mas além disso tudo (o que por si só já me afeta o suficiente a ponto de escrever uma peça que aborda estes temas), havia também um outro aspecto subjacente de uma realidade que estava muito latente naquela época: a violência simbólica contra uma mulher que há meses vinha enfrentando um processo de aniquilamento político e psicológico que se manifestava diária e midiaticamente através de intrigas e artimanhas de uma maioria de homens brancos, ricos e corruptos, de uma imprensa conivente e de uma sociedade elitista e colonizada, todos interessados em calar a voz não somente dessa mulher – da líder que ela era – mas principalmente dos seus 54 milhões de eleitores. E através de um acordo orquestrado de modo muito escancarado entre todos estes setores, se conseguiu o que queriam: calaram a sua voz e executaram um Golpe de Estado. Tentaram jogá-la no esquecimento também, e só não conseguiram por força da própria biografia desta mulher.

Olhando em retrospecto, hoje penso que esses elementos, em conjunto, acabaram se tornando motores para escrita de “A Mulher Arrastada”. Antes de tudo, é claro, é uma peça sobre a Cláudia e sobre outras mulheres negras e pobres deste país, mas também é uma obra cuja protagonista reivindica não apenas o direito de ser ouvida, mas também de ter o seu nome de volta depois deste ter sido arrastado e dilacerado em praça pública, em plena luz do dia, com uma multidão horrorizada porém inerte diante de tamanha violência.

Como continuam as apresentações?

Neste mês de junho faremos uma curtíssima temporada aqui em Porto Alegre – aproveitando um breve intervalo da itinerância – e imediatamente embarcaremos para MG, onde apresentaremos em Belo Horizonte e Uberlândia. Daí seguiremos para Manaus (AM) e Brasília em julho, São Paulo (SP), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Campos (RJ) em agosto, Porto Velho (RO) e mais seis municípios do RS em setembro, Juiz de Fora (MG) em outubro, até encerrarmos a circulação em Paraty (RJ), em novembro. Ao todo serão 30 apresentações em 28 cidades de 10 estados brasileiros, além de atividades paralelas tais como oficinas, debates, intercâmbio e Pensamento Giratório.

E em breve, quando o livro contendo o texto da peça for publicado pela editora Cobogó, torço para que o nome e a história da Cláudia cheguem a outros lugares que a montagem não chegará, e que sejam conhecidos por mais e mais pessoas.

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Cláudia Silva Ferreira – mulher negra, pobre, 38 anos, mãe de quatro filhos biológicos e quatro adotivos, brutalmente alvejada pela Polícia Militar ao sair de casa no Morro da Congonha, para comprar pão para sua família. Depois dos tiros, seu corpo é atirado às pressas no camburão da viatura e arrastado ainda com vida, em meio ao tráfego da capital fluminense, sob o olhar horrorizado de motoristas e pedestres. É preciso não deixar morrer esse fato atroz, é preciso recapitalizar esse corpo. Atravessar a experiencia de uma arte consciente da história que a penetra, como fenómeno social, é um dever humano. Se a nossa pretensão é a de dar sentido à fugaz existência da nossa raça, além dos solenes devaneios metafísicos, se faz necessária nossa participação concreta nos debates dos quais somos atores históricos. Porque talvez a resposta para tudo não seja uma epifania no final do caminho. Talvez a resposta seja o caminho que escolhemos percorrer. Repito: Cláudia Silva Ferreira – mulher negra, pobre, 38 anos, mãe de quatro filhos biológicos e quatro adotivos.