Ilustração

Ilustração Paige Mehrer

– Mas como assim cis? Justo eu que contrario tudo o que a palavra “mulher” representa? Eu não deixei me prenderem no ambiente doméstico, fui estudar, me fiz professora universitária, super respeitada, me divorciei… eu não sou cis de forma alguma.

E eis como a renomada pesquisadora de gênero tentou rechaçar qualquer possibilidade de ser cis, uma vez que ela contrariaria “tudo” o que a palavra “mulher” representa (em que século ela nasceu mesmo, aliás?).

A conclusão lógica do raciocínio me pareceria apontar que, se ela contraria o que a palavra “mulher” significa, talvez ela não fosse mulher, uma não-mulher, mas é o termo “cis” que incomoda. Sempre o “cis”. E curiosamente ninguém que olhasse pra ela, falasse com ela ou visse seus documentos seria capaz de negar-lhe a palavra “mulher”… a eterna impressão rebelionária que algumas pessoas têm de si próprias, não?

Já houve também quem atacasse o termo se valendo da experiência de outras minorias, “a mulher negra não é cis, afinal ela precisa lutar para ser reconhecida mulher”, ou coisas do gênero a respeito da pessoa com deficiência, argumentos que convenientemente ignoram a existência de pessoas trans com deficiência, assim como de mulheres negras trans, e de homens trans negros, inclusive. O momento mais intrigante do debate é quando tentam deslegitimar o termo apontando que todo mundo é “trans” em alguma medida… que diabos isso quer dizer? Que sofremos as mesmas violências “em alguma medida”? Que medida é essa?

E, no entanto, essas mesmas pessoas que atacam o termo “cis” usam a expressão “pessoas trans” a rodo, com naturalidade, como se fosse óbvio que existimos, quem somos, o que significamos, mas também como se a obviedade da nossa existência não obrigasse o sistema a repensar os termos com que categoriza a própria existência humana. E, bom, se o sentido do termo “trans” está se assegurando, se as identidades que esse termo abarca já estão começando a ser legitimadas, talvez fosse hora de pensarmos nome para tudo aquilo que são os não-nós, um nome pras formas de existir que explicitamente divergem das nossas — principal razão por trás do termo “cis”.

Cis, o contrário de trans, simples assim, porque é preciso existir o que não seja nós, já que vai se fazendo difícil querer negar nossa existência… e bora pensarmos juntas, pessoas cis e trans, maneira de essas palavras fazerem sentido.

Acho que entendo o medo que essa nova etiqueta impõe. É como se, com a legitimação cada vez mais nítida das identidades trans, com o reconhecimento oficial das nossas masculinidades e feminilidades e o redimensionamento que estamos dando às palavras homem e mulher, junto fôssemos desnudando o sistema de condicionamento que tenta fazer de pessoas nascidas com pênis homens e de pessoas nascidas com vagina mulheres, ou seja, é como se fôssemos escancarando o quanto esse condicionamento não é nada natural.

E se eu não sou homem por conta do meu pênis, nem mulher por conta da minha vagina, o que é que me fez o que sou?

Perguntinha perigosa. Beauvoir já previra, mais de uma década atrás, que “não se nasce mulher, torna-se”, mas coube às pessoas trans oferecerem concretude (concretude inimaginável à época de Beauvoir) ao que essa frase é capaz de dizer.

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