Ilustração: Pawel KuczynskiT

por União Vegana de Ativismo – UVA
O consumo de carne no Brasil caiu devido à alta nos preços (1) e existe uma tendência de que esses sigam crescendo. A notícia levou algumas pessoas veganas desavisadas a comemorar tal queda, como se significasse que menos animais estão morrendo. Mas será que isso é verdade?

A desvalorização do real em relação a quase todas as moedas fez com que o mercado de animais vivos e mortos no país se tornasse mais competitivo, gerando aumento das exportações (2). A produção nacional está em sua capacidade máxima, já que o crescimento dos animais não obedece a voracidade do mercado, resultado de o país ter exportado um novo recorde de animais nos últimos três anos, assim como insumos de soja e milho para criações no exterior (3).

Os dados apontam para o maior consumo mundial de bois neste ano (4). Essa demanda leva junto também nossa riqueza de biodiversidade florestal, empobrece o solo e eleva o consumo de água potável, além de aumentar as tensões com os povos indígenas e quilombolas por terra, deixando para trás a crescente miséria do povo brasileiro: 1 em cada 3 habitantes não sabe se terá alimento para o dia seguinte (5). Situação que tende a se agravar devido ao desemprego e ao valor irrisório do atual auxílio emergencial.

Para essas pessoas, o consumo de bovinos é substituído, na medida do possível para cada família, por aves, ovos e opções ainda menos saudáveis, como linguiças e salsichas, que são alimentos ultraprocessados. Ou seja, os brasileiros estão reduzindo o consumo de carne vermelha por causa da miséria provocada pelo sistema em que vivemos, não porque “o vegetarianismo/veganismo está recebendo mais apoio”. Portanto, não há nada a comemorar!

Ao mesmo tempo, é necessário disseminar a informação de que é perfeitamente possível manter-se saudável com uma dieta à base de vegetais, que pesaria muito menos no orçamento familiar e permitiria diversificar mais o cardápio, com a inclusão de outros sabores e nutrientes. A base dessa dieta é feijão, arroz, legumes, verduras e frutas – itens amplamente conhecidos e acessíveis para boa parte da população -, sendo a maior fonte de proteína o feijão.

Uma dieta com mais alimentos variados, sem agrotóxicos e com menos ultraprocessados deve estar no nosso horizonte se almejamos um futuro mais saudável para a humanidade, pros animais e para o nosso planeta, mas isso certamente não deve ser feito às custas dos mais vulneráveis.

Defendemos um veganismo se baseia em um posicionamento contrário ao sofrimento e exploração, tanto de animais não humanos quanto de humanos. Assim, nossa luta é também para levar informação e garantir acesso a alimentos de qualidade para toda a população, com incentivo à autonomia, à soberania alimentar e aos pequenos agricultores.

Não adianta celebrar a redução no consumo de animais baseado na miséria de grande parte da população e no enriquecimento das elites do país (6). Até porque o que não está sendo consumido aqui é exportado, mantendo a cadeia de exploração e morte em prol de lucro para o agronegócio.

Por isso, ressaltamos que compreender a questão do consumo de animais para além de uma escolha indivídual é fundamental se realmente desejamos libertá-los. Afinal, queremos que os animais sejam completamente retirados da cadeia de produção de alimentos por escolha das pessoas e não por falta de escolha.

Referências:
(1) https://www.cnnbrasil.com.br/business/2021/05/21/consumo-de-carne-no-brasil-cai-ao-menor-nivel-em-25-anos-com-disparada-de-precos
(2) https://www.canalrural.com.br/programas/informacao/mercado-e-cia/exportacao-carne-bovina-35
(3) https://www.portaldbo.com.br/exportacao-de-carne-bovina-e-recorde-em-2020-com-us-85-bilhoes
(4) https://www.farmnews.com.br/mercado/consumo-de-carne-bovina-por-pais
(5) https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/28903-10-3-milhoes-de-pessoas-moram-em-domicilios-com-inseguranca-alimentar-grave
(6) https://ojoioeotrigo.com.br/2021/05/quando-a-fome-vira-negocio

 

 

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