Durante muito tempo, a união das palavras maconha e mercado remetia somente ao tráfico de drogas, ao crime organizado e à violência. Mas essa realidade tem mudado ao redor do mundo, principalmente nos países onde a Cannabis já foi legalizada. Aos poucos, setores da sociedade civil e do poder público têm se ligado no potencial econômico que a legalização da erva apresenta para diferentes segmentos relacionados à produção e ao consumo: do cultivo à venda de flores, extratos, óleos e comestíveis, passando pelos mais diversos tipos de comércio e ofícios especializados.

Nos Estados Unidos, o mercado de Cannabis é o que mais cresce entre todos os países. Hoje em dia, são mais de 243 mil pessoas registradas trabalhando na “indústria verde” no país norte-americano, onde 35 estados já legalizaram a erva para fins medicinais e, 16, para uso recreativo. Isso sem falar nos informais e prestadores de serviços, que muitas vezes se envolvem, mas não são contabilizados.

Por lá, é possível atuar, por exemplo, em profissões como: grower, o cultivador, que trabalha diretamente no plantio, manejo e colheita das plantas; budtender, funcionário de loja ou dispensário que atende clientes, responde perguntas e sugere flores e produtos; hashmaker, responsável por extrair haxixe e extratos; e cannabier, espécie de sommelier de Cannabis, parecido com o budtender, mas mais meticuloso. 

Apesar dos atrasos, no Brasil trabalhar com maconha não é mais uma “viagem”. Além da produção e do comércio medicinal liberados mediante autorização judicial, são muitas as áreas ligadas ao universo canábico que oferecem oportunidades de trabalho sem quebrar a lei. Hoje estão espalhadas pelo país as headshops, tabacarias com produtos direcionados para entusiastas da erva, como bongs, sedas e trituradores, bem como empresas nacionais que produzem esses apetrechos. Também são várias as lojas e marcas de roupas brasileiras baseadas no imaginário canábico. Afinal, desde 2011, com o julgamento da ADPF 187 no Supremo Tribunal Federal (que legalizou a Marcha da Maconha) não é mais crime falar sobre Cannabis nem defender a legalização. 

Outro ramo que conta com vários representantes nacionais é o das growshops, lojas que vendem insumos para cultivo indoor, que vão desde estufas a fertilizantes, passando por lâmpadas, exaustores, entre outros. Têm ainda outras atividades transversais às das headshops e growshops. Afinal, as indústrias do mercado legal de Cannabis precisam de pessoas para trabalhar no estoque, no marketing, na confecção de sites, na área da contabilidade, na entrega de produtos ou coleta em distribuidores, nos serviços gerais, na recepção, em eventos e em muitos outros setores que variam conforme o negócio ou serviço. 

Isso sem contar quem trabalha com a erva por meio da comunicação, do jornalismo, da formação educativa, das redes sociais e do marketing digital – como é o caso do Growroom. Na internet, inclusive, essa área se expande para os youtubers e influencers do Instagram, que expõem o estilo de vida canábico para seus seguidores. Ah! E, claro, têm ainda acadêmicos e cientistas em geral, tão importantes no Brasil, como temos visto nestes tempos pandêmicos. No caso da maconha, eles vão de historiadores a antropólogos, de advogados a neurocientistas, passando por médicos, psicólogos, assistentes sociais, entre outros. 

O lance é que existe uma vastidão de opções de trabalho para quem ama a planta e se interessa por esse universo. E que poderia – e deveria – ser ocupada por quem está em situação vulnerável, trabalhando no crime muitas vezes justamente por não ter acesso a outros horizontes. Uma realidade que prova que, se a erva fosse legalizada, poderia ser porta de entrada para muitos jovens: não para outras drogas ou postos mais altos no tráfico, mas para o mercado de trabalho, a carteira assinada ou o negócio próprio, a opções dignas de sobrevivência.

Sabemos ainda que é provavelmente por conta do potencial econômico da maconha que a legalização acontecerá, também, por aqui. De alguma forma, em algum momento: já virou uma questão de “quando e como”. Então, a militância antiproibicionista, políticos, lideranças e representantes que lutam por uma nova lei sobre drogas mais humana precisam estar atentos. O mercado legal da maconha, tanto o que existe quanto o que se abrirá quando a legislação mudar, precisa de atenção e suporte. Temos que conversar sobre o assunto em diferentes espaços de poder e incentivar a criação de novas iniciativas e empreendimentos locais voltados ao universo canábico, para evitar o atropelo total de empresas estrangeiras no mercado.

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