A quarentena fez aumentar o interesse do brasileiro pelo cultivo caseiro de Cannabis, já que ficou ainda mais difícil acessar a maconha do mercado ilegal. Como logo depois da tradicional “seca” de fim de ano veio outra “seca”, causada pela pandemia, os preços subiram muito. Se estava difícil encontrar maconha boa, ficou praticamente impossível. Sem contar o isolamento social, as pessoas fechadas em casa e tudo mais. Então, muita gente decidiu que era o momento certo para começar um cultivo e tentar sair do prensado.

Troquei essa ideia outro dia em uma entrevista para uma reportagem que foi publicada no Uol. Eu noto esse reflexo diretamente por conta do Growroom, maior site sobre maconha do Brasil, que criei e administro há 18 anos. Hoje, além do fórum (o maior em língua portuguesa da América Latina), temos também o blog, que oferece conteúdo relacionado ao universo do cultivo e uma escola online, com cursos de cultivo e culinária. E é pelos números, tanto de acessos quanto, principalmente, de interessados nos cursos, percebo uma vontade crescente da galera plantar sua própria erva em casa.

Muitas pessoas, inclusive, o fazem para fins medicinais, com a intenção de viabilizar a extração de óleos para seus tratamentos ou tratamentos de seus filhos ou familiares. Afinal, seja importando os óleos ou comprando no Brasil, em associações legalmente reconhecidas, os preços continuam altíssimos. Ou seja, o cultivo caseiro ainda segue sendo a maneira mais democrática de acesso à Cannabis. 

Prova disso é a avalanche de habeas corpus de pacientes que querem cultivar seu remédio. Os pedidos de salvo-conduto, que já são mais de 100 em todo o Brasil, reforçam a importância do cultivo caseiro como instrumento de autonomia do usuário de maconha. Mas a gente sabe que, como disse o André Barros outro dia, numa live, habeas corpus não é “licença para plantar”. É apenas um paliativo. A coisa só vai resolver, mesmo, quando a lei mudar. 

Mas aí, quando surge um projeto de lei, o cultivo caseiro fica de fora? 

É absurdo que o substitutivo do Projeto de Lei 399/2015, entregue pelo deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) ao Congresso Nacional, ignore uma necessidade tão clara desta pauta. Quando autoriza apenas empresas a cultivarem a Cannabis para fins medicinais e industriais (do cânhamo?!?!), o texto abre espaço para “passar a boiada” do agronegócio e da indústria farmacêutica.

Mesmo com tantas provas de que o cultivo caseiro dá autonomia ao usuário, quando aparece uma possibilidade de mudança ele é jogado a escanteio? Não dá para confiar em um projeto que parece privilegiar as empresas e ignorar as vozes dos usuários e usuárias de maconha – tanto quem fuma pela onda quanto quem precisa da erva para viver. Mais uma proposta que não vai ajudar a acabar com a guerra às drogas e suas consequências no país.

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