Por Noé Pires

A banda soteropolitana Vivendo do Ócio, abre um novo ciclo criativo com os singles “Baila Comigo” e “Não Tem Nenhum Segredo”. As músicas antecipam o quinto álbum de estúdio da banda, Hasta La Bahia, e marcam um reencontro de afetos, cidades, gerações e ritmos. Nesse movimento, a VDO se reinventa sem perder a essência, trazendo participações especiais que ampliam o horizonte: Paulo Miklos, ícone dos Titãs, e Jadsa, um dos nomes mais marcantes da nova MPB.

Mais do que um convite para dançar, “Baila Comigo” propõe um diálogo interno. É música para se mover consigo mesmo — com as dúvidas, as brechas e a beleza encontrada no improviso da vida. O groove, temperado entre o disco-funk e o rock alternativo, dá forma a uma crônica urbana carregada de leveza e intensidade. A faixa nasceu de uma carta íntima escrita pelo baterista Gabriel Burgos para si mesmo, que, junto a Jajá, Luca e Davide Bori, encontrou força coletiva e transformou a confissão em comunhão. A presença de Paulo Miklos, dividindo os vocais com Jajá, reforça a ideia de continuidade: um elo invisível entre passado, presente e futuro.

Se “Baila Comigo” olha para dentro, “Não Tem Nenhum Segredo” abre espaço para o diálogo a dois. Inspirada por um sonho do vocalista Jajá Cardoso, a canção traz refrão nascido no subconsciente e moldado em parceria com Ronei Jorge (Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta). O resultado é um retrato afetivo de relações intensas, construído como conversa entre espelhos. Para intensificar essa cumplicidade, a cantora Jadsa empresta sua voz sensível e potente, criando uma atmosfera de tensão e ternura.

De volta a Salvador depois de mais de uma década vivendo em São Paulo, a Vivendo do Ócio não retorna como quem revisita memórias, mas como quem redescobre um território vivo de criação. O balanço da cidade atravessa cada compasso das novas músicas, impulsionando um álbum que promete ser um dos mais marcantes de sua trajetória.

Com passagens por palcos como Rock in Rio, Lollapalooza e turnês pela Europa, além de colaborações com nomes como Pepeu Gomes, a VDO carrega uma história sólida. Mas é no presente que a banda encontra seu melhor momento: madura, inventiva e aberta ao risco de se transformar. Hasta La Bahia não é apenas um novo disco — é a afirmação de que a Vivendo do Ócio segue firme em seu propósito de explorar novas paisagens sonoras com autenticidade e entrega.

O S.O.M “sistema operacional da música”, o canal de música da mídia NINJA bateu um papo com a banda Vivendo do Ócio.

S.O.M: “Baila Comigo” nasceu como uma carta íntima e se transformou em um convite coletivo. Como foi esse processo de dar corpo à canção e o que ela representa nesse novo ciclo da banda?

Gabriel Burgos: Parte do instrumental, mais especificamente o baixo e a bateria, tinha sido desenvolvido por mim em 2022, antes de eu entrar na VDO.  Agora em 2025 quando a gente começou a pensar no disco eu apresentei a música mais encaminhada pros caras, eu tinha sentido que ela tava em diálogo com boa parte das faixas que estavam sendo selecionadas pra entrar no CD. A gente foi trabalhando nela, alterando parte da estrutura, trabalhando os timbres e por fim ainda tivemos a honra de ter Paulo Milklos nela com a gente. Acho que ela representa muito o momento da banda, da nova formação, das referências que cada um tá trazendo, do diálogo desse novo momento com uma linguagem já estabelecida pela banda, esse encontro das matrizes criativas. 

S.O.M: A participação de Paulo Miklos traz uma dimensão afetiva e geracional à faixa. Como surgiu esse encontro e o que significou pra vocês dividir os vocais com uma figura tão icônica do rock brasileiro?

Jajá Cardoso: Pra gente foi uma honra imensa ter Paulo Miklos nessa faixa, ele é uma grande referência para nós. Sentimos que a música tem uma conexão com a sonoridade dos Titãs e através de um grande amigo nosso em comum, conseguimos fazer o convite e Paulo aceitou na hora. Além disso, ele já tinha declarado publicamente numa revista de grande circulação que curte o nosso som, um pouco depois, na época, tocamos juntos na Concha Acústica do TCA em Salvador e tivemos também esse primeiro contato. Eu acho que esse convite já poderia até ter sido feito em outras oportunidades, mas tudo acontece no tempo certo. 

S.O.M: O novo momento da Vivendo do Ócio é também um reencontro com Salvador. De que forma a cidade — seus sons, ritmos e memórias — está presente nesse novo trabalho?

Luca Bori: Voltar pra Salvador definitivamente é respirar a cidade, vivenciar mais de perto o que vem acontecendo na cena daqui, nossas relações nesses últimos anos influenciaram o que é a Vivendo do Ócio hoje, tanto nas nossas decisões de produção desse novo álbum, seja nos juntando a André T pra fazer a produção, chamando Ricardo Correia que já toca com a gente pra gravar percussão, Vic Zacconi pra fazer a direção de arte e até com a entrada de Gabriel Burgos na banda. Tudo que nos permeia hoje é fruto da nossa nova relação com a cidade e pode ser visto dentro e fora da nossa música. 

S.OM: Quase duas décadas de estrada depois, o que move a Vivendo do Ócio hoje? O que vocês têm buscado experimentar ou resgatar nessa nova fase que o single antecipa?

Luca Bori: Continuamos com a mesma gana de fazer um som que a gente gosta, sem pensar em agradar pessoas de fora, queremos fazer algo que tenha a nossa identidade, agora estamos em outro momento, voltamos pra Salvador, temos um novo integrante que é o Gabriel Burgos assumindo a bateria, além das novas  responsabilidades que a vida nos trouxe, mas também estamos com as energias renovadas, acho que o mais interessante dessa nova fase é trazer as novas influências que a gente carrega e mostrar que o nosso caminho sonoro pode sempre se modificar e proporcionar novas experiências refletindo sempre a nossa vivência atual.