Pela Estudante NINJA Victoria Henrique

Foto: mrldias | Mídia NINJA | Luz Nuñez Soto

” Se esse senhor conseguir chegar na presidência, vai ser o fim tanto para mim quanto para a maioria das mulheres aqui do estado (Rio de Janeiro) e do Brasil inteiro”

Essa declaração é da Bruna Reis, mulher trans, de 30 anos. Em setembro de 2018, um mês antes das eleições presidências no Brasil, ela era uma das milhares de mulheres que estavam nas ruas contra o candidato à presidência Jair Bolsonaro, por saber que a sua vitória representaria um grande retrocesso para o país. Elas sendo 51,5% da população total, segundo dados de 2012 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), poderiam ser personagens decisórios naquelas eleições. Por isso, se mobilizaram, através da internet, e fizeram um levante histórico em todo o mundo que ficou conhecido como #EleNão.

Os atos foram uma resposta direta a declarações ofensivas às minorias feitas por Jair Bolsonaro. “Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”, é uma delas. De acordo com um levantamento realizado pelo Datafolha, cerca de 536 mulheres foram agredidas fisicamente por hora no Brasil, em 2018. Dentre as motivações destas mortes, está a de gênero. Ou seja, mulheres são mortas apenas por serem mulheres. O quadro de violência sofrida pela comunidade LGBT também é preocupante. Um relatório publicado pelo Grupo Gay da Bahia, ano passado, demonstrou que o Brasil está no ranking dos países que mais matam LGBTs no mundo.

As manifestações do #EleNão tiveram um grande protagonismo feminino, mas também contaram com a participação dos homens. “Para quem é da minha geração que viveu a Ditadura na juventude, é impressionante ver um cara que nem esse elogiar um torturador” diz Jurgen, professor do curso de Física da Universidade Federal Fluminense (UFF). Além de atacar grupos sociais que são comumente invisibilizados na política, Bolsonaro se coloca também como simpatizante da Ditadura Civil Militar (1964-1985), regime que, segundo relatórios da Comissão da Verdade, deixou 434 mortos e desaparecidos.

A luta histórica das mulheres que contou com a participação dos homens, dos LGBTs, dos povos indígenas, da população negra e de outros setores, demonstrou que setembro de 2018 foi apenas o início de um ato de resistência à criminalização e marginalização dessas parcelas da sociedade. Em maio de 2019, os estudantes, professores e servidores se somaram à luta e fizeram protestos nacionais e internacionais contra os cortes de verbas na educação pública anunciados pelo Ministério da Educação (MEC) em 30 de abril. Como resposta, no dia 15 de maio, 222 cidades brasileiras se mobilizaram contra o bloqueio de recursos e mais de um milhão de pessoas ocuparam as ruas em todo o país.

O primeiro tsunami da educação, como ficou conhecido esse protesto, mostrou o incômodo da sociedade quanto ao desmonte que a educação pública vêm sofrendo. Alunos de universidades federais que dependem das bolsas de acolhimento estudantil e desenvolvimento acadêmico, por exemplo, se viram desamparados por conta desses cortes. Ao total, foram retirados do ensino superior federal 2,5 bilhões de reais. A educação básica também foi afetada. Diferente do que foi apontado por Jair Bolsonaro; de que ela seria prioridade em seu Governo, foram retirados desse setor ao menos R$ 914 milhões.

“Senhor Ministro venha para a rua conhecer o seu povo que o senhor não conhece. Saia do gabinete!”

José Carlos Leite, professor de História, presente no #15M, e que passou em 12º segundo lugar na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contou que sempre estudou em escolas públicas e que por ser negro enfrentou diferentes barreiras para conseguir frequentar ambientes acadêmicos que durante muitos anos foram espaços elitizados. José ainda afirma que: “A única coisa que pode salvar o Brasil é educação e o nosso presidente quer justamente tirar o investimento desse ramo”, opinião comum a maioria das pessoas que estavam nos atos. E que após a declaração de Bolsonaro de que estudantes que protestavam eram “Idiotas úteis”, se fortaleceu fazendo com que se formasse mais adiante um outro grande levante, o segundo tsunami da educação: o #30M.

O Segundo Dia Nacional em Defesa da Educação contou novamente com a participação da comunidade acadêmica, além da população que se viu mobilizada. Projetos como “UFF nas praças”, permitiram demonstrar às pessoas que, para além da formação acadêmica, as universidades também exercem uma grande função social. Elas oferecem gratuitamente serviços em hospitais universitários, amparos jurídicos e psicológicos, além de vagas em creches e escolas, por exemplo. Dessa forma, a luta se unificou gerando uma grande comoção no Brasil. Ao total, foram mais de 1,8 milhão de pessoas nas ruas. O Brasil reivindicou: uma educação pública de qualidade, os direitos das minorias e principalmente, um projeto democrático de governo. E agora, volta às ruas para exigir mais uma vez em 14 de junho; na greve geral.

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