Foto: Jorge Pereira / Mídia NINJA

Por Victória Henrique

Nesta quarta-feira, 23 de outubro de 2019, Angela Davis esteve no Rio de Janeiro pela primeira vez. Feminista negra, filósofa, professora e símbolo mundial da luta antirracista, Davis falou para um público em sua maioria negro que ocupou o cinema Odeon, no Centro da Cidade, do lado de dentro e do lado de fora. Local que durante o século XX era o centro de encontro da elite branca. A sua construção fez parte do processo de “embelezamento” e modernização da cidade do Rio de Janeiro que intensificou a marginalização e o extermínio do povo negro.

Mas neste dia, o cinema Odeon estava com cor e cara de resistência. Na verdade, faz tempo que o cinema brasileiro é negro. Léa Garcia, Ruth de Souza e Zezé Motta já nos demonstravam isso desde o século passado. E antes do desmantelamento do audiovisual iniciado com o Governo Temer, as ações afirmativas foram meios importantes de fomentar o cinema afrocentrado: aquele que conta a história da nossa ancestralidade e não que apaga. O filme “Um dia com Jerusa” da baiana Viviane Ferreira, a segunda mulher negra a dirigir um longa metragem no Brasil, foi exibido ontem. Ao final dele, uma fala de Léa Garcia, protagonista do filme de oitenta e seis anos. E após o seu discurso, uma salva de palmas que reverenciou todos os meus antepassados.

Logo após, Angela Davis foi recebida no palco pela deputada estadual Renata Souza que a entregou a Medalha Tiradentes, um prêmio oferecido pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. A ativista americana posteriormente saudada por Flávia Oliveira e Conceição Evaristo, mediadoras do debate, também foi aclamada por nós que nos energizamos com a chegada do ícone mundial do enfrentamento ao sistema racista. De acordo com Davis, não basta não ser racista é preciso ser sobretudo antirracista. Num país de recente passado escravocrata, temos que exercitar não ser racista todos os dias. O antirracismo, primeiro de tudo, é uma prática diária porque assim como ele leva consigo corpos negros à fatalidade, conduz milhares de histórias negras ao embranquecimento.

Ser embranquecida dói. Não saber dos seus ancestrais também. Perder uma criança de oitos anos negra e favelada porque foi assassinada pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro mais ainda. Passar a conhecer autores como Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzalez somente na universidade é juntar pedaços da nossa identidade que foi estilhaçada durante todos os anos de escola devido à ausência de professoras e professores negros em sala de aula. Mas Davis já falou – e também ao vivo – “A liberdade é uma luta constante” e é por ela que nós negros, negras e negres existimos enquanto corpos políticos.

Foto: Jorge Pereira / Mídia NINJA

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