Foto: Mídia NINJA

Caros leitores…

Eu fico agradecida por todo apoio que me deram em minha estreia aqui na Mídia Ninja, e por saber que se interessaram por minha coluna, vocês são maravilhosos e se eu pudesse abraçava cada um de vocês, inclusive queria pedir para vocês deixarem os seus comentários sobre a coluna deixando suas perguntas, dúvidas e pontuações, pois pra mim esta coluna não será pra somente eu falar, mas sim para nós dialogarmos a partir destas temáticas. Bom, agora que já nos conhecemos e vocês já foram brevemente introduzidos nos assuntos que debaterei aqui, decidi hoje trazer uma pauta muito necessária: por que o povo negro deve pensar sobre transgeneridade e pautar isso.

Gente, vamos começar pensando como é a nossa sociedade e quem foi a figura que a construiu. Nós podemos perceber ao longo da história que a sociedade de uma forma global, até por conta das colonizações europeias (feitas principalmente por Inglaterra, França, Itália, Espanha, Holanda e no nosso caso Portugal), se tornou uma sociedade construída e pensada para o homem branco cis, prezando assim esses conceitos ocidentais-europeus de “masculinidade, raça superior, e de padrão de comportamento”. Agora que juntos nós desvendamos quem é a figura que construiu a sociedade dos dias de hoje, queria que vocês refletissem comigo o seguinte, o homem branco cis ocidental ao longo de sua jornada de colonização impôs todos os seus conceitos e regras em cima do povo negro, logo também estabeleceu seus padrões de gênero, sexualidade e estéticos, sempre manipulando o povo negro para se auto segregar inclusive, e prejudicando sempre os negros que mais estão fora de seus padrões; e o povo negro precisa se desprender destes padrões e questionar mais, por exemplo, a cisnormatividade, pois a mesma é racista.

Um exemplo que podemos ver disso é todo o seu padrão estético, durante o desenvolver de nossa sociedade nos foi pregado um padrão de feminilidade (cis) extremamente branco. Nesse padrão, as mulheres possuem traços finos, ombros finos, possuem uma baixa estatura, e são “frágeis”. Porém quando olhamos para as mulheres negras africanas e toda sua história, podemos ver que esse padrão é branco simplesmente pela estética das mulheres negras, uma vez que percebemos que mulheres negras africanas são altas, possuem ombros e bustos largos, não carregam traços finos e muito menos estão nesse padrão “fragilidade” já que em algumas aldeias e etnias africanas as mulheres eram até mesmo a frente da guerra e também sinal de força, vide as guerreiras de Daomé (também conhecidas como As Ahosi) que para além de guerreiras implacáveis que causaram diversas derrotas ao franceses, em seu reino eram consideradas símbolos de respeito e força onde os homens da aldeia inclusive tinham que abaixar suas cabeças quando elas estivessem passando como forma de respeito.

Portanto gente, esse padrão cisnormativo, por conta de todas essas questões, prejudica até mesmo as mulheres negras cis, e é nítido isso quando nós paramos para perceber que geralmente mulheres negras cis muitas vezes são violentadas ou constrangidas por serem confundidas com mulheres trans e travestis. Como uma mulher negra trans e por todo meu convívio social, percebi que até mesmo as mulheres brancas trans possuem muitas vezes mais passabilidade do que as próprias mulheres negras cis. Tiro isso por uma série de relatos que já ouvi e vi de diversas mulheres negras cis. Por exemplo, eu tenho 5 amigas negras cis que já foram diversas vezes confundidas com travestis e isso acontece com mais frequência com as mais retintas e que possuem traços mais negroides. Porém, em contrapartida, tenho 3 amigas brancas trans que não passam por isso com a mesma frequência pois, por serem brancas, possuem mais passabilidade para serem vistas e tratadas muitas vezes como mulheres cis.

A cisgeneridade é algo construído pelo e para o branco e nós, enquanto povo negro, temos que desconstruir isso, até mesmo porque estamos nos segregando e afastando muitos de nós e de nossas lutas quando não questionamos isto.

Caros leitores que amo, não sei se vocês se lembram, mas eu havia dito pra vocês em nossa ultima conversa que o movimento negro não pauta as pessoas trans principalmente as mulheres negras trans, que são em tese quem mais necessitam desse movimento. Uma das minhas maiores brigas com os movimentos do afrocentrismo e pan-africanismo são o fato de muitos deles se recusarem a nos pautar e como alguns desses movimentos pregam que tanto a transgeneridade quanto a homossexualidade são conceitos advindos do homem branco, porem não param para analisar que na verdade são conceitos que a branquitude não suporta. Quando olhamos pesquisas antropológicas sobre os vários povos africanos antes da invasão dos homens brancos, podemos analisar por exemplo que já se existiam comportamentos homossexuais e transgêneros em diversos desses povos (como, por exemplo, quando em 1606 jesuítas que trabalhavam na África Austral descreveram as Chibadi ao encontrá-las como “homens vestidos como mulheres e que se comportam de forma feminina, envergonhadas de serem chamadas de homens”). Também é valido lembrar que SIM a transgeneridade não existia na África assim como a cisgeneridade também não existia, pois todos esses termos e padrões estabelecidos em nós são ocidentais.

Outra briga muito comum que tenho é como o movimento muitas vezes quer dizer para nós (mulheres negras trans) sermos afrocentradas sendo que na hora de pautarem sobre a solidão da mulher negra, pautam somente a mulher negra cis, sendo que com as negras trans, como diz o ditado, “o buraco é bem mais embaixo”. Vivemos em uma solidão extrema muitas vezes porque os próprios homens não nos veem e nem nos tratam como mulheres, e o movimento não ensina aos homens negros a nos verem dessa forma, apenas incentiva eles a seguirem esse padrão cisnormativo (que é totalmente branco e ocidental).

Está mais que na hora de confrontarmos os homens negros cis héteros a pararem de seguir este padrão e questionarem o mesmo; inclusive fazê-los enxergarem as mulheres negras trans como mulheres, se queremos pregar que mulheres negras trans sejam afrocentradas. Para uma afrocentricidade acontecer precisamos todos nos entender enquanto negros em diáspora e passar a olhar e entender as lutas de nossos irmãos e irmãs negras, e passar a questionar tudo o que fomos ensinados ao longo de nossas vidas em diáspora pois crescemos numa sociedade montada pela branquitude e todos os seus conceitos.

Bom vou deixar pra falar um pouco mais desse assunto com vocês depois, (porque se eu for continuar escrevendo vou acabar lançando um livro aqui na coluna kkkkk) mas creio que com nossa conversa de hoje já deixei pelo menos uma reflexão para vocês do por que devemos questionar a cisgeneridade e entender que ela e a branquitude são estruturas que estão em conjunto. Ah e não esqueçam de deixar seus comentários para nós dialogarmos mais sobre esse assunto tão complexo. Espero que fiquem todos bem e vivos, até a próxima, amo vocês.

— O meu nome é Valentine, JAMAIS Valentina.

E vai ter resistência trans SIM… na Mídia Ninja.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Roger Cipó

Carta a Raull Santiago

Renata Souza

A festa é nossa, o corpo é meu!

Boaventura de Sousa Santos

O desenvelhecimento do mundo

Preta Rara

Ministro Paulo Guedes, fui empregada doméstica e preciso te dizer uma coisa

Roger Cipó

A racialização do homem branco que se faz de régua e regra

Jonas Maria

Trans nos esportes: o projeto, a incoerência e a transfobia

André Barros

Politizar é carnavalizar

Ana Claudino

Feminismo, Big Brother, bolhas e classes sociais

Ana Júlia

Continuaremos a apoiar meninas e mulheres na ciência?

Daniel Zen

Acessibilidade e portabilidade à prova da ignorância

Victoria Henrique

Trabalhadores do RJ que vendem água mineral na rua para você, sequer têm água mineral em casa para beber

Jorgetânia Ferreira

Somos todas domésticas?

Tatiana Barros

Madá, o ciberespaço e a história da internet

Daniel Zen

Um Posto Ypiranga sem combustível

Randolfe Rodrigues

A demagogia governamental contra o Bolsa Família