Por Emily Pinto, Samily Silva, Vitória Balieiro e Jamilly Trajano.


Popularmente conhecida como “mamãe UFPA”, a Universidade Federal do Pará divulgou, no dia 19 de janeiro de 2026, o listão com os nomes dos aprovados no Processo Seletivo Especial para Indígenas e Quilombolas. As boas-vindas aos 423 candidatos deferidos em 191 cursos foram calorosas e emocionantes. A UFPA é a universidade que oferta o maior número de vagas nesse tipo de processo seletivo: neste ano, foram disponibilizadas 764 vagas ao todo, sendo 382 para indígenas e 382 para quilombolas.

Com mais de 50 mil alunos, divididos entre graduação, pós-graduação e educação básica, a UFPA carrega o título de maior universidade do Norte do país e se destaca entre 15% das melhores universidades do mundo segundo o Times Higher Education Impact Rankings, iniciativa que avalia a contribuição das universidades para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Além disso, é reconhecida por seu impacto social e ambiental, com pesquisas e produções científicas relevantes para toda a sociedade brasileira. Entre todos esses méritos, o que faz a UFPA ser considerada uma mãe e a maior do Norte é sua inclusão social e sua preocupação com a democratização do ensino superior.

Desde 2014, a UFPA realiza o PSE para Indígenas e Quilombolas, fazendo com que a academia deixe de olhar para essas comunidades como objetos de estudo e passe a reconhecê-las como agentes de seus próprios caminhos e histórias. Propiciar esse tipo de processo seletivo não é um favor, mas uma forma de quitar parte da dívida histórica com quem deu origem aos saberes medicinais, gastronômicos e linguísticos no Brasil, sobretudo na Amazônia, onde esses conhecimentos foram mais preservados, assim como as florestas que essas comunidades ocupam e protegem.

Letícia Tembé (19), caloura do curso de Direito na UFPA, conta que escolheu essa graduação para ajudar sua comunidade nos conflitos enfrentados e afirma que é importante haver indígenas formados nessa área, pois um não indígena não atenderia às suas necessidades da mesma forma.

Por muito tempo, a academia praticou o que se chama de pesquisa exploratória: quando um grupo de pesquisadores estuda determinado assunto, língua, comunidade ou modo de vida com o intuito de beneficiar apenas a si mesmo, sem dar retorno ao seu chamado “objeto de estudo”, como uma madeireira que desmata um território e vai embora sem fazer o replantio. Outro embate entre a academia e as comunidades tradicionais é a validação dos saberes ancestrais, que, em termos universitários, são classificados como “empíricos”, por advirem da experiência e das vivências cotidianas dessas populações. Hoje, a UFPA vive um novo momento, no qual esses conhecimentos deixam de ser questionados para serem não apenas requisitados, mas também difundidos por quem os conhece com propriedade.

Com toda a sua grandeza territorial e numérica, a UFPA cumpre um papel singular ao garantir acesso e lutar pela permanência de indígenas, quilombolas, PCDs e pessoas de baixa renda no ensino superior, ao mesmo tempo em que se torna plural justamente pela participação desses sujeitos no meio acadêmico. “Não tem como explicar, só quem passa sabe a sensação”, afirma Letícia. A Universidade Federal do Pará é a mãe de todos que têm sede de conhecimento e o buscam. Que todos os filhos dessa matriarca possam se emancipar — e emancipar os seus — por meio da educação e de políticas públicas de qualidade.