Nos últimos anos, temos vivido uma série de transformações em diversos níveis. A internet e a cultura digital, juntamente com as crises do capitalismo, climática e ambiental, estão impulsionando uma nova era de mudanças.

Nesse contexto surge a chamada economia de plataforma, que nada mais é do que uma nova versão do capitalismo, onde há um domínio das elites sobre os meios de conexão, que vão muito além das plataformas digitais, e são profundos nos mecanismos de comunicação, que vão desde smartphones até babás eletrônicas e smart watch’s que monitoram o sono de adultos e crianças.

Eis então a grande oportunidade para a transformação quântica, que se inicia com reformas tecnológicas, nos moldes das Reformas Agrárias e Urbanas, mas com uma compreensão tecnopolítica, econômica, filosófica e ambiental.

Como discutido nas colunas anteriores, a inovação com propósito é fundamental para lidar com os desafios que enfrentamos. Esses desafios incluem a crise climática e ambiental, a falta de conexão entre as pessoas e o planeta, a desigualdade econômica e social e a dominação dos meios de conexão pelo capitalismo. Portanto, uma Reforma Tecnológica feita com o propósito correto, potencializa todas as outras reformas de forma exponencial, possibilitando a construção de um mundo mais justo e sustentável.

A transformação quântica é uma transformação profunda, que se dá em todos os níveis da sociedade. Ela envolve a compreensão de que todas as coisas estão interconectadas, e que o impacto de nossas ações é muito maior do que imaginamos. Essa perspectiva está presente tanto em referências populares, como o filme “Matrix”, quanto em referências acadêmicas, como a teoria do caos.

A transformação quântica envolve uma nova forma de pensar e agir, baseada em valores como cooperação, solidariedade e justiça social. Esses valores estão presentes no chamado Comunismo Tecnológico, uma perspectiva que defende a criação de tecnologias e sistemas que sejam controlados e utilizados pela sociedade como um todo, em vez de serem dominados apenas por uma elite econômica.

Um exemplo de como a implementação correta das tecnologias governamentais poderia levar ao que chamam de comunismo tecnológico é a criação de uma plataforma de participação digital no Plano Plurianual do Governo Federal. Essa plataforma permitiria que todas as pessoas pudessem contribuir com suas dores, problemas, sugestões e demandas para a elaboração do plano, com transparência e participação efetiva. A partir das demandas levantadas, o governo poderia se responsabilizar com ações e metas, garantindo que as necessidades da população fossem atendidas de forma justa e equitativa. Essa é uma aplicação do conceito de Comunismo Tecnológico para a esfera governamental, em que a tecnologia é usada para promover a democracia e a participação popular.

Outro exemplo é o Movimento de Software Livre, que defende o uso de software livre e aberto, em vez de software proprietário, que é controlado por uma empresa. O software livre permite que todas as pessoas possam ter acesso e modificar o código fonte, permitindo a criação de novas tecnologias e sistemas que sejam mais democráticos e justos.

A transformação quântica e o Comunismo Tecnológico são perspectivas fundamentais para lidarmos com as transformações que estamos vivendo. Elas envolvem uma mudança de paradigma, em que a cooperação e o bem-estar humano são colocados acima do lucro e da dominação. Essa mudança é necessária para lidar com os desafios e crises que estamos enfrentando, incluindo a crise climática e a desigualdade social, e para construir um futuro mais justo e sustentável.

Para entender melhor o que é a transformação quântica, podemos recorrer à física quântica. A física quântica nos ensina que as partículas subatômicas não se comportam de maneira previsível e determinística, como a física clássica sugere. Em vez disso, as partículas subatômicas existem em estados de superposição, o que significa que elas podem estar em dois ou mais estados diferentes ao mesmo tempo. Isso tem implicações profundas para nossa compreensão da realidade e para a forma como podemos interagir com ela.

Da mesma forma, a transformação quântica na sociedade e na tecnologia envolve a compreensão de que não podemos mais seguir a lógica determinística do capitalismo e da dominação. Precisamos criar uma nova forma de interação com o mundo, baseada na cooperação, na empatia e na colaboração. Isso envolve uma mudança fundamental em nossa compreensão de nós mesmos e de nossa relação com o mundo ao nosso redor.

O Comunismo Tecnológico, por sua vez, envolve a compreensão de que as tecnologias e as plataformas digitais podem ser usadas para criar uma sociedade mais justa e igualitária. Isso envolve a criação de plataformas que são propriedade coletiva, controladas democraticamente pelas pessoas que as usam, e que são projetadas para atender às necessidades humanas em vez de gerar lucro para um pequeno grupo de pessoas.

Um exemplo de como isso pode funcionar é o coletivo Bike Anjo, que surgiu no Brasil e agora se espalhou para outros países. O Bike Anjo é um movimento que promove a mobilidade sustentável e segura por meio do uso da bicicleta como meio de transporte. A iniciativa tem como objetivo conectar ciclistas experientes com pessoas que desejam aprender a andar de bicicleta ou que precisam de ajuda para se locomover em seus deslocamentos diários. O coletivo é uma propriedade coletiva e é gerido democraticamente pelos seus membros da comunidade.

Outro exemplo é a plataforma de crowdfunding Kickstarter, que permite que as pessoas financiem projetos criativos diretamente, sem a necessidade de um intermediário financeiro. A plataforma é projetada para atender às necessidades dos artistas e criativos e é propriedade da própria comunidade de usuários.

Isso mostra como a tecnologia pode ser usada para criar plataformas que são propriedade coletiva, controladas democraticamente e projetadas para atender às necessidades humanas em vez de gerar lucro para uma pequena elite. É um exemplo do que chamamos de Comunismo Tecnológico.

No entanto, para que essas plataformas sejam bem-sucedidas, é necessário que haja uma mudança na forma como as pessoas compreendem a tecnologia e sua relação com ela. Precisamos compreender que a tecnologia é uma ferramenta que pode ser usada para criar uma sociedade mais justa e igualitária, e que a propriedade coletiva e o controle democrático das plataformas são fundamentais para alcançar esse objetivo.

Em suma, a transformação quântica e o Comunismo Tecnológico são perspectivas que podem nos guiar em direção a um futuro mais justo e sustentável, em que a tecnologia é usada a serviço da humanidade e do planeta, e não o contrário. Essas perspectivas nos convidam a questionar a lógica capitalista e sua relação com a tecnologia e a informação, e a buscar novas formas de organização social e econômica, baseadas na colaboração, no compartilhamento e na responsabilidade coletiva.

É importante lembrar que essas mudanças não acontecerão de forma espontânea ou por iniciativa do mercado, já que o sistema capitalista e as elites trabalham dia e noite para impedir que elas aconteçam. É preciso reconhecer que as mudanças dependem de um trabalho conjunto de toda a sociedade, incluindo movimentos sociais, governos, academia e trabalhadores, que são os verdadeiros produtores de valor. Precisamos nos engajar em processos de transformação, buscando alternativas ao modelo hegemônico e construindo novas formas de relações e de produção que promovam a justiça social e ambiental.

Como disse a filósofa Donna Haraway em seu manifesto Ciborgue: “o que é essencial é um mapeamento cuidadoso dos terrenos possíveis e impossíveis das transformações sociais e tecnológicas, buscando o máximo possível de abertura e respeito pelas diferenças, bem como uma atenção constante para a responsabilidade dos cientistas e técnicos com as consequências políticas e sociais de suas intervenções”.

A transformação quântica e o Comunismo Tecnológico são parte desse mapeamento cuidadoso, e nos convidam a construir um futuro em que a tecnologia seja usada para promover a liberdade, a igualdade e a justiça, em vez de perpetuar as desigualdades e a opressão. Como nos lembra o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “o futuro é sempre incerto e imprevisível, mas é também sempre construível, porque é um espaço de liberdade e de inovação”.

Assim, cabe a nós, enquanto cidadãos e cidadãs, construir esse futuro, lutando por mudanças estruturais em nossa sociedade e em nossas relações com a tecnologia e a informação. É hora de assumir a responsabilidade por nossas escolhas e ações, e de buscar juntos caminhos que nos levem a um mundo mais justo, solidário e sustentável.

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