Por Kaio Phelipe

Cantor, compositor e autor de mais de 50 livros, Nei Lopes é um dos maiores intelectuais brasileiros. Estudioso das africanidades e da cultura afro-brasileira, recentemente viu seu livro Ifá Lucumí: o resgate da tradição, publicado pela editora Pallas, ganhar a maior encruzilhada do mundo — o Sambódromo do Rio de Janeiro — em uma homenagem feita pela Paraíso do Tuiuti. Afastado do Carnaval há cerca de 20 anos e ligado ao Acadêmicos do Salgueiro desde a infância, o autor retornou à avenida e afirma que se sentiu extremamente feliz com a volta, atribuindo a emoção tanto ao campo artístico quanto à espiritualidade.

Com o livro Dicionário da história social do samba, escrito em parceria com Luiz Antonio Simas e publicado pela Civilização Brasileira, Nei conquistou o Prêmio Jabuti de Livro do Ano em 2016, a mais alta honraria de um dos principais prêmios da literatura nacional. No entanto, o autor ressalta que o Brasil ainda enfrenta dificuldades para reconhecer plenamente as produções e pesquisas desenvolvidas por intelectuais negros, destacando que parte da sociedade ainda reproduz visões de séculos passados. Nesse sentido, ele reforça a importância do estudo da história como ferramenta essencial para o avanço no combate ao racismo.

Com diversas parcerias com o saudoso mestre Wilson Moreira e autor de clássicos como Tempo de Don Don, gravado pela primeira vez na voz de Zeca Pagodinho, Nei Lopes também reflete sobre o papel do samba na cultura brasileira.

Prestes a completar 84 anos, ele segue em plena atividade e prepara o lançamento de sua autobiografia, O “robusto” menino de Irajá: doces lembranças, eternas saudades, pela Mórula Editorial. Conta ainda que tem outros projetos em andamento para 2026.

Foto: Jefferson Mello

Como foi receber a homenagem pela escola de samba Paraíso do Tuiuti?

Foi um episódio bastante interessante.

Estou afastado do Carnaval há algum tempo, mas houve um interesse especial por um motivo: o enredo da Paraíso do Tuiuti foi baseado em um dos meus livros, Ifá Lucumí: o resgate da tradição, que aborda uma forma religiosa que já não existia no Brasil, mas que se mantém como um importante sustentáculo, em Cuba, da tradição afro-americana do culto aos orixás.

Ainda estou um pouco emocionado com isso. Fiquei muito feliz por ter merecido essa referência e, a partir daí, participei e aproveitei bastante. Senti que fui bem representado no enredo, dentro de um clima significativo e importante.

Ainda existe resistência para o reconhecimento da intelectualidade negra no Brasil?

Total. Existe uma barreira muito grande em tudo o que diz respeito aos nossos direitos e interesses. Há uma dificuldade profunda, marcada pelo racismo no Brasil, que praticamente nasceu junto com o próprio país. Muitas pessoas não imaginam o quanto é difícil para nós adentrarmos espaços que não estejam previamente associados ao trabalho braçal.

Falo também a partir da minha própria trajetória. Tenho trabalhado e publicado bastante, lancei muitos livros, participei de alguns congressos. Mas não foi fácil, não tenha dúvida.

Boa parte da sociedade brasileira ainda pensa como pensavam seus ancestrais, reproduzindo visões de séculos passados. Essa é a grande dificuldade.

Tudo o que envolve as nossas criações costuma ser visto de outra forma.

E o Brasil tem uma estrutura muito dependente do que se faz no exterior, o que também é uma questão complicada.

Mas seguimos trabalhando e caminhando por dentro dessas estruturas, na esperança de transformá-las.

Em que momento o senhor percebeu que a escrita poderia ser uma ferramenta tão potente quanto a militância política?

Olha, eu escrevo desde criança e consigo perceber o quanto a escrita é valiosa. Entre todas as formas de expressão, é ela que mais favorece o nosso entendimento. É na escrita que o pensamento se organiza com mais precisão.

Até mesmo quando tentamos vocalizar nossas intenções, muitas vezes somos mal compreendidos. Já no texto, há mais possibilidade de entendimento.

E eu me dedico à escrita com um prazer imenso.

Foto: Jefferson Mello

Quando surgiu a ideia de criar dicionários?

Olha, o dicionário, para mim, é uma ferramenta fundamental em qualquer circunstância, especialmente no ensino. Em qualquer momento da educação, ele é muito importante pelas facilidades que oferece: encontrar o significado das palavras, permitir comparações, ampliar o repertório. É um recurso extremamente valioso.

Já há algum tempo, passei a criar dicionários, até por uma motivação meio recreativa. Há um certo prazer em descobrir palavras.

Às vezes, você está buscando um termo para usar em um texto e, ao consultar o dicionário, acaba encontrando outro que se encaixa muito melhor do que aquele que inicialmente pretendia usar. Esse processo é muito enriquecedor.

Por isso, considero o dicionário uma ferramenta essencial. Ainda mais hoje, com os recursos digitais, que ampliam suas possibilidades. Se você está em dúvida sobre como dizer algo, pode recorrer facilmente ao ambiente virtual e encontrar respostas com muito mais rapidez do que há alguns anos.

Enfim, é uma ferramenta excelente. Eu me sinto muito à vontade com os dicionários, tenho me dedicado à sua elaboração e venho colhendo bons resultados.

O samba ainda é uma ferramenta política?

O samba é uma ferramenta para tudo.

Pode, sim, ser usado politicamente, desde que com inteligência. Mas, na verdade, ele serve para tudo.

O importante é saber pesar os prós e os contras e levar adiante a própria criação e o pensamento.

Eu tenho uma parte do meu trabalho como compositor de música popular, à qual me dedico com bastante prazer — não exclusivamente, mas de forma recorrente — que é o samba. E os sambas que componho seguem caminhos diversos: alguns são mais líricos, outros mais vigorosos.

Mas há também muita crítica política em várias das minhas criações. Tenho, por exemplo, um samba gravado pela primeira vez por Zeca Pagodinho, Tempo de Don Don, bastante conhecido e muito apreciado.

E eu gosto especialmente dele pela crítica. Nele, faço uma comparação entre certas coisas que existiam no passado e que hoje já não existem mais. Para mim, isso também é uma forma de posição política: reivindicar aquilo que deixou de estar ao alcance, mas que ainda deveria estar.

Essa é a política que enxergo na música popular. E é uma forma de expressão com a qual gosto muito de trabalhar.

O senhor se considera um historiador?

Não. Historiador é algo muito complexo. Eu me considero, antes de tudo, alguém que estuda história. Faço isso até porque, nos meus primeiros anos de formação, não tive bons professores na área, nem muitas facilidades. Depois, já na universidade, senti essa lacuna e comecei a buscar esse conhecimento por conta própria, inclusive dentro da minha especialidade, que é a africanidade.

A história é fundamental. Sem estudar história, não conseguimos compreender os acontecimentos que nos afetam, que nos prejudicam, que moldam a nossa realidade.

Inclusive, quando falamos das dificuldades que nós, afrodescendentes, enfrentamos no reconhecimento da nossa intelectualidade, é justamente por meio da história que conseguimos entender as origens dessas barreiras.

O nosso povo foi, durante séculos, vítima de processos violentos, quase a ponto de ameaçar o desaparecimento da nossa etnicidade.

Ao estudar história, conseguimos perceber o que aconteceu e como essas estruturas se formaram. E, a partir desse entendimento, podemos buscar caminhos para transformá-las. É por isso que a história é tão importante.

Foto: Jefferson Mello

Como foi receber o Prêmio Jabuti de Livro do Ano, em 2016?

Eu me vejo como alguém que colabora para que tudo aquilo que tenho, estudo e aprendo possa ser compartilhado. A minha maior vitória e a minha maior felicidade é transmitir isso às pessoas.

Quando ganhei, em parceria com Luiz Antônio Simas, o Prêmio Jabuti de Livro do Ano, com Dicionário da história social do samba, senti — e ainda sinto — uma alegria imensa. Porque o que me propus a fazer foi estudar o samba, mesmo sem ser historiador de formação. Sou um mero estudioso do samba, que gosta de escrever sobre isso.

Então, quando esse trabalho é reconhecido, a gente se sente recompensado. É, de certa forma, o pagamento que recebemos. Quando você se dedica à instrução, à formação de alguém, e vê esse esforço reconhecido, você tem que ficar feliz.

Ao longo da vida, alcancei algumas conquistas importantes, como títulos de doutor honoris causa por universidades importantes, e só posso me sentir grato. Nasci em uma família pobre, fui um entre quinze irmãos e, hoje, infelizmente, já não tenho mais nenhum deles. Sigo com meus filhos e com meus netos.

Não tive uma vida fácil. Não nasci em berço de ouro, muito pelo contrário. Por isso, quando vejo o meu trabalho render frutos, eu tenho que me sentir muito feliz.

Vou fazer 84 anos no próximo mês de maio e continuo trabalhando bastante. Ainda tenho muita coisa para mostrar, muita coisa para executar. Me sinto muito privilegiado — inclusive pela espiritualidade, que cuido muito bem. Tenho certeza de que esse cuidado sustenta muito do que consegui construir.

Pessoalmente, sou mais ligado ao Salgueiro do que à Paraíso do Tuiuti. Há quase vinte anos que eu não desfilava, mas tenho um amor muito grande pelo Salgueiro — é a escola que conheci ainda na infância. Desfilei por lá durante anos, fiz bons amigos, meu próprio filho participou da escola ainda garoto, e hoje é um homem de cinquenta e tantos anos. Então, o Salgueiro é nossa escola de coração.

Mas o convite da Tuiuti teve uma implicação diferente, foi algo de ordem espiritual. A prática religiosa sobre a qual escrevi serviu de inspiração para o enredo, e vivi o momento como uma dádiva, embora a escola não tenha alcançado os primeiros lugares.

Até porque os desfiles deste ano apresentaram coisas muito interessantes, muito boas e inovadoras.

Confesso que vinha um pouco desanimado com as escolas de samba, mas o Carnaval de 2026 me deu ânimo. Vi desfiles muito bonitos.

De repente, no próximo ano, quem sabe, eu até pense em apresentar um enredo para alguma escola, ou em participar de alguma.

O samba é a voz do Brasil, a alma do país, e está retomando algo da sua própria natureza que havia sido perdido. Depois do Carnaval deste ano, acredito que ele alcançou outro patamar, abrindo caminho para modificações importantes, inclusive para a vida das comunidades brasileiras.

Qual será a próxima obra do senhor?

Tenho 53 livros publicados e, agora, em maio, caminho para lançar uma obra muito importante para mim: a minha autobiografia. Nela, revisito desde o meu nascimento, os acontecimentos, as passagens marcantes, muitas histórias bonitas, algumas também difíceis — e, claro, as conquistas.

Esse será o livro de número 54.

Depois dele, ainda para este ano de 2026, já tenho outros projetos encaminhados e realizados. Tenho trabalhado muito — e esse trabalho me rejuvenesce um pouco.