Por Kaelyson Moraes

Em 1982, o cineasta Andrei Tarkovsky disse que o cinema é um “mosaico feito de tempo”. Foi justamente essa frase tão emblemática que me veio à cabeça ao terminar de assistir ao documentário “Trilha Sonora Para um Golpe de Estado”, de Johan Grimonprez. O filme é todo montado a partir de imagens de arquivo dos fatos históricos abordados. Essa decisão confere um ar de autenticidade à obra.

O Congo e Patrice Lumumba foram vítimas dos Estados Unidos em contexto de Guerra Fria, assim como outros países ao redor do mundo, incluindo o Brasil. Tanto em nosso país quanto no Congo, o resultado foi um longo período de ditadura militar, como disse Fernanda Torres em uma das suas entrevistas na campanha de “Ainda Estou Aqui” no exterior. É curioso ver como esses dois filmes indicados ao Oscar, mesmo tão diferentes, são conectados.

“Trilha Sonora Para Um Golpe de Estado” aborda o contexto histórico da Guerra Fria e tudo o que levou Patrice Lumumba a se tornar o primeiro-ministro do Congo independente, além da sequência de fatos que culminaram no seu assassinato. Tudo isso enquanto busca explorar as relações entre essa verdadeira saga e o ritmo do jazz, com direito a nomes como Abbey Lincoln, Max Roach e Louis Armstrong.

O estilo musical jazz, que nasceu de comunidades negras dos Estados Unidos, dentro de seu contexto histórico e lutas, é indissociável da trajetória das reivindicações negras tanto nos EUA quanto fora deles, como abordado no filme. Portanto, a relação entre o jazz e o golpe de Estado no Congo, que à primeira vista pode parecer forçada, faz todo sentido. Contudo, a ideia perde força na sua execução. Em vários momentos, é mais fácil sentir a distância entre as coisas do que as suas conexões. No entanto, mesmo nesses momentos, o estilo musical e o fato histórico são grudados pela trilha sonora.

A trilha sonora do filme, claro, é jazz. Porém, a presença desse estilo musical no longa não acaba aí. O jazz embala e dita o próprio ritmo do filme, que é tão ágil, súbito e passional que pode chegar a ser caótico em determinados momentos. Com uma duração de duas horas e meia, recheada de muita informação, em determinados momentos o aspecto caótico revela ser justamente o que mais enfraquece o filme. É fácil se perder no emaranhado de informações atiradas na tela.

Durante seus altos e baixos, “Trilha Sonora Para um Golpe de Estado” permanece um filme intenso. A história contada no filme e a forma como ela é retratada conseguem despertar indignação, tristeza e simpatia. Afinal, a nossa própria história é semelhante.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.