Por Carolina Iara de Oliveira, da Bancada Feminista do PSOL/SP, para a Coluna da Coletiva TransPoetas na Mídia Ninja

26 de Outubro – Dia da Visibilidade Intersexo

descoberta

descobri que meu corpo representa,
que minha fala diz de um lugar
onde a gramática não consegue chegar
um ser em que o gênero não consegue

comportar ou moldar
e que cada hora traz algo a diferenciar

o meu viver.

descobre-se o HIV, que não há
de me entristecer, esmaecer
mas que me fizeram repensar a vida
e depois a descoberta de depender
de comprimidos, de política.

e logo mais o corpo enxergado como hipersexo
mas que se descobre intersexo, numa hibridez!
seria desfaçatez?
de quem? da natureza?
ou seria uma senhora racista e capitalista
chamada eugenia
que fez tudo isso ser podado
no meu corpo?

leite, do peito.
leite que emana na mulheridade
que emana na masculinidade trans
que emana em corpos dissidentes
leite que pode emanar da mulher intersexo
da travesti intersexo
que alimenta com afeto
com pertença
com sentimento
com o cuidar
e com o aprender.

sempre aprendo e sei
que meu corpo é eterna
descoberta

Carolina Iara de Oliveira

Comecei por essa poesia que escrevi na quarentena para demonstrar um pouco da intensidade que é ser uma pessoa intersexo. Pra quem não sabe, intersexo é a pessoa que nasce com aspectos dos dois sexos biológicos (que a gente chama de macho e fêmea), e essa “ambiguidade” corporal pode transparecer tanto na genitália, como nos órgãos internos, no sistema endócrino (hormônios), na aparência (fenótipo) e nos cromossomos. Há 48 tipos de intersexualidade e isso atinge a 2% da população, mas diante disso, nós só temos o silêncio e a desinformação. E por quê?

Me lembro da cirurgia que fizeram em mim quando eu tinha 6 anos de idade. Diziam para mim que era para terminar um “procedimento” menor que foi feito logo quando nasci, a fim de me “permitir fazer ‘xixi’ de pé”. Demorei um ano para me recuperar de uma cirurgia complexa, repleta de sondas, invólucros escuros em volta daquele músculo disforme que os médicos determinaram que deveria ser um pênis “útil”: com glande, com uretra que chegasse até o fim, com testículo descido (externalizado é o termo) e sem nenhum furo que pudesse lembrar uma vagina. E DOR. Muita dor, e eu sem saber que tudo aquilo era para se moldar o meu corpo para ser algo que eu nunca fui: um “homem”.

E a segunda cirurgia foi pior, aos doze anos, porque meu crescimento fez com que algumas coisas feitas anteriormente (como a uretra artificial na extensão do pênis) fosse se fechando. Era uma verdadeira guerra médica contra meu corpo que não queria ser enquadrado num sexo determinado, pois AOS DOIS ele já pertencia. Tanto fizeram que conseguiram… mas só por um tempo. Cá estou eu, bem travesti agora. Nos meus vinte e sete anos, concorrendo a uma vaga na Câmara Municipal de São Paulo numa candidatura coletiva, a Bancada Feminista do PSOL. Me afirmando na mulheridade e na travestilidade. Rechaçando a masculinidade.

Ah, não se assustem com o palavreado meio explícito, genital, ou até pornográfico, mas o que fazem com as pessoas intersexo é justamente isso: modelar nossos corpos para uma grande vitrine, em que só cabem homem (com pênis) e mulher (com vagina). E isso é de uma violência absurda, desproporcional com uma criança que vem ao mundo numa diversidade biológica que acontece inclusive em outras espécies. E isso também corrobora o discurso conservador de que “só existe homem e mulher, e um foi feito para a outra”, que faça que as pessoas trans (principalmente) e as LGBTQI+ em geral sejam violentadas.

Eu comecei o texto com um poema sobre descoberta, porque é a isto que as pessoas intersexo estão expostas a vida inteira: a descobertas de coisas que não nos contaram, de coisas que sequer os médicos sabiam dos nossos corpos, e a descoberta de que sua história foi manipulada e roubada. Há um protocolo, cunhado pelo John Money, de que não se deve contar nada para as pessoas intersexo sobre a ambiguidade corporal delas. E mais, deve-se fazer a cirurgia o mais rápido possível, e isso é defendido até hoje por algumas alas médicas. 

A luta do movimento intersexo, no entanto, tem sido a de restabelecer a verdade e a memória dessas pessoas MUTILADAS na infância (2% da população, volto a dizer), e que precisam de assistência, reconhecimento jurídico, direitos básicos, e principalmente O FIM DAS CIRURGIAS PRECOCES. Eu costumo dar como exemplo que há larga diferença entre construir uma uretra e modelar um pênis ou vagina (e determinar se a pessoa que nasceu é homem ou mulher). E vamos continuar nessa luta, nessa descoberta contínua de nossos corpos, até a emancipação total dos corpos, e da sociedade também. Que essa estrutura patriarcal e binária caia, e leve embora o capitalismo junto! Bora esperançar e lutar, sonhar e agir para construir um novo mundo que caibam todas, todes e todos, inclusive a letra I de intersexo.

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