Por Rafael Delgado

O cinema americano sempre gostou de transformar seus personagens em símbolos de grandeza: cowboys, heróis de guerra, pioneiros, homens que “construíram” o país. Train Dreams escolhe olhar para o outro lado dessa narrativa. O filme de Clint Bentley não fala de quem liderou o avanço dos Estados Unidos, mas de quem foi engolido por ele: homens comuns, silenciosos, que viveram mudanças históricas sem jamais se tornarem parte da História oficial.

Ambientado no início do século XX, o longa acompanha Robert Grainier, um trabalhador braçal que ajuda a abrir caminho para as ferrovias em meio às florestas do oeste americano. Enquanto o país avança rumo à industrialização, Grainier tenta construir uma vida simples ao lado da esposa e da filha. Depois de uma tragédia devastadora, ele passa décadas lidando com a perda, o isolamento e as transformações de um mundo que já não reconhece, sustentando-se nas memórias como forma de continuar existindo.

Adaptado da novela de Denis Johnson, o filme encontra sua força justamente na escolha de um protagonista que não carrega nada de “excepcional” aos olhos do mundo. Grainier não é um líder, não é um visionário, não deixa legado público. Ele trabalha, ama, sofre e segue. Joel Edgerton entende essa dimensão com precisão impressionante. Sua atuação é construída na contenção: poucos diálogos, expressões mínimas, um corpo que carrega cansaço e afeto ao mesmo tempo. É o tipo de performance que permanece na mente mesmo depois que o filme termina.

Se o Oscar costuma valorizar histórias sobre feitos grandiosos, Train Dreams aposta no extraordinário da permanência. Grainier não transforma o mundo; ele tenta sobreviver a ele. A industrialização não aparece como conquista gloriosa, mas como força desorientadora. Os trilhos que cortam as paisagens não são apenas infraestrutura: são marcas de uma ruptura entre o homem e o espaço que o moldava.

Esse apagamento humano que o filme sugere não é apenas simbólico: ele dialoga diretamente com a própria história da expansão ferroviária nos Estados Unidos. As imagens oficiais que celebraram a conclusão das ferrovias, como a famosa fotografia do “Golden Spike”, colocam executivos, engenheiros-chefes e representantes das companhias no centro do enquadramento, como protagonistas do feito histórico. Já os homens que realizaram o trabalho mais pesado — operários, trabalhadores braçais e equipes técnicas — aparecem esquecidos às margens da cena, quase como figurantes de um processo que só existiu graças a eles. Train Dreams parece inverter essa lógica: o progresso continua visível, mas o foco se desloca para quem sustentou essa transformação com o próprio corpo e, ainda assim, foi empurrado para fora da narrativa oficial.

Há algo profundamente atual nessa abordagem. Em um momento em que o cinema discute colapso ambiental, deslocamento e crise de identidade, o filme escolhe um homem do passado para expressar uma sensação muito contemporânea: a de que o mundo está avançando rápido demais, sem que haja tempo para compreender o que foi perdido no caminho.

Um dos aspectos mais potentes da obra é a forma como trata um tema pouco explorado nas narrativas atuais: a devastação provocada pelo próprio homem vista a partir de uma experiência íntima. Não há discursos, nem cenas didáticas. A mudança acontece no cenário e, aos poucos, dentro do protagonista. A floresta vai desaparecendo, os vazios aumentam, o ambiente se torna mais hostil. A destruição não surge como evento isolado, mas como processo contínuo. E o impacto não é apenas ambiental: é emocional. O filme sugere que, quando a paisagem muda, a identidade de quem vive nela também se fragmenta.

A tragédia que reorganiza a vida de Grainier não é tratada como grande clímax, mas como uma fratura permanente. A partir dela, o tempo no filme parece se diluir. O passado não é apenas lembrança, mas presença constante, quase um refúgio. Train Dreams fala sobre continuar vivendo quando aquilo que estruturava a vida já não existe mais — e sobre como a memória se torna uma forma de resistência.

A direção de Bentley aposta na sobriedade. O filme confia na duração dos planos, nos silêncios, na observação. Nada é sublinhado em excesso. A emoção não é conduzida, é descoberta. Essa escolha formal aproxima o espectador da experiência do personagem: viver aqui é atravessar o tempo carregando aquilo que não foi resolvido.

A fotografia de Adolpho Veloso reforça essa proposta com imagens que privilegiam luz natural, cenários reais e uma sensação de presença física nos espaços. A paisagem não funciona como fundo decorativo, mas como elemento narrativo ativo. Conforme ela muda, o filme muda junto. O que era densidade vira vazio; o que era abrigo vira exposição.

Num ano em que muitas produções disputam atenção pelo excesso — de trilha, de diálogos, de reviravoltas — Train Dreams se destaca pela contenção. É um filme que parece pequeno à primeira vista, quase discreto demais para a temporada de premiações. Mas é justamente essa recusa ao barulho que o torna duradouro.

No fim, não se trata da construção de uma nação, mas do impacto dessa construção sobre quem ficou à margem. Train Dreams lembra que o progresso sempre teve um custo humano — e que essas vidas quase nunca ganham enquadramento central.

Talvez seja essa a pergunta que o filme leva ao Oscar: o cinema ainda está disposto a olhar para quem a história preferiu deixar fora de quadro?