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Foto: Gabriel Cabral / Gospel Mais

Há tempos venho participando de debates em sindicatos, escolas, teatros, ONGs, com os movimentos sociais e estudantis. Um verdadeiro aprendizado que elevou muito meu nível de percepção sobre os problemas desse país, o sistema que vem sendo alimentado e a maneira como podemos lutar para combater as injustiças sociais. Percebi que na grande maioria desses espaços não estavam presentes lideranças religiosas. Isso me preocupou.

Quem estudou um mínimo de história sabe que em praticamente todas as revoltas nacionais existia uma figura ligada a uma religião. Antônio Conselheiro em Canudos, José Maria no Contestado, para se dizer apenas duas. A religião tem um papel fundamental em todo processo político da história da humanidade. Antes que você diga que o Estado é laico e não deve haver interferências de nenhuma crença e irei concordar com você, precisaremos entender que sem o apoio desses setores não se chega ao poder no Brasil.

Aliás, vamos além, em 1970 quando o bispo Edir Macedo funda os primórdios da Igreja Universal, seu projeto já visava a tomada do poder político. Hoje isso já é real. Não só no parlamento onde a bancada evangélica cresce a cada eleição, mas também já em prefeituras como a do Rio de Janeiro, os evangélicos pouco a pouco vão assumindo os espaços. Como foi que a esquerda começou a crescer nesse país? Você se lembra? Com o auxílio das frentes que defendiam a teologia da libertação. Temos Leonardo Boff lutando até hoje ao nosso lado. Assim como ele, outros religiosos importantes também tiveram grande papel na batalha contra a ditadura e na busca pela democracia.

O Estado precisa ser laico mas não podemos ignorar o crescimento exponencial dos evangélicos em nosso país. E se eles estão crescendo tanto, não podemos oferecê-los de bandeja a uma direita ultrapassada, conservadora, egoísta e aproveitadora. Parece redundância não? Pois bem, é urgente que os identifiquemos e possamos trazer para o campo progressista essas lideranças e aqueles que lhes seguem. Fortalecendo, sem preconceito, o diálogo não só com evangélicos, mas com católicos, judeus e qualquer vertente que tenha posições humanistas e progressistas! Eles existem. Aqui mesmo na Mídia Ninja temos o Pastor Ariovaldo Ramos, que tem grande força no meio evangélico.

Não é preciso ser vidente para dizer que em pouquíssimo tempo eles terão cada vez mais espaços de poder e influência política. A esquerda é ótima de luta, mas é péssima na hora de acolher as pessoas que estão frustadas, cansadas, feridas, com a alma despedaçada. Hoje nas periferias as igrejas evangélicas fazem um trabalho fundamental. Atendem as famílias, ajudam os trabalhadores, resgatam traficantes, usuários, oferecem uma oportunidade de futuro e prosperidade. Se eles interferem em todas essas nuances da vida social, é óbvio que também atuam nas escolhas políticas e quando um pastor diz que suas ovelhas devem votar no candidato dele, elas votam.

Até quando os setores progressistas vão ignorar os evangélicos que compartilham os mesmo valores que nós? Até quando vão generalizar e achar que todo evangélico é conservador e bitolado? O tempo está passando amigos e amigas e se nada for feito imediatamente – logo não teremos mais tantas chances de reverter esse quadro. Felicianos e Malafaias entre outros apostam na Teologia da prosperidade. São igrejas que visam exclusivamente alimentar o sonho – que todos nós temos – de melhorar de vida, prosperar, ganhar dinheiro, empreender, ficar rico. Quem quer ser pobre a vida toda? Ninguém.

Precisamos de pastores que ensinem a palavra de Jesus Cristo, que ofereçam ferramentas para que as pessoas possam prosperar, porém exaltando que podemos prosperar de forma coletiva. Respeitando os “diferentes”, colocando em prática o evangelho como uma visão de mundo que sempre teve por prioridade lutar contra as injustiças sociais. Jesus Cristo foi morto porque desafiou o império e acolheu os mais pobres, as prostitutas e todos que eram oprimidos pela coroa.

Resolvi procurar o Pastor José Barbosa, que é uma das lideranças progressistas evangélicas, para estudar a Bíblia, aprender a dialogar com a linguagem que está sendo passada nas comunidades, nas igrejas, conhecer as ideias pregadas por eles e ter condições de debater de igual para igual, defendendo o que acredito.

Você não precisa ser crente para crer que seja possível unir forças com pessoas bem intencionadas de qualquer corrente religiosa. Estou me detendo aos evangélicos porque é a corrente que mais cresce hoje no Brasil. Se não fizermos esse movimento em conjunto para dar protagonismo aos pastores evangélicos progressistas, logo logo seremos engolidos.

Não vou compactuar com essa indiferença. E você?

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