A plataforma idealizada e produzida por mulheres adapta e recria a conferência anual para o meio online: três dias com mais de trinta atividades sobre música, negócios e tecnologia, além de shows.

Por Natalia Aiello | SOM.VC

Clau Assef e Monique Dardenne / crédito: Vtao Takayama

As idealizadoras do Women’s Music Event, Claudia Assef e Monique Dardenne, estiveram em um papo virtual com o S.O.M. e contaram sobre o processo de formação da plataforma, a relação com a música, curiosidades do backstage e detalhes da versão remixada. A conversa foi descontraída e finalizou com a frase da Claudia “Não dá pra acreditar que a gente fez isso em tempo recorde!”, se referindo à transposição da conferência para o virtual. Mas ouvindo toda a trajetória dessas mulheres, que são verdadeiras potências, não dá é pra acreditar que elas construíram uma plataforma tão múltipla e tão relevante em apenas quatro anos!

Confira a entrevista, inspire-se nessas mulheres e não perca a conferência neste final de semana!

 A criação – O ponto de partida e o processo de formação do WME

O Women’s Music Event (WME) é uma plataforma que nasceu no final de 2016, com quatro iniciativas: site, conferência, premiação e cadastro de profissionais. Com o lançamento quase concomitante de todas essas frentes, o WME já surge grande, uma verdadeira potência. Idealizado por duas profissionais do mundo da música, o projeto vem com o intuito de colocar a mulher em destaque, trazendo a voz feminina para os debates do mercado da música.

A ideia começou a se formar em 2015, ano em que o papel da mulher entrou para os painéis das conferências de música: a Claudia conduzia e a Monique participava. Através destes encontros, e por compartilharem da mesma visão, a dupla se aproximou. Foi num projeto de residência artística, em que ambas atuaram, que surgiu um momento de inquietação. A Monique relembra que de todo projeto as mulheres representavam apenas 15% ou 10%. Foi um momento de reflexão: “Quantas mulheres tinham ao meu redor, com quem eu trabalhava ou quem eu contratava? E aí eu percebi que eram pouquíssimas! De sessenta artistas vindas para o Boiler Room, projeto que eu trabalhava na época, apenas duas eram mulheres”. 

A dupla somou forças e criou um grupo fechado no Facebook chamado “Mulheres na Música”, abraçando mulheres de várias profissões. Elas seguiram desenvolvendo a ideia e, no final de 2016, lançaram o site do WME, um lugar para noticiar a mulher pelas realizações e não por um ângulo superficial focado apenas na imagem estética, como de costume. Um pouco depois, em março de 2017, nasce a Conferência: sessenta mulheres do mercado conduzindo as atividades, em um ambiente com um público quase 100% feminino. Como a Monique comenta:

A conferência se tornou um destaque pro mercado porque ela é uma conferência de música, ela não é uma conferência, um projeto de meninas. Quando surgiu em 2017, todo mundo “Mas o que que é isso? Vocês juntaram umas meninas pra falar?” Não, é um projeto da mulher como protagonista, mas os assuntos são sobre música, negócios e tecnologia.

A premiação, outro braço da plataforma, foi criada para homenagear a trajetória de grandes mulheres da música que, por muitas vezes, tiveram seus feitos colocados em segundo plano pelo foco tão centralizado nos homens. O projeto que tinha como meta ser executado em cinco anos, foi realizado no mesmo ano, com o apoio da Fatima Pissarra, que entrou como sócia no “WME Awards by Music 2”.

A mulher – Um projeto potente alinhado a um propósito

O WME nasce imponente e com o diferencial de uma temática ainda não explorada: oferecer um espaço de troca para as mulheres do mercado da música, contribuir com o empoderamento feminino e ter um papel de vitrine, retirando as possíveis barreiras que a sociedade, por vezes, impõe à relação entre mulheres.

Extremamente relevante e necessária, a plataforma conquistou um leque de patrocinadores que saltam aos olhos. Todas as parcerias são estrategicamente analisadas para que não fujam do propósito do WME. Propostas de grandes marcas, inclusive, foram recusadas por não estarem alinhadas com o discurso. Aqui, a Claudia relembra o propósito que impulsionou a criação e segue até hoje:

A gente viu uma necessidade: o que vamos fazer para minimizar até as coisas que a gente sofre dentro do mercado, nas nossas experiências de vida? Foi pensando num futuro melhor e num presente melhor pras mulheres. […] A gente nunca teve uma visão publicitária e nem muito como um negócio, foi muito orgânico e muito feito por conta de um propósito que a gente tinha tanto nas nossas vidas, como profissionais, e das nossas manas, também, que trabalham na música e por conta das nossas filhas. […] um mundo com essa desigualdade entre gêneros ele nunca vai conseguir ser equilibrado.

O evento tem a mulher como foco, no entanto é feito para todos. Ao longo das edições, a Conferência começou a ser vista como um evento do mercado da música, idealizado e produzido por mulheres. Hoje, a presença masculina é de 20 a 30% e vem aumentando a cada ano.

 A família WME – Um time de mulheres

As mulheres à frente do projeto, a Claudia e a Monique são a cara do WME, ou melhor, o WME é a cara delas! Ao longo do ano, contam com vários núcleos de parceiros e somam outros conforme a agenda de eventos, mas tudo que está no WME passa praticamente 100% por elas, como a Monique conta:

É muito a nossa cara, tudo que tem ali a gente pensa assim: “se você vai numa conferência de música você sentaria pra ver essa programação, esse painel?”. […] É o nosso universo. E, também, o cuidado de abordar coisas que estão esquecidas nas outras conferências ou que a gente acha que é o momento de tocar no assunto.

Centralizadoras? Sim, elas mesmas afirmam. Possuem um cuidado enorme com a “cria”, o que se reflete na forma como o evento é visto pelos profissionais do mercado, em especial as mulheres da música. Para estreitar ainda mais essa relação, elas não abrem mão de fazer os convites pessoalmente, para as artistas e as profissionais. Durante a conversa fica muito claro o quanto esse projeto ultrapassa o profissional, tendo uma ligação afetiva muito forte, como a Monique destaca: “Elas querem estar com a gente, elas cobram, é uma delícia isso!”. E a Claudia comenta:

Tem uma coisa importante também, não somos empresárias que criaram um business pra daqui a 10 anos estar rendendo, sei lá, 2 milhões por mês. Não! A gente é nerd da música, a gente é profissional da música. Então, o jeito que a gente aborda, o quanto a gente conhece da carreira de cada uma delas, é o que dá uma segurança. O trato é muito de igual para igual no que tange à profundidade do nosso conhecimento musical. E ninguém engana uma artista: ela sabe o quanto você conhece de música; eu e a Mô, a gente conhece muito. Acho que isso fica muito claro: “essas manas aqui não tão me olhando com cifrão, elas tão me olhando porque elas são isso, também”.

Além das relações que elas fazem questão de estabelecer, também proporcionam novos e, por vezes, inusitados encontros! Na premiação já aconteceu um momento que ultrapassou o featuring no palco do WME: Paula Lima e Teresa Cristina cantaram juntas pela primeira vez no evento, dois anos atrás. Já surgiu, também, ideia de featuring durante um papo no camarim, que rendeu uma colaboração inédita entre As Baías e Mc Rebecca, lançada no último dia 11.

A pandemia – Reinvenção e Remixagem

A conferência que acontece na cidade de São Paulo, anualmente, teve a edição de 2020 suspensa por conta da pandemia, duas semanas antes da data. A transposição do presencial para o virtual mantém a base mas ganha a tag RMX, uma versão remixada em alusão à técnica de DJs. Assistidas pelas publicações dos Órgãos de Saúde e da Secretaria de Saúde de São Paulo, remarcaram para Setembro propondo um evento sem público, com a presença das artistas e das profissionais, com todos os protocolos adotados com muito rigor.

 As marcas que estavam assinando a edição de Março seguiram confiando no projeto, se adaptando ao universo virtual e inovando em formas de ativação. Claudia explica a importância da captação de recursos especialmente para esta edição:

 A gente se manteve muito pé no chão pra poder distribuir esse dinheiro. São muitas mulheres que a gente está empregando, é toda uma cadeia que estava em casa esperando: “o que eu vou fazer da minha vida? o que vai acontecer de agora em diante?” Acho que o WME marca um retorno às atividades, seja no âmbito da produção ou no âmbito artístico.

WME Conference RMX – O novo formato

O novo formato do WME Conference pode ter sido motivado pela pandemia, pela necessidade de se reinventar e se adequar ao período de quarentena, mas uma coisa é certa: o conteúdo tão necessário vai atingir muito mais pessoas.

 A dupla, no entanto, montou a conferência de forma que não se perdesse a intensidade, tão marcante nos eventos presenciais. O público, mesmo em casa, vai ter o momento de escolha das atividades da grade dos três dias, dois de painéis e oficinas e um de shows. Uma das novidades que deve agradar a muitos é que, ao garantir o ingresso, o acesso de todos os conteúdos ficará disponível durante trinta dias. O evento, assim como o conteúdo, é feito para todos, como Claudia destaca:

Uma coisa legal é que a gente sempre tenta deixar um verniz pop, nunca é uma coisa excludente “isso aqui é só pra quem manja do mercado”, é super papo nerd. […] Mas no geral, a gente tenta primar por um conteúdo muito pop pra que qualquer pessoa, com treinamento musical ou não, consiga acompanhar.

 O conteúdo da programação foi todo repensado para o momento atual. Das mais de 30 atividades, a Claudia e a Monique citam algumas para “dar uma palhinha” à comunidade do S.O.M.: as oficinas vão abordar temas como protocolos EPI, ativação para eventos online, papel das marcas na pandemia, áudio e vídeo para lives; os painéis terão Clau Assef com Daniela Mercury, Roberta Martinelli com Teresa Cristina, Sarah Oliveira com Letrux e Mahmundi; os shows contam com As Baías, Tiê, Céu, Xenia França, Maria Rita Stumpf.

E, como o WME é inusitado, não poderiam faltar temas como Yoga e Música Eletrônica e Festa de Música Eletrônica, além do ambiente online que promete muita inovação, com experiências de ativação de marcas. 

Serviço
WME Conference RMX
Datas: 18, 19 e 20 de setembro
Horário: sexta (18) e sábado (19), das 13h às 21h. Domingo (gratuito), das 17h às 21h.
Ingressos (por dia): R$ 15,00
Vendas: Sympla

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