Por Ana Garcia

Sábado passado participei de uma das melhores experiências online que já vivenciei: Eschaton. Tinha ouvido falar dessa imersão online em uma fala rápida do Facundo Guerra no seu curso Empreendedorismo para Subversivos. Quando fui pesquisar o que era a descrição dizia “um labirinto de salas com alguns dos melhores performers de NY. Passeie por esta boate fechada onde você pode interagir e encontrar uma nova e estranha delícia por trás de cada porta. Encontre-se com amigos, convide uma pessoa ou venha sozinho. As portas foram reabertas por tempo limitado”. Os ingressos estavam esgotados há semanas e só tinha o dia 13 de junho livre. Passei semanas ansiosa para chegar este sábado. 

O dia chegou e uma hora antes de começar o evento, que estava marcado para às 23h, horário no Brasil, chega um email com um link para uma página e uma senha. Clicando na página e colocando a senha você entra uma espécie de sala de espera, com dicas para você baixar as luzes, botar uma roupa para sair e preparar um drink – e um relógio fazendo a contagem regressiva para o início da festa(?), performance(?), suruba(?). Não sabia bem. 

Às 23h, o site se transformou em uma página com 4 portas para você clicar em uma e “entrar” – The White Room, The Cherry Lounge, The Mirror Box e The Dressing Room. Entro no The White Room e vejo vários rostos, me sinto numa conferência normal do Zoom, mas logo entendo que o destaque é um homem sem camisa, rindo, cantando canções country acapella e falando sobre a saudade de estar na frente de uma audiência. Cinco minutos depois, aparece no chat mais nomes de salas com senhas para digitarmos na página inicial. E conforme o tempo passa, mais salas são apresentadas nos chats. Pude pegar em torno de 19 senhas para salas no total – (não sei se perdi alguma) com nomes como “Acid”, “Magic”, “Rat”, “Velvet”… fui explorando todas as salas assim que apareciam, pra entender o que poderia acontecer, qual era o objetivo da experiência completa.

Eschaton – Página Inicial

Em uma sala – uma menina tocando viola clássica e contando suas histórias sexuais enquanto adolescente, na porta ao lado uma sala vermelha com um homem fantasiado de rato, fazendo um striptease amedrontado. Em outra uma dançarina burlesca, ora fazendo carão, ora fazendo contorcionismo seminua. A sala Acid tinha um ótimo Dj que ao invés de aparecer, selecionava alguém do público na e fazia intervenções psicodélicas na imagem.  

No meio das descobertas me deparei com uma porta que só poderia ser aberta com uma senha, mas não consegui descobri-la – depois uma amiga me disse que deixaram no chat em algum momento e que lá dentro havia páginas de algo como um diário(?). Voltei ainda para a sala White Room onde o rapaz do começo passou a interagir com o público e tirava carta de tarot.

E tudo terminou em uma hora. Quero mais. Ingressos estão esgotados. Tem que aguardar a bilheteria abrir novamente. Enquanto isso, converso com as duas mentes brilhantes por trás do Eschaton e da Chorus Productions, Tessa Whitehead e Brittany Blum.

Eschaton

Vocês podem se apresentar?

TW: Eu sou a diretora artística do Chorus Productions e criei junto com Brittany o Eschaton em colaboração com Taylor Myers. Eu sou uma escritora de ficção e tenho passado os últimos 07 anos trabalhando principalmente em televisão. Antes de trabalhar na televisão, eu comecei a minha carreira como líder de torcida do NFL para o Seattle Seahawks. Eu passei a amar teatro imersivo como uma interseção perfeita para a minha experiência em grande escala, entretenimento ao vivo e narrativa baseada em storytelling

BB: Eu sou Brittany Blum, fundadora e CEO da Chrorus Productions e co-criadora e produtora do Eschaton. Eu sempre fui profundamente apaixonada pelo teatro e criei a produtora com a intenção de desenvolver entretenimento ao vivo cinematográfico que parecesse relevante e visceral para o público moderno. Eschaton é o nosso primeiro projeto e eu e Tessa temos trabalhado nele por mais de um ano.

Você pode contar a história do Eschaton, a sua concepção e criação?

TW: A concepção do show é realmente uma história louca. O ímpeto do Eschaton originalmente era contar um mistério ambientado em uma boate real, usando o gênero para destacar como é ser um artista e um performer: intriga e compulsão criam um impulso insaciável que beira o misticismo e o surreal. Passamos 07 meses desenvolvendo o projeto quando o Covid chegou. Tivemos que cancelar nossa primeira leitura de mesa e, durante uma semana, enquanto assistimos a peça “Sleep No More” fechar e a Broadway desligar, não tínhamos certeza que teatro imersivo iria existiria mais e, se existisse, como seria. Mas essa incerteza era também excitante… nós poderíamos inventar tudo! O mundo agora mais que nunca precisa ser entretido, então por que não dar a chance da audiência se perder? 

Eu estava andando no Prospect Park conversando por telefone com Brittany, que estava em quarentena em San Francisco, quando decidimos criar uma versão virtual do Eschaton. Um dos principais temas que discutimos anteriormente para o show foi a dualidade de ser um artista – como você exerce tanto poder e ainda existe e prospera apenas com os caprichos da platéia. E de repente, esse tema hipotético sobre o qual estivemos pontificando era real. Todos os artistas que conhecemos haviam perdido o emprego. Você pode ser um artista em quarentena no seu apartamento? A resposta foi um retumbante sim para nós. 

Então, chamamos Taylor Myers, um diretor imersivo experiente que conhecia bem o cenário imersivo e os artistas e estava disposto a tudo, incluindo a um desafio insano. Não tínhamos ideia de quanto tempo duraria a quarentena, então nos demos duas semanas para montar algo. Decidimos contratar o maior número possível de artistas e realizar o que era essencialmente um show de variedades imersivo em uma plataforma de tecnologia que não conhecíamos quase nada. 

Tenho investigado diferentes experiências online durante a quarentena e esta parece ser uma das mais incríveis, tudo tão bem pensado e planejado. Desde o site misterioso a experiência em si. Que tipo de pesquisa tecnológica e de experiências virtuais fizeram para tornar isso tão excitante e diferente? Tem um roteiro?

TW: A pesquisa inicial que fizemos foi em plataformas de transmissão ao vivo – Twitch, Live IG, YouTube, etc. Nos familiarizamos com muitas delas, mas, finalmente para ter uma experiência “imersiva”, precisávamos de algo fosse uma conexão a dois. Afinal, a história é basicamente sobre a importância do público, então queríamos que eles fossem visíveis também, e foi assim que chegamos ao Zoom. Então, a próxima consideração técnica foi criar um universo além da familiar janela Zoom. Para nós, isso significava criar um site personalizado que fazia você se sentir como se estivesse realmente entrando em um espaço físico. Também existe um roteiro, que cresce e muda a cada semana. Mas o roteiro é apenas uma pequena parte de toda experiência – os artistas improvisam e interagem com o público (o que não dá para escrever!), há um mundo vasto de quebra-cabeças e mistérios que se entrelaçam nas performances, existem relações entre cada personagem e por trás da performance ao vivo há um sistema complexo de navegação baseado em uma imagem física do Eschaton.

Eschaton

Você pode falar sobre como conseguiram montar um elenco tão variado?

BB: Encontrar e colaborar com nosso elenco fenomenal é, de longe, a nossa parte favorita da criação deste programa. Quando começamos essa produção virtual, sabíamos que queríamos trazer artistas experientes do teatro imersivo que conheciam bem as experiências teatrais que exigiam interatividade complicada do público e, com a ajuda de nosso diretor Taylor Myers, que está profundamente enraizado na comunidade desse teatro, nós fomos capazes de trazer alguns dos principais talentos de Nova York. Mas também percebemos rapidamente que, sem uma pegada física, não estávamos limitados a Nova York. Vasculhamos todas as plataformas virtuais em busca de artistas de todo o mundo, do Instagram e do YouTube ao Twitch, procurando artistas únicos com uma ampla diversidade de habilidades e talentos que se comunicassem bem nesse palco virtual. Desde o início deste trabalho, há cerca de dois meses, reunimos dezenas de artistas de classe mundial, desde um Pole Dancer em Nashville, TN, e um Belly Dancer / Fire Breather no Texas a DJs em Londres e Berlim e uma violista / comediante em Los Angeles. Cada artista é fenomenalmente talentoso e a grande variedade de habilidades fez de Eschaton uma experiência verdadeiramente surreal, com cada sala oferecendo algo único e inesperado.

Você acredita que essa experiência é algo que ainda possa continuar quando estivermos socialmente ativos novamente? Como vocês acham que o teatro imersivo vai mudar?

TW: O que é mais emocionante para nós é que sentimos que deparamos com um novo gênero de entretenimento ao vivo inspirado no teatro imersivo, mas não limitado por esse rótulo – o programa também se baseia em salas de escape, cinema e videogames. Também é único, pois conecta uma audiência global em uma experiência ao vivo e nos permite contratar mais artistas e do que poderíamos ter se tivéssemos custos imobiliários. Portanto, estando em quarentena ou não, esperamos continuar executando e desenvolvendo o Eschaton por um tempo. E, finalmente, se expandirmos o universo em uma produção física, provavelmente estará em conjunto com esse programa virtual. A relação entre o público e o palco está sempre evoluindo, o que é para nós o que torna o entretenimento ao vivo tão experimental, gratificante e desafiador. Mas, fundamentalmente, achamos que esse tipo de entretenimento ao vivo popularizado durante o COVID é um passo na taxonomia cada vez maior do teatro; não é de forma alguma um substituto para a conexão pessoal ou para o teatro tradicional. É por isso que Eschaton, apesar de toda a sua alegria e celebração, é atado com uma sensação de melancolia com a consciência de que algo está faltando ou perdido neste tempo.

Confira: https://www.tickettailor.com/events/eschaton/

Eschaton

 

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

André Barros

Vetos genocidas do Bolsonaro

Boaventura de Sousa Santos

A universidade pós-pandêmica

Juan Manuel P. Domínguez

“O lugar do artista é na luta”. Diálogos de quarentena com Rael

Renata Souza

Stonewall Inn.: orgulhar-se é transgredir

Cleidiana Ramos

O dia em que meu nariz me definiu como negra - notas sobre o racismo à brasileira

Jandira Feghali

Diga-me o que vetas...

afrolatinas

Contato com meu “Eu”

SOM.VC

RAP BR: Murica canta com sede de dignidade em novo álbum produzido por MK

Márcio Santilli

Sociedade civil se levanta contra Bolsonaro mesmo sob isolamento e penúria

André Barros

Operações racistas nas favelas

Colunista NINJA

O vírus e as trabalhadoras sexuais na Guaicurus, em Belo Horizonte

Juan Manuel P. Domínguez

"O DJ é um dos elementos pilares da cultura Hip Hop". Diálogos de quarentena com DJ Erick Jay

Randolfe Rodrigues

O Brasil que queremos no pós-pandemia

Jussara Basso

A cultura na periferia em tempos sombrios

Juan Manuel P. Domínguez

O demônio branco esteve infiltrado nos protestos pela morte de George Floyd