SOM Indica: Samba que Elas Querem lança primeiro álbum e se projeta na cena nacional
Projeto tem 12 faixas e participação de Leci Brandão, madrinha do grupo
por Gabriel Dias
Há oito anos com o pé na rua, o Samba Que Elas Querem mostra o quanto aprendeu nessa caminhada. Em dezembro, chegou a todas as plataformas musicais O Samba Que Elas Querem É Assim, primeiro álbum do grupo carioca formado por oito mulheres e viabilizado por financiamento coletivo. Composto por 12 faixas — 11 delas inéditas —, o disco conta ainda com a participação de peso de Leci Brandão, que se une ao grupo na regravação de “Lá e Cá” (Leci Brandão/Zé Maurício).
Assim como na Grécia Antiga, em que a praça pública era o espaço dos debates fundamentais para o avanço da sociedade, a Banca do André, no Centro do Rio de Janeiro, tornou-se uma espécie de ágora onde o Samba Que Elas Querem aprofundou a discussão de gênero no universo do samba. Desde a criação do grupo, em 2017, ocupar a rua sempre foi a principal reivindicação. O reconhecimento veio cedo, especialmente com a versão feminista de “Mulheres”, clássico de Toninho Geraes, que ganhou projeção nas redes sociais em 2018.
“Essa versão foi feita pela Silvia [Duffrayer] e pela Doralyce em 2018. A gente já estava ocupando certos espaços, e essa música acabou projetando o grupo nas redes. Nunca cantamos com a intenção de responder à ‘Mulheres’, do Toninho Geraes. Era mais uma versão, aproveitando o gancho métrico da letra original para falar das mulheres. Acho que isso fez com que mulheres do Rio e do Brasil se sentissem mais pertencentes à roda, do tipo: ‘essa é uma roda em que eu me sinto bem, faço parte, posso estar em volta e não ser julgada ou assediada’. Além de afirmar um grupo de oito mulheres, essa música virou um hino feminista, um hino político, por falar também de mulheres negras”, comenta Mariana Solis, uma das vocalistas.
Agora, o grupo apresenta a sonoridade e o discurso que consolidou ao longo dessa trajetória, evidenciando a versatilidade das referências que atravessam seu trabalho. Há canções de fé e ancestralidade, como “Filhas de Oyá” e “Respeita Meu Axé”; de amor e desilusão, como “Opostos”, “Ordem de Despejo” e “Tudo Dorme”; de crônica social, caso de “Duas Lavadeiras”; além de reverências ao passado e à tradição do gênero, presentes em “Pérola Negra Passou Por Aqui” e “O Samba Me Ensina” — valores e temáticas indispensáveis a quem deseja atuar no segmento. Além de assinarem algumas faixas, o grupo recebeu cerca de 40 sambas inéditos de compositores da nova geração, como Marina Iris, Marcelinho Moreira, Dayse do Banjo e Raul DiCaprio.
“Foi bem difícil escolher. Fizemos várias reuniões e audições para ir ‘peneirando’ as músicas até chegar ao número final. A escolha levou em conta a variedade de estilos e temáticas, além da tentativa de imprimir no disco um pouco do que somos na rua, sintetizando as trocas com o público em espaços como a Banca do André, no Centro do Rio. Mesmo assim, a sensação é de que um disco só não seria suficiente para tanto samba incrível”, observa Bárbara Guimarães.
A participação de Leci Brandão, por sua vez, era um desejo antigo. O grupo flertava com a veterana desde a pandemia, quando realizou uma live em sua homenagem. Em 2022, também dividiram o palco da Fundição Progresso. “Lá e Cá”, canção que traça paralelos entre a existência negra na Sapucaí e a luta do povo negro na África do Sul, já fazia parte do repertório do Samba Que Elas Querem havia algum tempo. Leci aceitou regravá-la para o álbum e amadrinhou definitivamente as cariocas. “Ela amadrinhou a gente! Isso, no samba, é muito importante, traz muito peso. A ficha ainda está caindo. E ela fez questão de falar o nome de nós oito na gravação. Quando ouvi pela primeira vez, chorei de verdade. É muita sorte”, conta Mariana.
Para Karine Neves, o disco “marca um amadurecimento artístico do grupo, imprimindo nas músicas autorais e inéditas um pouco das nossas influências musicais. Ao mesmo tempo em que reverencia grandes nomes da música brasileira, o álbum apresenta a primeira ‘assinatura artística’ do Samba Que Elas Querem como uma banda com trabalho autoral. Queremos ganhar espaço como compositoras, além de intérpretes, e temos recebido uma resposta muito positiva nesse sentido”.
O Samba Que Elas Querem É Assim representa mais um passo na expansão dessas fronteiras. Pensar o grupo é compreender o uso da música como ferramenta de reivindicação — não apenas pela inserção de mulheres em um universo historicamente masculino e machista, mas também pela forma como elas são vistas em outras posições sociais, igualmente atravessadas por estigmas e papéis pré-determinados. Talvez a missão do Samba Que Elas Querem seja transformar o fato de serem mulheres em um detalhe, afirmando-se pela maestria no vasto cenário nacional do samba. “Cada vez mais estamos nos afastando de ser vistas apenas como um grupo de mulheres. Estamos ocupando espaços que ainda não são muito abertos para nós. Esse reconhecimento é fruto da maturidade desses oito anos de estrada. Almejamos ser um grupo como qualquer outro: um grupo de samba, e ponto”, conclui Mariana.



