
SOM indica: Daniel Kowalski e o ambient music que escuta a biodiversidade do Tocantins
Com músicas afinadas em 432 Hz o artista tocantinense cria experiências imersivas que valorizam a preservação ambiental.
Por Nicole Adler
Daniel Kowalski, músico tocantinense, é conhecido por sua produção autoral que une piano minimalista e ambient music. Em suas músicas, incorpora o som sintético, afinado em 432 Hz, a elementos captados do ambiente, como o som de águas, ventos e pássaros, gravados em regiões do Tocantins e do mundo. Além de sua sensibilidade artística, Kowalski se destaca pelo compromisso com a valorização da biodiversidade local e pela criação de experiências imersivas que conectam música, paisagem e um deep listening que busca promover cura em seus ouvintes.
O músico está produzindo um novo álbum com os cantos de oito espécies de pássaros que habitam o Parque Cesamar, em Palmas, capital do Tocantins. Foi no restaurante Bem-Te-Vi, coincidente com o nome de um pássaro — cercado por árvores, e embalado pelo som das araras-canindé — que Kowalski revelou suas motivações e, sobretudo, sua paixão pelo que chama de “música do acaso”.

Do piano ao ambient(al) music
Daniel iniciou sua trajetória musical no piano, tanto no repertório clássico quanto no popular. Aos 17 anos, passou a dar aulas em escolas de música e em turmas particulares, atividade que manteve por uma década. Ele conta que esse contato com o piano clássico ainda exerce forte influência em sua carreira atual, e relata que “mesmo quando estou pensando em uma produção considerada pop, com uma harmonia pop digamos assim, sempre vem alguma coisa que eu sei que é por causa da minha biblioteca erudita”.
A convivência com os alunos também transformou a forma como Daniel compreende o “fazer” e o “perceber” a música. Ao propor que as crianças improvisassem sobre sons que havia captado, percebeu que muitas vezes era ele quem tinha algo a aprender: “o intervalo que ela usou, o tempo que segurou aquela nota… e tudo isso enquanto ela brincava”. Talvez por essa admiração e aprendizado em sala de aula, descreve seu processo de produção como lúdico: “eu acho que o que eu faço uma criança poderia fazer”, e acrescenta, “todas as músicas que eu já lancei, elas têm algum tipo de história lúdica, imaginária e impossível”.
Quando perguntado sobre o processo de construção das narrativas-sonoras, o músico relatou que “a ideia que eu tenho, eu acho que ela nunca se consolidou. Eu começo a captar, captar, captar e virou outra coisa, acho que 100% das vezes (…) todos os álbuns que eu fiz foram para caminhos absolutamente diferentes”. Dessa forma, tudo o que é criado em estúdio é moldado a partir do que a natureza oferece a Daniel Kowalski. Não são as captações que são inseridas na música sintetizada; pelo contrário, elas fornecem a base para tudo o que será produzido em estúdio.
Sua trajetória com a captação sonora do cerrado começou de forma natural, e afirma que o que fazia em outros lugares também queria realizar no Tocantins. Uma coisa levou à outra, e lançou em 2023 seu primeiro álbum em solo tocantinense, o “Música de Água e Pedra, Sambaíba”, com sons captados 100% no cerrado tocantinense. No ano seguinte, em 2024, lançou o “Vibração das Serras Gerais”, com músicas que contam com captações de locais como o Arco do Sol e o Rio Azuis.
Nessa aventura pelos múltiplos modos de perceber a música, Kowalski encontrou no ambient sound uma abertura sinestésica e expansiva, capaz de oferecer ao ouvinte uma experiência sensorial — transcendental e até mística — em que é possível tanto escutar quanto ser transportado. Dessa forma, atribui à música também um poder de cura.
O cerrado afinado em 432 Hz
A relação de Kowalski com os 432 Hz começou durante a pandemia, com o álbum A Healing Episode 432 Hz. Antes de detalhar essa trajetória, é importante entender o que essa afinação representa. O hertz (Hz) é a unidade de medida da frequência do som, que indica quantas vibrações por segundo uma onda sonora realiza. Diferente do padrão moderno de 440 Hz, a afinação em 432 Hz é considerada mais “natural” e harmoniosa, se alinhando com frequências presentes na natureza e no corpo humano. Essa frequência é associada à sensação de relaxamento, maior clareza mental e experiências sensoriais mais profundas.
Foi com esse propósito que a frequência e Daniel Kowalski se encontraram. A Aquera Foundation — que estudava de que forma o som pode trazer cura —, inicialmente sediada na Europa e depois também nos Estados Unidos, contribuiu com o músico para propor uma parceria na produção de um álbum voltado a esse objetivo.
O caminho para assumir essa função exigiu muito estudo e aprendizado. O músico relata que, no início, “eu coloquei o computador para gravar, normalmente o pessoal grava em 44 (resolução), a gente estava gravando uma resolução muito maior, meu computador dava pau, travava o tempo todo”. Autodidata nos estudos de física, se dedicou a compreender os mecanismos por trás do som, e toda a ciência envolvida nesse processo se revela não apenas ao conversar com Kowalski, mas também em suas próprias músicas.
Atualmente, Daniel produz todas as suas músicas em 432 Hz, e aquelas que não são, transitam entre 440 Hz e 432 Hz, criando o que ele descreve ser “como se você atravessasse uma outra dimensão”. O efeito de cura dos seus álbuns se mostra nos feedbacks que recebe, ele relata: “Eu percebi que era algo maior do que eu mesmo. Que eu não seria capaz de fazer. (…) A pessoa estava se sentindo depressiva, não queria mais viver, e escutou, aí passou a querer viver, e a vida dela ficou melhor, e uma dor que ela sentia, ela não sentiu mais.” Em nenhum momento ele atribui a si próprio todo o mérito, afirmando que realiza apenas metade do trabalho, enquanto a outra metade cabe à própria natureza.
“Eu diria que é uma música na qual quem é o autor é o próprio universo, digamos assim. É a própria existência de tudo”
Daniel Kowalski
Intermediador entre a natureza e o ouvinte
Daniel Kowalski se coloca como um intermediador entre a natureza e os ouvintes, afirmando: “eu procuro fazer o que já está aqui, sabe? Eu pego uma partícula e aí jogo no meu filtro e vira um som”. Para ele, o som do comunicar das águas, dos pássaros e do vento não é necessariamente algo místico, mas parte da própria ordem natural. Como ressalta: “eu acho que a maior parte das coisas a gente nunca vai ter a capacidade de entender, então serão classificadas como metafísicas, extrafísicas, né?”.
Esse processo de intermediação, como mencionado anteriormente, também envolve o lúdico e o imaginário, como ele próprio explica: “quando eu penso numa música, eu já tenho uma imagem”. Ao recordar as captações em uma das locações das Serras Gerais, descreve: “Quando eu fui para o Rio Azuis, por exemplo, nas Serras Gerais eu pensei: digamos que a gente pudesse dizer que anjos existem, talvez eles sobrevoassem por dentro desse Rio e fizessem ele ser tão claro, tão transparente, porque eles emitem uma luz”.
A “Música do Acaso”
Nessa universalidade de sons e acontecimentos, Daniel relata com carinho a experiência de gravar no Ártico, como se tudo tivesse conspirado para que aquele momento se tornasse possível. Seu processo de gravação começou em 2022, com a primeira viagem no verão, e deu segmento no ano passado, em 2024, já no inverno.

Tudo começou com uma viagem à Finlândia para assistir ao show da Florence Machine. Por acaso, acabou seguindo para a Noruega com sua esposa Thaise Kowalski, em busca das auroras boreais — e foi dessa experiência que está nascendo um álbum que no fim não tratou do fenômeno em si, mas das amizades construídas ao longo do percurso.
O músico relembra: “eu tava ali tomando um café com eles, e eu preferi estar ali do que estar presenciando os fenômenos mais magníficos que eu já tinha visto na minha vida, porque aquilo se tornou maior”. É por vivências como essa que Daniel define sua obra como “música do acaso”, não apenas porque seus álbuns se constroem durante o processo de criação, mas também pelas pessoas e experiências que atravessam seu caminho.
“Eu acredito que não só minha música que vem do todo, do infinito, eu acredito que tudo o que as pessoas fazem vem do infinito, de alguma forma, e vão pro infinito”
Daniel Kowalski
Esse caráter de imprevisibilidade também marca o próprio processo de produção, em que esbarrar em uma nota pode se transformar em um caminho inesperado e, em vez de problema, virar solução. Como relata: “Tem notas que foram gatos que fizeram. Teve um gato que pulou no meu controlador, no meu sintetizador, era um gatinho muito legal. Ele veio e ligou um arpejador, que é quando ele pega as suas notas e começa a fazer um looping, de forma cíclica, ficou muito legal, e no álbum ficou”.
Os oito cantos de pássaros do Parque Cesamar
No universo animal, ficou evidente ao longo de toda a entrevista que os pássaros são os grandes encantos e amizades de Daniel Kowalski. Não por acaso, ele está produzindo um álbum dedicado aos seus cantos, com o apoio e a parceria do pesquisador Túlio Dornas, doutor em Biodiversidade e Conservação. O projeto se chama “8 Cantos do Cesamar”, e é contemplado pela lei Aldir Blanc, através da Fundação Cultura de Palmas e Ministério da Cultura.

O interesse de Daniel pelas aves surgiu a partir de sua relação com outro pesquisador, o André Grassi, reconhecido observador e guia de observação de aves do Estado. Ele lembra que, em um dos encontros com o ornitólogo, teve sua primeira experiência direta: “A primeira vez que eu bati o olho numa ave, eu fiquei completamente enlouquecido”, e completa: “O mundo se descortina quando você percebe os pássaros”.
A escolha pelo Parque Cesamar — localizado na região central da capital tocantinense — foi intencional. Daniel quer mostrar que essas espécies podem ser encontradas a poucos minutos das pessoas: “se você der uma caminhada daqui e até ali, você vai conseguir ver uma boa parte. Se você der uma volta no Cesamar, você vai ver. Se você estiver olhando, você pode registrar ali facilmente um giro de 40 espécies”. E assim, seu objetivo é despertar na população, não só tocantinense como brasileira, o interesse pela observação de pássaros.
Suas impressões iniciais, que continuam no presente, descrevem a consciência do tamanho dessa responsabilidade. Destaca que o projeto representa para ele um desafio imenso, vivenciado com reverência e como uma tentativa de compreender algo muito maior do que si mesmo, algo que ultrapassa os limites do que seus sentidos poderiam descrever com clareza.
Nessa perspectiva, sugere que a música dos pássaros, e do universo como um todo, pode ser entendida como uma ponte que atravessa dimensões. Para Kowalski: “Eu sinto que, apesar de sermos diferentes, tenho uma certa amizade com as aves. Me parece que foram os próprios pássaros que gentilmente me convidaram pra realizar esse projeto.”
“O que os pássaros estão cantando hoje é uma mensagem que, desde antes de tudo existir, estava sendo escrita nas partículas, no átomo, e na poeira das estrelas”
Daniel Kowalski
Com lançamento marcado para Novembro, o álbum reúne oito faixas construídas a partir dos cantos de espécies, habitantes do Parque Cesamar: Cantorchilus leucotis, Aramides cajaneus, Pitangus sulphuratus, Sakesphorus luctuosus, Hypocnemoides maculicauda, Monasa nigrifrons, Trogon curucui, e Chloroceryle amazona. Embora recorra a alguns efeitos em determinados momentos, Daniel garante: “Sempre vai ter a entrega da assinatura do canto em si, sabe? Isso está acontecendo em todas as faixas”.
O projeto já prevê um desdobramento além da música: um catálogo com fotos e registros das espécies observadas durante as captações no Parque Cesamar. Para o músico e observador de aves, “se as crianças fossem levadas com atividades educativas para observar pássaros, elas iam ficar encantadas e iam crescer com uma visão de que a gente precisa sim se desenvolver enquanto sociedade, mas precisamos fazer isso da melhor forma possível e da forma correta”.