Por Hyader Epaminondas

Em “Socorro!”, Sam Raimi arquiteta uma fábula cruel sobre competitividade, ambição e ego, em que o riso amarelo surge como ferramenta de denúncia e a tensão funciona como espelho das pressões corporativas mais absurdas, dignas de uma postagem no LinkedIn. Apesar de abordar temas densos, o filme não abre mão do humor em nenhum momento, e o tom ácido característico do diretor é o coração da narrativa, que carrega toda a sua bizarrice em um fluxo dinâmico.

É fascinante acompanhar Rachel McAdams como Linda, uma profissional de planejamento estratégico que leva a própria descrição do cargo às últimas consequências dentro e fora do escritório, para garantir a própria sobrevivência. Sua personagem se constrói em tempo real, reagindo aos acontecimentos com instinto, enquanto enfrenta não apenas os perigos de um ambiente selvagem, mas também as engrenagens perversas de um mercado de trabalho marcado por jogos de poder e abuso, onde as aparências valem mais do que o mérito.

Ao sobreviverem a um acidente aéreo e ficarem presos numa ilha deserta com seu chefe, o conflito entre os protagonistas funciona como metáfora para relações profissionais tóxicas. A disputa por recursos na ilha reflete as rivalidades e microgestões do escritório, a necessidade de colaboração se choca com o desejo individual de destaque e pequenas discussões se transformam em batalhas por validação e controle. Raimi utiliza o isolamento, o silêncio da natureza e os conflitos internos como laboratório de tensão, expondo como o ser humano, mesmo livre das regras sociais, continua a reproduzir hierarquias, abusos e rivalidades.

O que impressiona é a versatilidade de McAdams: ela equilibra o tom do filme, mesclando um timing perfeito de comédia com momentos de introspecção, tensão e vulnerabilidade de forma natural, tornando cada reação crível e cada emoção palpável. É impossível não torcer por Linda em qualquer situação, justamente pelo grau de exposição da humanidade que a atriz consegue transmitir, revelando medos, ambições e fragilidades com intensidade durante todo o filme.

A dinâmica de poder entre os protagonistas se inverte constantemente, com Dylan O’Brien surgindo como um antagonista na linha do estereótipo “eat the rich”, que, embora inicialmente no topo, revela toda a vulnerabilidade de quem nunca enfrentou alguma dificuldade na vida. Sua relação com Linda oscila entre desprezo absoluto e admiração genuína, percorrendo uma linha tênue à medida que sua vida desmorona, expondo instintos humanos e comportamentos sociais em paralelo com pequenas doses de humor, que, por sua vez, intensificam o drama sobre poder, vaidade e fragilidade humana frente ao desconhecido.

A ilha funciona tanto como ameaça quanto como metáfora. A luta pela sobrevivência física se entrelaça com a sobrevivência psicológica, refletindo as pressões e explorações presentes nos ambientes modernos. Assim como Linda enfrenta dificuldades para se encaixar no escritório devido à combinação de falta de habilidades sociais e à ausência de empatia de colegas completamente individualizados na própria escalada profissional, o filme evidencia a solidão que surge quando não somos valorizados, muitas vezes por mero infortúnio do destino.

“Socorro!” não se trata apenas de escapar de perigos externos, mas de investigar as fraturas sociais que carregamos na vida adulta. O filme acaba dialogando por cima diretamente com a reflexão de Paulo Freire sobre a desumanização, em que o oprimido tem sua voz e autonomia negadas por uma estrutura que o induz a “ser menos”. Mesmo isolados de qualquer ordem social formal, os personagens continuam reproduzindo hierarquias, disputas e violências simbólicas, como se essas lógicas já estivessem profundamente internalizadas.

Como propõe Freire, quando não há ruptura com esse ciclo, o oprimido passa a desejar ocupar o lugar de quem o oprime. O conflito entre os protagonistas evidencia esse movimento em tempo real, transformando a luta pela sobrevivência em uma nova disputa por poder e validação, onde as mesmas estruturas de dominação reaparecem mesmo longe de qualquer sistema social organizado.

Não precisa chover no molhado para dizer que Raimi conduz a produção com um prazer evidente em cada surpresa, como se estivesse se divertindo com suas próprias pegadinhas narrativas. Ele equilibra efeitos práticos e o mínimo de CGI para transformar a ilha em uma metáfora viva das relações humanas: momentos absurdos são apresentados de forma quase lógica, apenas para serem subvertidos na cena seguinte pela sagacidade do diretor, que brinca tanto com seu elenco quanto com o ambiente construído.

A aridez salgada da beira-mar se torna extensão da tensão psicológica, enquanto o mar bravo reflete a instabilidade, o isolamento e a luta silenciosa entre opressor e oprimido, reforçando a sensação de que cada detalhe, do cenário ao humor mais inesperado, é parte de um jogo astuto conduzido pelo olhar alegre e pervertidamente engenhoso de Raimi.

E, com um espaço limitado no meio do mar e rodeado de natureza, a ilha é apenas o palco. A verdadeira selva é a mente humana, e o humor funciona como lente perfeita para enxergá-la em toda a sua complexidade, tornando “Socorro!” uma reflexão tão divertida quanto perturbadora sobre sobrevivência. A maior ameaça não vem do mundo exterior, mas das relações que cultivamos, das estruturas que aceitamos e da competição que nos define.