Por Tarcila Tanhã

Na primeira cena de Sing Sing, somos transportados para o calor de um palco iluminado, onde Colman Domingo, no papel de Divine G, comanda uma peça teatral grandiosa. O espetáculo, repleto de dramaticidade e figurinos elaborados, parece pertencer a um mundo distante — até que a câmera recua, revelando um camarim precário e as grades de uma prisão. O contraste é desconcertante: os atores que, minutos antes, encenavam uma ficção sublime são, na verdade, detentos da penitenciária Sing Sing. Conforme a luz do palco se apaga, cada um retorna à cela, arrastando consigo não apenas corpos, mas histórias que o cinema se propõe a desvendar.

Dirigido por Greg Kwedar, o filme não se contenta em denunciar as mazelas do sistema carcerário; ele o reinventa como espaço de possibilidade. Inspirado em um programa real de reabilitação através do teatro, a narrativa acompanha um grupo de homens que encontram na arte não um mero refúgio, mas um espelho para confrontar medos, anseios e a própria noção de liberdade. Entre eles está Clarence Maclin, ou Divine Eye, cuja proposta de criar peças leves — que escapem da violência cotidiana — colide com a visão de Divine G, interpretado por Domingo. Enquanto este, vítima de uma condenação injusta, mergulha na escrita de tragédias como forma de exorcizar demônios interiores, Divine Eye defende que o riso e o absurdo podem ser igualmente revolucionários. É um embate entre duas formas de resistência: uma que encara o trauma de frente, outra que o subverte pela imaginação.

O elenco, majoritariamente composto por ex-detentos, não é um detalhe secundário — é a alma do projeto. A revelação, feita apenas nos créditos finais, de que aquelas performances são extensões de vivências reais, provoca um impacto que reverbera além da tela. A escolha de Kwedar por não atores profissionais poderia soar como um risco, mas aqui se revela um cálculo astuto: o programa de teatro na prisão não apenas os capacitou tecnicamente, mas transformou suas histórias em matéria-prima artística. Eles não “interpretam” personagens; negociam com versões ficcionalizadas de si mesmos, adicionando camadas de ironia, dor e esperança que nenhum roteiro tradicional poderia capturar.

Aqui, a discussão sobre “atores versus não atores” perde sentido. O que define essas performances não é a falta de técnica, mas a presença de uma verdade crua. Quando Divine Eye insiste em montar uma comédia sobre viagens no tempo ou heróis espaciais, ele não está fugindo da realidade — está reescrevendo seu lugar nela. Cada piada, cada gesto exagerado, é um ato de rebeldia contra a rigidez do cárcere. O filme, ao incorporar essa estética híbrida (entre documental e ficção), nos faz questionar: quem tem o direito de contar essas histórias?

A decisão de incluir ex-detentos no elenco transcende o artifício cinematográfico — é um ritual de reconstrução identitária. Para esses homens, a atuação não se limita a representar; é um exercício de autoinvenção.
O impacto dessa abordagem vai além do clichê de “arte transformadora”. Sing Sing não romantiza a redenção; expõe suas fissuras. A câmera não esconde as cicatrizes, as recaídas, ou a angústia de quem sabe que o aplauso final não garantirá liberdade. Mas é justamente nessa ambiguidade que reside sua força. Ao trazer ex-detentos para a tela, o filme não os humaniza — eles já são humanos. Em vez disso, desafia o espectador a enxergá-los além do estigma, numa coreografia delicada entre dor e humor, entre a cela e o palco.

Se a mesma história fosse contada por atores profissionais, talvez ganhasse polimento, mas perderia o tremor de voz autêntico, o olhar que vacila entre personagem e memória. Sing Sing opta por uma aposta mais ousada: confia que a potência do real pode ecoar mais alto que qualquer técnica. E assim, transforma o cinema em um ato político — não por discursos grandiloquentes, mas por gestos mínimos.
Nesse sentido, o filme não é sobre “dar uma segunda chance”, mas sobre lembrar que a primeira narrativa — aquela escrita pelo sistema — nunca foi justa. Ao entregar a esses homens o controle de suas próprias histórias, Kwedar não apenas ilumina suas trajetórias, mas acende um debate urgente: qual o papel da arte em uma sociedade que prefere confinar a escutar? Sing Sing responde com um suspiro de esperança: às vezes, para mudar o mundo, basta começar reinventando a si mesmo — uma lição que, longe de ser clichê, soa aqui como um manifesto terno e necessário.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.