Por Mauro Utida

“Sequestraram o Carnaval!” Essa foi a mensagem estampada em uma faixa durante o manifesto de abertura do bloco Tarado Ni Você, realizado neste sábado, dia 14. O protesto também contou com uma performance em que as integrantes do grupo de dança Maravilhosas tiveram os rostos cobertos por uma lona. A manifestação foi encerrada com o uso de fumaça preta, simbolizando o luto por uma gestão considerada desastrosa, que desrespeitou os grupos tradicionais a favor do lucro.

Apesar da tentativa de enfraquecer financeiramente os blocos tradicionais da capital paulista, eles resistiram e saíram mais fortes do que entraram. Em uma reviravolta de última hora, a Amstel entrou como patrocinadora do Tarado Ni Você, da Espetacular Charanga do França, do Bloco Pagu e também do Agora Vai — grupos que estavam ameaçados de não sair neste ano.

A iniciativa da Amstel confrontou diretamente sua concorrente, a Ambev, patrocinadora oficial do Carnaval de rua da cidade, que fechou um contrato com a Prefeitura de São Paulo de aproximadamente R$ 29,2 milhões. O acordo garante à empresa a exclusividade de venda e exibição da marca Skol nos circuitos oficiais dos blocos e abrange, entre outros pontos, o credenciamento de ambulantes e a estrutura comercial do evento.

A principal crítica dos blocos de rua de São Paulo é que a Ambev teria passado por cima de todos, desrespeitando a própria história de quem construiu o carnaval de rua da cidade. O episódio mais emblemático ocorreu no primeiro fim de semana do pré-carnaval, no dia 8 de fevereiro, quando um tumulto foi registrado na Rua da Consolação. A empresa foi autorizada pela prefeitura a incluir um bloco da Skol, com apresentação do DJ Calvin Harris, no mesmo trecho e em horário próximo ao desfile do Acadêmicos do Baixo Augusta, bloco que tradicionalmente abre o carnaval paulistano.

Foto: Mauro Utida

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu investigação para apurar a superlotação, as falhas no planejamento e a possível falta de segurança no evento. As ações foram protocoladas por vereadores e pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) contra a organização municipal, sob a alegação de que a programação dos blocos e a logística não estavam adequadas ao volume de público, além de investigar o contrato da prefeitura com a Ambev.

Mesmo diante das cenas de tumulto, de pessoas desesperadas tentando fugir da massa e de relatos de foliões passando mal, o prefeito Ricardo Nunes classificou o primeiro fim de semana como um “sucesso”.

“É uma piada o prefeito classificar como sucesso o que aconteceu. A irresponsabilidade dessa gestão poderia ter causado mortes. A lógica do prefeito Ricardo Nunes é a privatização do carnaval de rua. Não é a segurança, é o lucro. Hoje, a Skol manda no carnaval de rua de São Paulo”, criticou a vereadora Silvia Ferraro, da Bancada Feminista do PSOL.

O maior plot twist deste Carnaval

A jogada de marketing da Amstel garantiu uma festa marcante ao bloco Tarado Ni Você, que realizou a concentração e a saída no cruzamento das avenidas Ipiranga com São João — referência direta à canção de Caetano Veloso, grande inspiração do bloco. 

Já a Charanga do França manteve seu tradicional cortejo no bairro de Santa Cecília, na manhã desta segunda-feira, dia 16, com sua orquestra de metais fundada pelo saxofonista Thiago França.

Nesta terça-feira, dia 17, será a vez do bloco Pagu e Agora Va ocuparem as ruas de São Paulo. O Pagu desfila pelo Centro da cidade, celebrando seus 10 anos de trajetória com um cortejo marcado pela defesa da cultura popular, do feminismo e da autonomia dos blocos de rua. Já o Agora Vai leva o seu carnaval para a região da Barra Funda, mantendo a tradição de um desfile vibrante, politizado e popular. 

Segundo Guina, fundador do Tarado Ni Você, o recurso destinado aos blocos por meio do edital de fomento cultural da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa é relativamente pequeno e seletivo, não configurando um financiamento amplo. O edital contempla R$ 2,5 milhões para apoiar até 100 blocos, com repasses de até R$ 25 milpor grupo para custos de infraestrutura, músicos, figurinos e logística.

Foto: Mauro Utida

“Esse valor não é reajustado há anos e deixa os blocos em uma situação financeira delicada, porque não cobre sequer o custo de um trio elétrico. Sem o apoio da Amstel, seria muito difícil sair neste ano”, afirma.

Rafaela Barcalla, também fundadora do Tarado Ni Você, explica que o bloco surgiu em 2013 e que este foi o 11º desfile. O grupo só deixou de sair uma única vez, durante a pandemia.

“Quando a gente começou, o Carnaval de São Paulo ainda nem era institucionalizado”, lembra. Ela defende mais diálogo com a administração pública e com as marcas patrocinadoras. “Às vezes falta entendimento da gestão atual sobre como funciona a operação de um bloco, e isso é fundamental para garantir segurança. Não sou contra marcas — elas têm a obrigação de apoiar iniciativas culturais, assim como a prefeitura. Precisamos rever o modelo atual, que sequestra o nosso carnaval enquanto festa popular e tradição cultural. Falta diálogo, e o que pedimos é respeito. Estamos trabalhando para colocar São Paulo no mapa do Carnaval do país.”

Em meio às críticas e manifestações dos blocos tradicionais sobre o modelo de exclusividade e a concentração de poder econômico na organização do Carnaval de rua de São Paulo, a Ambev se manifestou por meio de nota, afirmando que está seguindo as regras estabelecidas pelos órgãos competentes e pelas autoridades municipais.

Em resposta ao episódio de superlotação e tumulto no primeiro fim de semana do pré-carnaval, a nota da empresa foi breve e de tom institucional, limitando-se a afirmar que cumpre normas e regulamentos, sem entrar no debate político ou cultural levantado pelos blocos.