Por Rafael Delgado

O cinema de Joachim Trier sempre pareceu atravessado por uma pergunta incômoda: o que se perde quando escolhemos viver para a arte? Em Sentimental Value, essa inquietação deixa de ser apenas subtexto e se torna o próprio motor dramático do filme. Mais do que um drama familiar, a obra funciona como um acerto de contas com o próprio cinema de Trier e, por extensão, com uma tradição de autores que transformaram a vocação artística em justificativa para ausências irreparáveis.

Desde Reprise (2006), Trier constrói personagens obcecados por realização pessoal, reconhecimento intelectual e sucesso profissional. Jovens escritores, artistas e cineastas que vivem em constante tensão entre aquilo que desejam ser e aquilo que conseguem sustentar emocionalmente. Em Oslo, 31 de Agosto, o trabalho aparece como uma promessa já esvaziada; em Louder Than Bombs, a família é o espaço onde os silêncios falam mais alto; em The Worst Person in the World, a carreira surge como fonte de angústia, nunca de plenitude. Sentimental Value reúne todos esses temas, mas os desloca para uma figura inédita em sua filmografia: o artista que envelheceu.

Gustav Borg, interpretado de forma magistral por Stellan Skarsgård, não é apenas um pai ausente; é um cineasta consagrado que construiu uma carreira sólida enquanto deixava para trás os vínculos mais básicos da vida doméstica. Seu retorno à vida das filhas não se dá por um pedido direto de desculpas, mas por meio de um novo projeto cinematográfico. Um filme que ele insiste ser o melhor de sua carreira. Um filme que ele quer transformar em herança emocional. Um filme que, no fundo, funciona como um pedido de perdão mal formulado.

É nesse ponto que Sentimental Value revela sua camada mais amarga: o cinema como linguagem de fuga. Gustav não pede desculpas — ele escreve roteiros. Não confronta o passado — ele o estetiza. Trier constrói essa dinâmica com uma lucidez desconcertante, sugerindo que, para certos artistas, criar sempre foi mais fácil do que se responsabilizar. O cinema surge aqui não como salvação, mas como substituto emocional.

Renate Reinsve interpreta Nora Borg, atriz de teatro e filha mais velha, com uma contenção que dói. Nora carrega a marca de quem precisou crescer rápido demais, assumir funções que não eram suas e aprender a sobreviver emocionalmente sem apoio paterno. Seu conflito não é apenas com o pai, mas com a própria ideia de transformar dor em matéria-prima artística. Ao recusar — ou hesitar — o convite de Gustav, Nora rejeita não apenas um papel, mas a tentativa de reescrever o passado sob a ótica de quem causou a ferida.

A presença de Agnes, vivida de forma devastadora por Inga Ibsdotter, amplia ainda mais essa leitura. Quando ela diz: “Há uma grande diferença na maneira como crescemos. Eu tinha você”, Trier sintetiza algo central em seu cinema: traumas não são democráticos, nem mesmo dentro da mesma família. O filme desloca o foco do pai para as irmãs e, nesse gesto, reafirma uma constante na obra do diretor — a ideia de que os vínculos horizontais, construídos na partilha e na escuta, muitas vezes salvam mais do que qualquer figura de autoridade.

Ao inserir Elle Fanning como a atriz “ideal” para o filme-dentro-do-filme, Trier escancara o choque entre indústria e intimidade. Fanning representa o cinema contemporâneo: internacional, vendável. É a escolha que faz sentido profissionalmente e, justamente por isso, expõe o quanto o gesto de Gustav é menos sobre as filhas e mais sobre si mesmo — sobre legado, prestígio e permanência.

Formalmente, Sentimental Value mantém a marca de Trier: câmera paciente, montagem que respeita os silêncios, diálogos que nunca explicam demais. Mas há algo de diferente aqui — um cansaço consciente, quase melancólico. Como se o próprio filme reconhecesse os limites da arte. Como se Trier estivesse perguntando a si mesmo até que ponto o cinema pode, de fato, reparar aquilo que foi quebrado fora da tela.

Nesse sentido, Sentimental Value não é apenas um drama familiar elegante e profundamente comovente. É também um comentário sobre o próprio cinema de Joachim Trier. Um cinema que sempre falou de ambição, trabalho e identidade, mas que agora encara a pergunta mais difícil de todas: e quem ficou para trás enquanto essas histórias eram contadas?

Trier parece entender que algumas ausências não podem ser transformadas em obra-prima. Que nem todo gesto artístico é um ato de amor. E que certos pedidos de perdão, quando chegam tarde demais, não pedem resposta — pedem apenas escuta.

É nesse reconhecimento, doloroso e honesto, que Sentimental Value se torna o filme mais maduro de sua carreira. Não porque oferece redenção, mas porque finalmente admite que o cinema, por mais poderoso que seja, não substitui aquilo que nunca foi vivido.