‘Salve Geral: Irmandade’ e o ciclo da violência como estrutura do Estado
Longa expande o universo da série ao recriar o clima de tensão vivido em São Paulo em 2006
Por Hyader Epaminondas
Em 2019, a série “Irmandade” se firmou como um dos melhores retratos da violência estrutural brasileira dentro do catálogo da Netflix, construindo uma identidade própria ao mergulhar nas engrenagens do sistema carcerário, na relação ambígua entre Estado e facção e nas consequências humanas e morais dessa convivência forçada.
Com personagens atravessados por escolhas impossíveis, Seu Jorge e Naruna Costa comandavam o núcleo principal da narrativa, que se destacou por tratar a violência mais como sintoma enquanto tentava reorganizar o caos em um desdobramento inevitável de estruturas falidas, da ausência institucional e de um país que parece estar em permanente disputa interna, sempre à beira de sacrificar os seus próprios.
O filme dirigido por Pedro Morelli, lançado de surpresa em pleno final de semana de Carnaval, expande o foco desse universo moralmente instável e passa a tratar a violência como uma dimensão simbólica, menos circunstancial e mais estrutural, ao retomar a narrativa dez anos após os eventos da série e se inspirar no trauma coletivo vivido pelos paulistanos em 2006, marcado pelos ataques do PCC em São Paulo.
No roteiro, Morelli, juntamente com Julia Furrer, consegue retratar uma crônica sobre o ciclo de violência ao adaptar livremente os ataques coordenados pelo PCC, que incluíram atentados contra bases policiais, ônibus e prédios públicos, além de rebeliões simultâneas em presídios, mergulhando a cidade em dias de medo, ruas vazias e um colapso momentâneo da rotina urbana.
Essa escolha dá ao filme uma qualidade de memória fragmentada, como se os acontecimentos fossem lembrados mais pelo impacto emocional do que pela precisão dos fatos, que insistem em atravessar o presente, assumindo uma postura que por vezes se traduz em pequenas quebras de continuidade e em uma certa imprecisão temporal, como se o próprio tempo estivesse dissolvido dentro dessa experiência coletiva de trauma.
Há algo de instigante na maneira como o filme sugere que o cotidiano pode se romper a qualquer instante, não pelo choque da surpresa, mas pela força da inevitabilidade, como uma superfície fina prestes a rachar. Com um final aberto, a sensação é de que tudo permanece suspenso, congelado, à espera do momento em que a história, cíclica e teimosa, volte a se repetir.
Mesmo com seus problemas, o longa consegue observar com certa imparcialidade o movimento desse ciclo de violência como um mecanismo que se retroalimenta. A narrativa atravessa os atos da facção, a ineficácia do Estado em conter a crise, o impacto sobre as forças de segurança marcadas por episódios de corrupção e as consequências que recaem sobre a população, surpreendida e encurralada no meio do fogo cruzado, como quem vive sob um céu que pode desabar sem aviso, este último grupo marcado pela atuação marcante que dispensa comentários de Marcélia Cartaxo.
O ciclo de violência como linguagem social
A abertura do filme sugere uma sequência promissora, mas essa impressão logo se dissipa diante de uma narrativa frágil que não sustenta o que propõe, gerando um resultado e um desfecho morno para uma série tão marcante. Ao evidenciar como ações repressivas geram novas retaliações e como o medo legítimo provoca respostas cada vez mais brutais, a narrativa acerta ao sugerir que a violência não surge do nada: ela é cultivada por estruturas sociais frágeis, desigualdades históricas e pela lógica permanente de confronto.
Nesse movimento, o filme faz questão de projetar a ideia de que não há vencedores nesse processo, apenas a perpetuação de um sistema em que Estado e crime organizado se enfrentam enquanto a população permanece refém de uma guerra que parece não ter fim. Apesar de perder tempo com um arco completamente arrastado de resgate, que mais parece uma oportunidade pedante de ganhar pontos de crítica social, a obra parecia interessada justamente nessa zona anterior ao disparo, nesse lugar em que a violência ainda não aconteceu, mas já está instaurada, porém perde completamente o sentido pela falta de coesão.
Os planos se estendem, a câmera insiste, observa, demora e perde o tempo. Em alguns momentos, essa dilatação cria uma sensação de imersão, como uma cápsula do tempo de volta a São Paulo de 2006, em outros, revela um certo cansaço estrutural, como se o próprio filme estivesse tentando traduzir o desgaste de um país que vive em permanente estado de alerta.
O excesso no uso constante de planos-sequência e câmera lenta definitivamente não sustenta o peso da proposta, talvez como uma tentativa de monumentalizar cada instante. O impacto se perde na repetição, diluindo a urgência que o tema exige, levando em consideração que o filme se passa em um ritmo frenético dentro de um curto espaço de tempo de 48 horas.
Existe uma tentativa clara de construir um retrato crítico do país e de suas contradições, de expor como essa engrenagem se alimenta da desigualdade e transforma o conflito em rotina. No entanto, essa potência temática acaba comprometida na execução com a condução de Morelli, marcada por escolhas monótonas e por uma encenação que não sustenta o peso do discurso.
Em termos de atuação, o contraste com a força dramática apresentada na série é evidente. No longa, muitos personagens soam caricatos, como se estivessem presos a versões reduzidas de si mesmos, menos complexos e menos vivos do que antes. Na série, o elenco parecia mais entregue à história, ocupando o espaço com intensidade e com argumentos críveis, enquanto aqui essa pulsação se perde em performances que por vezes parecem engessadas, com diálogos vazios que não chegam a lugar nenhum, limitados por uma encenação que não permite que os conflitos internos respirem.
As exceções aparecem nas participações que conseguem romper essa rigidez, como as de Seu Jorge e Hermila Guedes, que trazem uma presença mais humana e oferecem um breve respiro em uma cena que retoma o passado. É um momento em que a emoção ganha textura e relembra o tipo de entrega que marcou a série.
Naruna Costa retorna ao papel da advogada Cristina, agora conhecida como “Doutora” e responsável direta pelo período de negociações constante entre a facção e o Estado. Apesar da visível evolução de sua personagem, que antes conseguia concentrar a narrativa inteira ao seu redor com uma atuação magnética, aqui surge mais contida, presa a uma construção que aposta em um registro mais introspectivo. Essa escolha acaba esvaziando sua presença, perde vigor e expressão ao longo de boa parte do filme, especialmente quando comparada à força arrebatadora que demonstrava anteriormente.
No longa, persiste a sensação de um apagamento calculado, como se a personagem de Costa ainda estivesse presente, mas privada do espaço necessário para se reafirmar plenamente ao ser deslocada para uma posição de transição para abrir caminho para o arco da nova protagonista, interpretada por Camilla Damião.
Mesmo com a entrega genuína da atriz no papel de Elisa, que convence como sobrinha e herdeira do império, a personagem recebe pouco espaço para se desenvolver ao assumir o posto quase estereotipado da “princesinha do crime”, criada na abundância e alheia à realidade para além dos muros altos do condomínio de luxo, enquanto brande com orgulho uma posição arrogante de moralidade superior. Ainda assim, dentro dessas limitações, Damião encontra nuances interessantes ao transitar entre a arrogância herdada e a fragilidade de quem ainda não compreende o peso do sacrifício da tia e da ideologia de seu pai.
O que permanece em “Salve Geral: Irmandade” é a ideia de que o filme funciona melhor como reflexão do que como realização. É uma premissa inteligente, mas que se perde e capota completamente no percurso ao tentar capturar um retrato de um país onde o verdadeiro caos não está no instante da explosão, mas naquilo que a torna possível.



